Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

RELIGIÃO DE PARTIDO NUM PARTIDO DE RELIGIÃO

 

É antiga e recorrente a atracção para comparar os rituais partidários às manifestações religiosas. Resultando melhor onde a fé (e a perfídia associada) é mais intensa.
 
O António Teixeira fez uma interessante evocação comparativa entre a Conferência Internacional dos Partidos Comunistas em 1969 (a que dediquei vários posts que podem ser lidos mais em baixo) e o Concílio de Éfeso realizado em 431. Como é costume com este autor, resultou um excelente texto, para o qual vivamente recomendo a leitura.

 

Publicado por João Tunes às 23:41
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MAO EM PORTUGAL

 

Francisco Martins Rodrigues, recentemente falecido, foi o percursor e o patriarca do maoísmo em Portugal, uma corrente política com inúmeras segmentações e rivalidades que há já bastante tempo desapareceu do mapa da intervenção política activa (exceptuando as erupções do candidato do PCTP/MRPP a todas as eleições, Garcia Pereira, sem que, no entanto, este recorra ao argumentário político próprio do maoísmo). Neste sentido, o interesse pelo maoísmo em Portugal assume um quase exclusivo papel de levantamento memorialista e de pesquisa histórica. Os esforços de pesquisa, recolha de testemunhos e documentação, enquadramentos das penetrações e intervenções, merecem uma investigação competente, tanto mais que, quer no período terminal do fascismo como durante o PREC, tiveram uma influência política real, sobretudo nas camadas juvenis daquelas duas épocas (o PCP que o diga). Neste sentido, tem o maior interesse a entrevista a Francisco Martins Rodrigues conduzida pelo investigador Miguel Cardina e que este publicou dividida em três partes: primeira, segunda e terceira.
 

A não perder a leitura desta oportuníssima peça. E parabéns, caro Miguel.

 

Publicado por João Tunes às 23:21
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SE O FUTEBOL É REI, A BOLA É RAÍNHA?

 

Já li coisas muito estapafúrdias, até vindas da Casa Real, mas esta…:
 
A vitória do troféu europeu de futebol ajudará certamente à consolidação do grande reino da Espanha tal como a conhecemos hoje. Um orgulho contra todos os separatismos. Eu, por mim, sofro de inveja... duas vezes.
 

Quando para pequenos males, incluindo os de inveja, há sempre pequenos remédios. Por exemplo, perguntar ao negrão Senna, esse genuíno Marquês do Futebol, qual a papelada que teve de tratar para alinhar na selecção de Espanha e depois seguir-lhe as pegadas burocráticas.

 

Publicado por João Tunes às 22:04
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SEXO, SEXO, SEXO…

 

É urgente que alguém, do seu círculo íntimo, explique ao Professor César das Neves que também há sexo além da masturbação. Se ninguém o faz, o homem não sai das angústias obsessivas da puberdade retardada.

 

Publicado por João Tunes às 14:56
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REAL OPORTUNISMO

 

Quando se fala do entusiasmo português por futebol, o de equipas e o de selecção, muitos enojados, distintos membros da aristocracia intelectual,  referem-no como sendo típico da boçalidade lusitana. Mas o certo é que é assim mesmo, com esta ou aquela forma de atavismo folclórico, e em quase toda a parte. Que, inevitavelmente, implica doses de clubismo ou de patrioteirismo, ou uma mistura dos dois. Porque o futebol é o espectáculo mais popular e socialmente mais transversal em todo o mundo, sem beliscar a articulação entre arte e paixão.
 

Veja-se, pela imagem, como um rei pela graça de Franco não resistiu a misturar-se na festa da vitória espanhola de ontem, arrastando uma grega a partilhar a euforia.

 

Publicado por João Tunes às 14:02
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LIÇÃO CRIOULA

 

Mais uma boa notícia vinda de Cabo Verde.
 
