Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

DO TABU DO ISP PARA O DISPARAR DO DÉFICE

 

Tento evitar a fadiga por martelar demais na mesma tecla, para mais quando a alcateia dos demagogos desatou a uivar. Mas se o despautério é muito, há que ter paciência. E persistência, para não entregar a arena aos epilépticos das campanhas e boicotes.
 
Bem verdade que o uivo se tornou mais forte por parte dos auto-motorizados quando estes se sentiram atingidos. Que já levou uma parte deles ao desatino de criminalizarem uma empresa pelo odioso da crise. Mas olhemos mais fundo, para o país, para a economia. Ou seja, para as actividades económicas em que o peso dos custos dos combustíveis pesa muito, para a conexão na teia de actividades, para os postos de trabalho que dependem das empresas em que o peso dos combustíveis é crítico. Pese-se tudo e tenha-se em conta o essencial que está além do folclore dos automobilistas à beira da histeria do desespero.
 
Numa análise centrada na receitas de impostos, sem desejo de desvio ao objectivo do controlo do défice, o que acontece, na escalada altista com os preços dos combustíveis? Cristalizando a posição de não abrir mão da colecta do actual valor do ISP, havendo muitas empresas e actividades que encerram, o que o Estado irá perder em perdas de impostos (IRC, IVA) e aumento de encargos pelo aumento de desemprego, não representa um valor muito superior ao da receita do ISP que se perderia pela sua redução parcial?   
 
Fácil será concluir que a teimosia do governo em não mexer no tabu do ISP é o caminho mais rápido para acelerar uma gravíssima crise económica e social, estoirando, em simultâneo, com o controlo do défice, pela avalanche de perdas de colecta de tributações sobre empresas e actividades incapazes de competirem devido aos impostos cobrados à cabeça em custos de matérias-primas e combustíveis.
 

Olhe-se para aqui, mais uma vez, e façam-se as contas simples de fazer, comparando-se o que há para comparar no panorama europeu. Depois, responda-se à pergunta: onde está o problema português?

 

Publicado por João Tunes às 23:27
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CAMPANHA TODOS GREGOS

 

Será que não vale a pena metermo-nos estrada fora e irmos abastecer a viatura com gasolina até o depósito se enfartar, Europa fora, até à Grécia?
 
Entretanto:
A Grécia é um dos países mais bonitos da Europa, é riquíssima em memórias de uma civilização nossa mãe, os gregos são simpáticos, muitas das gregas são de arregalar o olho e os sentidos, a maneira de ser deles é mais parecida connosco que a dos espanhóis, restando apenas o problema da língua e do alfabeto, nada que o esperanto dos tempos modernos não resolva e de que se compensa o incómodo com a sua boa música, o excelente peixe e os ainda melhores vinhos.
 
E:
Embora as refinadoras e distribuidoras gregas entreguem a gasolina nos Postos a um valor mais caro que aquele que a Galp faz por cá, como não abusam no ISP e no IVA, cobram, no preço final, muito menos que os espanhóis, sendo os que menos cobram ao consumidor na Europa (ver quadro aqui).
 

Então: Viva o Zorba! (pois para quê suportar a pasmaceira que é Badajoz?)

 

Publicado por João Tunes às 22:02
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CULTURA E MORTE

 

Alfonso Cano (pseudónimo de Guillermo Sáenz), o bandido da foto, que foi estudante de Antropologia antes de se dedicar ao terrorismo,sucedeu a Tirofijo como novo chefe máximo das FARC.
 
No emaranhado complexo em que se cruzam o progressivo decapitar da direcção das FARC, o desgaste pela decadência da guerrilha, onde as deserções têm subido em flecha, as tensões entre “militaristas” e “políticos”, entre os que apostam no suicídio do irredentismo do fogo das armas e os que se dispõem a uma saída política, entre a estratégia político-militar versus os poderosos interesses do narcotráfico que hoje sustentam a guerrilha e lhe dão enorme poder financeiro pela venda de cocaína, mais o fardo do peso do repúdio internacional pelas dezenas de sequestrados, são mais as dúvidas que as certezas quanto ao que vai resultar da débil liderança de Alfonso Cano.
 

