Terça-feira, 24 de Abril de 2007

PUNIÇÃO PARA O NEGACIONISMO?

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Desta vez, estou completamente de acordo com o Tiago Barbosa Ribeiro. Não faz qualquer sentido impor um filtro administrativo-disciplinar à expressão de ideias e interpretações, por muito estúpidas e repugnantes que elas sejam. E os efeitos são sempre contraproducentes: cria-se um pólo de interdito com poder atractivo; abre-se uma senda de deduções reactivas de equivalências intermináveis e inevitáveis, algumas absolutamente justificáveis e cuja isenção apenas se deve a um défice de escalpe e denúncia, ao abrigo da simplificação pelo enfoque sobre o Mal Maior.

 

A proibição de “más ideias” ou “ideias erradas”, mesmo sob pretexto de que representam negações de crimes horrendos e colectivos, portanto uma objectiva cumplicidade com os criminosos e as ideologias de suporte, comporta, em si mesmo, uma “ideia perigosa”, a da “superioridade moral” de uma elite de pensamento limpo e com as mãos limpas que ilumina e protege as sociedades. E logo pela via estreita de querer “ganhar na secretaria” o campeonato do debate e da competição prosélita. Tirando o Vaticano e o Islão, que só assim funcionam, não vejo como sociedades abertas e que se querem intelectual e politicamente maduras possam catalogar e castigar o interdito. [Falo, é claro, em termos de difusão de ideias; acção e organização com base em programas para consumar projectos criminosos, isso é outra história.]  

 

Para mais, na Europa, nesta Europa ainda com sangue seco de ignomínias acumuladas, em que o Holocausto é uma vergonha entre vergonhas. E se o Holocausto é a vergonha mais imediatamente repugnante, em que o Mal culpado (o “Mal Castanho”) está perfeitamente identificado, isso deve-se a justas e exaustivas denúncias, “beneficiando” da derrota do nazi-fascismo e da sua incapacidade de reconstrução. Neste sentido, e ainda bem que assim é, a repugnância pelo Holocausto é, hoje, um prolongamento da “lei dos vencedores” herdada do desenlace da II Guerra Mundial. Querer coroar esta aquisição de repugnância colectiva por via da punição do negacionismo é abdicar, desde logo, dos ganhos do efeito da denúncia, malbaratando-os no funil do índex. A não ser os interessados em varrerem esqueletos para baixo do tapete (como os camaradas dos carrascos do Gulag, a grande vergonha silenciada), além dos preguiçosos que preferem a comodidade sonolenta das ideias standard e “moralmente correctas”, ninguém ganha, do ponto de vista intelectual e político, com a institucionalização deste género de interdição. E o combate ao anti-semitismo, uma luta a continuar e sem merecer tréguas, só perde se “beneficiar” de uma protecção de natureza administrativa no desbravar do juízo da história. Pela minha parte, claramente, sacudo esta “ajuda” que nada ajuda.

 

Imagens (copiadas do TBR): Holocausto e Gulag, duas vergonhas em duas doenças políticas (a primeira com condenação protegida, a segunda encoberta pelo silêncio).

 

PS (irónico-amistoso): Caro TBR, veja só se um qualquer índex incluísse a proibição de negar que o salazarismo foi um fascismo…    

Publicado por João Tunes às 12:19
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COIMBRA E O HUMOR

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Confesso-me um não agradado, desde sempre, com Coimbra. Ali, o ar citadino pesa-me, o tédio chega-me mais depressa que noutra nossa cidade e desconfio qualquer coisa de canibalesco próprio de uma urbe tão virada para dentro de si que empunha a ameaça de se auto-devorar, engolindo-nos por arrastamento. É um preconceito, claro. Então, que a confissão me sirva de atenuante.

 

Mas o contraditório vem de, em paralelo com a aversão preconceituosa revelada, os três autores actualmente expostos na blogosfera cujo humor crítico, elaborado e requintado mais aprecio são três “coimbrões”: Rui Bebiano, Marcelo Ribeiro (M.C.R.) e Luís Januário. E de cada vez que, deliciado, os leio, pergunto-me: como é possível?

Publicado por João Tunes às 00:22
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Segunda-feira, 23 de Abril de 2007

A VINGANÇA DE SANTO AGOSTINHO

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Confirma-se: não há anulações grátis. Se o Papa deu como extinto o Limbo, eis que acompanha esta medida teológica com a vitalização do Inferno, ameaçando: “o INFERNO existe e é eterno”. Desta forma, Bento XVI demonstra ser mais papista que (imagine-se!) o Papa João Paulo II e retrocede à visão arcaica de Santo Agostinho, deitando borda fora progressos doutrinários do Concílio Vaticano II.

