Quarta-feira, 24 de Março de 2010

De 30 de Abril a 12 de Junho, um fartote de fiesta em Madrid, com muitas cores e paladares

 

Ver programa aqui. Para todos os gostos, em granaderias e toureiros, mas a merecer atenção especial aos dias em que participam Sebastián Castella, José María Manzanares, Miguel Ángel Perera, Aparicio, Morante de la Puebla, El Juli, Cayetano e El Fundi. E especial atenção a 3 e 12 de Junho, os dias de tardes maiores, porque José Tomás vai lá estar.

Publicado por João Tunes às 23:43
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Step by step (mas não seja tão vagaroso)

 

Sem dúvida, a aprovação da reforma do sistema de saúde nos EUA está a ser o melhor de Obama. E o mundo esperava, como de pão para a boca, de um sucesso palpável do Presidente Obama. Mas a alegria por isso pode nacionalizar-se: a maior e mais rica potência do mundo está agora a aproximar-se dos calcanhares do “nosso” António Arnaut no ido 1979. Bonito seria que os EUA nos imitassem, também e de seguida, num nosso feito datado do século XIX: a abolição da pena de morte em todos os Estados dos EUA.

Publicado por João Tunes às 23:08
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Aproxima-se o momento em que só os cortesãos da gamela PS não dizem ao rei que ele se despiu e anda a passear uma nudez política em busca da solidão

 

Pedro Correia espraia o seu talento de sintetizar o óbvio calado:

 

Sócrates deixou praticamente de reunir os órgãos do PS, confiando que bastaria a fé cega nos seus atributos para que os militantes o seguissem sem questionar a uma simples voz de comando. Mas isso já não é assim: há a sensação clara que nos encontramos no fim de um ciclo. Conscientes de que vivem pior do que há cinco anos, quando o actual primeiro-ministro chegou ao poder, os portugueses cansaram-se de Sócrates. Dos trejeitos de Sócrates, das entoações de Sócrates, das promessas de Sócrates – sempre desmentidas pelos factos. Cansaram-se dos tios e dos primos de Sócrates. Cansaram-se dos amigos de Sócrates, como Armando Vara e Rui Pedro Soares. E dos amigos dos amigos de Sócrates, como Paulo Penedos e Manuel Godinho.

Publicado por João Tunes às 22:36
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Na lembrança do Dia do Estudante de 1962, um hoje kota da política lembra o que não se pode esquecer

Jorge Sampaio depõe sobre o momento charneira em que o fascismo português iniciou o divórcio definitivo com as suas fábricas de elites:

 

 

Publicado por João Tunes às 21:57
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O problema dos corpos falarem

 