----
 
Nota: Engana-se redondamente a jornalista do DN que imagina “um Executivo maioritariamente feminino fala português”. Vá a Cabo Verde e peça para escutar um minutinho qualquer de uma sessão de conselho de ministros. Vai constatar que ali, como em todo o lado onde se juntam caboverdianos e/ou caboverdianas, independentemente das condições sociais e dos níveis culturais, só se fala uma outra língua, o crioulo. Prova que o jornalismo à distância raramente consegue ser rigoroso.

 

Publicado por João Tunes às 12:43
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Domingo, 29 de Junho de 2008

68, O “ANO HORRÍVEL” (POST 5/5)

 

 

V – SOCIALISMO, DEMOCRACIA E LIBERDADES
 
Os casos húngaro (1956) e checoslovaco (1968) haviam colocado a questão da incompatibilidade, após instauração de um poder comunista, de conciliar o regime socialista com as práticas democráticas e o exercício pleno das liberdades cívicas. A partir do momento em que “os trabalhadores” alcançam o poder, o marxismo-leninismo ensina que os abrandamentos no exercício do poder ditatorial de partido único, concedendo-se campo à expressão da pluralidade democrática, arrasta consigo a acção fatal da contra-revolução.
 
Na Conferência Internacional de 1969, este dogma marxista-leninista esteve na base de uma divergência funda entre alguns delegados. Carrillo e Berlinguer (e alguns poucos mais) tentaram demonstrar que havia possibilidade de coexistência entre a construção do socialismo e a pluralidade democrática, assente na escolha por voto livre e no princípio da alternância. No extremo oposto a esta posição (consagrada pelos jornalistas como a tendência “eurocomunista”), encontrava-se barricado nos velhos dogmas Álvaro Cunhal que assumiu as despesas da defesa do marxismo-leninismo puro e duro, esclarecendo os hereges que só havia um caminho para o socialismo, o da ditadura do proletariado. Assim falou Cunhal:
“O marxismo-leninismo ensina, e a experiência revolucionária confirma, que a ditadura do proletariado – sempre mil vezes mais democrática que a mais democrática das ditaduras da burguesia – não só é uma exigência da luta pela consolidação da revolução socialista vitoriosa e da construção do socialismo, mas também uma etapa fundamental da evolução social. Foi o próprio Marx quem afirmou que o aspecto fundamental da sua doutrina é a demonstração de que «a luta de classes conduz, necessariamente, à ditadura do proletariado» e que «esta mesma ditadura não é válida só por si mas sim na transição para a abolição de todas as classes rumo a uma sociedade sem classes».”
 
 

Nota: Ler os anteriores posts desta série (1, 2, 3, 4).

Publicado por João Tunes às 18:46
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68, O “ANO HORRÍVEL” (POST 4/5)

 

IV – O PROBLEMA CHECOSLOVACO
 
Apesar do compromisso prévio de que a “questão checoslovaca” não fosse sequer discutida na Conferência Internacional de 1969, muitas delegações pronunciaram-se sobre ela, uns pró-invasão e outros condenando-a. Era quase impossível evitá-lo, tanto mais que os documentos e as posições formais e oficiais definiam a completa ausência de um centro decisor no movimento comunista, advogavam a não ingerência nos assuntos internos de cada partido e a responsabilização particular por cada partido no poder de definir soberanamente o rumo das suas questões internas e nacionais. Ora, a invasão da Checoslováquia por forças militares de cinco países do Pacto de Varsóvia em 1968, substituindo a equipa que exercia o poder (no partido e no Estado) e que inclusive incluiu a prisão e tortura do principal dirigente comunista (Dubcheck), representou uma das violações mais grosseiras de todos os princípios de autonomia e não ingerência, perante um Estado independente e o Partido Comunista que o dirigia.
 
