Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

TODOS PARA OS AUTOCARROS MOSTRAR O CARTÃO

 

Vai ser uma grande Marcha. Na tarde de terça-feira, já largos milhares de militantes e simpatizantes do PCP se tinham inscrito para os autocarros que, de Norte a Sul do País, rumarão a Lisboa no sábado. (…) Durante o percurso, à passagem pelo Tribunal Constitucional (na Rua do Século), os militantes comunistas que o entenderem exibirão o seu cartão do PCP, numa afirmação do direito à liberdade de organização partidária e de defesa de todas as liberdades democráticas.

 

Imagem (que, é claro, nada tem nada a ver com o texto): Transportes públicos em Cuba. Ou o drama diário de milhões de cubanos, não para “marcharem” ou irem tomar banho a Varadero (vício capitalista de que os cubanos se libertaram), mas para tentarem conseguir, de autocarro, fazerem os trajectos casa-emprego e emprego-casa.

Publicado por João Tunes às 14:18
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A COERÊNCIA DA MARCHA DA HIPOCRISIA

 

 

No editorial do “Avante” de hoje, o PCP explica o seu conceito de coerência que unifica o apoio entusiasmado e acrítico à ditadura cubana que eleva ao altar do “exemplo” (arriscando-se, aqui, a ser rapidamente ultrapassado pela realidade e a fazer figura de “mais papista que o papa”) com o significado da marcha que está a organizar para o próximo sábado (1 de Março) pela defesa da liberdade e da democracia em Portugal (partindo do princípio que, aqui, não na Cuba adorada - a do partido único, da sucessão familiar de presidentes, da ausência de liberdades, dos trezentos presos políticos por delitos de opinião, da miséria e da escassez, da ausência de vida sindical, da repressão a qualquer ajuntamento que possa redundar numa espécie de manifestação, do acesso interdito à Internet -, é que liberdade e democracia estão sob ameaça mortal).  

 

Há, na intervenção do PCP ao longo dos seus 87 anos de vida, uma profunda coerência em todas as questões que têm a ver com princípios e valores que determinam a razão de ser do Partido.

(…)

É essa solidariedade que está contida nas saudações enviadas pelo secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, aos novos presidentes de Cuba e de Chipre, camaradas Raul Castro e Dimitris Christofias – no primeiro caso manifestando «a confiança dos comunistas portugueses no prosseguimento dessa fascinante obra colectiva do povo cubano – a sua revolução socialista – que continua a inspirar e a servir de exemplo a todos aqueles que no Mundo prosseguem a luta pela paz, o progresso, a democracia e o socialismo».

(…)

no próximo sábado vamos para a rua lutar pela liberdade e pela democracia – nós, os militantes comunistas, e todos os que a nós se queiram unir nesta luta que é de todos os democratas.

 

Claro que alguns ou mesmo muitos dos que vão marchar no próximo sábado em Lisboa ao lado e sob comando de Jerónimo de Sousa, são pessoas crédulas quanto aos valores da liberdade e da democracia. Que estão justamente indignados com os tiques autoritários e autistas de que este governo, repetidamente, dá sinais. E lá estarão sobreviventes da luta contra o fascismo, homens e mulheres que deram o melhor das suas vidas a esse combate e para os quais temos uma dívida de agradecimento pelo regresso de Portugal à vida democrática que lhes permite, nos permite, hoje, manifestarem-se e defenderem livremente as suas ideias e exprimirem as suas indignações. Como é claro que, sendo a democracia uma obra permanentemente inacabada, todas as oportunidades são úteis para exigir, e construir, mais democracia na democracia. Sendo igualmente certo que a democracia não se esgota nas regras da vida política e partidária e que as profundas desigualdades sociais, escandalosas pelos extremos que atingiram em Portugal, são uma expressão inadmissível de falta de qualidade da nossa democracia.

 

Mas a ideia organizativa desta marcha, o seu evidente sentido manipulador, o cerne da hipocrisia que a sustenta, é, até porque o “Avante” assim o explica, não mais e melhor democracia, não mais liberdades, não menos desigualdades sociais, mas sim a transformação deste sistema e deste regime num processo impositivo e autoritário em que a sociedade se reja por um único e “esclarecido” partido, destruindo liberdade e democracia, nem sequer melhorando socialmente os do meio e do fim da escala social, reproduzindo o “exemplo” que apontam, o de Cuba, a ilha-prisão. Marchem bem com as bandeiras da hipocrisia bem desfraldadas. Experimentem, depois, repeti-la em Havana, pedindo para os cubanos um milésimo da democracia imperfeita de que aqui se queixam. Mas levem bolachas, uns enchidos e, para os que fumam, uns maços de cigarros. Vão-vos fazer falta nas versões Caxias e Peniche dirigidas pelos carcereiros cubanos.

