Quinta-feira, 9 de Janeiro de 2014

O efeito perverso no culto a Eusébio

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Declaração prévia: - Considero Eusébio um dos cinco melhores futebolistas no mundo e de todos os tempos; como benfiquista, tenho uma enorme gratidão por tudo quanto Eusébio contribuiu para a grandeza do meu clube.

 

É elementar o reconhecimento de que o futebol é um desporto essencialmente colectivo. Claro que há, tem que haver, espaço para o reconhecimento dos talentos individuais e é inevitável que uns se destaquem mais que outros, muitas vezes não pelos talentos próprios e relativos mas simplesmente pela posição ocupada na equipa (um avanço é sempre mais notado e mais notável que um defesa, por exemplo). Um facto é certo: nenhum resultado é obtido enquanto obra exclusiva de um elemento da equipa por mais craque que seja pois que qualquer golpe ou golpes de génios individuais serão sempre anuláveis no resto dos noventa minutos de jogo se a equipa não sustentar o efeito da expressão da genialidade individual.

 

Acontece que na exaltação exponenciada da genialidade de Eusébio (tratou-se, de facto, de um talento invulgar, quase único, no futebol de todos os tempos), foi apagado o que é inapagável em futebol: o contexto de equipa que tornou possível os sucessos de Eusébio e das suas equipas (Benfica e Selecção) que pouco variavam de composição. Mais, esse apagamento dos companheiros de Eusébio representa uma profunda injustiça de memória para com outros futebolistas excepcionais (José Augusto, Coluna, Santana, talvez outros mais) e que também foram determinantes para atingir as vitórias com Eusébio e garantiram sustentar essas mesmas vitórias. Repare-se que a tv, que eu me tenha apercebido, com tantas dezenas de horas de emissões dedicadas a Eusébio, não teve espaço para a retransmissão de um jogo completo em que participasse Eusébio, dando uma ideia da sua forma de jogar em equipa, mas simplesmente repetiu milhentas vezes os mesmos breves fragmentos dos golos de Eusébio (como se o futebol só fosse golos e todos os golos da época fossem todos golos de Eusébio). E, no entanto: - o Benfica foi campeão europeu “antes de Eusébio”; - José Augusto foi considerado o melhor extremo-direito europeu da sua época, idem com Coluna no meio-campo, Santana teve o mérito de ter “secado” Pélé. O que aconteceu de azar para estes craques ocultados foi que tiveram a desdita de terem jogado na equipa de Eusébio. Ou seja, o brilho de Eusébio ofuscou, sem que disso tivesse culpa, o reconhecimento de outros altíssimos talentos. É que o futebol, por ser futebol, um desporto de onze, não pode ser jogado por um atleta, mesmo com o talento de Eusébio.

 

Finalmente, enquanto homem, Eusébio, como qualquer mortal, tinha as suas grandezas e misérias. Uma destas não a esqueço, não a posso esquecer, enquanto adepto de futebol e do Benfica. Num jogo no Estádio da Luz em que o Benfica foi campeão, os adeptos invadiram o relvado no final do jogo para comemorarem o título (era, então, usual isso acontecer) e, perante a multidão eufórica, tendo entrado em pânico, Eusébio disparou sobre o primeiro adepto (benfiquista, pois claro) que o tentou abraçar um tremendo pontapé (imagine-se a potência de um pontapé de Eusébio de então) que derrubou o adepto desgraçado e o enviou para o hospital. Que fique o registo desta mancha antes que alguém se lembre de propor a sua canonização e lhe desviem os restos mortais do Panteão para o Santuário de Fátima.

Publicado por João Tunes às 00:19
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