Gustav Husak, o novo dirigente checoslovaco imposto pelos soviéticos, tinha sido quem colocara a questão da não discussão na Conferência do “caso da Checoslováquia” numa evidente tentativa de se eximir a que a sua legitimidade fosse posta em causa. Usou, como argumento para se furtar às críticas, que se tratava de um “assunto interno” do partido checoslovaco. Argumento este verdadeiramente espantoso ao ser usado por quem se sentara há poucos meses na cadeira do poder absoluto mercê da forma mais brutal de ingerência, a operada por meios militares que fora virada contra a vontade dos comunistas da Checoslováquia. No entanto, Husak, constatando que alguns delegados não se eximiram em criticar a invasão da Checoslováquia, acabou por ser ele, na Conferência, um dos principais teorizadores do auto-limitação do princípio da “soberania socialista” aplicada a um Estado-satélite, argumentando:
“A nossa própria experiência demonstra que a palavra de ordem da soberania, desprovida de um conteúdo de classe, é uma subtil e muito eficiente arma das forças oportunistas de direita, revisionistas e antisocialistas.”
Esta intervenção de Husak (o chefe da “normalização checoslovaca” que custou a expulsão dos seus empregos a muitos milhares de antigos activistas da “Primavera de Praga” e a expulsão do PCC de meio milhão de militantes comunistas) foi apoiada com a mesma dureza cínica por outros dirigentes comunistas no poder. Em contrapartida, os acontecimentos na Checoslováquia foram denunciados resolutamente pelo romeno Ceauscescu (a Roménia recusara-se a enviar tropas para a Checoslováquia), pelo italiano Berlinguer, pelo espanhol Carrillo e pelo australiano Aarons.
 
Quanto a Álvaro Cunhal (o PCP fora um dos partidos que apoiara a invasão), sem se referir expressamente ao “caso checoslovaco”, teorizou sobre a “soberania limitada” dos países socialistas:
“Nenhum partido poderá jamais dizer que fez a revolução apenas com as suas próprias forças internas de um país em que triunfe a revolução proletária pois não poderão por si sós assegurar, frente ao imperialismo, a consolidação da vitória alcançada e o desenvolvimento e a defesa da sociedade socialista.”(…)”Se pela agressão do imperialismo, ou pela acção das forças contrarevolucionárias, o poder dos trabalhadores se visse ameaçado num país socialista, o dever sagrado dos restantes países socialistas e de todo o movimento operário internacional é acudir em sua defesa.”
 
 

Nota: Ler os anteriores posts desta série (1, 2, 3).

Publicado por João Tunes às 18:21
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68, O “ANO HORRÍVEL” (POST 3/5)

 

III – UM CISMA COM VÁRIOS CAPÍTULOS
 
A Conferência de 1969 apresentou um aspecto paradoxal curioso na contradição entre os documentos colectivos aprovados e as intervenções dos delegados. Como se tivesse tratado não de uma mas de duas conferências. Enquanto os documentos passaram ao lado das divergências, a maioria das intervenções tomaram partido sobre todas elas. O que significou que a aparente unidade programática conseguida, sendo o “máximo unificador comum” entre os conferencistas, esteve muito aquém das efectivas posições políticas e ideológicas que norteavam os delegados e os seus partidos. Sobretudo quanto às divergências mais graves (e a maior já se exprimira pela amplitude e peso das ausências) e que tinham a ver com o diferendo sino-soviético (*), a invasão da Checoslováquia, o predomínio do PCUS relativamente aos restantes partidos, as questões do socialismo e da democracia, a Conferência pode considerar-se ter sido de absoluta inutilidade se o objectivo tivesse sido saná-las. Mas o objectivo táctico dos soviéticos estava alcançado: feitas as necessárias excomunhões, incrementara-se o monolitismo unipolar sob direcção imperial do PCUS entre o campo comunista (os que defendiam o poder e os que lutavam por chegar a ele), numa espécie de réplica encolhida do Komintern sob comando de Estaline.
 