A lógica do banditismo político é sempre difícil de decifrar. E ainda menos fácil é quando o bandido maior passou a ser, como agora nas FARC, um antropólogo armado de espingarda pronta a matar. Porque, em vez da velha dicotomia entre a cultura e a morte (como aquela que opôs Milan Astray e Unamuno, em Salamanca e no despontar da tirania de Franco), temos, agora e na Colômbia, um caso de fusão tentada entre as duas.

 

Publicado por João Tunes às 15:17
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O EXTINTOR DE ATEUS

 

Não supunha que Marx tivesse vivido há tantos milénios para ter nascido, escrito e morrido em época anterior à difusão da ideia de Deus (que, por precedência, só pode ter sido uma construção cultural num mundo ateu, ou seja, pré-religioso). Mas César das Neves, levando a história à missa, (re)nasceu o mundo com a religiosidade já metida no corpo por atavismo da alma. É que o professor não faz por menos:
 
A fragilidade lógica do ateísmo é pouco relevante por ser um fenómeno elitista ocidental contemporâneo que, exportado à força pelo marxismo, está em extinção.

 

Publicado por João Tunes às 13:07
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INTERVALO PARA OS NÚMEROS

 

 

 

(copiado daqui)

 

Publicado por João Tunes às 12:23
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Domingo, 25 de Maio de 2008

HINO SEMI-PLAGIADO PARA UMA CAMPANHA SEMI-ALHEIA

 

Uma campanha como deve ser tem de ter todos os condimentos mobilizadores. Se Logo já tem, palavra de ordem também, falta-lhe o Hino. E o Hino é fundamental. Aqui está, graciosamente proposta a partir da bancada da oposição, uma sugestão de Hino (a letra foi mascavada a partir do original de Carlos Nóbrega e Sousa, a música pode ser a genuína congeminada pelo mesmo autor, na orquestração siga-se à risca a pauta de Fernando Correa Martins, quanto à interpretação que ela seja a aproximação possível da inesquecível performance de Manuela Bravo). Vamos lá, então:
 
 
Sobe, sobe balão sobe
Sobe, balão laranjinha
Eu vivo a sonhar
Que não atesto na Galp
Não pensem mal de mim
Quanto mais não vale
Viver a vida assim!
Nas asas do sonho
P’la Repsol, viva o Rei!
P’la BP, viva Isabel que é Rainha!
É bom andar sem norte
Não preciso vistos
Nem uso passaporte
Não tenho limites
Parar não é comigo
E acelero sem gasóleo Galp
Meto no Jumbo onde é baratinho
Se ouço o meu amor
Dizer: eu vou contigo!
Ter essa certeza
É luz de um novo dia
Vai, meu balão d’oiro envolto em fantasia
Sobe, sobe balão sobe
Sobe, balão laranjinha
Na Galp nunca e não
Dá lucros, ricos p’ra lá
Rico é p’ra pagar crise
Gasolina pr’a quem trabalha
Venceremos com Jumento à frente e Luís atrás
Com meu depósito isso não
Vai pedir àquela estrela
Que me deixe viver … e sonhar
Sócrates sem mexer no ISP
Que pró défice bem precisa
Levo os meus amores comigo
Sócrates, BP e Repsol
Pois eu sei que encontrei
O lugar ideal para boicotar
Sobe, sobe balão sobe
Sobe, balão laranjinha
Vai pedir àquela estrela
Que me deixe lá viver … e sonhar
Nesta campanha sem par
Levo os meus amores comigo
Sócrates, BP e Repsol
Pois eu sei que encontrei
O lugar ideal para boicotar
Sobe, sobe balão sobe
Sobe, balão laranjinha
Vai pedir àquela estrela
Pr’a na Galp não atestar
Enquanto a OPEP se governar
Sobe, sobe balão sobe
Sobe, balão laranjinha
 
Vale?