 

Publicado por João Tunes às 12:27
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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

SERÁ?

 

Pois é, defeitos de outros são sucesso dele. Na versão de :

Para além da arrogância-faz-figura, é o melhor 1º Ministro do pós-25 de Abril, o único que fez  muito do que tinha de ser feito, vencendo atrasos de outros e por isso com mais sangue, suor e lágrimas. Falta-lhe clareza estratégica, mas o seu instinto táctico leva-o a navegar à vista assumidamente - essa é a SUA estratégia.

Os defeitos do seu consulado são muitos - desde o autismo à atracção pelo grande capital - mas em terra de cegos políticos é monarca incontestável. O seu pathos eminentemente pequeno-burguês desperta galhofas nos novos burgueses de fachada intelectual, que troçam do gosto estilo maison dos projectos assinados nos idos dos anos 80, incompatível com a nouvelle cuisine, a Lux e o Pátio Bagatela que cultivam e que, hoje (houvesse tempo...), o próprio Sócrates não desdenharia frequentar.

A fase do namoro encantado com a mídia acabou (durou 2 anos!). Sucede-lhe um estilo mais leve e novos "colaboradores" com outra  bonomia encomiástica.

A oposição tem dado preciosa ajuda à sua direita, apesar da sanha de certo liberalismo revanchista, sem referências sólidas nem estáveis e atolado nos "bons exemplos" de racionalidade económica e ética de um mercado que os não compreende nem ajuda.

O nosso 1º está, parece, para durar. Já sem estado de graça mas com a graça de não ter alternativa.

É curto? Será. Mas chega.

 

Publicado por João Tunes às 23:55
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ADEUS MIKE, ADEUS CAMPEÃO

 

Para os adeptos do basquetebol, é hora de luto, luto carregado. Mike Plowden, português de origem norte-americana, 49 anos de idade, caiu quando treinava e não teve sequer tempo para se despedir. Já não treinava para jogar, remetido que estava, após uma carreira de enorme sucesso como jogador - tendo envergado as camisolas do Barreirense, do Juventude de Évora, do Atlético, do Benfica (com cuja camisola foi 8 vezes campeão nacional) e da Selecção Portuguesa (após se naturalizar, representou 61 vezes a selecção nacional) -, mas sim como treinador de uma formação juvenil de um modesto clube do Pinhal Novo.

 

Mike Plowden terá sido o melhor jogador de basquetebol que passou pelos pavilhões portugueses. Aliava ao seu enorme talento, uma genuína capacidade de adaptação à realidade e cultura portuguesas, era um coração aberto, franco e sempre juvenil, que fazia em cada pessoa com que se cruzava um amigo. Uma alma grande num corpo grande em cima de um enorme talento para dominar, tornando-a aparentemente simples, a arte complexa do basquetebol.

 

Devo muito do meu gosto pelo basquetebol a ver jogar Mike Plowden. Devo a Mike Plowden muitas horas de alegria a comemorar triunfos e títulos. Nesta hora de súbita despedida, só lhe posso pagar tanto em dívida com um adeus de profunda tristeza. Adeus, campeão.

Publicado por João Tunes às 23:26
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INDIGÊNCIA POLÍTICA

 

Inimaginável que um candidato a primeiro-ministro defenda como “medida governativa” ... retirar a publicidade da RTP. É assim que constroem e apresentam “a alternativa”? Está bem, está. Não vais lá, não.

Publicado por João Tunes às 17:09
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CONTAS

 

Vamos lá fazer as contas para comparar. Se os professores cubanos auferem um salário de 10 euros/mês, não sai caro ao orçamento estatal pagar-lhes as aulas de substituição. E, assim sendo, nem precisam de sindicatos para meter processos em tribunal, nem fazer torneios de sentenças entre processos ganhos e processos perdidos. Logo, paz social na Educação há lá e cá não há. Bate certo.