A partir desta Conferência, a fracção monolítica dali saída, além de dependente dos generosos financiamentos soviéticos para compensar os fiéis e os leais, unificou-se numa linha política entendida como o marxismo-leninismo da época (que, ainda hoje, recheia as formulações ideológicas do PCP), excluindo heresias (o “eurocomunismo”, o “maoísmo” e o “autonomismo”), permitindo que o PCUS e os seus satélites atravessassem a década de 70 do século XX a ladearem a decadência anunciada até que o erro clamoroso da invasão do Afeganistão pela URSS precipitou o fim do sistema, só faltando aguardar a chegada do Sr. Gorbatchov para celebrar a missa final. A ilusão do sucesso da Conferência Internacional de 1969 durou 20 anos, até que o comunismo caindo como um castelo de cartas, confirmou a agonia do comunismo como ideia, projecto e forma de governar povos.
 
(*) – Álvaro Cunhal, que antes enfrentara dentro do PCP a fracção maoísta liderada por Francisco Martins Rodrigues, no seu discurso na Conferência não foi nada meigo para com o “grupo de Mao-Tsé-Tung” (assim era designada a direcção do PCC pelos pró-soviéticos):
“Trabalhar pela unidade não significa só fortalecer os laços de cooperação entre os que a desejam. Significa também combater as acções daqueles que declarem que o seu objectivo é dividir e destruir os partidos comunistas, minar a comunidade socialista, desintegrar o movimento comunista. Por isso, o nosso Partido, pela parte que lhe respeita, assume como seu dever perante a classe operária e o povo português e perante o movimento comunista internacional, adoptar uma posição clara relativamente às concepções e actividades nacionalistas, chauvinistas, expansionistas, antisoviéticas e fraccionistas dos dirigentes chineses, que foram agravadas com a chamada «revolução cultural» e com o recente Congresso em Pequim. Gostaríamos de não termos de empregar estas palavras, mas não conhecemos outras para exprimir o que queremos dizer. A unidade do campo socialista e do movimento comunista internacional e a aliança com o movimento de libertação nacional defende-se e reforça-se combatendo as actividades divisionistas, fraccionistas e desintegradoras e não permanecendo no silêncio perante elas.”     
 
 

Nota: Ler os anteriores posts desta série (1, 2).

 

Publicado por João Tunes às 17:40
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68, O “ANO HORRÍVEL” (POST 2/5)

 

II – O NÚCLEO DURO CERRA FILEIRAS
 
Na Conferência de 1969, pontificavam naturalmente os chefes máximos das ditaduras comunistas que constituíam a “comunidade dos países socialistas”, com o anfitrião Leonid Brezhnev (URSS) à cabeça e no comando dos trabalhos. Entre as ausências das chefias comunistas no poder, além de Mao (China), Enver Hoxa (Albânia) e Tito (Jugoslávia), registou-se a falta de comparência de Castro (Cuba) que delegou em Carlos Rafael Rodriguez a presença mas como delegado observador, Kim Il Sung (Coreia do Norte) e da chefia do Vietname (justificada pela guerra vieto-americana). Algumas das chefias que foram delegados à Conferência, manter-se-iam à frente dos poderes nacionais por mais vinte anos, ou seja, até à implosão do sistema comunista e às quedas das suas ditaduras locais (Nicolae Ceauscescu, na Roménia; Todor Zhivkov, na Bulgária; Janos Kadar, na Hungria; Gustav Husak, na Checoslováquia e Yumzhaguiin Tsedenbal, na Mongólia). Dois outros iriam morrer com o poder nas mãos (Leonid Brezhnev, na URSS; Walter Ulbritcht, na RDA). Finalmente, um deles, apenas um, viria a ser depois apeado do poder por incapacidade de responder aos problemas internos (Wladyslaw Gomulka, na Polónia). Resumindo, praticamente todas as lideranças comunistas no poder e que assim se mantiveram até ao fim do sistema, estiveram presentes na Conferência, redesenhando o movimento comunista internacional pela exclusão da heresia cismática chinesa. Ao lado dos “poderosos”, tivemos uma numerosa plêiade de dirigentes lutando em oposições ou sob ditaduras e igualmente apostados na recomposição da hegemonia soviética, como Rodney Arismendi (Uruguai), Aarne Saarinen (Finlândia), Luís Corvalan (Chile), John Marks (África do Sul), Luís Carlos Prestes (Brasil), Waldeck Rochet (França), Gus Hall (EUA), Kostas Kolliannis (Grécia) e Álvaro Cunhal (Portugal). Os papéis de delegados “desmancha-prazeres” foram representados, além do “desalinhamento” de Ceauscescu (Roménia), por Laurie Aarons (Austrália), Santiago Carrillo (Espanha), Enrico Berlinguer (Itália) e John Gollan (Grã-Bretanha). O resto da assembleia “reconstituinte” do movimento comunista internacional foi preenchida, na sua maioria, por delegações de pequenos partidos e com fraquíssimas influências nacional e internacional.  
 