 

Publicado por João Tunes às 01:38
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Sábado, 24 de Maio de 2008

UM RONALDO II, MAS MADURO

 

Um companheiro da “nossa selecção” que gasta 90% dos posts a falar de futebol, aqui foi para a marca de penalty, não fez tentativa parva de paradinha, e meteu-a lá dentro:
 

A sintonia entre Ferreira Leite e Passos Coelho é emetizante.
Faz náuseas.

 

Publicado por João Tunes às 23:21
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OS MUITO RICOS E OS MUITO POBRES

 

Bem visto. Oportuníssimo, justíssimo. Tanto mais que aquilo que auferem os “Executivos” da Repsol e da BP deve oscilar entre o salário mínimo e o subsídio de reinserção social. E alguns deles, quem sabe, talvez se sirvam do Visa Gold para irem à Sopa do Sidónio aos Anjos.

Publicado por João Tunes às 22:59
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A PRÓXIMA FESTA DO AVANTE VAI TER BANDEIRA A MEIA HASTE?

 

O narco-tráfico, o banditismo sequestrador e o terrorismo estão de luto. Não a democracia, nem a liberdade, muito menos a luta dos explorados. E se a dor e o luto que esta gente espalhou e espalha não pesasse como pesa, poder-se-ia dizer, em alívio e à maneira de um “jogo de batalha naval”:
 
- Tirofijo ao fundo!
Publicado por João Tunes às 22:03
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FORÇA CAROLINO, A LUTA CONTINUA!

 

Porque o carolino é um arroz de alta qualidade e que só exige ser bem cozinhado!
 
Não, esta tirada não constou de qualquer prédica culinária proferida pelo Mestre Silva. É retirada de uma charla de Jerónimo Sousa dirigida, ontem, aos orizicultores do Baixo Mondego. Quem consegue imaginar, por memória na história e recordando Bento Gonçalves, Pavel, Fogaça, Cunhal e Carvalhas, um dirigente maior do PCP a meter esta colherada num seu discurso?

 

Publicado por João Tunes às 16:09
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UMA COINCIDÊNCIA NO OLHAR O SUL

 

Uma coincidência será uma das formas fáceis de provocar uma tentativa de raciocínio político. Sobretudo nesta era de incertezas em que todas as âncoras ideológicas se mostram mancas por caruncho. Quando regressado de mais uma minha estadia em Cabo Verde, rebentou o escândalo controlado de um cantor mediático apontar o dedo à cleptocracia angolana, porventura com exagero medido no libelo provocatório. Daí a pensar na herança do pós-império português, encadeando comparações (pecado venial a caminho de mortal) é um passo de tentação. Irresistível, porque os pólos da bateria ficaram a acenar convite de sedução à energia de neurónios politizados.
 
Angola era a “jóia do império”, a mais difícil de largar, aquela que seria a última a guardar, juntando-se, em contraponto, o anticolonialismo mais débil e dividido. Ao petróleo e diamantes, somou-se uma independência mais geopolítica que nacional e tão volúvel e venal que não pestanejou na hora de mudar de amores a Brejnev e Fidel pelos bons amanhos com o Tio Sam. Hoje, Angola é o que é, não “nossa”, mas longe, muito longe, de ser dos angolanos. E é um dos expoentes mais detestáveis da parte rica de África, como a querer demonstrar que, depois de Mobutu, o pior ainda podia estar para chegar.
 
Cabo Verde era a colónia portuguesa mais longe de querer ser independente, a não ser no pensamento do lunático genial que foi Amílcar Cabral. A maioria dos caboverdianos pensava Cabo Verde, entregue à sua dimensão brutal de carências, como uma peça que, se solta, seria inviável. Sonhavam, quando muito, nos intervalos da morte pela seca, que mereciam, em salvação, um Alberto João mestiço a cantar mornas e a dançar coladeras e funáná, enquanto sacavam uma ajudas de migalhas gordinhas caídas da mesa do orçamento dos tugas que, durante séculos, refinando eroticamente o uso das ilhas como entreposto negreiro, tinham ganho gosto por camas de pretas e de cabritas. Hoje, Cabo Verde é a referência mais positiva em África, o melhor que, politicamente, África produziu. Tem uma democracia estável, com liberdade de expressão e alternância dependente somente do voto, saltou por cima da míngua e da fome, com um início incipiente de vida universitária local, tenta gerir o problema gordo do desemprego nos licenciados, tantos são eles. Honra os seus compromissos e é considerado internacionalmente como o ajudado mais exemplar pela forma escrupulosa como aplica e presta contas dos auxílios que recebe.
 