Se o Papa ouvisse as minhas recomendações dir-lhe-ia para, na próxima visita a Portugal, manter o programa das missas e desfiles populares e interclassistas em Lisboa e no Porto, mas que evitasse ir a Fátima. Este conselho pode parecer um disparate porque muitos entenderão, sobretudo os bispos, os cardeais e o Vaticano, que é a ida a Fátima que justifica uma viagem papal (houve um, Paulo VI, que se serviu do aeroporto de Monte Real para não passar por Lisboa, para evitar confundir-se com um regime metido em guerras coloniais). Mas, sejamos realistas, o contexto deve determinar as circunstâncias criadas. Circulando em banhos de multidão em Lisboa e Porto (um papa é um Papa), Bento XVI cumpre o essencial dos interesses depositados no convite que lhe fizeram para vir a Portugal – fazer a contraposição católica ao centenário da implantação da República, lembrando quanto a Igreja "perdeu" com essa mudança de regime; dar uma mãozinha ao arranque da campanha do mui católico Cavaco para a sua reeleição presidencial. Tratando-se de ajudas dentro de confrarias de interesses discutíveis mas legítimos, nada haverá a opor. Mas Bento XVI faz mal em ir a Fátima num momento em que estão particularmente expostas as misérias sexuais do clero católico (e dessa missa infernal, ainda não se saberá um milésimo). Indo direito e celebrante a um dos principais núcleos do culto mariano, Ratzinger indica, claro que a contragosto, um dos grandes mitos alimentados em que assenta a desgraça sexual na Igreja, porventura determinante para a contumácia das sotainas em pecarem, agredirem e cometerem crimes de abuso sobre os elos mais fracos dos rebanhos – a dessexualização como caminho de virtude, a negação do corpo e do prazer, a remissão da mulher (mesmo quando mãe) para a redoma da intocabilidade da virgindade, por via da ideia paranóica da amputação imaginada da vagina como condição de higiene espiritual (e muitas das parafilias dos padres católicos alimentar-se-ão do incutido mal estar sexual masculino relativamente à vagina). Ao dessexualizarem a mulher no imaginário da sua moral propagada, os curas católicos julgaram ter descoberto o escudo sábio para que a sua comunidade de machos celibatários e solitários os abrigassem das tentações e do prazer, partilhando uma prática de recalque com sucesso. Só que os corpos existem e falam (e que maravilhosa pode ser a fala dos corpos). E se não falam bem, falam mal. A exposição continuada e em perpétua repetição das misérias e crimes sexuais cometidos por pastores da Igreja Católica, incapaz de admitir para os seus membros uma vida afectiva e sexual comum e partilharem o sacerdócio com a parte feminina (mais de metade dos crentes), revela que o que tem ocorrido, numa dimensão aterradora, é a inclinação para o pecado, com ou sem abuso, a transgressão encoberta e possibilitada pela situação de poder (muitas vezes, indo além do espiritual) e camuflada pelo verniz insuspeito de ser depósito, simultaneamente humano e sobrenatural, de santidade e de virtude. E, sabe-se, a auto-castração sexual, por via da luta contra o próprio corpo, gera tensões, agressividades e descontrolo face ao social e ao normativo que, se não são causa linear e directa de desvios comportamentais e taras sexuais, alimentam, quando existem, o desejo de consumar as parafilias, o primeiro passo para o abismo do crime por abuso hediondo sobre os mais fracos e indefesos - as crianças e, entre estas, escolhendo-se as mais desprotegidas (as orfãs, as deficientes, as enclausuradas em instituições religiosas). Ao ir a Fátima, eu sei que vai por nada ligar aos meus conselhos, o Papa vai esticar o dedo, apontando um dos núcleos ideológicos da miséria sexual da Igreja Católica. Pensando bem, em descarga de consciência, vou mandar-lhe um mail.

Publicado por João Tunes às 13:05
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Terça-feira, 23 de Março de 2010

Sócrates, até na herança

 

Para os que pensam, como eu, que foi Santana Lopes, ao atingir a desproporção de um cargo muito acima do seu perfil pessoal e político, que “criou” a possibilidade realizada de Sócrates lhe suceder, com um “herdeiro” nitidamente melhor que o seu “criador”, o desafio do vaticínio tem sido o de saber quem Sócrates “criaria” após esgotar as suas frenéticas energias de político banalizado no seu baixo estofo em ideias, projectos e soluções que substitui com as oratórias inflamadas de vendedor de brinquedos em novas tecnologias e energias renováveis, enquanto a economia afunda, o défice dança e o desemprego e a pobreza avançam na paisagem social. E, obviamente, que, neste ciclo de mediocridade política, a sorte sucessória apontava para dentro do PSD. Aliás, ao centrar a política do PS e do governo no centro do centrão, Sócrates determinou que, anestesiado o PS, empurrada a esquerda da esquerda para a demagogia e a defesa pueril do corte social (na desejada ruptura pré-revolucionária, nomeável como nostálgica ou utópica), a alternativa sucessória viria do PSD, “devolvendo”, assim, o “favor” de Santana Lopes (ou, se se quiser, talvez melhor dizendo, de Durão Barroso). Mas o PSD mostrou-se incapaz de receber o testemunho de volta. Dona Manuela, amarrada ao conservadorismo reaccionário de Cavaco, rigidificou-se e mostrou-se seca além do pessimismo, secando assim, também, a sensatez no PSD. O que restava no PSD de sentido de responsabilidade de Estado vai morrer na mais que certa derrota da candidatura matada de Aguiar Branco, o último moicano com alguma responsabilidade política entre os candidatos a líderes no laranjal. Restam dois arrivistas aventureiros e incendiários nas suas fragilidades e pressas de mando, Passos Coelho e Paulo Rangel. Entre dois invejosos de Sócrates no que este teve e tem de pior, se vai decidir o pleito próximo a ter lugar no partido da direita imediata ao centro do PS. Cumprido o ritual da alternância, a sucessão de Sócrates vai ser o pior de Sócrates, conseguindo que alguém pior lhe receba o testemunho, superando assim, em degradação, a incompetência política atávica de Santana Lopes.

