Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2007

PELAS VÍTIMAS DE SALAZAR

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Com uma óbvia oportunidade, o livro recentemente editado sob o título de “Vítimas de Salazar” (*) representa uma súmula de vários aspectos da pesada face negra dos tempos sob a ditadura de Salazar. Obra de uma equipa de historiadores, nela perpassa o essencial de um passado culturalmente (não politicamente?) ainda presente em que, pela distância de uma incerta vivência democrática, não deixa de provocar espanto. Suponho que a admiração maior calhará às gerações pós-abril que terão dificuldade em imaginar-se viverem em tamanho sufoco repressivo. Mas mesmo para as gerações que viveram a ditadura, admito que esta revisita do salazarismo ainda perturbe como retorno de pesadelo.

 

E se a distância, normalmente um importante factor positivo e essencial para qualquer abordagem histórica, é propícia a uma apreciação mais fria, abrangente e documentada do passado histórico, não é menos verdade que ela é aproveitada pelos gestores do silêncio e do apagamento dos contrastes. Portanto, campo livre para o revisionismo e a recuperação saudosista. Com Salazar, foi isso que aconteceu. O que espreita e é aproveitado atrás dos recuperadores de Salazar, gerindo-lhe e alimentando o mito, é uma mescla de múltiplos vectores: sobreviventes desse tempo que não combateram Salazar (e a maioria dos que viveram o seu tempo não o combateu, por medo, por servilismo ou por benefício); os das mais jovens gerações que desiludidos com o rumo e resultados democráticos, são atreitos a uma projecção negativista radical do presente (fazendo-o para um futuro utópico de revolução libertadora ou pelo retrocesso passadista); os incrédulos, por ignorância, da face negra do salazarismo; os relativistas que se empenham em salientar o cotejo dos limites repressivos do salazarismo com outros fascismos da época.

 

Numa sucessão de abordagens conformes á metodologia histórica, documentalmente suportada, os autores deste livro revisitam o pesadelo do tempo vivido sob o mando absolutista de Salazar, desdobrado nas várias facetas em que o regime reprimia, controlava e definia os limites das vivências permitidas. Nas quais, só três vias eram consentidas: o colaboracionismo (em grande número, um “colaboracionismo miserável”, como o dos “bufos” e “informadores”); o conformismo (sobretudo o de “a minha política é o trabalho”); a resistência e oposição (para quem o regime usava uma mão pesada e brutal). Os vários capítulos deste livro tratam, sobretudo, deste último (e reduzido) grupo, afinal o sustentáculo das raízes de que saiu a democracia e que depois havia de incorporar activamente os colaboracionistas e os conformistas. Mais, é claro e felizmente, as gerações crescidas ou já nascidas em sociedade democrática (toda ela, uma negação total e absoluta da sociedade salazarista). A censura, a vigilância sobre as conversas telefónicas e o correio, a rede de “bufos” e informadores, a prisão política e a prática de torturas, os julgamentos por juízes-polícias com possibilidade de aprisionamento como “medida de segurança”, os saneamentos da função pública, a deportação e o exílio, os campos de concentração, o controlo político das Forças Armadas, as milícias fascistas, a repressão aos estudantes, a liquidação do protesto sindical, os assassinatos políticos, as fraudes eleitorais, são as faces negras do salazarismo, as vividas pelas suas vítimas, expostas neste livro e atiradas à cara dos saudosistas de Salazar. Impensáveis hoje mas essenciais então para a conservação de um regime hiper autoritário.

 

Um livro eminentemente útil num tempo em que, pela ignorância e pelo apagamento programado da memória, um punhado de maníacos saudosistas mobiliza, pelo telemóvel, votos televisivos para o ditador nefando como sendo um “grande português”.  

 

(*)“Vítimas de Salazar – Estado Novo e Violência Política”, João Madeira, Irene Pimentel, Luís Farinha e Fernando Rosas, Edições “A Esfera dos Livros”

---------

Adenda: Quase em coincidência, também Miguel Cardina faz apreciação deste livro oportuno.

Publicado por João Tunes às 16:11
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9 comentários:
De odete pinto a 13 de Fevereiro de 2007 às 18:59
Muito obrigada por este post.
Importante seria este livro fosse lido por milhões. Mas não será.