O colonialismo tardio que resultou da teimosia a-histórica de Salazar deu no que tinha que dar. Bem à imagem da sociedade anacrónica que plantou na metrópole em que tentou opor o atavismo à modernidade, numa segmentação anacrónica entre camadas sociais gostando de ser caricaturas. E que perdura na herança pós-colonial: desde o pobrezinho honrado e aplicado nos estudos até ao bando de senhorios ricaços e absentistas a gozarem herança rica de padrinho que desertou para parte incerta. 
 
É tão fácil raciocinar na base de uma coincidência, não é? É. Peço desculpa.
 

Nota: Este post esteve “congelado” em espera de publicação (por uma peripécia editorial na blogosfera). Naturalmente que se ressente de alguma passagem de tempo sobre a altura em que foi escrito. Mesmo assim, que mais não seja por teimosia, aqui fica editado. É que, como dizia o outro, “ninguém cala a voz da classe operária”.

 

Publicado por João Tunes às 12:33
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Sexta-feira, 23 de Maio de 2008

MAIS UM BODE EXPIATÓRIO PARA A COLECÇÃO (2)

 

(Versão revista após constatar que tinha cometido o lapso de referir o ISP como uma tributaçção percentual, quando esta tributação é fixa e estabelecida por portaria governamental. Nos impostos aplicados aos derivados petrolíferos (ISP + IVA), só o IVA é percentual - portanto, subindo conforme sobe o valor "preço + ISP" - , o que confirma que pela vaga altista dos preços dos combustíveis há uma maior colecta de impostos pelo Estado, via IVA.)

 

 

Neste meu anterior post, o Luís Novaes Tito respondeu-me (ver comentários) e lançou-me um desafio, retomando ainda a polémica aqui. Antes que se faça tarde, aqui vai a tréplica (pois a campanha dele vai de vento em popa, talvez já ameaçando que a Galp saia do mercado, deixando-nos, assim, com o problema energético resolvido):
 
Caro Luís,
 
Permita que, mais uma vez (para desconto das tantas vezes que comungámos na mesma eucaristia), o contrarie.
 
Percebi agora que a sua fúria direccionada contra a Galp parte de duas premissas: primeira, que a Galp é portuguesa; segunda, que a Galp arrecada “lucros inacreditáveis” pela escalada nos preços dos combustíveis numa óptica diabólica de “agravar a carestia de vida dos seus concidadãos”. O problema primeiro é que ambas as suas premissas estão erradas. A Galp, hoje, não é “portuguesa” pois nela dominam, nos seus interesses accionistas e respectivas decisões, mais a ENI e a Sonangol que, do bando lusitano, o (patriota mas capitalista nas horas de serviço) Américo Amorim, a pequena parcela remanescente do Estado português (a que a UE retira a modalidade de “golden share”) e os pequenos aforradores portugueses que, para o caso, são invertebrados nas tomadas de posição da companhia. Verdade, que até parece mentira, os “lucros inacreditáveis” da Galp não se devem ao aumento dos preços dos combustíveis no consumidor (lucros chorudos e crescentes são os de Chavez e parceiros, mais, por cá, os do ISP e IVA – num sistema de dupla tributação em que o IVA incide percentualmente sobre produto antes já tributado pelo ISP – que revertem para o Estado).
 
