Domingo, 30 de Novembro de 2008

DO VALOR DA NECROFILIA COMO ENERGIA PARTIDÁRIA

     

 

O culto da personalidade é uma constante necessária nas práticas e nos rituais que vertebram a vida comunista. A segurança obtida pela confiança cega no líder é o parafuso necessário que segura toda a construção mecânica do edifício do centralismo democrático. Este culto, no entanto, é dúctil, pode atingir diversas formas de expressão.

 

Álvaro Cunhal, enquanto vivo, praticou e desenvolveu a forma mais eficiente e sofisticada entre os cultos de personalidade – contê-la na inibição da sua expressão, explorando e acumulando a energia imensa que resulta da interiorização e da sublimação. Levando a traduzir-se por modéstia a habitação de um egocentrismo temperado pelo misticismo do comandante único, incontestado e incontestável.

 

Desaparecido, Cunhal legou ao PCP a possibilidade de despertar o culto reprimido que lhe foi prestado em vida sob a forma acumulativa do recalque, oferecendo a um líder fraco seu sucessor, mas um orador eficaz na difusão da afectividade da cumplicidade da vulgaridade militante, muitos furos quilométricos abaixo da sua estatura política, a oportunidade da exploração da chance da santificação necrófila de Cunhal, libertando as palmas, os vivas e as lágrimas que ele, quando vivo, não permitia que lhe dirigissem na forma de pessoa. O que permite, hoje, transformar o valor simbólico do Mausoléu de Cunhal num foral de legitimação da geração de estalinistas serôdios que, através de rituais revivalistas, gere a sobrevivência da Obra - O Partido - a que Cunhal dedicou a vida, a inteligência e o talento e a quem impôs uma memória reflexa, elaborada través do seu mito e do seu culto com um cenário de névoa de outros mitos messiânicos associados (a classe operária, a luta de classes, a revolução, o socialismo, o comunismo) que enquadra o perfil do Profeta.

 

Mas, pelo menos, que se paguem os devido direitos de autor a Estaline, pois foi este que entendeu bem as potencialidades deste marketing político, ao criar o marxismo-leninismo e ao erigir o Mausoléu do Kremlin, o grande percursor do culto pela necrofilia política e partidária, tendo chegado a ocupar lugar de companhia com a múmia do Grande Ausente Inspirador no altar maior do comunismo internacional. 

Publicado por João Tunes às 15:04
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Sábado, 29 de Novembro de 2008

A NECESSIDADE DO REAL ALÉM DOS PRÉMIOS

 

Yoani Sánchez: Necesito algo más que kilobytes, estoy precisada de realidades.”

 

Adenda:

Para infelicidade de Yoani, ela é carente de um congresso do P C Cubano em que uma camarada cubana encante os pares vestidos de luces como a artista Odete Santos o fez aqui - em faena no Campo Pequeno - mas, com risco mínimo, encostada às tábuas

Mas não adianta a Yoani, caso se encantasse com o espiche oratório incoerente da advogada revisteira, virar a esperança para o Campo Pequeno. Ali, ouviria ovações à ditadura que a oprimem a ela e aos seus patrícios.

Publicado por João Tunes às 23:53
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Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

DIFICULDADES DE INTERPRETAÇÃO

 

 

Nem sempre é fácil descodificar posts de alguns bloggers. Por vezes, o meu talento de leitura descriptográfica não chega lá. Excepto quando fala do seu staff, eu tinha o Luís Novaes Tito como homem de escrita frontal e directa, género neo-realista capaz de ser lido e bem interpretado até num sarau cultural em que Jerónimo faça as delícias de senhoras que recolhem fundos, fazem lavores para a Festa e vendem jornais, revistas e as obras escolhidas pelo Casanova.
 
Mas cada homem ou mulher têm a sua face oculta. Ou não adivinhada. Que, por vezes, é apenas o seu momento de sofisticação estética através da escrita.
 
Isto para dizer que a frase enigmática do Barbeiro Luís:
De vez em quando é preciso arejar. Mesmo com frio e com chuva, às vezes é preciso inspirar.”

fosse, afinal, um anúncio valorativo da sua participação empenhada no “XVIII Congresso dos Barbeiros de Valdivostok”.

Publicado por João Tunes às 14:56
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O SOL QUE ILUMINAVA A TERRA AGORA FAZ DE SOMBRA DE SAUDADE NO CAMPO PEQUENO

 

Destas correntes, em regime de voluntariado, gosto. Aqui vai a minha escolha:
 ----
 
Três soviéticos internados no Gulag conversam e acabam por falar dos motivos que ali os levaram:
 
“- Eu estou aqui porque costumava chegar atrasado cinco minutos ao trabalho e acusaram-me de sabotagem”, diz um.
 
“- Eu estou aqui porque chegava cinco minutos antes da hora de início do trabalho e acusaram-me de espionagem”, diz outro.
 
