Sexta-feira, 2 de Março de 2007

AS VOLTAS DE SANTA COMBA DÃO

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Não faz qualquer sentido a iniciativa da URAP (União dos Resistentes Antifascistas Portugueses) em tentar boicotar a iniciativa da Câmara Municipal de Santa Comba Dão de construir, na casa onde nasceu o ditador, no Vimieiro, um “Museu Salazar”. A não ser que a sessão de combate político marcado para amanhã à tarde no Auditório Municipal de Santa Comba Dão tenha o patrocínio da RTP, com retorno promocional ao concurso “Grandes Portugueses”, destinando-se a promover a dupla dicotómica Salazar-Cunhal como funil enfiado na nossa memória histórica.

 

Não há que ter medo de Salazar. Muito menos, o ditador sinistro merece a benesse do silêncio. Porque silenciar Salazar é, sobretudo, dar-lhe a cobertura do manto do mito e dele saírem os refúgios sublimados dos saudosismos gerados por desencantos com o contraditório do viver democrático no alcance das expectativas. E se, mais importante ainda, o salazarismo como sistema e modelo político não tem viabilidade próxima como risco de reposição, as suas marcas culturais e psicológicas nos comportamentos políticos e sociais, activas ou reflexas, permanecem profundamente entranhadas no “estar português”.  Daqui que se deva falar de Salazar, escrever sobre Salazar, mostrar Salazar, discutir Salazar. E não há volta a dar: se se quer, como se deve querer, denunciar e documentar as marcas profundas deixadas na carne e na alma dos portugueses por uma das mais longas e tirânicas ditaduras da história mundial, não se pode querer fazê-lo monoliticamente, em orquestra de pensamento único, com sapatadas de catequese histórica, sem permitir a pluralidade de pontos de vistas, incluindo o espaço de intervenção hagiográfica a que têm direito os defensores de Salazar e do salazarismo. E, que raio, os argumentos dos neo-salazaristas são tão fraquinhos que o debate aberto desmonta o mito e as patranhas em tempo e meio.

 

Silenciar foi um dos mais persistentes e terríveis tiques do mando salazarista. É patético se a URAP lhe apanhou um gosto simétrico. Um e outro a merecerem a serenidade contemplativa proporcionada pelos museus. 

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Publicado por João Tunes às 12:07
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3 comentários:
De carlos freitas a 2 de Março de 2007 às 17:36
Quando nos parece ou parece, e o inferno parece estar cheio de boas intenções, que os extremos se começam a tocar...algo vai mal, muito mal mesmo.
Não se devem apagar traços e rastos da história. Impossivel, eles devem viver, ambos interligados, porque a sua existência, quer queiram, quer não queiram, está umbilicalmente interligada. A não existência do ditador, provoca a não existência de anti-fascistas...daí que...
As duas partes devem ser debatidas e entendidas no seu contexto. Fora disso uma sem a outra não existem.
De desmascarar a 4 de Março de 2007 às 11:06
Dos poucos apoiantes à URAP, 7/8 eram conhecidos militantes e/ou dirigentes da FEQUIMETAL da área de Espinho.
Já apareceram na Televisão em Agosto/Setembro quando do fecho da Fosforeira Portuguesa, quando intentaram evitar, sem resultado, a continuação da industria em Portugal.
De Anónimo a 3 de Março de 2007 às 19:56
A URAP nunca quis silenciar o período salazarista. Pelo contrário, sempre se bateu para que essa memória se mantivesse bem viva, para que não corrêssemos o risco de voltar a passar por algo de semelhante. Se se informar um pouco, chagará à conclusão de que a URAP sempre defendeu a criação de museus da resistência nas antigas prisões de Salazar, e continua a bater-se pela criação de um grande Museu da Resistência no Forte de Peniche. Manter viva a memória do período tenebroso do fascismo, das suas vítimas e da resistência heróica que contra ele mantiveram milhares de democratas, sempre. Erigir em Santa Comba Dão um santuário mundial do fascismo, nunca. Nem a população de Santa Comba Dão merece tal sina, nem a memória das vítimas do fascismo merece tal traição.

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