Na preparação da Conferência, tinha havido um acordo tácito em dar o enfoque maior no “combate ao imperialismo” (com a solidariedade para com os vietnamitas no centro) e na “defesa da paz”, ladeando as questões que iriam provocar choques de opinião e posição entre os delegados presentes, nomeadamente quanto ao diferendo sino-soviético. Quanto à invasão da Chescoslováquia em 68 e à recente substituição da direcção do PC da Checoslováquia (em que Dubcheck fora substituído por Husak), havia um acordo prévio, na base cínica da “não ingerência em assuntos internos de outros partidos”, de que o “caso checoslovaco” não fosse sequer abordado. Mas não só estes acordos prévios não foram respeitados como constituíram as bases de polémicas apaixonadas ocorridas durante os trabalhos da Conferência. Como se verá em posts de continuação.  
 
Nota: Ler o anterior post desta série.

 

Publicado por João Tunes às 11:56
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68, O “ANO HORRÍVEL” (POST 1/5)

 

I – O MAESTRO CHAMA A ORQUESTRA
 
Já muito se escreveu, com alguma polémica à mistura (muito menos que aquilo que esperava, confesso-o), sobre os acontecimentos de 68. Houve testemunhos de quem viveu por dentro, sobretudo o Maio de 68 em Paris, as convulsões que, nesse ano, atingiram maiores dimensões em França, na Itália, na Alemanha Federal, nos Estados Unidos e na Checoslováquia. Reflectindo sobre os efeitos perduráveis na sociedade e na política, defendeu-se que nada foi depois como era antes, outros desvalorizaram os efeitos, havendo quem defendesse que, afinal, tinha sido o capitalismo quem se reforçara.
 
O certo é que, na altura, muita foi a gente que se espantou e assustou. Por um lado, os vigilantes da ideologia dominante da democracia capitalista, perante uma nova pirotecnia a que as regras e os costumes foram sujeitos pela fúria de mudança radical trazida por vagas de juventude radicalizada, oriunda sobretudo da massificação do acesso às universidades. Do outro lado, atónitos e imbuídos de repugnância, os bonzos da contestação organizadamente estabelecida (partidos e sindicatos), os do aparelho da alternativa com carta de nobreza herdada da Revolução de 1917, perante gente desalinhada, pulverizada em grupúsculos, indisciplinada, anarquista, praticantes da democracia directa e coisas piores. E entre os dois grandes medos dos dois pólos clássicos e instituídos do jogo da luta de classes, tem-se valorizado mais, porque estudado mais, os efeitos de 68 sobre as sociedades capitalistas, a corrosão provocada no modo de exploração dos trabalhadores, produzindo-se muita obra teórica na tentativa de actualizar a interpretação marxista dos novos fenómenos resultantes do efeito da radicalidade juvenil sobre a democracia capitalista.
 