Finalmente, o terceiro explica-se: “- Eu estou aqui porque fui sempre pontual e descobriram que tinha um relógio fabricado num país capitalista”.
 -----
 
Nota: Inspirado aqui, não passo. Porque é feio ser-se anticomunista.
Publicado por João Tunes às 14:06
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CATARSE POR AUTO-FLAGELAÇÃO

 

          

 

Publicado por João Tunes às 13:36
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Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

DA MATEMÁTICA PARA MESSI

 

Ora, companheiro Luis. Se o futebol fosse matemática, qual a graça do maior espectáculo do mundo? Futebol é uma sucessão de belezas – no passe, na finta, no desarme, na pressão sobre o atacante, na recepção de bola, na cavalgada com os pés na bola e os olhos na baliza, na defesa de voo de águia, no reflexo apurado, nos nervos dominados na hora do penalty. E, sobretudo, em golos bonitos. Como o de Caneira, ontem e para memória futura. De matemática, nada. Essa disciplina só entra qb para os pontos, para a classificação. Só. E o futebol é mais o resto. Messi, por exemplo.
Publicado por João Tunes às 16:44
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SOLIDÃO É QUE NÃO

 

Os ingleses, os juízes ingleses vizinhos da City, estão preocupados com a solidão prisional do banqueiro Oliveira e Costa. Devem ter achado que devia ter companhia pois não era possível que, enquanto banqueiro rodeado de um conselho de administração, decidisse tudo sozinho. Como se arrasta a morosidade dos efeitos do nosso furacão, proporcionando parceiros de sueca para o isolado Oliveira e Costa, deram o seu contributo: decidiram extraditar o Vale e Azevedo. Não chega para o bridge nem para a sueca mas dá para a bisca de dois. Ou para a lerpa. Bacanos, os juízes bifes.

 

Publicado por João Tunes às 15:47
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Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

MAIS AVARENTO QUE UM MINISTRO DAS FINANÇAS

 

 

Ai que este homem ainda vai ser responsabilizado se à Ana Avoila lhe der um chelique:

 

Considero excessiva, desde o início, a proposta de aumento remuneratório da função pública, de 2,9%, bem superior à inflação que o Orçamento estimava para 2009 (2,5%).
Mas agora que as previsões da OCDE apontam para uma inflação muito inferior (1,3%), em consonância com a recessão económica prevista, o aumento real dos salários públicos (1,6%) será um dos maiores de sempre.

Publicado por João Tunes às 23:25
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OS IMPACIENTES PELO SHOW

   

 

O Congresso ainda não abriu portas e já começaram a chegar as impaciências-saudações e as homenagens. Calma que há fé que chega para todos.
Publicado por João Tunes às 17:10
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QUEREM TRAMAR O NOGUEIRA?

 

 

O presidente do Conselho de Escolas confirmou, esta quarta-feira, que foram «genericamente» acolhidas as propostas de alteração anunciadas pela ministra da Educação ao modelo de avaliação dos professores.

 

E logo agora, com o Congresso à porta e com direito garantido a ovação e volta à arena no Campo Pequeno?
Publicado por João Tunes às 16:53
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NA EUROPA, LONGE DOS SALPICOS DO BPN

 

Um ego inchado de político feliz nunca rebenta?

Publicado por João Tunes às 16:33
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A QUEDA DEMORADA DOS CRUCIFIXOS IMPOSTOS

 

Espanha, terra das querelas demoradas. Eles avançam e bem, mas discutem que se fartam. O que é virtude.

Publicado por João Tunes às 16:24
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ESTÁ SERVIDO UM KOSOVO GELADO

 

Agora a Gronelândia. Sem motivo a dramas visíveis entre os inquietos com o efeito dos exemplos. Porque os vikings são gente fina?

 

Publicado por João Tunes às 16:12
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AGRADECIMENTO DE UM ANTIGO CAÇADOR (FALHADO) DE ARANHAS E ARANHIÇOS

 

Passei boa parte da minha vida política ensopada em militância encartonada a dar coices nos maoístas made in Portugal. Se eram concorrentes, e eram, pelo menos em símbolos e liturgias, havia que assegurar a liderança de mercado como monopólio vanguardista da classe operária que não é coisa própria para amadores miméticos sobrevalorizando o sangue na guelra. Nunca foram, enquanto sobreviveram, peras fáceis de apanhar. Não pela dimensão ou profundidade - eles sempre imitaram caricaturalmente o pior que havia na tradição do PCP -, oscilando em penetração entre estudantes que faziam política como Coimbra cumpria as praxes e o lumpen com farda de operários, mas pela agilidade, irreverência e facilidade com que proliferavam pela decomposição fragmentária, género aranhas que se reproduziam rapidamente numa miríade de aranhiços. No fundo, tinham um poder de cisão imensamente superior ao poder gregário cúmplice para formarem um Partido, mesmo que na condição angustiante de só poderem ser, por destino do comum Pai Estaline, um partido alternativo. O que bem se compreende hoje ao olharmos as trajectórias desencontradas dos ex-maoístas made in Portugal. É que nunca passaram de individualistas empedernidos juntos em bandos de ocasião. Como eu, que os combati. E que terá sido o que, depois, nos valeu.
 

Ao ler-se aqui a notável sinopse de Miguel Cardina sobre o maoísmo em Portugal, percebe-se melhor como é difícil caçar aranhas.

Publicado por João Tunes às 15:49
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CERTEZAS DAS ALMAS DO OUTRO MUNDO

 

Certos de que é possível um outro mundo, livre da exploração e da opressão de classe do capital, proclamamos o nosso empenho em prosseguir a caminhada histórica pela construção de uma sociedade nova liberta da exploração e da opressão de classe, o Socialismo.

 

Publicado por João Tunes às 13:01
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João Tunes

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