Domingo, 26 de Março de 2006

A ASNEIRA AMERICANA NA QUEDA COLONIAL

O longo e doloroso processo independentista africano, que golpeou o império português na boca do estômago, apanhou a diplomacia americana completamente à nora. E assim foi até há pouco. Em África, os americanos andaram sempre aos papéis. E só não foram ridículos porque, de nabice em nabice, foram enfiando dólares, corrompendo, armando, a mor das vezes apostando nos cavalos errados e nos equívocos paridos pelo maniqueísmo da “guerra fria” e pela aparente facilidade dos "homens de mão". E armas erradas em mãos erradas é tudo menos risível. Só recentemente, com o esfarelar da bipolaridade, por falência de um dos jogadores matulões, os Estados Unidos começaram a acertar o passo com os seus interesses em África, recolhendo e reconvertendo as velhas e gastas lideranças marxistas herdadas do outro lado da barricada, a demonstrarem que, afinal, estas gostam mais de dinheiro que desgostam do capital.

 

Açores (melhor, a Base das Lajes) travou, no compromisso perante a chantagem de Salazar, e logo ainda na Administração Kennedy, que a América definisse e praticasse uma política coerente e persistente para a libertação das antigas colónias portuguesas-africanas e que lhe desse o passo certo com o tempo. O que empurrou a dinâmica histórica para os braços do outro bloco. Depois, as burrices contumazes de Kissinger, mais obsessivo que inteligente, fizeram o resto. Num caso e noutro, nunca aprendendo com os erros, antes entretendo-se a somá-los, a Administração dos EUA fez, com o colonialismo português, exercícios de estilo de estupidez política. E tanto que até foram apanhados de surpresa quando o fascismo caiu de podre em Lisboa. Mas nem isso lhes deu clarividência, apesar de Carlucci. Como se viu, sobretudo em Angola, a mais “apetecida” das antigas colónias portuguesas.

 

O estremeção anticolonial e a descolonização, com uma mortífera guerra colonial em três frentes e durante treze anos, mais a destruição dos jovens países africanos, não podem ser entendidas se não se entender o “papel americano” naqueles processos. Por presença mas sobretudo por ausência. Até porque muitos dos brutais e consecutivos “erros americanos” estão agarrados á pele da tragédia – na forma da teimosia colonial portuguesa e nas peripécias trágicas do desarmar a tenda do império (em que soviéticos ficaram com as cartas para jogar e aos americanos só restou o antijogo sujo). Imprescindível, assim, a leitura do recente livro de Witney W. Schneidman (*), um excelente conhecedor da diplomacia americana e que trabalhou sobre documentação entretanto desclassificada e que ajuda, com clareza brutal, a entender e pasmar com a burrice diplomática americana e, pela qual, África e Portugal pagaram um preço tão alto e ainda longe de saldar. Os Estados Unidos não tanto - demoraram a entender-se com África e os africanos mas já recuperaram o tempo perdido, pois os dólares fazem, vezes sem conta, o que a inteligência nem sempre consegue.

 

(*) – “Confronto em África – Washington e a Queda do Império Colonial Português”, Witney W. Schneidman, Editora Tribuna (com prefácios de Frank Carlucci e Leonardo Mathias).

 

Publicado por João Tunes às 22:14
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2 comentários:
De Piti a 27 de Março de 2006 às 04:45
Salvo erro, a Cabinda Gulf é americana, e está em Angola antes, durante e depois da independência. Salvo erro a De Beers, sul-africana mas simpre encostada à Grã-Bretanha e aos Estados Unidos, sempre esteve em Angola. Durante o período pseudo-marxista de Luanda alguma vez se ouviu falar de petrolíferas soviéticas explorando os blocos offshore angolanos? Ou, para além de dragas no Cunene, diamantíferas russas a explorarem os diamantes angolanos? Alguma vez estiveram cortadas as linhas de comunicação diplomático-económicas Luanda-Washington? Não é altura de os comentadores crescerem politicamente?
De João Tunes a 27 de Março de 2006 às 18:09
Sovietofilia barata esta de quem se diz chamar “Piti” (faltou-lhe o “nha” para ser “Pitinha”, talvez seja, talvez). Daquela que não precisa de ler nem se informar, pois a filia dá para tudo. Primeiro, a Gulf chegou a retaliar, forçada pela Administração dos EUA, perante a tomada de poder unipolar do MPLA, suspendendo investimentos. E o off-shore veio depois. Segundo, a URSS nunca precisou de explorar petróleo fora do seu território (sempre foi um dos maiores exportadores) enquanto os EUA são um grande importador. Terceiro, os angolanos pagaram ou estão a pagar até ao último cêntimo e com preços empolados todo o armamento e assessoria militar que os soviéticos lhe prestaram (com quê? com os dólares do petróleo e dos diamantes) e ainda hoje se mantêm negociações para a regularização da dívida acumulada, agora com o governo russo. A Administração americana não só cortou os laços diplomáticos com Luanda após a independência como jogou tudo na ofensiva em forma de pinça Zaire-África do Sul-FNLA-Unita para a impedir e sabotar. E todos os esforços diplomáticos foram exercidos (sobretudo na OUA mas não só) para que não houvesse reconhecimento da independência declarada pelo MPLA em 11 Novembro 1975. E quem, em África, sabotou a estratégia de isolamento do governo do MPLA foi a Nigéria e em África é difícil brincar com a Nigéria. Dessa mesma influência sofreu Portugal que, por pressão americana, retardou além do razoável o facto incontornável de o MPLA dominar Angola. Quarto, se Lúcio Lara, homem forte durante a “fase soviética” do domínio MPLA, era pseudo-marxista, então o Jerónimo deve um bailarino-marxista.

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