Sexta-feira, 23 de Março de 2007

A questão Euskal Herria

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Numa governação convincente, em que todos os indicadores lhe são favoráveis quanto ao lançar da Espanha no progresso e na modernidade, Zapatero sofre de mal no calcanhar (malvado tendão de Aquiles) por causa da “questão basca”. Parecendo que a ETA e os demais nacionalistas bascos se prestaram a esse lastimável papel de darem ao PP e a Rojoy trunfos e um protagonismo oposicionista que, de outra forma, dificilmente alcançariam. O certo é que Zapatero não só lida mal, muito mal, com a “questão basca”, como, dessa forma, constantemente dá oportunidades de afirmação oportunista ao PP e à ETA mais seus apoiantes disfarçados.

 

O atentado de Barajas desfez a estratégia optimista de Zapatero relativamente aos bascos e à ETA. E meteu a nu as suas debilidades enquanto chefe de governo. Quando a ETA lhe mordeu a mão de político apaziguador, Zapatero demonstrou que lhe falta, além da sua comprovada dimensão política, cultural e de homem de modernidade, a dureza de punho necessária para lidar com políticos assassinos, separando as águas entre a lide com democratas e o confronto com fanáticos. O PP e Rojoy aproveitaram magistralmente a oportunidade, num vergonhoso oportunismo em que demonstram que, para eles, uma vitória eleitoral vale mais que a Espanha, mobilizando a velha Espanha saudosista da mão férrea, tentando o retorno da cobrança eleitoral que apeou Aznar quando usou a ETA como mentira nos atentados do 11M. Quanto à ETA, metida a bomba em Barajas, cedeu o palco à Batasuna (os etarras disfarçados de políticos) e aos nacionalistas mercantis do PNV, enquanto mandava um dos seus mais odiosos assassinos aprisionados conseguir um sucesso jurídico-humanitário por via de uma dieta rigorosa, obrigando Zapatero a um novo dobrar de joelhos.

 

Certo é que a ETA parou nas bombas e nos tiros, vivendo agora dos rendimentos da feroz e persistente campanha do PP e da velha Espanha e dos trunfos políticos a jogar pelo Batasuna. Dando, para mais, a ilusão de que Barajas foi um episódio acidental no processo político e de tréguas.

 

É uma lástima que o excelente governo de Zapatero se tenha deixado aprisionar nesta complexa e sofisticada teia política ETA/PP/PNV, até parecendo combinados, embora cada qual a representar o seu papel de simetria nas aparências dicotómicas que se prendem com a “questão basca”. Mas, em política, o que é, é.

 

O grande feito da ETA/Batasuna, demonstrando capacidade de imaginação e iniciativa política, foi a proposta de transição autonómica e como substituta aparente da exigência radical da independência imediata. Claro que a proposta está envenenada e é pelo veneno metido que a proposta do Batasuna tem de ser lida. Ao proporem uma “região basca” (Euskal Herria, chamam-lhe eles) que inclua Navarra e as províncias bascas francesas (ver mapa), a ETA/Batasuna sabe que está a avançar com o engodo de uma impossibilidade. Nem os navarros, ou grande parte deles, se consideram bascos (como o demonstraram em manifestação, foto de baixo e ver post certeiro do Daniel), nem a França se dispõe a abrir uma “questão basca” a sul. E para uma eventual consulta referendária, caso houvesse entendimento sobre a dimensão territorial da consulta, sobre a vontade dos bascos, a ETA/Batasuna tem um veneno guardado como reserva: a decisão sobre quem pode votar (a ETA/Batasuna defendem uma linha racista de que só os bascos por raça podem votar, devendo tal ser vedado aos espanhóis de outras regiões que através de várias gerações nasceram e vivem nas províncias bascas). Assim, politicamente, os bandoleiros do nacionalismo basco entre as bombas e os tiros, vão lançando armadilhas políticas sem solução e que prolongam o impasse até à próxima bomba e ao próximo tiro.

 

E o que faz o PNV, o partido conservador, de raiz clerical, associado à próspera burguesia basca e que comanda o governo regional? Governa-se em vez de governar e ajudar a uma saída política para a “questão basca”. Pisca um olho ao PSOE e a Zapatero para lhe comer, bem, muito bem, à mesa do Orçamento. Pisca o outro olho à pressão dos assassinos da ETA e do Batasuna. Uma estratégia de puro mercantilismo político. Que, diga-se, agrada à maioria dos bascos (e que explica as sucessivas vitórias do PNV). Para quem tem costume de visitar Espanha, constata com toda a facilidade que onde lá se vive melhor, com melhor qualidade de vida, é precisamente nas duas regiões onde se faz chantagem autonomista e nacionalista sobre Madrid (País Basco e Catalunha), sabendo eles perfeitamente que, independentes, sem a Espanha e sem mamarem na teta de Madrid, desceriam uns bons degraus nos seus níveis de prosperidade.

