Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

O falso debate entre um táctico e um dúplice

 

O “debate” de ontem com Louçã e Jerónimo foi um semi-embuste que ambos, por defensismo oportunista, combinado ou não, encenaram. Se mostraram as muitas semelhanças num coro afinado e implacável de críticas à actuação do governo e à política do PS (Louçã foi uma e outra vez capaz de, também, criticar a demagogia e a prática governativa anterior de Ferreira Leite), umas vezes com acerto e outras em comunhão demagógica, apenas com a óbvia diferença de estilos e eficácias comunicacionais, os dois “encolheram-se” quanto a dizerem aos eleitores o que distingue o PCP do BE. Mais parecia, no final, tamanha a consonância crítica, que quem quiser “castigar pela esquerda” o PS será indiferente, politicamente, votar num ou noutro partido. Ou, quando muito, será optar por defender uma contestação à bruta (género Jerónimo) ou um enfrentamento assente numa retórica de demagogia sofisticada (género Louçã). A opção do Bloco neste relacionamento com o PCP, entende-se e tem uma justificação táctica na comunicação eleitoral: evitar o desgaste do efeito da agressividade fraticida na esquerda da esquerda que desagrada a muitos eleitores, o que dificultaria sobretudo a transferência de votos do eleitorado “de esquerda” do PS; usar como focagem que o “adversário” está no conjunto PS/PSD/CDS. Mas obviamente que se sabe que o Bloco sabe o que o separa do PCP: - uma atitude cultural activa e moderna; - maior desinibição na evolução dos costumes e nas liberdades individuais e de relacionamento; - uma experiência comunicacional superior com o eleitorado jovem, moderno, letrado e citadino; - o respeito pelas regras essenciais do jogo democrático; - um basismo partidário difuso de matriz libertária que contrapõe ao centralismo autoritário de tipo bolchevique do PCP; - a soltura do lastro do legado do “socialismo real” e da orfandade pela perda saudosa do Pai Estaline a que o PCP está soldado como se tal tivesse sido uma jura feita perante a urna de Cunhal. O que, para os eleitores situados no campo do socialismo democrático, facilita a transferência de votos por, se quiser castigar o PS pela sua deslocação para a direita, não ver comprometidas as liberdades numa viragem política para a esquerda. Para mais com o “trunfo Alegre” sempre pronto a sair da manga. Mas o silenciamento táctico de Louçã e do Bloco sobre as suas diferenças para com o PCP, permite a este partido que estenda toda a sua duplicidade propagandística, colando-se, para eleitor ouvir, ao “pacto de não agressão” imposto pelos bloquistas. Permite, por exemplo, que Jerónimo, sem que lhe caia um dente, debite apegos às liberdades, à democracia e ao pluralismo quando o PCP é um defensor extremado do autoritarismo comunista, o passado e o actual (quando fala de “democracia”, ouvimos e lemos os seus dirigentes a considerarem Cuba como uma “democracia avançada”), que oculte os seus princípios ideológicos que colocam a democracia como um estágio intermédio até à verificação das condições objectivas e subjectivas para a ruptura, a revolução e o estado policial do “homem novo”, que silencie com “falas tele-civilizadas” o sistemático sectarismo e bateria de insultos com que o “Avante”, em todos os seus números, furiosamente ataca e desqualifica o Bloco, assumindo-se como “esquerda única” por direito messiânico. Pese embora as considerações tácticas que ditam este relacionamento público nas tele-eleições, esteio de um genuíno eleitoralismo, há aqui um défice de clareza e transparência absolutamente condenável. E, para o debate político e a cidadania, este défice na diferenciação, assim restringida ao subentendido, demonstra que não adianta, em clarificação política, perder tempo com os arremedos de contraditório na esquerda da esquerda. Pura perda de tempo ouvir uma conversa entre um táctico e um dúplice. E não é por aí que a esquerda “vai lá”.    

 

Publicado por João Tunes às 00:23
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Quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

O dedo na borbulha

 

Assim, numa das sínteses disponíveis mais mortíferas e nada complex:
 
Sócrates está determinado em permanecer no governo, justificando as suas políticas e responsabilizando a oposição de direita pelo despautério da sua governação anterior e a oposição de esquerda pelo botabaixismo irresponsável. Sustenta que fez tudo bem e uma ou outra coisa menos bem mas cheio de boas intenções.
 
Suspeita que ninguém lhe vai perguntar porque é que partiu em cruzada contra os direitos dos que vivem do seu trabalho (direitos adquiridos, diziam alguns amantes da piada fácil) e preferiu, com a crise internacional já a morder-nos as canelas, as medidas de carácter assistencialista. Está quase certo que ninguém lhe vai fazer a demonstração que essa desregulação que o governo do PS veio acentuar no mundo do trabalho, tem o selo neoliberal que diz agora repudiar.