Mas se 68 foi um ano de choque para a democracia capitalista, adormecida que estava na presunção de que tinha estancado o alastramento do perigo revolucionário (ou seja, confinando-o a leste) e estacionada a “guerra fria” no “parque” da coexistência pacífica, com os problemas maiores concentrados na guerra do Vietname e nas lutas armadas anticoloniais, pior ainda se encontrava o mundo comunista orientado para Moscovo. E pior ficou nesse “terrível” ano de 1968, o ano que abalou o comunismo. Por um lado, em França e em Itália, as vagas revolucionárias passaram por cima, ou contra, o controlo e a orientação dos PC’s, obrigando estes partidos a colarem-se mais aos movimentos de luta do que dirigi-los (só recuperando terreno numa segunda fase, com entrada em cena dos sindicatos finalmente abalados na sua modorra reivindicativa). E o marxismo-leninismo de cartilha que adormecia os quadros a meio da leitura, teve de pedalar intelectualmente para responder politicamente às formulações, muitas vezes provocatórias mas quase sempre inteligentes, de nova erupção do “esquerdismo” (ou do “radicalismo pequeno-burguês”, segundo outros opositores). Entretanto, pelo fogo da “revolução cultural” e com o IX Congresso do PCC, a China de Mao atingiu o pico da cisão com os soviéticos e seus aliados, espalhando por toda a parte “capelinhas concorrentes”. Na Checoslováquia, tinha sido necessário mandar os tanques substituir a política e esmagar uma direcção partidária herética por querer conciliar comunismo com liberdade. Como se tanto não bastasse, os Partidos Comunistas italiano e espanhol caboucavam o “eurocomunismo”, integrando a luta política e social dos comunistas dos seus países nos princípios da democracia pluripartidária e com base no sufrágio universal. E a disciplina da pirâmide com cimo no Kremlin abria brechas por todos os lados, com uma Jugoslávia que há muito nada obedecia, com a China e a Albânia a combaterem por todos os meios o “revisionismo soviético”, somando-se a indisciplina autonomista de Ceaucescu na Roménia, Cuba ainda perdurava em muita crítica a aspectos do mundo socialista, vários eram os partidos que ou seguiam Mao ou simplesmente recusavam a existência de um centro de comando e decisão para o movimento comunista internacional.
 
Formalmente, desde 1943, com a extinção do Komintern (condição cumprida pela URSS para a frente aliada contra o nazi-fascismo), o movimento comunista internacional tinha perdido o seu centro de controlo, coordenação e comando. No imediato após-guerra, e com o início da “guerra fria”, com a criação do Kominform (formalmente, apenas um centro de trocas de informações…) houve um retomar do controlo pelo PCUS que rapidamente explodiu com a cisão da Jugoslávia. Daí para a frente, a forma de Moscovo unificar, controlar e comandar as actividades dos PC’s, usando o financiamento como meio condicionante, foi a realização periódica de Conferências Internacionais de Partidos Comunistas e a edição regular de uma revista (a “Paz e Socialismo”). As primeiras duas destas Conferências tinham-se realizado em 1957 e 1960 (nesta, estiveram presentes delegações de 81 PC’s), a que acrescera, em 1967, uma Conferência dos PC’s da Europa (realizada em Karlovy Vary, Checoslováquia).
 