Como sabe, pois se não soubesse não se oferecia para liderar este ciber-boicote à Galp, há dois tipos de cotações que regulam o mercado internacional do petróleo e derivados: o do crude (matéria prima) e o dos derivados (gasolina, gasóleo, etc). O primeiro tem a ver com os controladores da exploração e produção (a Galp é um actor muito pequenino) e o segundo com as grandes refinadoras e distribuidoras/comercializadoras (onde a Galp é quase um figurante). Quem tem, produz e exporta petróleo, está a ganhar balúrdios, sobretudo quando controla com eficácia, como está a acontecer agora, a relação oferta-procura. Este negócio é independente do dos derivados e se a Galp nele, de há pouco tempo a esta parte, obtem bons proveitos é porque soube inverter a política suicida da gestão Mexia que incluía a radicalidade suicidária de liquidar a inversão da Galp neste domínio. Talento e muita sorte (ao apostarem em zonas com boas reservas e de não elevados custos de exploração) das gestões pós-Mexia permitiram que a Galp apostasse bem em Angola e Brasil e isso explica, em grande parte, que ano e meio depois de lançar-se na Bolsa, as acções da Galp mais que tivessem triplicado a sua cotação. Apesar de assim não parecer, a cotação dos derivados é autónomo e rege-se por outra relação entre oferta e procura e em que compete sobretudo a eficácia em produtividade e tecnologia de refinação. Este foi historicamente o calcanhar de Aquiles da Galp que acumulou, anos a fio, prejuízos na actividade refinadora (tantos que a Refinaria do Porto viveu décadas sob a ameaça permanente do encerramento). Também aqui, após o momento histórico-empresarial em que a Galp se livrou da gestão Mexia, por investimento, modernização e motivação, o parque refinador da Galp conseguiu passar a colocar refinados alinhados nos preços de cotação no mercado e com margem refinadora positiva. E, consequentemente, transformar uma faixa de prejuízo numa actividade lucrativa. E, curiosamente, indo ao que mais interessa para o caso (preços no consumidor), é no mercado de retalho (nos postos de abastecimento), a “menina dos olhos” quando da gestão Mexia, pelo efeito demolidor dos preços finais dos derivados com retracção inevitável no consumo, que a Galp tem vindo a decair nos seus resultados (que levou, como exemplos, a que o gigante Shell abandonasse as redes de postos em vários países europeus, incluindo Portugal, concentrando-se na exploração e na refinação, assim como que a Exxon vendesse as suas posições portuguesas sob marca Esso à Galp).
 
O efeito da cotação do dólar face ao euro não é para aqui, para este argumentário, chamado. As cotações de crude e dos derivados que regulam os preços no consumidor estão traduzidos em euros (claro que se, no caso, o dólar não descesse tanto face ao euro, o quadro do impacto energético seria bem mais dramático que aquele que é hoje).
 
Hoje, se a Galp apresenta os lucros que tem, sendo tempo de vencermos preconceitos serôdio-soviéticos contra a eficiência que leva ao lucro, estes não se relacionam absolutamente nada com a alta de preços na gasolina e no gasóleo (ao contrário, pela retracção no consumo, perde quantidade vendida e perde margem total de lucro por comercialização). Estes vêem, e são meritórios, de outras actividades que antes eram incipientes ou deficitárias (exploração e refinação).
 
Como regra internacional adoptada entre companhias petrolíferas, não se podem transferir resultados-lucros entre segmentos da actividade. Se se fizesse isso, haveriam apenas, em todo o mundo, quatro ou cinco companhias que cartelizavam o mercado mundial do petróleo desde a exploração até a distribuição e podendo fazer “dumping” no sector de negócio que lhes interessasse. Assim, para falarmos dos preços nos postos de abastecimento, as referências únicas são as cotações internacionais dos derivados do petróleo (gasolina, gasóleo) e a cotação do petróleo bruto só é para aqui chamada na medida em que influencia, com peso elevado como custo de matéria-prima, os preços à saída das refinarias (levou a que, no primeiro trimestre deste ano, a margem de refinação da Galp caísse para metade da do ano anterior). E, nestas cotações, os preços à saída das refinarias da Galp são tão competitivas no mercado europeu que as suas concorrentes com postos de abastecimento em Portugal (Repsol, BP, etc) se abastecem na Galp e só trazem uma parte ínfima de produtos finais das refinarias espanholas ou francesas.              
 
