Sábado, 24 de Fevereiro de 2007

GOOD-BYE CGTP

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Não há ponta de volta retórica a dar. Se dúvidas houvessem, a máscara caiu definitivamente. Com o centralismo democrático de Jerónimo de Sousa, esse palrador bailarino neo-realista, presbítero em arengas às massas, a negação mais viva das sumas dignidades operárias de Bento Gonçalves e Pavel, pedindo lutas mais lutas para botar discursos e levantar punhos de marionetas como quem faz saúdes quando bebe um bagacinho numa colectividade recreativa de Pericoxe, os restos de independência controlada do sindicalismo português, as sobras do sindicalismo envelhecido da CGTP, foi suicidado às mãos do PCP. Jerónimo de Sousa vingou-se em Carvalho da Silva por nunca ter conseguido construir uma carreira sindical. Se a CGTP, antes, negou a Jerónimo uma lustrosa carreira sindical, num vectorial exactamente oposto ao de Carvalho da Silva (*), mais tarde ou mais cedo, o frustrado sindical Jerónimo (**) pagaria a desfeita com a navalha dos complexados egocêntricos.

 

O editorial do último “Avante” sobre a jornada “de luta” contra o PS e o governo no próximo dia 2 de Março, é sintomático da agora assumida fusão PCP-CGTP. Um autêntico dobre de finados nas aparências da “independência sindical”. Adeus Carvalho da Silva. Todo o palco para Jerónimo. Good-bye CGTP. E leia-se:

 

A acção nacional de luta convergente, marcada para 2 de Março pela CGTP-IN, constitui um importante passo em frente na acção organizada dos trabalhadores em defesa dos seus direitos e interesses e por uma mudança de política. Trata-se de, nesse dia, juntar numa só torrente, dando-lhes uma continuidade convergente, as muitas lutas sectoriais e de empresa que têm vindo a ser levadas a cabo; trata-se, ainda e ao mesmo tempo, de trazer à luta mais e mais trabalhadores, todos vítimas da política de direita ao serviço dos interesses do grande capital. Em causa estão questões tão concretas e prementes como direitos essenciais dos trabalhadores: o direito ao emprego e à estabilidade no emprego, o direito à contratação colectiva, o direito à liberdade de organização sindical, o direito ao trabalho com direitos, o direito a salários dignos; questões como as que decorrem da intenção do Governo de José Sócrates de aprovar com carácter de urgência a chamada Reforma na Administração Pública que visa o despedimento de milhares de trabalhadores; questões resultantes das consequências do ataque por parte do Governo aos serviços públicos, com o fecho de escolas, de centros de saúde, de maternidades, de urgências e serviços de atendimento permanente; questões que têm a ver com as incidências cada vez mais gravosa da política de direita nas condições de vida dos reformados e pensionistas – enfim, questões que convocam à luta contra a política de direita e por uma política que inicie a resolução dos muitos e graves problemas que afectam a imensa maioria dos portugueses e portuguesas.

 

(…)

 

Assim, o trabalho preparatório da jornada de luta do próximo 2 de Março – designadamente a mobilização e a organização das deslocações – coloca-se-nos como a grande tarefa do momento. Nela deverão estar empenhados não apenas os militantes do Partido e da JCP dirigentes e activistas sindicais, mas todo o nosso grande colectivo partidário, desde os organismos de direcção de sector às células de empresa e de local de trabalho; desde as organizações de freguesia às de concelho, distrito e região. E o mesmo há que dizer em relação à manifestação nacional dos jovens trabalhadores, convocada para 28 de Março.
Como afirmou o camarada Jerónimo de Sousa na intervenção proferida na sexta-feira passada, no Porto, as lutas que aí vêm «assumem particular importância para a criação de uma ampla frente social pela exigência da interrupção da política de direita e na afirmação de um novo rumo para o país, assente numa política alternativa e de esquerda que retome os valores de Abril.»

 

---------

 

(*) - Carvalho da Silva singrou desde a condição de “aristocrata operário” numa empresa transnacional instalada no Minho e como empenhado sindicalista católico. Bolchevizado com o 25A, progrediu desde o pelouro da “organização” até ao topo da CGTP pelo aproveitamento da oportunidade proporcionada pelo vazio de liderança quando, sucessivamente, Canais Rocha e Armando Teixeira da Silva “caíram em desgraça” por vários pecados de “mau comportamento moral e partidário”. Impôs-se duradoiramente, por persistência maquiavélica, no cume do poder sindical pois que, para o PCP, Carvalho da Silva enquanto chefe da CGTP, foi uma mera solução transitória, até que Domingos Abrantes, o patrão do sindicalismo comunista, conseguisse vender o seu líder desejado – o metalúrgico Ernesto Cartaxo, um conformista tão empenhado quanto obediente. A contragosto da direcção do PCP, mas apoiado pela pressão favorável de comunistas não ortodoxos (como José Luís Judas) e dirigentes não comunistas (como Kalidás Barreto e Manuel Lopes), Carvalho da Silva perdurou o domínio supremo da CGTP enquanto fazia um notável percurso paralelo de afirmação académica no ISCTE que o levou ao “dr” e o está a aproximar do título de “doutor”, feito apreciável mas nunca visto no sindicalismo revolucionário-operário mas que, paradoxalmente, o vulnera, no quadro de uma apreciação obreirista, enquanto género de espécie hermafrodita social de “proletário mor, corrompido na nata da elite intelectual”.