Com o descalabro e a divisão a corroerem a unidade entre os comunistas espalhados no mundo, mais a fragilização da obediência ao comando do PCUS, com dois países em disputa militar de fronteiras (URSS e China), com heresias, dissidências e cisões a alastrarem por toda a parte, foi decidido convocar uma nova Conferência Internacional de PC’s para 1969 em Moscovo e montado um comité preparatório a funcionar na Hungria. Tratava-se, antes do mais, de suster a hemorragia da disciplina, recolocando a autoridade de comando e de direcção política da URSS sobre os destacamentos comunistas. Esta Conferência que teve lugar entre 5 e 17 de Junho de 1969, contou com as presenças de 75 PC’s (alguns deles, pequenos grupos sem eco social e político nos seus países), menos seis que os presentes na anterior Conferência de 1960. No que respeita ao PCP, a delegação foi presidida por Álvaro Cunhal que, no seu discurso, produziu uma das peças mais conformes na ortodoxia para com a interpretação soviética do marxismo-leninismo, exprimindo uma fidelidade sem falhas para com os actos e orientações emanadas a partir de Moscovo. Já politicamente fora da “órbita soviética”, não compareceram os PC’s da China, da Islândia, do Cambodja, da Jugoslávia, da Albânia, da Tailândia, da Malásia, da Birmânia, da Holanda, da Nova Zelândia e do Japão. Quanto aos PC’s de Cuba e da Suécia, as suas presenças foram na qualidade de observadores, não se vinculando aos documentos em discussão. No decorrer dos trabalhos, manifestariam divergências quanto aos documentos adoptados, quanto a partes ou ao todo, os PC’s da Austrália, da Itália, de San Marino, de Reunião e da República Dominicana. Outros PC’s, assinando os documentos, fizeram discursos muito críticos para com orientações dominantes no comunismo dirigido por Moscovo.
 
Uma volta de leitura pelos discursos dos dirigentes comunistas de então é uma preciosa ajuda não só para entender a forma como se procurava entrar na década de 70 sob recomposta hegemonia soviética, respondendo ao desafio chinês e aos outros problemas, como a formulação do marxismo-leninismo tal como foi entendido e tentado praticar pelo comunismo internacional alinhado por Moscovo até à chegada ao poder de Gorbatchov, em 1985. Sobre isso, tentaremos debruçar-nos em próximos posts.
 

[A fonte de consulta aos textos das resoluções e dos discursos é a versão em castelhano (Editorial “Paz e Socialismo”, Praga, 1969) do livro “Conferencia Internacional de los Partidos Comunistas y Obreros, Moscu, 1969”]

 

Publicado por João Tunes às 00:47
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Sábado, 28 de Junho de 2008

A LEGIÃO CONDOR NÃO PASSARÁ! (excessos de linguagem só recomendáveis em assuntos de futebol)

 

A minha geração é vítima de um dos grandes paradoxos da geopolítica manhosa: ter sido instruída a odiar, ou no mínimo menosprezar, um país vizinho para que os regimes de ambas as ditaduras fronteiriças fossem unidos como a unha é com o dedo.  Não fujo à regra nem dou como tempo perdido o perdurar do preconceito de malquistar os espanhóis e as espanholadas. Pela simples razão de ter sido compensado com generosos juros. De tanto detestar Espanha e os espanhóis, fiquei com uma enorme sede de descobrir os locais do ódio, as suas raízes e os energúmenos que lhe fizeram a história e lhe davam o proveito da existência. E como o condómino que se vai interessando cada vez mais pela descoberta da sensualidade de uma vizinha que cada vez apetece mais, entrando pé ante pé na sua intimidade, acabei nisto: apaixonado sem remédio pela vizinha a quem antes apenas se grunhiam umas boas tarde e por favor. E digo-vos: ainda a missa erótica vai a metade pois que a Espanha por e para descobrir é obra para mais que uma vida. E eu confesso, da sua mama esquerda ainda não passei no desfrute, apesar do tour de voyeur por quase todo o seu corpo. Mas se gosto de Espanha e de alguns espanhóis, e eu só sei gostar muito, não gosto nada da “Hispanidad” (não esqueço os mapas da Península que a Falange divulgava), por muito mesmo nada que isso pese à empresa literária Saramago & Pilar, SA.    
 
