Terça-feira, 25 de Março de 2008

BOICOTE DOS JO = ESTUPIDEZ DO BOICOTE ECONÓMICO DOS EUA A CUBA

 

Se o Gabriel Silva me permite, eu assino por baixo:

 

Os Jogos Olímpicos de Pequim são uma oportunidade de ouro para qualquer causa política, do Tibete, à liberdade de expressão, aos direitos humanos, Taiwan ou outras relacionadas com a China. E, em sentido contrário, constituem objectivamente um sério risco político (que não comercial), para o regime chinês. Durante mais de seis meses, qualquer iniciativa política, pequena ou grande que seja, terá uma enorme repercussão e nesse sentido será uma pressão permanente sobre o regime, que, sem os JO, nunca alcançaria. Manifestações em Lhasa, um blogger que seja preso, uma manifestação em Hong-Kong que corra mal, a pretensão de Taiwan para estar presente, qualquer que seja a reacção que o regime tenha, terá um eco, não apenas instantâneo, mas imenso em todo o globo.
Alguns activistas perceberam bem cedo isso e, muito bem, organizaram-se. E não será de espantar que outras acções mediáticas surjam nos próximos meses. Pelo seu lado, as autoridades também se terão prevenido e haverá planos de contra-acção. Julgo que caberá às dezenas de milhar de jornalistas que nos próximos meses por lá passarão, agirem com olhar critico e não se deixarem manipular totalmente pelo regime, por forma a que se possam forçar algumas mudanças e obter alguns resultados. A pressão pública também terá o seu efeito. Nenhum regime gosta de ser apontado, meses a fio, como o «mau da fita» e, com a realização dos JO, ele não estará em condições de agir sempre na base da força.
Por isso mesmo, no meu entender, falar de boicotes não faz sentido. O evento JO em si mesmo só ganha força se todos os atletas, os melhores, puderem competir livremente e em confronto directo com os principais oponentes. O que não aconteceria com um boicote. A diminuição do peso institucional e desportivo dos JO causaria frustração injustificada em centenas de atletas e tornaria os JO numa farsa parcial em termos desportivos. Mas não se entende a troco de quê. Em termos políticos nada se ganharia. Politizar uns JO parece-me legítimo, pressionar um regime, tratando-se ainda para mais de uma ditadura, tudo ok. Mas destruir-se ou enfraquecer-se a única força que pode ser sentida como pressão pelo regime parece-me um disparate político. Um boicote será uma forma de derrota antecipada pela perda de força do evento que chama a atenção para as causas. Uns jogos abertos serão mais difíceis de controlar do que uns jogos para os amigos.

Publicado por João Tunes às 23:40
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“BLOGAR” EM CUBA

 

Como é? Ler aqui.

Publicado por João Tunes às 17:08
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CAVACO E A HISTÓRIA POSITIVA NA BEIRA DO ÍNDICO

 

A frase de Cavaco Silva, proferida em Moçambique: "A história é feita por pessoas, com os seus defeitos e virtudes, e quando olhamos para a história encontramos aspectos positivos e negativos. Eu tenho tendência a ver nela os aspectos positivos" merece ser pensada. Não porque o Presidente, como qualquer cidadão, não tenha direito à sua parcialidade, positivista no caso. Tanto como outros que se fixam apenas nos “pontos negros”. Desde, é claro, que sejam qualquer coisa menos historiadores de profissão e com um mínimo de higiene ética, mas esses são poucos e estão devidamente confinados dentro dos muros académicos. Se atendermos ao contexto, o significante irónico da interpelação foi que a resposta, com vestes de habilidade diplomática, vem de quem, muito antes de ocupar o cargo que agora o levou a voltar a Moçambique, ali cumpriu serviço militar na tropa colonial portuguesa e exprimiu-se assim como resposta à pergunta de jornalistas sobre se “Portugal iria pedir desculpa pelos massacres cometidos durante a guerra colonial”.