 

Publicado por João Tunes às 23:10
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E fala-se assim do cabeça de lista por Leiria?

 

Ana Gomes (e nós de acordo, motivo para se lançar foguete) terá tido em conta que a viagem à Líbia para a festa do Khadafi do “número dois do governo” que é “uma personalidade do distrito [de Leiria] que, ainda por cima, é uma grande mais-valia para potenciar a melhoria das condições de vida da população da Marinha Grande” se insere na consideração de que “O mundo global em que vivemos, incerto e em mutação constante, precisa de quem o conheça nos seus contornos, nas suas particularidades, nos seus desafios, sobretudo, precisa de quem, fruto da sua experiência e contactos internacionais permanentes, possa dele falar a quem dele necessita”

 

Publicado por João Tunes às 17:03
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… E LHES FRANQUEIA AS PORTAS À CHEGADA…

 

O feminino também se deve sujeitar ao contraditório. Como aqui se faz e muito bem.

 

Publicado por João Tunes às 16:24
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Presságio

 

Setúbal, Celtic, …  
(quem aparecer pela frente com camisolas às riscas verdes e brancas, cai)

 

Publicado por João Tunes às 15:17
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Quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Lá como cá

 

Os que preferem o aborto clandestino não desarmam.

 

Publicado por João Tunes às 22:51
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Nem sempre ler compensa

 

Que um “alto quadro do Estado” (antes e depois da Revolução), provavelmente um camaleão político exímio propício a esse tipo de “travessias”, cultive a escrita literária como passatempo, não surpreende pois os hobbies são livres de escolha. Que este “alto quadro do Estado” tenha conseguido escrever e publicar um romance pretensioso, primaríssimo e a roçar a indigência, do género para-histórico segundo o “what if…”, a “reconstituir” um cenário político em que a revolução fosse derrotada militarmente pela ditadura, alcandorando o ultra Kaulza de Arriaga ao poder supremo, fornecendo caricaturas dos acontecimentos e dos personagens reais e sem espécie de pontes com os verificados, pode dizer-se que é apenas um caso de alguém que consegue seduzir um editor amigo ou complacente para lhe vender vinganças de humilhações políticas e pessoais. Que o autor, o tal “alto quadro do Estado” (garante-nos a editora), use o recurso ao pseudónimo para se esconder da identificação da autoria do desvario imaginário de saudosismo revanchista e do fraco talento literário demonstrado, também se percebe. Que eu tenha comprado e lido “Alvorada Desfeita” (*), trata-se de asneira na ocupação do tempo que é da minha inteira responsabilidade.    
 
(*)“Alvorada Desfeita”, Diogo de Andrade, IZI Press (Guimarães Editores)

 

Publicado por João Tunes às 22:22
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Fados, dos da revolução que cantava aos do programa que não programa (segundo Soares)

 

Em 35 anos, quanto o país mudou. Soares, no DN, recorda-o.
 
Sobre quando um senador imperialista americano veio aos fados a Lisboa e até ouviu Cunhal cantar:
 
A seguir à Revolução dos Cravos, acabava eu de ser nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros, o embaixador americano informou-me que o senador Kennedy queria vir a Portugal e gostava de me visitar. Convidei-o para jantar nas Necessidades (veio acompanhado de uma irmã). Para esse jantar, que foi dos primeiros, oferecidos a um estrangeiro - que me lembre - estiveram Álvaro Cunhal, Otelo, Almeida Santos e outros ministros. No final, em conversa, disse-me que tinha ouvido falar do fado e tinha curiosidade em o ouvir.
Improvisei uma ida a uma conhecida casa de Alfama. Ficaram impressionados. Uma das fadistas disse, por graça, que na nossa mesa estavam figuras que cantavam o fado tão bem como ela. Indicou, para o fado de Coimbra, Almeida Santos, e para o de Lisboa, Otelo. Acabaram ambos a cantar. Eu não, que desafino. Mas Cunhal aceitou cantar, com êxito, Grândola Vila Morena. Quando saímos, Ted Kennedy exclamou: "Fantástico, uma Revolução que canta..."
 