Se todas as companhias com postos de abastecimento em Portugal se abastecem sobretudo na Galp, nada as obrigando a isso, é simplesmente porque a refinadora portuguesa é competitiva nas componentes produto+distribuição. E, depois, aplicando idênticas margens de comercialização (que são reduzidas e praticamente insignificantes no valor do custo final, podendo ir até próximo do zero no caso dos hipermercados que vendem combustíveis não para lucro mas como chamariz de outras vendas), acabam por vir para o mercado com os mesmos preços, mais dia menos dia, pois os produtos aparecem ao consumidor com os mesmos dois ónus brutais: o custo do crude e os impostos sobre combustíveis.
 
O problema gordo, na alta dos preços dos combustíveis que sofrem os consumidores, está na sua tributação fiscal que se soma à alta da matéria-prima. Sendo o ISP uma tributação pesadíssima, o IVA vai subindo de valor pois incide sobre o preço do produto após ser tributado pelo ISP. Hoje, a tributação fiscal representa mais de metade do preço pago pelo consumidor. E não pára de aumentar, via IVA, consoante o crude aumenta e aumenta a gasolina e congéneres. Enviesar o problema, dirigindo-o para as companhias distribuidoras, no "caso da campanha" para apenas uma delas, é "tirar da chuva" a solução que é possível porque é política, e que está na mão do governo, que reside em rever os seus crescentes "lucros chorudos" cada vez que os preços do petróleo aumenta, agravando a crise, em vez de contribuir para o seu amortecimento. Assim, objectivamente, este "malhar na Galp" é uma graça que se tem para com as companhias concorrentes da Galp e serve de guarda-vento ao governo, um dos grandes beneficiários com a presente crise (em termos de receita fiscal, quanto mais subirem os preços, mais sobe o valor colectado).
 
Não somos produtores de petróleo no nosso país. Não temos meios de influenciar os preços e a escalada altista do crude. Não podemos impor às companhias refinadoras e distribuidoras que se afastem da competitividade perante cotações internacionais dos derivados, muito menos que se prestem a "dumping", distribuindo abaixo do custo. Se não aguentamos o efeito devastador dos actuais e previsíveis preços finais, o que podemos fazer para evitar o apocalipse no mercado dos combustíveis? Só há um caminho de efeito imediato (além da diversificação das fontes energéticas que só terá efeitos a médio e longo prazos): rever imediatamente a política fiscal da tributação sobre os combustíveis (baixando o valor do ISP, pois não faria sentido mexer no IVA, permanecendo em aberto o problema duvidoso da aplicação da dupla tributação). É aqui, só aqui, na tributação fiscal sobre os combustíveis, que reside a nossa diferença com Espanha e não no preço dos derivados à saída das refinarias. Mas quando a mama é boa, a vontade atractiva pela teta resvala para o sensual, não é? Diga-se então que o governo está bloqueado no encontro de soluções corajosas porque vive em êxtase saboroso perante uma "facilidade" de equilíbrio orçamental com que a alta do crude lhe afagou o regaço. Mas não se façam desvios eróticos para encontrar "tarados" onde apenas se cumprem as regras do mercado e nele se compete com sucesso. Como foi essa de escolher-se a Galp para alvo de uma campanha selectiva, injusta e arbitrária. Para mais, com o argumento miserabilista, género o da esquerda radical para com a banca e empresas de sucesso, que a culpa vem sempre onde existam "lucros chorudos" (e que são "peanuts" comparados com os lucros dos grandes conglomerados petrolíferos mundiais, como a Repsol, a BP e outros isentos das campanhas de "boicotes" à lusitana).
 
A “boa” da Repsol (hoje um grande distribuidor em Portugal, após ter comprado a rede da Shell), tão “boa” que o Luís a poupou da ciber-campanha de boicote que decidiu liderar, pratica preços idênticos ao da Galp. Porque não pedir à feliz contemplada pela isenção de boicote que pratique aqui, em Portugal, os preços que pratica em Espanha? Se lhes dirigir tal pedido, os da Repsol, explicar-lhe-ão que: primeiro, compram produtos às refinarias da Galp porque esta companhia lhes vende derivados a preços inferiores aos das suas refinarias espanholas; segundo, praticam margens de comercialização idênticas às da Galp, estas são pequenas e não as podem encolher mais; terceiro, as diferenças de preços entre Portugal e Espanha é mera questão de impostos cá e lá. Ora bem.
 