 

Provavelmente, Cavaco Silva não irá, nesta visita a Moçambique, peregrinar em penitência a Wiryamu, não fará questão de rezar na Igreja de Mucuti na Beira e não dobrará joelho por vergonha num qualquer dos vários campos de concentração e prisões onde a PIDE encerrava, torturava e fazia desaparecer os militantes nacionalistas moçambicanos. Como, passeando em Maputo, enquanto a esposa se banha em Malavane nos problemas sórdidos das urbes africanas de lixo e miséria, não vai querer admirar as acácias floridas por meio de ruas desertas tentando retomar a ordem há muito banida de mandar os negros saírem do passeio por onde vai branco a passear. E nada disso acontecerá porque Moçambique é outro e Cavaco Silva só fixa, na história, os “aspectos positivos”. E, para isso, como amuleto, homem prevenido que é, levou Eusébio na comitiva.

 

Cavaco Silva quer é mais investimento português em Moçambique. Como batido e indefectível economista que é, aposta nas mais-valias dos bons negócios para lavar as poeiras da história. Faz bem, dificilmente faria melhor. Nisso, em perspicácia do sentido histórico da actual cena mundial, Cavaco, melhor que muitos outros, entende bem que um bom negócio tudo lava.

 

Mas, pensando mais fundo, julgo que Cavaco, revelado mestre da arte do hóspede perfeito, o que fez, com a expressão escapista do seu parcialismo positivista da história, foi salvar a face do seu anfitrião, o Presidente Guebuza. Evitando a este o embaraço de ter que, seguindo Cavaco num hipotético pedido de desculpas pelos massacres coloniais, continuar a toada das culpas e desculpas, assumindo, perante o seu próprio povo, os crimes horrendos e colectivos da “Operação Produção”, chefiada por Guebuza ele mesmo (então em funções de Ministro do Interior), quando, à Pol Pot, Maputo foi varrida em vagas policiais arrebanhando moçambicanos a esmo para os largarem, com uma catana como meio único de subsistência, na aridez do Niassa, para morrerem ou transformarem-se em “produtivos”. E tudo misturado, desculpas em cima de desculpas, portuguesas e moçambicanas, daria um molho de bróculos a desembocar em embaraço diplomático. Evitando-o, Cavaco confirmou-se como um político a caminho do estado requintado. Parabéns, sendo assim. Quanto à história, não a dos optimistas espertos como Cavaco nem a dos pessimistas parvos que os há às carradas, secas igualmente as lágrimas de Eusébio em Malavane, seguirá após esta ligeira interrupção.

Publicado por João Tunes às 16:22
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HEY, TEATCHERS?

 

Não, não bate certo. Aposto que ninguém cantarolou ou gostou dos Pink Floyd, esse mega falhanço musical.

Publicado por João Tunes às 12:38
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O LIXO DAS PESSOAS NORMAIS

 

Sobre um jornalista-escritor que é “uma pessoa normal” quanto ao lixo, um comentário com todo o propósito:

 

José Rodrigues dos Santos não recicla o seu lixo. Ou o come ao pequeno-almoço, ou simplesmente não está para isso. "Na parte que lhe cabe, poupa água. Mas pouco mais. Reciclagem? Pois, isso não. Nem vidro, nem plástico, nem papel? Nada? «Não, não faço. Sou uma pessoa normal». Muitas pessoas normais reciclam. «A média do cidadão não recicla o lixo. É muito complicado. Um saco é azul, outro é não sei o quê, aquilo é uma confusão»" (pág. 97).

Lembrei-me logo dos tempos em que célebres cromos milionários vangloriavam-se de declarar o ordenado mínimo no IRS. Hoje piam todos mais fino porque o fisco não dá tréguas. Chegará um dia em que a poluição será encarada a sério e estes meninos preguiçosos, balofos e irresponsáveis terão vergonha de dizer chalaças destas e começarão a fazer o que espero se torne "normal" rapidamente. Se for preciso meter o fisco, a ASAE ou a imprensa ao barulho, que se meta. Até lá, alguém deveria ensinar a estes filhos da abundância, da irresponsabilidade e do desperdício o que é um vidrão, um embalão, um papelão, um oleão, um electrão. Verde, amarelo, azul, laranja, vermelho. Tudo com cores diferentes para evitar raciocínios complicados que, já se sabe, estes intelectuais têm os neurónios ocupados nas tramas dos romances que escrevem. E se alguém um dia lhe encher a casa com o lixo que ele próprio produz e o afogar no entulho de que não cuida, no desperdício que não separa e cujo destino não quer saber, ninguém levará a mal por isso.