Enquanto, agora, o fado corrido mais ouvido é o da Soror Manuela, a do tempo-volta-para-trás:
 
A conclusão que se tira é que este PSD, liderado por Manuela Ferreira Leite, parece não ter aprendido nada com a crise. Não percebeu que é preciso outro modelo de desenvolvimento, mais social, mais ambiental, com a economia e as finanças mais controladas pelo Estado e com regras éticas, que acabem com as especulações criminosas, com os off-shores, com as negociatas e as roubalheiras.
(…) é preciso um Estado forte, prestigiado, progressista e responsável, É, por isso, muito estranho que, sendo Ferreira Leite de profissão economista, não tenha avançado com qualquer ideia para vencer a crise e para a construção de um novo modelo estratégico, de modo a fazer frente ao mundo novo que está a nascer.
(…)
Mas será que as piscadelas de olho convencem alguém? Quando, ao mesmo tempo, se advoga o enfraquecimento do Estado em matéria de segurança social, de saúde, de educação, de trabalho, de ambiente, para que os privados se possam expandir. Não faz sentido. Com efeito, o Programa eleitoral do PSD foi uma grande frustração, para os que acreditavam que dele podia vir algo de novo. Não veio.
 
Cunhal morreu e já não canta amanhãs, tendo deixado as guitarras entregues a um agrupamento de marxistas-leninistas ileteratos, serôdios e fatelas, debitadores esganiçados de mil manifestações e comícios mas zero em solfejo de ideias. Otelo e Almeida Santos reformaram-se da música com público e palmas. Soares desafina, como sempre o fez, umas vezes bem e outras mal, usando a dívida política que para com ele temos para o desculpar de tudo e mais alguma coisa. E a desgarrada que hoje nos sobra é a que é interpretada por um engenheiro do fado vadio (relativamente à esquerda que incumpriu enquanto governou) e uma senhora zangada, epígona desnecessária e mal lembrada do Tony de Matos. Quanto a Ted Kennedy, a única coisa boa que a morte lhe terá trazido é que garante que não vai voltar a Lisboa para ouvir fados. Relativamente a estes, cá estamos nós, "orgulhosamente sós".

 

Publicado por João Tunes às 14:56
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O charme discreto da burguesia pré-eleitoral

 

Ontem, na RTP, Judite de Sousa fez uma entrevista “gira” a José Sócrates. Tanto que já se me varreu da lembrança o que o homem disse. Dele, só recordo a gravata 8-1 que julgo ter sido escolhida como apelo simbólico à maioria absoluta.

 

Publicado por João Tunes às 12:17
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Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

A senhora da velha sociedade é que pensa que ainda vivemos no tempo dos três pastorinhos

 

Os portugueses não são hoje diferentes de outros povos que, para citar Lipovetski, decidiram escolher "novos valores que visam permitir o livre desenvolvimento da personalidade íntima, legitimar a fruição, modular as instituições de acordo com as aspirações dos indivíduos". Quer dizer: buscando o mínimo de austeridade e o máximo de desejo, não abandonámos a importância da família ou do casamento. Mas já não os vemos com a lente conservadora que pode obrigar a tomar decisões que minam a liberdade individual.
 

(Paulo Ferreira no JN)

 

Publicado por João Tunes às 13:25
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Um aniversário que mete nojo

 

Não se lhe pode levar a mal que, jovem oficial de 27 anos e influenciado pelo exemplo de Nasser, tenha deposto um rei fantoche e feudal, o corrupto Idriss Senoussi. O mal está no apego ao poder absoluto que dura há 40 anos, na mais longa ditadura pessoal vista em África. E o pior foi o apoio dado por Khadafi a tudo que foi terrorismo no mundo. Péssimo mesmo, pior que a longa ditadura de Khadafi, só é, pelo petróleo e pelo gás da Líbia, que não haja governante que não lhe faça salamaleques (e na corte de sabujice, Luís Amado não podia faltar, a representar hoje um papel que, antes, já foi desempenhado por Otelo na sua fase política mais tresloucada).

 

Adenda: Pois parece que a "festa" está a ser de arromba e fausto para comemorar os 40 anos da petro-ditadura líbia e do seu chefe pimba que dá a permanente ideia de que quando se levanta veste-se a embrulhar-se na colcha da cama e nos reposteiros do quarto da tenda e depois passeia-se assim durante o resto do dia.

Publicado por João Tunes às 12:54
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Um Putin decente

 

Não deixa de ser um acto político de lucidez e decência que Vladimir Putin, primeiro-ministro da Rússia e que estará hoje na Polónia num acto público evocativo do início da Segunda Guerra Mundial, tenha declarado ao jornal polaco Gazeta Wyborcza que condena sem vacilação o pacto firmado entre a Alemanha nazi e a URSS em 1939 e que, quanto à matança de Katyn (em que, por ordem de Estaline, foram assassinados milhares de oficiais polacos e que os soviéticos, durante décadas, atribuíram aos nazis, até que, durante a perestroika, foram revelados os documentos que evidenciaram que a autoria desta mortandade pertenceu inteira ao comando do comunismo soviético), tenha dito: “A nação russa, que também sofreu a repressão estalinista, entende bem os sentimentos dos polacos acerca dos acontecimentos de Katyn”.

 

Publicado por João Tunes às 00:17
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