Publicado por João Tunes às 15:58
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Segunda-feira, 22 de Março de 2010

E para que não digam que sou anticlerical primário, segue cartoon desculpabilizante

 

(daqui)

Publicado por João Tunes às 16:25
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O melhor do futebol para ser visto sobretudo por quem ainda não aprecia o futebol

 

(este post vai com dedicatória dirigida à minha querida amiga Joana)

Publicado por João Tunes às 16:08
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Chamar o busílis pelos seus nomes

 

Ana Vicente, do Movimento "Nós Somos Igreja", no “Público” de hoje (só disponível on-line para assinantes):

 

O problema é estrutural e cultural e realça o facto de imperar na instituição um clericalismo e um autoritarismo que nada tem a ver com o espírito dos Evangelhos. Aí, o fundador do cristianismo combate activamente o clericalismo e declara mesmo que ele é o único sacerdote. Mas o ser humano tem tendência para estabelecer distinções entre as pessoas e rapidamente se montaram estruturas de poder e de hierarquia que colocaram sobre pedestais pessoas do sexo masculino, escolhidas para uma missão vista como sobrenatural. Se esta foi e continua a ser a atitude face aos padres, os bispos então viam-se e eram vistos como seres muito especiais, acima de qualquer suspeita, porque não seriam bem humanos. Com agendas tão sobrecarregadas como as dos políticos, poucos descem ao povoado para contactar com a vida quotidiana da vasta maioria da população. Do alto da sua autoridade, estes padres e bispos, a quem é imposto um celibato incompatível com a grande maioria do ser e do estar dos seres humanos, assumiram um poder sobre os comportamentos e as consciências dos fiéis que, repito, nada tem a ver com o espírito evangélico. Evidentemente sempre houve padres e freiras que reflectem santidade nas suas formas de vida, mas o que nos preocupa é a extensão de um fenómeno de abuso de autoridade por parte de pessoas que deveriam ser exemplos morais em comportamento e em misericórdia.

A obsessão pelo comportamento sexual dos fiéis, traduzida num sem-fim de instruções, proibições, admoestações, emanadas de um clero exclusivamente masculino e celibatário, resultou, finalmente, em que a grande maioria dos fiéis fizessem orelhas moucas.

(…)

E, evidentemente, uma estrutura que teme as capacidades e os carismas de metade (ou a maioria) dos seus crentes, as mulheres, excluindo-nos do serviço e do ministério, não pode estar sã. Quem está interessado nestas mudanças urgentes? Quem terá coragem para as promover? E quem as teme? E quando é que em Portugal vão emergir as pessoas de ambos os sexos que foram vítimas de abusos, sexuais, físicos, psicológicos, por parte de padres e freiras? Para que “nunca mais” tais violências possam ser repetidas.

Publicado por João Tunes às 15:43
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Tanta falta que Deus nos faz

 

Manuel António Pina no JN:
 
Trata-se de uma organização que habitualmente enche os ouvidos dos fiéis de moralismo sexual (basta ouvi-la falar de divórcio, casamento homossexual, aborto) e que, enquanto isso, encobria milhares de abusos sexuais de crianças praticados no seu seio. Agora, quando já não é possível continuar a encobri-los, o Papa vem de novo pedir "desculpa", mas omitindo qualquer sanção quanto a abusadores e encobridores (ele próprio terá participado nesse encobrimento quando arcebispo de Munique e Freising). A hipocrisia foi ao ponto de, um dia depois, o Papa ter exortado os católicos a não se assumirem como juízes "dos que cometem pecados". É em alturas assim que um ateu como eu lamenta que não haja um Deus que julgue gente desta.

 

Publicado por João Tunes às 01:38
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De cada vez, sua decepção

 

Costumo dar um período de “graça” aos partidos em quem voto e depois pedir-lhes contas do que fizeram à minha escolha. Foi assim com o PS na anterior legislatura, será igual com o Bloco de Esquerda, em quem votei nas últimas eleições legislativas. E relativamente ao partido mais importante à esquerda do PS, o Bloco, a decepção está a abrir caminho. Porque repete a mesma atracção fatal de se acantonar na intervenção parlamentar, onde, tirando arremedos de Louçã, Pureza e Semedo, a qualidade política das intervenções dos restantes deputados bloquistas é pobre, chata e demasiado pontualista. Com o senão agravado de, na onda legítima, porque merecida, de contestação ao governo e a Sócrates, não conseguir impor uma “agenda política de esquerda”, permitindo à direita cavalgar a dinâmica da descredibilização socrática (o que é um objectivo político de micro dimensão). Quando as grandes questões que ferem a sociedade portuguesa, devendo elas passar para primeiro plano do debate político, são as de natureza social e que o PEC ameaça transformar em factores de perda de sustentabilidade e tornarem-se críticas para os relegados a viverem na pobreza ou no seu limiar, com novas camadas a descerem socialmente para os patamares mínimos de sobrevivência e esperança. E o maior contrasenso de se permitir que seja a direita a liderar a agenda da oposição é que, impondo temas desviantes, a direita consegue que o governo a que faz oposição adopte medidas de neo-liberalismo serôdio como é, particularmente, o novo processo de privatizações e a incapacidade de fazer os mais ricos e mais privilegiados pagarem a parte que lhes compete do ressurgimento após-crise. Ou seja, permitir o paradoxo de se assistir a uma direita, para mais completamente fragilizada em termos de identidade e liderança partidária, a apoderar-se da oposição perante um governo empurrado para cumprir a política da direita.
 
Obviamente que os temas sociais e económicos dominam o discurso político parlamentar do Bloco. E ele incide sobre as questões mais importantes de uma governação apostada em alargar as chagas sociais. Mas, por falta de imaginação e de criatividade interventiva, também pela nítida impreparação e monocordia repetitiva e banalizante da maioria dos seus deputados, parecendo disputar um concurso de “chatos e compridos” com os seus vizinhos do PCP, o Bloco não consegue ultrapassar a direita em impacto, propostas e soluções que leve a sociedade portuguesa e os problemas gravíssimos que a corroem para o parlamento e o debate público. Estas decepções, se derivam, em primeiro lugar, de péssimas escolhas dos candidatos a deputados do Bloco, estruturam-se e ganham corpo numa centralização excessiva da vida política do Bloco na arena parlamentar. Falta-lhe lastro social, entrosamento com a sociedade civil, capacidade de ouvir bem para falar melhor. Particularmente, quando se destroem os tecidos sociais nas empresas, se insiste na precarização do trabalho, se degradam salários, cresce o desemprego, o posto de trabalho e o salário são vistos como meros “custos”, se desenvolve uma cultura patronal e governamental que vai penetrando a opinião pública de desqualificação dos direitos sindicais, incluindo o recurso à greve, o Bloco, que se assume como uma “nova esquerda” ou “esquerda da esquerda”, é incapaz, tirando o seu “brinco” da Auto Europa e pouco mais, de romper a dualidade paralisante entre o sindicalismo petrificado e conservador que marca a CGTP (onde se aninham os seus poucos quadros sindicais) e o de cariz burocrático, conciliador e amador da UGT. Quando a actual legislatura era a grande oportunidade de maturação sustentada do BE, o que se assiste é ao seu acantonamento nos “passos perdidos”, como que esperando por novas eleições que lhe permitam crescer por inércia e por efeitos de debandadas do PS e do PCP, uma por efeito da decadência socrática e a outra por cansaço perante nostálgicos azedos a cerzirem a fatalidade da duplicidade entre democracia e revolução. Mas o BE, a continuar assim, sujeita-se a que grande parte do descontentamento com os partidos e com a esquerda, não só deixe de dar fluxo à sua torneira de votos como vá parar para outras bandas, a da abstenção ou da direita populista. Emendem, emendem-se, se forem capazes.  

 

Publicado por João Tunes às 00:37
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Domingo, 21 de Março de 2010

Dão nomes de bebidas alcoólicas às competições desportivas e depois dá nisto

 

Pires de Lima não devia ter oferecido tantas cervejas ao Nuno, ao Bruno e ao Jesualdo ... antes do jogo. O primeiro estava zonzo; o segundo pensou que tinha fugido do zoo e voltado à savana; o terceiro achou, no final, que o resultado justo teria sido um empate.  

 

Publicado por João Tunes às 23:23
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Sexta-feira, 19 de Março de 2010

A pressa subjectivista de um optimista

 

falta pouco para o pesadelo em Havana chegar ao fim
 
Como assim? O Pedro Correia baseia-se num desejo íntimo ou em informação secreta?

 

 

Adenda: Não tardou. Yoani Sánchez, desde Cuba, como que responde a Pedro Correia:
 
Vienen tiempos difíciles. Soy optimista a largo plazo, pero la desazón me embarga ante los años que se avecinan. Hay demasiada crispación acumulada. Han sembrado sistemáticamente entre nosotros el rechazo a la opinión diferente y eso no se borra en poco tiempo.  Ayer cuando vi a un ama de casa que en tono vulgar gritaba “la gusanera está revuelta” –refiriéndose a la peregrinación de las Damas de Blanco– constaté cuan largo es el camino de la tolerancia que nos queda por delante. Aprender a debatir sin ofender, a convivir con la pluralidad y a respetar las diferencias, tendrá que constituirse en asignatura obligatoria en nuestras escuelas. Será un proceso largo el hacer entender a todos que la diversidad no es una enfermedad sino un alivio.
Temo que el grito se nos haga crónico y que la bofetada siga siendo la vía más rápida para acallar al otro.

 

Publicado por João Tunes às 21:52
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Quinta-feira, 18 de Março de 2010

Um Quintino que existiu embora não se chamasse Quintino

 

A ler aqui.
Publicado por João Tunes às 01:08
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Quarta-feira, 17 de Março de 2010

Hoje como ontem?



Passam 40 anos desde a formação da CNSPP (Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos). Em 1970, o marcelismo, incapaz de liberalizar o regime, não permitia arroubos de pluralismo nem libertava os presos políticos e, perante o peso institucional e orgânico da PIDE, só foi capaz de lhe mudar a designação mas sem lhe limitar a infâmia da actuação. E a CNSPP surgiu, assente sobretudo em familiares de presos e figuras públicas que não abdicavam da decência de consciência, fazendo um trabalho persistente e valente de ajuda aos presos políticos e às suas famílias, denunciando os atropelos à dignidade humana cometidos contra os que ousavam defender a liberdade e a democracia como alternativa à ditadura. À distância, as e os activistas da CNSPP possuem um património de luta e solidariedade que merece, com toda a honra devida, o reconhecimento que requereram junto da Assembleia da República.

 
Olhando o presente, sendo todos nós cidadãos do mundo, eu recebo notícias das “Senhoras de Branco”, as familiares dos presos políticos cubanos, e vejo-as como depositárias, noutro contexto e noutras circunstâncias, do legado da "nossa" CNSPP. Porque não imagino que um ser humano inteligente, mentalmente são e civicamente coerente possa ter sido sensível perante as torturas selvagens cometidas na António Maria Cardoso, as deportações para a “morte lenta” no Tarrafal e aos longos tempos de prisão em Caxias e em Peniche, mas seja hoje indiferente, até cúmplice, com as prisões, os julgamentos arbitrários, as torturas, a liquidação física dos que, ontem e hoje em Cuba, negam a ditadura e aspiram à liberdade, ao pluralismo e à democracia, na ilha em cuja revolução tantos dos presos políticos portugueses sonharam estar a compensação (melhor: a superação) das feridas que os carrascos salazaristas e marcelistas lhes cravavam no corpo e no espírito.
 

Gostem ou não as respeitáveis e valentes pessoas que integraram a CNSPP, relativamente às quais o tempo só aviva o respeito, a melhor homenagem que lhes faço, neste 40º aniversário da fundação desta organização integrada na boa memória da luta contra o fascismo português, é imaginá-las projectadas na acção das “Senhoras de Branco”, essas cubanas valentes, ciosas do direito à dignidade dos seus familiares encarcerados, maltratadas, reprimidas por pides castristas e outros esbirros de uma ditadura, como acontece cada vez que saem à luz do dia, clamando por amnistia e liberdade (ouvir um depoimento passado na TSF). Não duvidando que as imagens seguintes lhes rejuvenesça a mesma vontade indignada de gritar basta como fizeram há quarenta anos atrás.

 

 

 

 

 

 

Publicado por João Tunes às 23:42
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