Publicado por João Tunes às 16:41
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VINDE A NÓS, ESPANHOLAS

 

Numa qualquer campanha eleitoral, quase tudo se faz porque a quase tudo se presta. E atinje aquilo a que se pode chamar de hedonismo na caça ao voto. Nas imagens (de “El País”), Zapatero e Rajoy pagam os preços certos pelos votos de que tanto precisam. Tanto mais que se Zapatero vai à frente nas sondagens, tendo já entrado na zona da maioria absoluta, tudo se vai decidir no sprint final junto à meta. Até lá, não há votinho que se possa perder.

Publicado por João Tunes às 15:55
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O CONTEXTO NA MUDANÇA DE CASTRO PARA CASTRO

 

O jogo de figuras é uma parte do desiderato do poder. As dinâmicas ideológicas também. Mas o contexto costuma ser determinante. M. A. Bastenier faz, no “El País”, uma excelente análise de contextualização dos vectores externos que podem moldar a evolução da situação política em Cuba, sem que o articulista arrisque um prognóstico sobre o provável ponto de chegada. E chama a atenção para os factores externos que vão pesar no rumo da “solução cubana”:

 

La nueva bipolaridad latinoamericana; el respaldo económico de Caracas, y el cambio presidencial en Washington constituyen todo un bloque de razones para aventurar que lo que haya podido comenzar con Raúl Castro como puro sucesor regimentado, acabe convirtiéndose un día en una transición política hacia alguna parte.

 

Imagem: Raul Castro recebendo, nas suas novas funções presidenciais como efectivo, a primeira figura internacional em visita oficial a Cuba após a “passagem de testemunho” de Castro para Castro: o nº 2 do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone. O que demonstra que, raramente, a Igreja Católica se atrasa quando cheiram mudanças com hipóteses de ganhar espaços.

 

Publicado por João Tunes às 13:18
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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

NO PAÍS DA PANCADA PELAS MEDALHAS

 

A não perder a leitura deste interessantíssimo post de António Teixeira sobre a obsessão maníaca dos soviéticos por coleccionarem medalhas para pendurarem no peito. E que atingiu a cota da paranóia, em que o significado de cada condecoração se ia desvalorizando pela sua rápida banalização. Está por fazer, julgo, o estudo psico-sociológico sobre o que levava a esta obsessão colectiva pelo transporte e ostentação de tralha medalhística que, os mais dotados, chocalhavam com um brilho intenso de vaidade nos olhos. Será que numa sociedade uniformizada por baixo, e sobretudo para os que não ascendiam às benesses da nomenklatura de topo, restava, como proeminência social, competirem nos records de lataria pendurada?

Publicado por João Tunes às 23:28
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ISTO ESTÁ ASSIM TÃO MAL? (2)

 

Não há fome a que não se junte a vontade de comer:

 

Não pairam no horizonte quaisquer riscos de fascismos à antiga ou de ditadores tipo Mugabe ou Chávez. Porque estamos na Europa (ainda) requintada, ciosa dos seus punhos de renda e – com toda a justiça – consciente e orgulhosa dos seus séculos de história democrática. Instável, no entanto, por muitas razões, com os dislates de Sarkozy, a ameaça de Tony Blair como presidente, a acção de um papa perigosíssimo, Espanha e Itália à beira de eleições complicadas, etc., etc.

No meio de tudo isto, Portugal não está a aguentar o balanço entre os últimos lugares do pelotão e as passadeiras vermelhas de Bruxelas. E isto pode acabar mal.

Vemos um primeiro-ministro crispado, a transpirar sede de poder por todos os poros e um governo com pés de barro que de socialista só guarda o código de barras.

Cantam-se vitórias que não convencem,
não se sente carisma, verdadeira liderança, empatia, generosidade
– coisas de que os portugueses precisam como de pão para a boca.

E, exactamente por isso, isto pode acabar mal. Porque está a ficar escancarada a porta para que um qualquer populista seja bem-vindo, no sempre desejado papel de D. Sebastião.

Oxalá esteja enganada – oxalá.

 

Haja alguém que mande na rosa e leia, sff, os blogues da esquerda pessimista. Antes que isto desande para a banda do trio Cavaco/Menezes/Santana, com o Jerónimo e o Chico a baterem palmas no funeral do PS, enquanto Alegre, porque não é Santa da Ladeira, convoca mais um almoço de confraternização com ex-eleitores.

 

Publicado por João Tunes às 22:45
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MÁ EDUCAÇÃO

 

Confesso que, madrugada dentro, após ver o “Prós e Contras” sobre Educação, senti-me profundamente deprimido.