Por isso enviei uma mensagem ao Provedor da RTP1:

"Espero bem que chegue, finalmente, o momento certo para que a RTP prepare um bom e intelectualmente honesto programa, histórico e didático, sobre o Portugal em ditadura. Antes que morram os seus opositores/combatentes que ainda sobrevivem.
Edmundo Pedro (já tem 88 anos), entre outros. Nunca é tarde, mas já tarda."
De João Tunes a 13 de Fevereiro de 2007 às 22:46
Muito bem, Odete, boa iniciativa a sua. Julgo que as características do livro, se bem divulgado, tem todas as características de ser comprado e lido por muita gente. E, mais uma vez, obrigado pela sua companhia.
De M. Conceição a 14 de Fevereiro de 2007 às 12:57
Vi-o numa montra, ontem. Acho que não vou resistir. O João, deu-me o empurrão necessário.

Abraço
De João Tunes a 14 de Fevereiro de 2007 às 13:11
Aconselho vivamente a leitura do texto sobre o livro do Miguel Cardina no seu blogue (e para o qual coloquei link). Porque é apreciação abalizada de um especialista na matéria (histórica) e não notas de um leitor avulso e curioso de que não passo. Abraço.
De Alfredo Poeiras a 7 de Março de 2009 às 17:47
Não tive oportunidade , nem de comprar, nem de ler o livro, " as vitimas de Salazar"
Mas gostaria de obter uma informação , a foto da capa é de alguma mulher do Couço ?
Atenciosamente Alfredo Poeiras alfredopoeirasglass@hotmail.com
De João Tunes a 7 de Março de 2009 às 18:07
Não lhe sei responder. Tente obter resposta mandando mail à editora.
De Kátia a 25 de Maio de 2009 às 20:33
É maravilhoso que saibam sempre a verdade pois a mesma liberta.
Meu avô paterno foi uma vítima de Salazar. Foi preso, torturado e exilado. Foi um jornalista na época.
De Apartamento Riviera a 16 de Julho de 2010 às 01:23
nossa esse livro é otimo. Adorei ler ele e indico a quem esta em duvida ainda. Abraços
De Quadrada a 3 de Março de 2011 às 19:34
"Suponho que a admiração maior calhará às gerações pós-abril que terão dificuldade em imaginar-se viverem em tamanho sufoco repressivo."

Sem dúvida que sim. Eu (felizmente!) sou da geração que foi abençoada com um nascimento pós-ditadura e sabe Deus o quanto estou grata por isso: por mim, pelos meus pais (que eram ainda pequenos na altura e, como tal, acabaram por não sofrer), pelos meus irmãos, amigos e familiares. Tive, sem dúvida, muita sorte.
Li algumas passagens do livro enquanto estava numa livraria, mas acabei por não o comprar (embora pretenda fazê-lo). Não é caro, tendo em conta o tesouro que está lá dentro e que espero, sinceramente, que não se transforme num branqueamento e esquecimento do que foi o Salazarismo.
Hoje, sou estudante da Universidade de Coimbra e admiro imenso os meus colegas de outrora que, ainda eu não era nascida (nem pensada!), lutaram contra a repressão que sobre eles incidia.
Todos os relatos que li, das próprias vítimas de Salazar, me enojaram pela frieza com que foram efectuados: desde as torturas físicas às psicológicas, tudo isso me causou uma profunda raiva pelas aberrações (que é o único nome que acho que lhes "cabe") que escaparam impunes após todo o mal que fizeram e os danos que causaram e se alastraram pelo tempo nos corpos, nas memórias e na sanidade mental dos que por estas tão sujas mãos sofreram. E digo sujas porque, passe quanto tempo passar, serão sempre as mãos que causaram sangue, dor, sofrimento; as mãos de uma profunda crueldade, brutalidade e abuso de poder.
Orgulho-me de ser portuguesa, mas fico deveras enojada e triste quando penso naquilo que o meu povo foi capaz de fazer. Por outro lado, é com grande alegria que digo: EU SOU DESCENDENTE DO POVO QUE LUTOU, QUE QUIS IR MAIS ALÉM, QUE NÃO SE CONFORMOU. E a esses aplaudo. A esses, que são as vítimas de Salazar.
Os meus 18 anos (quase 19) são ainda muito tenros e verdes mas, felizmente, sempre me foi incutido algum interesse por este campo da história. Pesquisei, li muito sobre o assunto, informei-me e nunca paro de o fazer. É o mínimo que posso oferecer e fazer por aqueles que, corajosos e fortes, deram o corpo ao manifesto para que hoje eu pudesse estar aqui a expressar a minha opinião livremente, sem medos, sem repressão, sem consequências deploráveis.

Mantenhamos nós a liberdade neste país, camaradas. Porque nós, jovens, somos o futuro de Portugal!

Bem hajam.

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