Publicado por João Tunes às 12:15
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PELA HONRA DA MEMÓRIA DE JOSÉ GREGÓRIO

 

José Gregório (1908-1961) foi um destacado dirigente do PCP e pertence, por mérito, à galeria dos resistentes lendários que, na noite do fascismo, lutaram pelo ideal comunista, pagando o correspondente preço em entrega à luta e consequente sacrifício pela perseguição a que foi submetido pelos esbirros de Salazar. Muitos dos momentos altos da luta clandestina do PCP, contra a ditadura e pelo comunismo, contaram com José Gregório activo e no núcleo duro da direcção comunista. A doença quebrou-lhe as forças em 1956, o que levou ao seu exílio na Checoslováquia, onde exerceu o cargo de representante do PCP junto do partido congénere do país de abrigo e onde faleceu em 1961.

 

Decorrendo agora o centenário do nascimento de José Gregório, o PCP organizou na Marinha Grande, terra natal do recordado, uma cerimónia evocativa da vida e gesta deste revolucionário comunista. Sobre isso discursou um jovem e actual dirigente de cúpula do PCP, João Dias Coelho (ler aqui).

 

Este dirigente da "nova vaga jerónima" não tem idade para ter conhecido José Gregório. Possivelmente, documentou-se e escutou testemunhos para fundamentar o seu discurso laudatório e glorificador. Mas, pelo resultado, fez péssimo trabalho de casa na preparação da biografia. Porque lhe falta uma parte importante, a que respeita à forma como José Gregório viveu e interpretou as memórias das vítimas da paranóia das purgas estalinistas na Checoslováquia que conheceu, a reflexão que lhe proporcionou a amizade com Arthur London, seu vizinho, tendo-se tornado, na fase final da sua vida, um antiestalinista e adepto antecipado do “socialismo de rosto humano” que, após a sua morte, foi liderado por Dubcheck. Nem a forma como, pelo seu antiestalinismo, tardio e em fim de vida, José Gregório viveu os seus últimos tempos amargurado ao olhar o amontoado dos crimes comunistas que ele não supunha existirem e que lhe manchavam com dor sofrida uma causa a que tinha dado o melhor da sua vida. Dor que inquinou a sua relação com a direcção do PCP, essa clique conformista com todos os crimes que tivessem o carimbo da foice e martelo “made in URSS”. E que levou à vergonha de a sua campa no cemitério de Praga estar largos anos, sobretudo depois da invasão soviética de 1968, entregue à erosão da degradação pelo abandono.

 

João Dias Coelho não saberá tudo sobre aquilo que rabiscou discurso. Mas um dia aprenderá a saber (se o cadeirão da Comissão Política lhe permitir tal humildade de entendimento) que um homem, como os livros, é feito de vários capítulos. E são todos eles que fazem a obra. Apagar um deles é sacanice de editor. José Gregório, com nome dado a Avenida (e proximamente com direito a estátua) na Marinha Grande que o viu nascer, merecia preito a homem de trajecto completo, mesmo que contraditório, não pendurarem-lhe meio corpo toponímico como bastião do seu partido, agora entregue a quem tem contas por fazer com a história do comunismo real, reactivando, pelo mito, aquilo que José Gregório, no seu fim de vida, repudiou.

Publicado por João Tunes às 00:31
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Segunda-feira, 24 de Março de 2008

RAIVA CRISTÃ FOI COISA QUE NUNCA EXISTIU

 

César das Neves, virtualizando uma ideia histórica de perseguição continuada aos cristãos, enfiou a Opus Dei na contabilidade das vítimas dos tempos presentes. Assim:  

 

Mas o problema da Prelatura do Opus Dei vai mais fundo. Toma-se consciência disso ao vermos "acusados" de serem da Obra muitos leigos só por se afirmarem publicamente como cristãos, mesmo sem nada a ver com ela, como eu. Em particular, são-lhe atribuídos todos os católicos "conservadores", entendendo-se por esta palavras aqueles que querem seguir a doutrina cristã como ela é. Ser fiel ao Papa e à Cúria, acreditar nos Evangelhos, Credo e obras dos Padres, recusar as patranhas que os críticos do momento inventam, isso hoje é ser conservador e automaticamente do Opus Dei.

Um cristão é tolerado desde que não se note que o é.