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(**)Jerónimo de Sousa singrou na “aristocracia operária” (como aconteceu no cumprimento do seu serviço militar, que fez como “polícia militar” em Bissau e a quem competia a repressão de “comportamentos desviantes” dos soldados do exército colonial) e sem actividade referenciada, política e sindicalmente, antes do 25A. Após a revolução, Jerónimo, dominando a pose de Stakhanov em artes de “baile de bombeiros” e a retórica discursiva e apelativa, em que prepondera um bom domínio artístico da metáfora neo-realista aplicada à luta de classes numa espécie de mix tribunalício-charmoso em que funde Soeiro Pereira Gomes, Máximo Gorki e John Reed, tenta singrar na carreira sindical na “vanguarda das vanguardas” (os metalúrgicos). Por razões publicamente desconhecidas, tamponaram-lhe a carreira. Demonstrando domínio das tácticas do “by-pass” carreirista, Jerónimo vira-se para as “comissões de trabalhadores” onde, burocraticamente, assume a liderança da sua “coordenação”. Se, em termos práticos, a “coordenação” das “comissões de trabalhadores” pouco mais foi, do ponto de vista organizativo, que de nível simbólico, os rituais das manifestações operárias durante o PREC reservaram-lhe lugar cativo para arengar às massas em espectáculo de paridade aparente com os dirigentes da CGTP. E como discursava bem, Jerónimo foi uma peça constante nos ritos de demonstração do poder operário revolucionário. Com o ocaso da revolução e da liderança de Cunhal, o período Carvalhas (que todo o mundo sabia ser um líder transitório) foi aproveitado por Jerónimo para saltar do “movimento operário” para a cúpula do PCP, jogando como peão da corrente mais estalinista e até conseguir que Domingos Abrantes o nomeasse como seu sucessor na função de controleiro do sindicalismo comunista (ou seja, o Secretário-Geral de facto da CGTP), consumando, pela superioridade na hierarquia sindicalista-partidária, a “vingança” (pessoal e do PCP) sobre Carvalho da Silva. Afastado Carvalhas, servindo de “homem de palha” da clique estalinista-cunhalista que mantêm o poder real dentro do PCP, Jerónimo ascendeu formalmente ao lugar de dirigente máximo do PCP. Do cumprimento deste seu consulado, temos, objectivamente, dois resultados de nota: a habilidade artística de Jerónimo para os espectáculos eleitoralistas que revitalizou a fixação dos votos das zonas comunistas pela primarização do discurso político assente na dialéctica dicotómica da luta de classes e em que o PS é satanizado como “inimigo principal”; a promiscuidade absoluta entre política e sindicalismo, em que o PCP se transformou em Central Sindical de facto e a CGTP numa mera gestora subsidiária da agenda política do PCP. E Carvalho da Silva, o ex-rebelde autónomo, agora com a pecha do pecado de ser “doutor entre operários”, passou a “controlado” e aproxima-se, a passos largos, da hora de ser centrifugado por celebração da verificação da sua inutilidade e que será justificada, como é agora regra, pela “necessidade de renovação”. A menos, é claro, que Carvalho da Silva, um sindicalista experiente e de demonstrados e acumulados méritos sindicais, homem inteligente, persistente e culto, opte por sobreviver pela via da indignidade de um medíocre “faz-de-conta”.

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Adenda: Eu que, com a ferrovia, só tenho a ver a perenidade do fascínio pelas viagens de combóio e pela magia das estações ferroviárias, levei com a honra de transcrição deste post aqui. E sem ter comprado bilhete. Obrigado, pois, pela simpática boleia.