 

A Educação é um problema nuclear, sempre e em qualquer sociedade. Como é possível que a ministra nos dê o espectáculo pungente de estar na defensiva desesperada e ver a “sociedade civil” que a confronta num estado não menos calamitoso – uma salada podre com aparatchiks sindicais de olhos esbugalhados a transpirarem burocratismo partidário com mais fome de greves e manifestações que de escolas e aulas, radicais folclóricos, palavrosos e que julgam que ofender sem conta nem medida é próprio do revolucionário moderno do tipo “geração rasca”, filósofos com discurso sem destino marcado, professoras laranjas em oportunística boleia comunista, tudo a preocupar seriamente sobre quem anda a ensinar os nossos filhos.

 

Acusa-se a ministra de tratar mal e afrontar os professores. Vejo que não. O que ela fez foi despertar nos professores o pior que eles se lembram de quando eram alunos. E alguns, ou muitos, valha-nos deus, safaram-se bem pelos intervalos do velho ensino a pedir reforma, tão bem que chegaram ao professorado. Não esta reforma, muito menos tão desastrada por mal amanhada, a ser praticada por um geração de antigos alunos irreformáveis. Mas se o bloqueio está à vista, a ministra (e o governo) podem limpar as mãos à parede, atendendo aos resultados: Educação sem reforma, País à beira de perder a educação. Agora, politicamente, só resta a Sócrates recuar. O que é uma questão de tempo, para o recuo ou a queda. Para lhe suceder um governo incorporando algumas daquelas espécies indigentes do "confronto" de ontem?

Publicado por João Tunes às 18:30
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A IMPORTÂNICA DO EMBLEMA OU A VIA COXA PARA A NOTORIEDADE

 

Um trambolhão que me deixou um joelho em médio-baixo estado, benigno e só a precisar de algum tempo para recuperar a capacidade de remate e ajudar a equipa a segurar o segundo lugar, obriga-me a ter de me deslocar com apoio de uma elegante “canadiana”. O certo é que o artefacto vistoso com que agora me enfeito me transformou, de um dia para o outro, num notável do meu bairro. Não há vizinho e patrício do bairro e redondezas que não queira saber do motivo dramático que mudou o espectáculo visual da minha forma de locomoção. O que comprova que a exibição de um emblema de fragilidade é suficiente para despertar muita solidariedade adormecida. Que passa bem embrenhada no sono dos justos quando os entorses são interiores, difusos, escondidos ou disfarçados. Da próxima vez, em que, à maleita, a “canadiana” não se aplique, vou passar a usar uma bandeira. Depois contarei se o efeito é semelhante.

Publicado por João Tunes às 17:37
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SOBRE A VIAGEM DE OUTUBRO NA EUROPA

 

Rui Bebiano retomou a edição da sua série de textos sobre a “Revolução de Outubro”, com um oitavo post em que aborda a mimetização do golpe russo-bolchevique no processo de expansão do poder comunista (e que, tendencialmente, almejava o domínio universal) e explica como as réplicas em diversos locais geográficos (na Europa, na Ásia e na América Latina) seguiram espécies de modos distintos, absorvendo características regionais (quer do ponto de vista social quer das tradições culturais) com variantes mais ou menos heréticas nas formas de tomada de poder e respectiva legitimação (como sejam: a incorporação primordial do campesinato nas revoluções asiáticas e o guerrilheirismo provincial no caso sul-americano).  

 

Toda a sistematização sintética comporta o inevitável risco da modulação unicista dos fenómenos. E se todo o post vale pela clareza exemplar e rigorosa, tendo em conta o esforço (e o risco) de tamanha síntese, a corrosão da generalização afecta sobretudo, julgo eu, a referência à expansão do comunismo na Europa de Leste sob abrigo das conquistas do Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial. Escreve Rui Bebiano:

 

Já o estabelecimento das «democracias populares» no leste europeu, ocorrido trinta anos mais tarde, assumiria características diferentes [do “exemplo russo”], variáveis aliás de país para país mas coincidindo na forma não-insurreccional - embora marcada pelas pesadas sequelas da guerra e por um combate político extremado - de tomada ao poder. Por esse motivo, o exemplo de Outubro penetrou ali mais pela via da exaltação simbólica da figura mitificada de Lenine e da aplicação de um «leninismo prático», particularmente útil sob as condições de rápida instauração de regimes de partido único, e ainda pelo reconhecimento, principalmente a partir da criação em 1947 do Cominform, do papel dirigente da União Soviética e do carácter incontornável do seu modelo rigidamente centralista de governo e de organização da sociedade.