O dito foi mero intróito para dizer que, pelas razões expostas mais pelo fascínio de boca aberta pelos hinos ao futebol que plantaram neste Euro, amanhã serei um espanhol frenético a torcer pela “nossa” Espanha. E pelo seu jogador que é o mais espanhol de todos, o demonstrador que não há um povo espanhol mas muitos povos espanhóis, o melhor jogador que passou por este Euro, Marcos Senna, essa Catedral melhor que a de Burgos (até porque este génio não perde um minuto a decorar o campo com enfeites góticos, antes sendo um santo calvinista na precisão pragmaticamente divina do passe), a dominar a eucaristia do meio campo, essa mãe santa de qualquer rectângulo onde se pratique o futebol moderno. E, para que dúvidas não restem, aqui fica já a bandeira hasteada, a que amanhã me vai enfeitar a mão para assistir à desfeita aos teutónicos.
 

Mañana por la tarde: Que Viva España! OLÉ!

 

Publicado por João Tunes às 16:12
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Terça-feira, 24 de Junho de 2008

BERLIM, HÁ 60 ANOS

 

Há precisamente 60 anos, Estaline fez o primeiro grande teste à capacidade de resposta ocidental ao seu poder de iniciativa no quadro da Guerra Fria, recolocando o espectro da guerra (agora com novo alinhamento das partes, dividindo os vencedores que três anos antes haviam vergado a Alemanha nazi). Com ambos os lados a possuírem armamento nuclear. E outra vez tudo parecia querer recomeçar na Alemanha. Mais concretamente, em Berlim.
 
Numa decisão temerária, contando com o efeito do medo e do pânico, em Junho de 1948, Estaline decidiu encerrar todos os acessos terrestres a Berlim Ocidental, transformando em reféns 2,2 milhões de berlinenses, privando-os de tudo, incluindo comida e combustível. Ocupada toda Berlim, desbaratada toda a Alemanha, o Exército Vermelho chegaria até à fronteira com a França, depois o PCF e o PCI fariam o resto que havia a fazer e a Europa seria vermelha.
 
Mas os ocidentais responderam. Uma gigantesca ponte aérea, que durou 320 dias ininterruptos, totalizando 280.000 voos, numa média de 900 voos diários, com aterragens de três em três minutos, foi montada para auxiliar Berlim e para onde foram transportadas 2,3 milhões de toneladas de mercadorias.
 
Berlim resistiu. E a 12 de Maio de 1949, foi Estaline que recuou, engolindo a provocação. A força bruta soviética não resultara face à determinação, meios e tecnologia do inimigo capitalista. O mundo respirou de alívio. Sobretudo os berlinenses. Com o preço de terem de esperar mais quarenta anos, por 1989, para terem a cidade reunificada e sem muro a dividi-la. Mas o pior, uma hipótese bem real de se reacenderem as labaredas da guerra, tinha passado.
 

No meio da miríade de pequenas e grandes discórdias dos nossos dias, e porque a memória é sempre curta, quantas vezes os europeus se lembram que não foi há muito que estiveram à beira de tudo perderem, pulverizando-se o continente nas poeiras de cogumelos atómicos?

 

Publicado por João Tunes às 12:31
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FINALMENTE

 

Encontrei alguém que me entende.

Publicado por João Tunes às 11:38
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ASSIM DE REPENTE: ALTO E PARA O BAILE!

 

Acho que há motivos para se acabar com um blogue. Muitos. Como se aceita que um blogue acabe sem motivo algum. Fecha-se a porta, já está. Só. Pois se não se pede licença para se abrir porque razão havia que justificar-se o motivo de encerramento?
 
Mas, francamente, fazê-lo só porque se falhou rotundamente na previsão-aposta sobre as equipas finalistas do Euro 2008
 
Os leitores amealhados ao longo de mais de quatro anos pelo besugo e pela lolita (mais os outros companheiros que foram ficando pelo caminho) não mereciam este final de tango. Dito com toda a solenidade: isto não se faz.

 

Publicado por João Tunes às 11:03
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