 

Apertado entre a pressão autoritária do PP, as bombas da ETA e o maquiavelismo do PNV, com a situação política a descambar permanentemente para impulsos oportunistas ou para impasses e impossibilidades, como vai Zapatero descalçar a bota que lhe aleija o calcanhar? Hoje, a sua imagem é de desgaste e desorientação. Talvez amanhã nos surpreenda. De uma surpresa agradável da parte de Zapatero, um revelar não previsível de uma sua estatura política guardada como reserva, depende muito do bom futuro de Espanha. Desejo isso. Tanto mais que nada nos convém termos aqui ao lado um vizinho calmeirão à zaragata nos seus condomínios. 

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Publicado por João Tunes às 16:57
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5 comentários:
De odete pinto a 23 de Março de 2007 às 23:39
O PP mais não é que uma víbora, das mais venenosas. Basta ver às 4ªs F., pelas 23.30h, na TVE Intl. o excelente programa 59 segundos. O veneno e o cinismo mais repugnante salta das expressões orais e faciais dos seus seguidores/directores de El Mundo e de estações de rádio.

Se o PP voltar ao poder, como tratará este problema bicudo? com um passe de mágica?
De João Tunes a 24 de Março de 2007 às 11:34
Como se vê pelo meu post, não comungo nada da visão maniqueísta do "bom PSOE" e do "mau PP". No meu entender, sobre a ETA, há falhas gravíssimas de Zapatero aproveitadas oportunisticamente pelo PP (e, ainda mais, pelo PNV). Oportunismo, aliás, que não faltou ao PSOE quando explorou, à saciedade e para ganhar eleições, a mentira de Aznar sobre o 11M. Mas, em gravidade, sendo Zapatero quem governa, os problemas da dificuldade de lidar com a ETA têm um responsável nº 1 e ele é, sem dúvida e lamentavelmente, Zapatero e a sua tibieza. Os outros vão de boleia. E quem perde? A Espanha!
De Daniel a 24 de Março de 2007 às 10:39
En efecto, la Euskal Herria de los Otegi, PNV y compañía es un delirio totalitario. Es un post brillante, aunque no puedo decir que esté de acuerdo en todo lo que escribes . Me apena que pongas la etiqueta de "franquista" a todos los que estamos en contra de lo que el gobierno de Zapatero hace respecto al Páis Vasco y el terrorismo. Yo no estoy de acuerdo con muchas cosas que hace el PP como opositor, pero creo que necesitamos una alternativa.

Un saludo y gracias por la cita.
(Siento no poder escribir en portugués)
De João Tunes a 24 de Março de 2007 às 11:25
Caro Daniel, só estaríamos totalmente de acordo por mera coincidência. Estarmos em parte substancial, já nos dá direito a uma "medalha de prata" em entendimento político. Reconheci que fui excessivo na referência a Franco e por isso a retirei. Também sou um admirador atento do teu blogue embora me surpreenda a violência da tua escrita e a facilidade com que empregas a força de adjectivos arrazadores para as pessoas do PSOE. Mas cada qual é como é. Desde que haja honestidade política e intelectual a exprimir as opções, fogo na peça. Não tens que pedir desculpa por escreveres em castelhano (que isso não seja impedimento para comentares, discordando à vontade, quando entenderes) porque, sorte dos portugueses, vos entendemos muito bem (sempre serviu para alguma coisa os 60 anos de domínio dos Filipes). Abraço.
De marcelo ribeiro a 25 de Março de 2007 às 12:09
O post só peca por pouco
vejamos: os nacionalistas bascos sejam eles soft como o PNV ou duros com a ETA/Batasuna (não vale a pena fazer distinguos onde não existe distinção) pede algo de impossível: para começar o país basco nunca foi independente, nem sequer na ´epoca dos fueros. depois é duvidoso que a maioria da população queira de facto a independencia. Há lá um imenso partido de mudos e atrrados...

quanto ao PP é escandalosa a sua forma de fazer política.
E de facto lembra, em mau, os relentos franquistas de antigamente.
mcr

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