Quarta-feira, 8 de Setembro de 2010

Uma derrota da islamofilia (e venham mais)

 

Segundo um porta-voz governamental iraniano, a sentença de morte por apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani vai ser suspensa e revista.

Trata-se, sem dúvida, de uma vitória da civilização sobre as trevas do islamismo boçal e que só foi possível pela mobilização da repulsa de uma parte da opinião pública internacional relativamente a esta prática bárbara. Mas, dando fé aos arautos da vigilância anti-imperialista que se incomodaram e verberaram as acções de apoio a Sakineh Mohammadi Ashtiani como significando brechas no internacionalismo islamofílico que os bombardeiros israelitas e norte-americanos iriam aproveitar para enfiarem bombas, fico agora atento à demonstração dos benefícios que o imperialismo sionista-americano vai extrair deste recuo do regime iraniano.

(publicado também aqui)

Publicado por João Tunes às 15:16
Link do post | Comentar

O internacionalismo não está nada fácil

 

Em Moçambique, o problema foi o preço do pão e outros aumentos de bens básicos. Em França, é a idade da reforma. Por causa do preço do pão moçambicano, houve violência, mortos e feridos, com os protestos a serem organizados via sms. Nas cidades francesas, desfiles sublinharam um dia de greve, tudo em boa ordem (de luta) por convocatórias tradicionais dos sindicatos e dos partidos de esquerda. Cotejando as adesões dos franceses aos últimos protestos, conclui.se que é grande o número dos que não perdem tempo a protestarem contra a xenofobia de Estado dirigida contra os ciganos mas não abre mão do direito adquirido de reformar-se aos 60 anos. Ou seja, está largamente arreigada na convicção sócio-laboral francesa a centralidade do direito a reformarem-se cedo numa sociedade que se prepara para ser considerada “livre de ciganos”. Sarkozy não cede, na idade de reforma e quanto aos ciganos, a não ser nuns trocos legislativos de pormenor. Guebuza cedeu em toda a linha face aos protestos dos “bandidos” (como o seu ministro do interior chamou aos que protestaram em Maputo) e foi anunciado que seriam anulados todos os aumentos que perturbaram a ordem pública e ocasionaram perdas de vidas. Esta mescla franco-moçambicana entre protestos, lutas e seus resultados é uma boa amostra do caldo de diversidade próprio da dinâmica de conflitos no tempo presente. Que, suponho, deve desorientar os encadernadores da esperança revolucionária em fila de espera para o espectáculo da sacra confluência entre condições objectivas e subjectivas detonadora da erupção final. Talvez porque, no caos próprio dos conflitos, seja pelo pão ou pela idade da reforma, a quebra da ordem penetra na própria contestação à ordem estabelecida, com uma luta vitoriosa de deserdados africanos a ser comandada por sms e a plebe francesa com direito a reforma em boa idade para a gozar a defender direitos por vias clássicas de luta mas sem incluir no caderno de encargos da refrega a defesa de direitos humanos elementares de outros que tais mas não tão iguais.

(publicado também aqui)

Publicado por João Tunes às 13:03
Link do post | Comentar

Suas Barulhências no apoio a Sua Inocência

 

Manuel António Pina, no JN:

A entrevista "non stop" que, desde que foi condenado, Sua Inocência tem estado ininterruptamente a dar às TVs teve o mais respeitoso e obrigado dos episódios na RTP1, canal que é suposto fazer "serviço público".

Desta vez, o "serviço" foi feito a um antigo colega, facultando-lhe a exposição sem contraditório das partes que lhe convêm (acha ele) do processo Casa Pia e promovendo o grotesco julgamento na praça pública dos juízes que, após 461 sessões, a audição de 920 testemunhas e 32 vítimas e a análise de milhares de documentos e perícias, consideraram provado que ele praticou crimes abjectos, condenando-o à cadeia sem se impressionarem com a gritaria mediática de Suas Barulhências os seus advogados, o constituído e o bastonário.

Tudo embrulhado no jornalismo de regime, inculto e superficial, de Fátima C. Ferreira, agora em versão tu-cá-tu-lá ("Queres fazer-lhe [a uma das vítimas] alguma pergunta, Carlos?"). O "Prós & Contras" só não ficará na História Universal da Infâmia do jornalismo português porque é improvável que alguém, a não ser os responsáveis da RTP, possa chamar jornalismo àquilo.

(publicado também aqui)

Publicado por João Tunes às 10:55
Link do post | Comentar | Ver comentários (1)
Terça-feira, 7 de Setembro de 2010

Ou naturalizam o Roberto ou não vamos longe...