Abraço, meu caro e sempre leal companheiro e amigo Luís.
 
PS- Quanto à sua campanha, continue com toda a inspiração. Por mim, use esse direito à vontade, embirrando com quem entender. O mesmo direito que usarei, sempre que o entender, para fazer contra-campanha a este seu injusto ataque selectivo a uma grande companhia que, pelo empenho profissional dos seus trabalhadores e méritos da sua gestão, suscita animosidade pelo seu sucesso. Desejo-lhe, finalmente, que os "nuestros hermanos" da Repsol lhe agradeçam a campanha com um sonoro "viva o Rei".

 

Publicado por João Tunes às 23:36
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MAIS UM BODE EXPIATÓRIO PARA A COLECÇÃO (1)

 

O meu caro amigo Luís que me desculpe, mas, no meu modesto entender, esta campanha não faz qualquer sentido. Transferir e concentrar o ónus do ódio numa operadora petrolífera, devido ao aumento dos preços do crude (decididos pela OPEP), é construir-se, perante um problema que é gravíssimo (as consequências da escalada, ainda não terminada, do aumento galopante do petróleo bruto), um bode expiatório. E se os produtores e exportadores de petróleo persistirem, como é seu direito, em aumentarem o preço do barril de crude, só há duas vias eficientes a seguirem-se: acelerar a utilização de energias alternativas e/ou desonerar os derivados do petróleo das suas cargas fiscais (o que implica ir buscar impostos a qualquer outra fonte), revendo a política da receita com o ISP concebida no tempo em que o crude se comprava barato. Bater na Galp, e apenas na Galp (*), só pode ser por querer-se ser fiel à tradição portuguesa da auto-flagelação. Para provável riso de satisfação dos que, em Espanha, querem construir uma refinaria na Extremadura, à beira do Alqueva (mas que não vai fazer baixar um cêntimo na gasolina). Claro que esta pouco clarividente campanha não vai dar em nada. A não ser afunilar ódios perante problemas reais, batendo no “nacional” como se a santidade estivesse na Repsol, na BP ou nos seus irmãos tubarões do negócio mundial petrolífero (em que a Galp é um grão no areal).

 

---

 

(*) - Selectividade esta que já se entende quando vem de chefes de agremiações que têm acordo de parceria com empresas concorrentes da Galp, prolongando assim as amizades-negócios.

 

Publicado por João Tunes às 18:29
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COM O SAGRADO NÃO SE BRINCA, INDIANA JONES

 

Sendo assim:
 
Os comunistas de São Petersburgo, segunda maior cidade da Rússia, exprimem indignação pela estreia do filme de Steven Spielberg “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” na Rússia, considerando que a película tem por objectivo “provocar uma onda de anti-sovietismo, criar na juventude moderna uma ideia deturpada da política externa soviética da URSS nos anos 50 do séc. XX”.
 

então boicote-se já a fita do Spielberg também por cá. E, no seu lugar, metam em re-exibição, com descontos para candidatos a revolucionários e direito a análise científica sobre democracias e não democracias feita por Bernardino Soares, o “Couraçado Potemkine”. Para mais, quando se comemoram os 190 anos de nascimento de Karl Marx e os 160 anos do Manifesto do Partido Comunista. A estabilidade democrática não aconselha que proliferem os comunistas zangados.

 

---

 

Adenda: Este post foi transcrito na secção "Blogs em papel" do Jornal "Público" de 24/05/08.

 

Publicado por João Tunes às 17:50
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A INFLUENCIADORA

 

Manuela Ferreira Leite usou como trunfo eleitoral a sua capacidade de influenciar governos, assacando para a sua campanha a inspiração de algumas das últimas medidas de Sócrates no domínio da “sensibilidade social”. Não sei se a senhora candidata reparou que, assim falando e assim se gabando, mudou de objecto de candidatura. Agora, resta-lhe a esperança de vir a ser, na próxima legislatura, assessora de aconselhamento do próximo governo de … Sócrates. Francamente, fraco objectivo para tanto incómodo.

 

Publicado por João Tunes às 17:07
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