No fundo, esse problema é o mesmo que vários outros grupos católicos foram tendo ao longo dos séculos. Em todas as épocas a Igreja sempre defrontou inimigos poderosos. Esses gostavam de isolar uma pequena secção de crentes para a mimosear com o pior das suas fúrias. Há cem anos eram os jesuítas; há 500 os dominicanos; hoje é o Opus Dei. Estes têm a honra da escolha do inimigo.


É muito curioso notar uma flutuação marcada nessa história da raiva anticristã. Conforme as épocas, no meio da enorme diversidade de carismas da Igreja, os movimentos escolhidos pelos críticos vêm alternadamente dos pobres e dos poderosos.

 

Trata-se de uma forma mal amanhada de tentar marcar um martiriológio cristão que nunca existiu historicamente em termos de fenómeno contínuo ou dominante. E, nesse sentido, César das Neves manipula como se propagandista da Opus Dei fosse (organização de vítimas a que diz não pertencer). Tão manipulada é a peça que não se sentiu, passado à escrita, o rubor nas faces do catedrático tribuno quando se esqueceu que existiu e existe uma raiva cristã. Parte dela feita poder que perdura.

Publicado por João Tunes às 22:59
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NÃO LEVEM A SÉRIO O PACHECO, PUM!

 

Já me fartei de explicar porque não aprecio JPP como comentador (sem que isso belisque o apreço que tenho pelo seu labor historicista). E nessa carta não tenciono escrever mais. Mas isto:

Pacheco Pereira ... está a esforçar-se para deixar de ser levado a sério.

sem a companhia anexada de um único, mesmo que breve, argumento contraditório, é mero despacho de chefe de uma repartição de fuzilamento censório. Livrai-nos, senhor! Mais depressa que do Pacheco.

Publicado por João Tunes às 22:25
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EXPLICOU, ESTÁ EXPLICADO

 

Causava-me estranheza que os antigos adoradores de Mao actualmente se estivessem a dividir entre os que se calam e os que moderadamente torcem pelo Tibete, enquanto os herdeiros do outro lado do cisma (e se houve agressivo e pertinaz porta estandarte do lado soviético contra a heresia chinesa, ele foi Cunhal) se afadigam agora na amizade indomada para com a via capitalista selvagem do comunismo chinês.

 

Mas a dúvida evaporou-se. Porque o Luís nos explica:

 

Eles sabem que, se até Cuba os vier a isolar, nada mais lhes restará senão ficarem com os olhos em bico.

Publicado por João Tunes às 17:13
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O HOMEM VESTIDO DE "CHABORA"

 

O que sugere as imagens deste senhor entrado na idade e fazendo figura de turista europeu em aparente disfarce de fingimento lúdico-folclórico, errando por terras exóticas? Talvez a resposta frequente seja de que se tratará de um maduro tonto com idade para ter juízo e, por falta dele, se travestiu de uma qualquer coisa que ele não é. Mas a resposta certa é que o senhor, orgulhoso da sua novíssima “chabadora”, que lhe foi oferecida como homenagem pelo régulo do Mejo (Guiné-Bissau), em sinal de gratidão e de homenagem da população local, não só não é um turista como se trata de um Coronel das Forças Armadas Portuguesas, Coutinho e Lima de nome pelo qual é conhecido. E uma homenagem justa não se recusa, ou tal não se deve.

 

O Coronel de Artilharia Coutinho e Lima, já com uma excelente folha de serviços a acompanhá-lo (escolhido por isso mesmo), foi colocado, no ocaso da guerra colonial, a comandar o reduto sul do dispositivo militar na Guiné-Bissau na desesperada resistência ao assalto final do PAIGC que visava varrer a presença colonial portuguesa naquele chão africano. Spínola esperava dele, cumprindo a lógica cumpridora de ordens vinda da cegueira ensarilhada de Marcello Caetano, que, se necessário, morresse no seu posto e, como ele, deixasse que os corpos de quem comandava, mais a população que protegiam, se desfizessem em mistura heróica e patriótica com pólvora e estilhaços. Sitiado no quartel em Guidedje, sujeito a um vendaval interminável de fogo e metralha, sem meios para ripostar nem aguentar além do martírio inglório (meios que pediu e não lhe foram cedidos), o Coronel Coutinho e Lima pendeu mais para a memória da lucidez do General Vassalo e Silva (o general maldito de Salazar por se recusar a cumprir a ordem do ditador de resistir suicidariamente à indefensável invasão indiana de Goa) que para o sacrifício colectivo inútil que Caetano e Spínola lhe ordenavam. Organizou a tropa e a população e, explorando o efeito surpresa, depois de destruir o que no quartel servisse como útil para a guerrilha, organizou uma coluna que abandonou Guiledje e se abrigou no quartel mais próximo (Gadamael), conseguindo-o sem ter baixas. Em termos militares, exceptuando o simbolismo do abandono de uma fortificação, tratou-se apenas de uma clássica retirada táctica perante uma correlação de forças desfavorável. Mas a guerra colonial na Guiné, onde na sua história abundavam os casos de abandono de posições militares consideradas indefensáveis, tinha entrado na fase do estertor português e a simbologia do abandono de Guiledje, como assim se comprovou ser, só tinha uma leitura, a de que a guerra na Guiné estava efectivamente perdida pelo lado português. Nesse clímax do estertor da presença colonial, o Coronel Coutinho e Lima, que noutras circunstâncias seria louvado pela sabedoria militar de bem retirar perante uma posição indefensável (e teria as estrelas do generalato a dourarem-lhe a decoração dos ombros), pagou o preço de ser chamado de cobarde, foi destituído das funções, cumpriu prisão e foi sujeito a um processo disciplinar que o 25 de Abril gorou quanto a maiores consequências.

 

Vivendo largas décadas a curtir a solidão que lhe foi proporcionada pelos que só atendem aos heróis (mesmo que loucos), valendo-lhe uma consciência tranquila de apenas ter evitado centenas de mortos inúteis, mas engolindo em seco o amargo do labéu de oficial derrotado pela cobardia, o Coronel Coutinho e Lima voltou agora a Guiledje, reencontrou-se com quem no PAIGC o derrotou (além de Spínola), e disse, com honra e clareza de militar, das suas razões nas circunstâncias que viveu. Trouxe agora da Guiné uma “chabora” que o reconhece pela gratidão de gentes que tiveram vidas sobrevivas por ter tido a coragem da lucidez de, em 1973, ter evitado muitas mortes inúteis. Se a lucidez histórica compensasse injustiças passadas, diria que a “chadora” lhe assenta melhor que as estrelas de general que Marcello e Spínola não lhe sentaram nos ombros, trocando-as pelo opróbrio da chancela carimbada nos cobardes. Como assim não é, há perante este militar uma dolorosa injustiça a reparar. Do Estado e dos cidadãos, incluindo aqueles para quem a guerra colonial nunca existiu.

 

(Aqui, de onde também foram copiadas as fotos, pode ler-se o texto da comunicação do Coronel Coutinho e Lima ao Simpósio Internacional de Guiledje, recentemente realizado na Guiné Bissau, onde este militar de carreira na reserva descreve detalhadamente as circunstâncias que enfrentou e o modo como as resolveu)

Publicado por João Tunes às 16:02
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LEMBRANÇA

 

Pelo alarido dos que dizem que o respeitinho era coisa de antes, lembrei-me de um episódio vivido há cinquenta anos, portanto em pleno fulgor do salazarismo, e que marcou a minha perplexidade como aluno recém-entrado na adolescência. Uma professora, julgo que de Português, colocou o aluno mais reguila da aula (mais velho e várias vezes repetente) a fazer trabalhos no quadro, enquanto ela continuava a aula. O rapaz desapertou a braguilha e iniciou uma masturbação. A turma ficou siderada pelo insólito e em pânico de como aquilo ia acabar, a professora, simulando não ver a provocação, sem se virar, continuou, calmamente, a aula. O prevaricador acabou por desistir e terminou o trabalho encomendado (um caso de sucesso pela táctica do desgaste perante quem apostou alto na provocação, sem imaginar os custos da exposição pública do meio provocatório escolhido). Nada mais se passou, além de que, pelo susto e pela vergonha, o reguila se foi contendo e gerindo a reconquista da distância com a turma. Naquele dia assisti ao fracasso de um candidato precoce a líder pela via delinquente. E ganhei admiração pelos professores sábios. Tratou-se de facto de uma excepcionalidade (que, por isso, adquiriu, para mim, uma enorme força pedagógica): o recurso à superação num caso grave de anormalidade comportamental e face aos padrões de exercício de autoridade e consequências repressivas em vigor na época. Além de que comprova que os comportamentos desviantes e até delinquentes, nas aulas e fora delas, nunca têm data. Havia-os antes e há-os agora. Como há e havia quem com eles sabe lidar, enquanto outros não. Sabê-lo fazer, nas escolas, é o que, além da capacidade de transmitir saber, distingue um professor de um assalariado do Ensino. 

Publicado por João Tunes às 00:03
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Domingo, 23 de Março de 2008

UM MATA-MONJES

 

O Jerónimo não está isolado na cumplicidade com o massacre sobre os tibetanos:

 

Sendo o Tibete uma parte incontestada da RPC, que a comunidade internacional aceita sem reservas, como se esperava que as autoridades reagissem às destruições e agressões (pouco budistas) desencadeadas sem qualquer razão que as justifique neste momento?

 

Não é de estranhar. Todas as brutalidades encontram parceiros assim.

Publicado por João Tunes às 23:19
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NA BEIRA DO ABISMO?

 

Até o circunspecto “Corta-Fitas” foi acometido de síncope apocalíptica:

 

A derrota do Sporting Clube de Portugal com o Vitória de Setúbal na final da Taça da Liga é apenas mais um passo em direcção ao abismo que esta direcção leonina parece estar apostada em conduzir o clube.

 

Estarão mesmo tão mal quanto o PSD com Menezes? É? É mesmo? Então é porque não há mal que se não pegue.

Publicado por João Tunes às 23:08
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SILÊNCIO DE ESCÂNDALO, DIZ ELE

 

O escritor espanhol (com vários livros traduzidos e editados em Portugal) Antonio Muñoz Molina, considerou que “é escandaloso o silêncio que continua a envolver a perseguição aos jornalistas e escritores em Cuba”.

 

Antonio Muñoz Molina (na foto) participou na apresentação pública de um documento intitulado “A Longa Primavera Negra de Cuba”, elaborado pelo “Comité para a protecção dos jornalistas” e assinala o quinto aniversário da vaga repressiva em que 75 dissidentes cubanos, incluindo 27 jornalistas, foram aprisionados. Este documento é ainda subscrito por vários intelectuais, entre os quais se contam: Adam Michnik, Noam Chomsky, Sergio Ramírez, Tomás Eloy Martínez, Ariel Dorfman, Fernando Savater, Juan Goytisolo, Elena Poniatowska, Laura Esquivel, J.M. Coetzee, Carlos Monsiváis e Laura Restrepo.

 

Entre nós, continua a impressionar o silêncio cúmplice das organizações dos jornalistas portugueses relativamente à repressão da ditadura cubana sobre os seus colegas perseguidos na Ilha-Prisão. Mesmo atrasada, era tempo de uma palavrinha solidária.

Publicado por João Tunes às 17:57
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PRUDÊNCIA JERÓNIMA

 

Na China, os direitos humanos, sociais e políticos são letras mortas. Na China, a exploração desenfreada dos trabalhadores é próxima do trabalho escravo. Na China, não há liberdade sindical, nem direitos laborais mínimos como horário de trabalho e férias, sequer direito a reforma. Na China, por aquilo que zelosamente aqui defendem no quotidiano, os dirigentes do PCP e da CGTP, seriam presos e fuzilados. Talvez por medo disso, são prudentes:

 

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, aconselhou hoje prudência no "julgamento" da violência no Tibete e disse que os incidentes dos últimos dias têm como "objectivo político comprometer os Jogos Olímpicos" na China.

Adenda: A foto retrata parte da tribuna de um recente congresso do Partido Comunista da China, altar onde se senta a vanguarda dos operários e camponeses chineses. Li por aí (num comentário aqui), em alusão a esta foto, que o camarada vencido pelo sono (tanto que é o único que, entre os retratados, não se deu ao trabalho de sequer abrir o opúsculo das teses), apresenta semelhanças que podem indiciar tratar-se de um sósia amarelo de Mário Soares. Embora bem achado, declaro, para os devidos efeitos, que sugerir tal não foi minha intenção. Não pela soneca, nem pela não leitura do dossier, apenas porque não o imagino de, mesmo para dormitar, gramar aquela pessegada só regada com chá.

Publicado por João Tunes às 17:11
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