 

Se o magma de reprodução das formas de instauração do comunismo apresentado é válido para países como a Hungria, a Roménia e a Bulgária (antigos aliados do Eixo e com partidos comunistas grupusculares), a que se poderiam adicionar os países bálticos (já anteriormente sovietizados e re-incorporados na URSS), a Polónia e a RDA (mais tarde), ou seja, imposição de ditaduras comunistas sustentadas exclusivamente em conquistas militares soviéticas, os casos da Checoslováquia e da Jugoslávia/Albânia, surgem com diferenças substanciais, do conjunto e entre si. No caso checoslovaco, havendo embora a protecção da presença do exército soviético, o partido comunista era forte (na Boémia e na Morávia, não na Eslováquia) e foi capaz de obter uma vitória eleitoral após a libertação do nazismo.  Com o nacionalismo reaccionário eslovaco na mó de baixo pelo seu anterior colaboracionismo com o Reich, o comunismo checo tinha não só um amplo apoio de massas como a capacidade de ser praça-forte na coligação saída das primeiras eleições no após-guerra. Mas a passagem da hegemonia comunista ao estado de partido único foi conseguida em 1948 (no golpe de Fevereiro) com uma reprodução tardia do Outubro russo-bolchevique que conjugou a intriga contra os “ministros burgueses” com as movimentações de massas e milícias operárias. E, neste sentido, a encenação da tomada de poder em Praga foi uma espécie de “remake” do Outubro russo. Como específica foi a tomada de poder na Jugoslávia (idem, muito por arrastamento, na pequena Albânia). Aqui tratou-se de uma saga própria da acção guerrilheira chefiada por Tito que praticamente dispensou a ajuda soviética para libertar a Jugoslávia dos nazis e depois tomar o poder em Belgrado, tendo sido muito mais substancial e decisiva a ajuda prestada por britânicos e norte-americanos no fornecimento de armas aos guerrilheiros. Esta “autonomia jugoslava” na via da conquista do poder, com capacidade insurreccional própria, colocou a conquista do poder pelos comunistas jugoslavos mais perto dos posteriores modelos “asiático”/”sul americano” que do “modelo russo” ou das outras transferências de poder na Europa de Leste. Aliás, além da crise do Cominform que se seguiu imediatamente à sua criação (por causa do “cisma jugoslavo”), são exactamente na Jugoslávia, na Checoslováquia e na Albânia, ditaduras comunistas com partidos comunistas fortes, que se irão registar cisões e conflitos graves entre os “comunistas nacionais” e os seus camaradas e orientadores soviéticos, mas em que a ideia comunista não era posta em causa, enquanto as crises graves noutros países comunistas com partidos comunistas relativamente fracos – Polónia, RDA e Hungria -, se vão dever a sentimentos anticomunistas enraizados e generalizados e em que a antinomia motivadora das rebeliões era comunismo/democracia. Esta diversidade e complexidade da história do comunismo na Europa de Leste fá-la resistir à sua catalogação num bloco homogéneo de adopção de modelo relativamente à importação de “Outubro”, seguindo as pegadas do Exército Vermelho. Se houve decalques burocráticos da tomada de poder do “partido leninista” quando os sentimentos dominantes na população eram os do anticomunismo, aconteceram insurreições de libertação antinazi que depois se autolegitimaram, com apoio popular, em poderes comunistas, como se verificou ainda, no caso checo, uma re-encenação quase “tal qual” da insurreição russo-bolchevique.

 

Publicado por João Tunes às 14:39
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ISTO ESTÁ ASSIM TÃO MAL? (1)

 

O que vale é o Rui Bebiano não ser alarmista. Porque como não é, sintetiza assim:

 

A desvitalização política e o descrédito provocado pelo distanciamento entre as mensagens do poder e o quotidiano das pessoas são meio caminho andado para uma qualquer berlusconização à moda de cá. E assim fechará o ciclo que Abril abriu. Isto sem ser alarmista.

Publicado por João Tunes às 02:15
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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

PERGUNTAR POR PERGUNTAR

 

 

Ó caro Jorge, o Mugabe não tem um irmão ou, vá lá, um sobrinho, a quem passe a pasta?

Publicado por João Tunes às 17:04
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