Publicado por João Tunes às 00:26
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6 comentários:
De JMC a 24 de Fevereiro de 2007 às 16:47
Excelente observação.
A apreciação das personalidades pode ser equívoca, porque desconhecemos muito das suas histórias. Não falo em relação à apreciação do Jerónimo, que praticamente não conheço, mas que por informações de terceiros é uma personalidade humanista e genuína. Já no que concerne ao Carvalho da Silva, a sua apreciação parece-me algo distante da realidade. Pelo pouco que conheci pessoalmente a personagem, por trabalho em comum, pareceu-me ser um apagado burocrata, que foi singrando na hierarquia à falta de melhor e por se prestar à obediência. Recordo-o como sujeito desprovido de ideias próprias e com muito pouco empenhamento na função sindical de defesa dos interesses dos trabalhadores, mas totalmente às ordens do PC.
O essencial, contudo, é o destaque que faz do texto do Avante, revelador do que há muito se sabe, mas que cada vez vai sendo mais claramente assumido: o controlo total da CGTP pelo PCP, traçando-lhe as tácticas, dando-lhe as directivas e tratando-a como sua sucursal.
A decrepitude da Central Sindical é também revelada por um outro texto da mesma edição do Avante no qual é relatado que a JCP actuou como recrutador de novos membros para o PC e, depois, para a CGTP.
A tradição, de facto, já não é o que era, e ao invés de ser a Central Sindical a recrutar para o PC os trabalhadores mais combativos e conscientes, que se tivessem destacado nas lutas sindicais, invertem-se os papéis.
Este movimento sindical que temos — não apenas a CGTP, mas também a UGT, sucursal do PS — são bem o espelho do atraso deste país, em que os trabalhadores são usados como joguetes dos interesses partidários que nada têm a ver com os seus próprios interesses.
De João Tunes a 25 de Fevereiro de 2007 às 03:47
O mais natural é haver diversos ângulos de apreciação sobre personagens em actividade nos seus cargos. No caso, conheci e trabalhei com um e outro e dei testemunho das minhas impressões, não falei pelas impressões de terceiros. Agradeço o seu comentário, embora não concorde com a caracterização que faz da UGT e cuja ineficácia, além de razões quanto às suas origens e contexto de formação (na tradição do "sindicalismo amarelo"), se deve a ser não a Central do PS mas do PS e do PSD (o que a inibe de uma atitude independente em qualquer caso de governação, pois há sempre um dos "seus" partidos à frente do governo). E se a UGT é a ineficácia pela opção sindical, o caso da CGTP é diferente: é o da monolítica instrumentalização por um partido revolucionário num contexto democrático. No post, foi este o caso que me interessou abordar.
De João Ribeiro a 25 de Fevereiro de 2007 às 17:49
Caro Sr. ., como sindicalista que possivelmente é, e afecto à central que trai os trabalhadores (UGT), compreendo o seu ódio à CGTP e ao PCP, visto que à falta de melhor ainda são os únicos que defendem minimamente os trabalhadores, porque como o Sr. . diz, a UGT é formada por agentes do PS e do PSD, os quais só servem para aprovar as leis anti-trabalhadores que os governos rosa e laranja têm emanado. Também se sabe que, graças a essa subalternização, o caso UGT-FSE foi arquivado, ou melhor, foi prorrogado até prescrever, sem que os culpados fossem julgados. É claro que numa altura em que o governo PS volta a atacar os trabalhadores, nada melhor que desviar as atenções para a CGTP e o PCP.
De Francisco Fortunato a 25 de Fevereiro de 2007 às 14:30
Quando li no Avante a posição do PCP sobre a manifestação da CGTP, logo pensei em a colocar no site do Sindefer, mas fiquei à espera que o senhor a comentasse e ainda bem.
Parabéns pelo seu trabalho de desmontagem do estalinismo em Portugal e pelo trazer de situações noutros países influenciados pelos amanhãs que cantam...
De Paulo Rodrigues a 25 de Fevereiro de 2007 às 18:34
Pois é Sr. Fortunato, para quem sempre viveu à custa do apadrinhamento de um ex presidente da CP, para quem é administrador, por favor, de uma empresa participada da CP e ao mesmo tempo é um suposto sindicalista da UGT, para quem já tentou correr com o Secretário Geral da UGT, para quem se senta a uma mesa de negociações de manhã como sindicalista e à tarde como patrão, para quem assina todo e qualquer acordo com as administrações das empresas contra os trabalhadores, para quem lidera um sindicato inexistente aos olhos dos trabalhadores, o Sr. tem uma grande lata em falar do PCP ou da CGTP.
Só quem realmente não o conhece embarca nas parvoíces que o Sr. escreve no seu site, sim por que o site é seu, não é do Sindefer apesar de ser o sindicato que o paga.
A dor é assim tanta? Porquê?
Porque nunca conseguiu brilhar? Porque o padrinho o abandonou?
Como diz o ditado, "os **** ladram e caravana passa".
Por muito que lhe doa, a CGTP e o PCP são os únicos que defendem os trabalhadores e o povo, basta ver a comunicação social todos os dias e depressa descobrimos de que lado está a corrupção, a bandidagem . Estalinistas? Não, Marxistas e Leninistas.
De Carlos José a 25 de Fevereiro de 2007 às 22:43
As opiniões não são mais do que isso mesmo.
Por isso cá fica a minha.
No caso do "senhor" Fortunato eis pois o exemplo escancarado de um dissimulado que se faz passar por defensor dos trabalhadores (Alto dirigente do SINDEFER).
É o melhor exemplo do porquê da criação da UGT.

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