 

(publicado também aqui)

Publicado por João Tunes às 23:16
Link do post | Comentar

Se nada se transforma, tudo se recompõe

 

O que é mais assustador (digamos “interessante”, se ficar melhor nos vossos ouvidos) nesta sentença, a do caso Casa Pia, é a velocidade estonteante com que se iniciou a recomposição da ordem das hierarquias, as referências sociais pautadas pela notoriedade e o sistema de expressão de ressentimentos políticos. Desde sexta-feira, ligar a televisão em qualquer canal arrasta a alta probabilidade de ver e ouvir Carlos Cruz, essa nova versão de Big Brother em papel de vítima e como se fosse um novo tipo de “emplastro” plantado à frente de cada câmara de televisão com sinalética de que está ligada a emissão. Nunca um arguido, muito menos um condenado, teve antes a televisão aos seus pés. Carlos Cruz parece que a segura por uma trela, domesticando-a na passagem (ou imposição, tendo em conta a insistência) da mensagem martelada e repetida da sua qualidade de vítima injustiçada. O que faz com insistência e profissionalismo, assumindo o escândalo de uma centralidade sustentada até à náusea. Assim, se este caso foi inicialmente projectado pelo protagonismo mediático de Felícia Cabrita, um género de “jornalista-justiceira” do lado das vítimas, a mediatização do caso foi agora quase integralmente colonizada por Carlos Cruz, dando boleia aos outros condenados de estatuto social médio-alto (deixando Silvino entregue à mediocridade obscura da sua condição), mantendo uma pressão constante e escandalosa sobre a Justiça, repetindo as suas sempre mesmíssimas mensagens de vitimização. E esta transferência de banda mediática e de afectos (explícitos ou consentidos por omissão), do lado das vítimas para o lado dos condenados, saltando do protagonismo de uma jornalista poderosa no papel envolvente de “mãe sensual” (o que ligava bem com as vítimas-crianças) para o do mais profissional dos apresentadores de televisão (em que a aparência, o sorriso e o porte contrariam a imagem associável a um homossexual pedófilo e predador, dissonância na percepção do público que Cruz reforça magistralmente através da constante alusão à "sua filhota" com oito anos), mesmo arrostando contra pesadas e não previstas condenações, é um sinal do peso da capacidade de recomposição dos estereótipos em que assenta o andor da cultura dominante na sociedade portuguesa, ao nível da sustentação das suas fragilidades e insuficiências, mas também constando da ementa que formata o espectáculo da contestação pelo murmúrio, seiva do que domina no contraditório político em Portugal.

Se a Justiça recuperou alguma credibilidade perante a opinião pública através das sentenças que proferiu na sexta-feira (não só ao não isolar Carlos Silvino como condenado mas também pelas punições aplicadas, aspectos com que poucos contavam), desfazendo os estereótipos de ressentimento que já tinham bala na câmara (género “os graúdos escapam sempre, quem se lixa é o mexilhão”), a recomposição da onda do sentimento anti-Justiça foi imediatamente accionada: os aspectos processuais (demora da distribuição do acórdão, o critério da escolha das partes da sentença que foram lidas, remissão de um advogado para o protesto escrito e perda do uso da palavra após este injuriar grosseiramente os juízes), a dramatização com ressonâncias no tipo de regime invocando os fantasmas do fascismo e dos tribunais plenários, a sobrevalorização do tempo decorrido até ser proferida a sentença, a relativização do significado de ter havido condenações pelos “ausentes” no banco dos réus, o fantasma do risco futuro de prescrição durante a fase dos recursos, etc.

Dizer mal da nossa Justiça já tinha entrado na galeria das “conquistas” do apodrecimento do regime e era alimento da nossa tristeza, do nosso pessimismo e do nosso rancor. Num povo sem projecto nem esperança, governado por um optimista de cordel e presidido por um mestre-escola paroquiano, pobre e desconsolado povo, a quem até o futebol estragaram, não se tiram os motivos de ressentimentos sem que se morda a mão autora do roubo. No mínimo, para que não se altere a rotina dos remoques e o menú das queixas. Ou seja, o que nos resta para manter antes que se mude.

(publicado também aqui)

Publicado por João Tunes às 13:29
Link do post | Comentar | Ver comentários (2)
Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010

Adeus ao bom "pinheiro" (como agora sói dizer-se)

 

(publicado também aqui)

Publicado por João Tunes às 19:24
Link do post | Comentar
Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010

A propagação desviada para a terra dos inocentes com falta de pão

 

Os estilhaços de réplicas imaginadas da Acrópole a arder e a rebentar, gratinando a agonia esperada do capitalismo, desviou-se daqui e da Europa ao lado. Foram bater, mas mais realidade que símbolo, tendo em conta os mortos e feridos, imagine-se!, em Maputo – África, nos escombros de um marxismo de guerrilha, mas irmão do puro e justo, ali há muito morto por conversão mas mal enterrado pois a nomenklatura ficou com os privilégios de fora e bem à vista. Anda marado o leme do barco apocalíptico-redentor, orientando o barco da borrasca para o fim da escala das prioridades. Mas os sons de Maputo são familiares, oh se são: “queremos pão!”, gritam as mulheres moçambicanas; “bandidos!”, chama-lhes o senhor ministro do interior.

(publicado também aqui)

Publicado por João Tunes às 20:00
Link do post | Comentar | Ver comentários (4)
liuxiaobo.jpg

j.tunes@sapo.pt


João Tunes

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO