Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Contra o ostracismo

 

O ostracismo é uma arma. Contra quem? Contra os incómodos. Usado por aqueles que medem as pessoas, mesmo as mais abnegadas, valentes e honradas, através da bitola do utilitarismo do retoque ou do apagamento, tentando purgar a memória e o respeito devido aos que lutaram sem meterem a cabeça no repouso do bengaleiro.
 
Os dez anos passados desde a perda de António Graça foram assinalados com um silêncio cheio daquelas pedras com que se costumam abafar as lembranças dos justos e indómitos. O partido de que António Graça foi funcionário (clandestino e semi-clandestino) desde a sua juventude até 1991, seu dirigente camuflado (decorrente das suas tarefas em democracia), responsável pelos seus serviços de informações, nem sequer uma palavra lhe reservou, a ele que pertenceu à “galeria de heróis” do PCP, sequer se soltou uma referência aos seus seis anos de prisão política em Caxias e Peniche e às bárbaras torturas que a PIDE lhe aplicou mas a quem os esbirros não conseguiram arrancar a mais pequena confissão, delação ou testemunho. Idêntico esquecimento foi aplicado ao António Graça por parte da maioria dos que foram seus camaradas de dissidência comunista e que depois enfileiraram no PS ou no BE. Porque ele se recusou a enturmar nessas organizações, preferindo restar-se como independente e ganhar a vida com o suor dos trabalhadores honrados que preferiu à comida das gamelas partidárias.
 

Toda a regra merece a excepção. Aqui, podem ler-se duas evocações de António Graça.

 

Publicado por João Tunes às 00:48
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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

As e os da blogosfera também almoçam (que mais não seja para não perderem os caminhos da memória)

 

Nota 1: Não é difícil localizar-me na foto. Para garantir o respeito pelo "politicamente correcto", fiquei a intercalar, como moderador, o dueto mais juvenil do grupo.

 

Nota 2: Todos os comensais (e mais dois que não estiveram mas enviaram atestados de ausência justificada) contam aqui como passaram o dia de umas "eleições para deputados" ocorridas exactamente há quarenta anos atrás. A que se juntaram muitos outros e diversos depoimentos. 

Publicado por João Tunes às 16:48
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Ainda sobre a mais famosa deputada da nação

 

 

Rita, a Carolina Patrocínio de Jerónimo de Sousa. Só come história se alguém lhe tirar os caroços.

 

 

A mim não me admirará que, quando Rita Rato finalmente souber do Gulag, pergunte: "E não havia por lá um Partido Comunista para defender as liberdades?" 

 

 

O que preocupa, e muito, é, para além da pequenez de formação cultural (e académica) que revela, o facto de alguém com as suas responsabilidades políticas e esta dose de ignorância (ou, pior, de má-fé) ser deputada num parlamento democrático e quadro de um partido que o integra. Mas se não arrepiar caminho terá o futuro assegurado dentro do seu círculo de giz.

 

Publicado por João Tunes às 13:07
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Domingo, 25 de Outubro de 2009

O padre armado

 

Se concordarmos com Saramago, concluimos que o padre de Boticas leu a Bíblia vezes demais.

 

Publicado por João Tunes às 23:27
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Ordem sim, vida talvez

 

Uma das viagens mais estúpidas, entre aquelas que fiz, aconteceu hoje. Enquanto ia embalado na A1 em direcção a Leiria para assistir à final do Torneio António Pratas de basquetebol, a ser disputada entre o Guimarães e o Benfica, aconteceu este drama desportivo. Quando cheguei ao Pavilhão Desportivo de Pousos (Leiria), com o mau agoiro de estar localizado mesmo á beira de um cemitério, já tinha sido confirmado o óbito de um jovem basquetebolista da Ovarense,de 24 anos de idade, Kevin Widewoord, durante o intervalo do jogo que antecedia a final, entre a Académica e a Ovarense, para disputa do 3º e 4º lugares. Obviamente, o dia desportivo em Pousos tinha acabado. Não havia equipamento médico à altura das necessidades para casos extremos de doença súbita grave, nem ambulância nem médico ou enfermeiro de serviço e os primeiros cuidados médicos (limitados) foram-lhe dispensados porque se deu o acaso de um dirigente desportivo da Académica ali presente ser médico. Este não é o primeiro desportista que baqueia num recinto desportivo. Sem que exista um apuramento objectivo dos casos mortais no desporto de alta competição em que uma melhor, mais rápida e mais eficiente estrutura e meios de assistência médica podia evitar esses dramas. Mas há que pensar, tomando medidas, no desleixo para com as vidas e saúde dos atletas nas várias modalidades desportivas e que é o reverso do desleixo e amadorismo irresponsável com que as autarquias plantaram pavilhões e campos desportivos por tudo quanto é cidade, vila ou vilória, tentando captar torneios desportivos para, uma vez por outra, aparentar justificação de uma “obra emblemática” do Senhor Presidente da Câmara local. Com Federações e Clubes em conivência chocante ao permitirem que os seus atletas participem em competições onde o esforço físico é levado ao limite, sem garantias mínimas para as suas integridades físicas em caso de acidente ou doença grave.  
 

Quando há um evento desportivo aberto ao público, há sempre um dispositivo de segurança, melhor ou pior, que é montado a fim de se evitarem “alterações da ordem pública”.  Pode, em casos complicados, falhar. Mas existe sempre. Obrigatoriamente. Já quanto à “saúde pública”, é o que se quiser, como se quiser. Incluindo nada. A “ordem” acima das “vidas”, como é costume nesta sociedade desconforme.

 

Publicado por João Tunes às 22:54
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Se não é o sobe e desce, é o desce e sobe?

 

Jorge Pires, Membro da Comissão Política do PCP:
 

Um partido revolucionário que tem nos princípios do marxismo-leninismo um instrumento para análise científica da realidade e na imensa riqueza do seu método dialéctico, das suas teorias e princípios, uma poderosa arma para a análise e a investigação, que permite caracterizar as situações e os novos fenómenos e encontrar as respostas mais adequadas, não se pode limitar a fazer uma leitura das eleições apenas baseada numa simples constatação do sobe e desce dos votos.

 

Publicado por João Tunes às 00:25
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Sábado, 24 de Outubro de 2009

Uma aventura que meteria Maquiavel se o fosse

 

A nova ministra dos professores – devia ser assim que se devia chamar o ministério desde que os professores substituíram os problemas da educação pelos seus problemas -, enquanto política activa numa pasta sensível, ainda está para ser descoberta. Ou descodificada. Dizer que a senhora é maquiavélica será forte demais, portanto. Fica assim prejudicada como hipótese, pela severidade de juízo agregado, que Isabel Alçada ao, ainda antes de tomar posse, ter anunciado que vai avançar com o mesmo método de avaliação dos professores, eventualmente ajustado, parecendo provocar o Mário Nogueira das manifs, está sim a provocar as oposições. É que estas, unidas da direita à esquerda, têm capacidade parlamentar maioritária para liquidar o processo de avaliação mas, se o fizerem, resolvem de vez o problema do PS e do governo com a avaliação dos professores, transferindo o ónus da cedência corporativa para o escândalo da convergência CDS/PSD/BE/PCP. Concluindo, eu não disse nada.

 

Publicado por João Tunes às 23:23
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Ministros em suas e minhas circunstâncias

Nada tenho a ver nem percebo nada de obras, privadas ou públicas. Assim sendo, é uma das ironias da minha vida que os dois únicos ministros que até hoje conheci pessoalmente, antes de se governamentalizarem, são ministros das obras públicas, o cessante e o seu sucessor.

 

Publicado por João Tunes às 18:11
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Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Para católicos, pior que encarar com o Saramago é pisar a relva do inferno da Luz

 

Não me lembro de ter tido, antes, na minha frente, uma mole compacta de 6.000 ingleses católicos. Bem bebidos e melhor embandeirados, aos gritos e em cânticos de transe espiritual, pintados de azul, estes peregrinos que encarei ontem na Catedral constituiram a maior deslocação ao estrangeiro de adeptos do Everton desde 1985. Entretido com a minha ginástica rítmica de bancada a comemorar as orações dos deuses vermelhos na relva, com os peregrinos britânicos em silêncio de recolhimento, apercebi-me tarde da debandada dos católicos azuis vindos de Liverpool. Foi no 5-0 e só então reparei que a bancada britânica-católica estava deserta (li depois que o estômago deles só aguenta quatro em seco). O sofrimento pela fé dos católicos tem os seus limites, eu sei. E Saramago, que não sei se é benfiquista, não (os) ajuda nada.

 

Publicado por João Tunes às 16:30
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Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Lição para a Ritinha

 

A Ritinha não sabe, e se não der à perninha nunca saberá, que aí por 39 (1939, Ritinha, o ano!) já tinham sido eliminados, depois de exemplares julgamentos, quase todos os membros dos variados comités centrais do PC da URSS que  (desde o primeiro ainda na clandestinidade)  se sucederam no tempo bem como muitíssimos milhares, dezenas de milhares, de membros de diferentes comités á escala local, provincial regional, nacional etc. Também não sabe que, a juntar a esse já apreciável número, haveria duas ou três centenas de milhar de militantes comunistas a apodrecer nas prisões, ou em trânsito para os campos, os do tal Gulag de que o seu jovem e virginal pavilhão auditivo nunca ouviu falar. Com esta gente, que já é multidão, seguiram para os mesmos sítios os kulaks (um par de milhões), algumas minorias étnicas, os contra-revolucionários trotskistas, social-revolucionários e aparentados. Uns milhares de oficiais do Exército Vermelho (dos que tinham feito a Revolução e a Guerra Civil), grande parte dos militantes enviados para Espanha no âmbito das Brigadas Internacionais e da ajuda soviética à República (dando-se até o caso, irónico, Ritinha, de serem chamados a Moscovo, condecorados e de seguida, Lubianka e pelotão de fuzilamento). E nesta leva iam também muitos comunistas estrangeiros o que, como ela eventualmente perceberá, se esforçar as delicadas meninges, poderia ser o seu próprio caso se tivesse nascido no princípio do século passado e, alanceada pelo amor à aventura revolucionária (ela que adorou che Guevara... um desviacionista!), fosse até Espanha ajudar os republicanos. A menos que... tivesse preferido engrossar as “chekas” dos Serviços de Informação russos e participado com eles na caça aos anarquistas e aos do POUM poupando assim a Franco a maçada de os ter que julgar (também expeditamente) e fuzilar.

 

Publicado por João Tunes às 23:38
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Perigoso ou sensato, bato palmas

Passar a ter um Ministro da Defesa que gosta de malhar, com os paióis atafulhados por falta de participações em guerras em que se gastam os canhões e as munições, é um risco que não sei se foi politicamente bem medido. Embora não deixe de ter a sua piada irónica que um antigo trotsquista tenha agora de coordenar e entender-se com generais e coronéis no activo e entrincheirados nas suas repartições. Mas no fundo foi uma boa solução para um ministro insuportável, indefectível e indispensável: mandá-lo recolher aos quartéis. Pena que tenha sido menos rápido que quando do MFA mas isso vem nos livros, no capítulo acerca da diferença de velocidade resolutiva em revoluções e em democracias. No fundo, bem no fundo, eu aplaudo, porque não gosto de tropas e ainda menos de fardas. Agora, os "chicos" no activo que o aturem pois que os "paisanos" já deram (demais) para esse peditório.

 

Publicado por João Tunes às 23:23
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Ritinha é jovem mas já dava entrevistas ao “Avante” quando era uma jovem ainda mais novinha e adivinhando a portentosa deputada em que se tornou

 

Hoje é deputada e não sabe nada do Gulag nem de presos políticos na China. Mas, há sete anos, com os vinte anos ainda por fazer, já sabia seleccionar o que gostava de ouvir nas aulas. Revelando o sindroma cultural e político de que sofre: só ler e gostar de ouvir aquilo que previamente o seu filtro partidário seleccionou (ou, por ela, seleccionaram).
 
“Hoje por acaso adorei a aula de Sistemas Políticos porque o professor esteve a falar do Che Guevara, mas muitas vezes temos de ouvir que o Marx é assim e que o Lenine é assado.”

 

Publicado por João Tunes às 15:41
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Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Video de Yoani Sánchez, blogger cubana impedida de sair de Cuba, para a deputada Drª Rita Rato ver quando tirar um mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais

Publicado por João Tunes às 23:11
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Em vernáculo também nos entendemos

 

[Estava aqui colocada a transcrição de um post escrito com sinceridade e emotividade. Era um grito de raiva relativamente a desumanidades da vida. No caso, situadas na vida profissional do autor do post. E, sobre isso, atire a primeira pedra quem nelas, nas desumanidades, nas profissionais ou outras, nunca tropeçou. Com ou sem razão, justo ou desproporcionado, certeiro ou canhestro, um grito é um grito. Eu respeito os gritos das pessoas. Sobretudo quando são provocados por revoltas perante desumanidades. E até acho que esta sociedade encharcada em gelatina necessita deles, dos gritos de pessoas. Daí a transcrição (e o link). Não o comentei nem sobre ele tomei posição, deixei-o apenas para apreciação de eventuais interessados, com ou sem polémica. E, já agora acrescento, apaguei dois comentários alarves e ofensivos para o autor do texto, enviados por anónimos que não conseguem imaginar que mesmo usando-se linguagem vernácula se pode ser elegante, com a elegância que a sinceridade permite.
 

O autor do texto pediu (publicamente!) que eu retirasse a transcrição e o link. Está feita a sua vontade.]

 

Publicado por João Tunes às 16:28
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Descubra as diferenças

     

 

 

Há quarenta anos atrás, quem a isso se atreveu, votou-se em eleições vigarizadas num acto que foi o cair da máscara de uma ditadura a injectar cosmética nos olhos dos papalvos. Caetano, perante a hipótese da escolha pelo povo, portou-se como Salazar. Suicidou-se politicamente logo ali pois nenhuma cópia melhora um original.

 
Acabámos há pouco um ciclo de três eleições, onde o povo foi quem escolheu. Agora andamos à rasca para deslindar os efeitos dos veredictos complicados das urnas. Mas são estes que condicionam e embrulham, não a aldrabice.
 
Olhando largo, percorremos um ciclo maior, o que vai desde a teimosia oposicionista perante a fraude (a da foto, com Mário Soares e Maria Barroso a votarem em 1969) até à humildade democrática e cidadã do anterior Presidente da República a cumprir voluntariamente o serviço cívico de membro vulgar de uma mesa de voto (Jorge Sampaio numa assembleia eleitoral para as últimas autárquicas).
 

Depois digam que está tudo na mesma. Ou pior. Pela parte que me toca, dava a essas avestruzes os meus trinta anos vividos em ditadura para troca de uma qualquer democracia, mesmo que mal amanhada.

 

Publicado por João Tunes às 15:44
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