 

Para Bento XVI, “a vida cristã ocidental é uma vinha devastada por javalis”. E os remédios estão na intolerância para com o relativismo e a laicidade, o regresso das missas em latim e o aumento do peso dicotómico entre o paraíso e o inferno como orientador moral dos crentes.

 

Por este caminho, de que ainda só recebemos primeiros sinais de afirmação irredentista, Bento XVI empurra o Vaticano para a emulação com as Grandes Mesquitas. Tarda nada está a negociar a repartição territorial da Al Andalus com Bin Laden.

 

(ler notícia aqui)

 

Imagem: “O Juízo Final” segundo Miguel Ângelo.

Publicado por João Tunes às 23:05
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GERNIKA NOS CÉUS DE BERLIM

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Nesta semana, passam 70 anos sobre um dos maiores símbolos da barbárie moderna – o bombardeamento de Gernika (País Basco, Espanha) pela “Legião Condor” (força militar nazi ao serviço de Franco). O acto, em que a superioridade ariana se demonstrou com os pergaminhos da animalidade selvagem, bem conhecido e imortalizado no célebre quadro de Picasso, vai ser celebrado na cidade de … Berlim, através de vários e variados eventos culturais.

 

O facto de esta celebração ocorrer em Berlim e com Cultura representa a compensação maior e mais merecida da vergonha de Gernika. Berlim já não é ninho de poder de Hitler (de Honnecker, tão pouco) e é capital de um pilar da democracia e da prosperidade europeias. De Franco, resta o esqueleto (ainda) escondido atrás do altar-mor da Basílica do Vale dos Caídos. O quadro de Picasso é e será paradigma da arte genial e eterna. Gernika é uma linda, pitoresca e próspera cidade basca, infelizmente perturbada, de quando em vez, pelos descendentes encapuçados e travestidos desse paradoxo “Condor Etarra” chamado ETA.

 

A homenagem de Berlim a Gernika tem significados plurais: a força da cultura pode ser mais forte que a cultura da morte; o perdão alcança-se e merece-se pela vitalidade da memória; Hitler e Franco são velharias nos relicários dos neo-fascistas, mesmo quando usadas com pretextos simétricos, incluindo etarras e as franjas falangistas (ainda) incrustadas no PP espanhol.

 

Gernika vai aterrar em Berlim. Berlim (a de agora), merece esta vingança. Porque Gernika não vai largar bombas sobre Berlim, mas sim Cultura. E a Cultura, contra os cultores de vivas à morte, devia ser a única bomba que se devia permitir ao engenho guerreiro humano.        

 

(ler notícia aqui)

Publicado por João Tunes às 22:27
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CONSELHO MILICIANO A MARTELO

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Transcrevo conselho que recebi de uma visitante comentadora (*), decerto uma miliciana bolchevique camarada do da foto, que me prevê um futuro risonho de análise política se eu não desistir de ler o “Avante”:

 

Bem! Fico muito mais descansada por saber que lês o Avante! Com o tempo talvez aprendas alguma coisita. É que a tua leitura da realidade é tão monolítica e conforme à cartilha neoliberal que a comunicação social tão proficuamente difunde que bem precisas de ler o Avante, enfim, só para teres uma outra perspectiva. Estou em crer que da síntese que serás capaz de fazer alguma evolução na tua capacidade de análise politico-sindical há-de surgir.

 

Os conselhos seguem-se ou não, mas agradecem-se sempre. Obrigado.

 

(*) Assina como Beatriz Martelo. Portanto, uma ortodoxa até no nome (ou no pseudónimo).

Publicado por João Tunes às 17:49
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O QUE DIZEM AS CARTAS?

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Como quem deita cartas de adivinhação, há quem preveja o futuro político pelas errância e apetências das personalidades, coleccionando cromos sem rebuçado nem pastilha elástica e enquanto se mastigam saudades. E, com o regresso de Portas (uma banalidade em que só não se entende porque é que o figurão se ausentou, demitindo-se, numa espécie de “vou ali ao ginásio endurecer os músculos e já volto”), há quem, à viva força, lhe procure parceiro para re-casamento, admitindo como certo que dois fugitivos sempre se encontram. Veja-se o resultado lido nas cartas por esta pitonisa da ciência política:

 

E o próprio José Manuel Durão Barroso? Quem achava que estava cada vez mais alheado de Lisboa com a vida e o trabalho em Bruxelas que se desengane. Na semana passada esteve no Parlamento, onde foi defender uma nova agenda para a União Europeia, deixando escapar que sentia saudades dos debates mensais... Ninguém nos garante que não queira voltar. Não será amanhã, nem depois. Mas que pode haver espaço para isso, não resta dúvida. Primeiro, será preciso ver se o mandato de cinco anos, que curiosamente acaba em 2009, é renovado. Se não for, e veremos que papel pode ter aí o novo equilíbrio de forças no eixo franco-alemão, não é improvável dar-se a circunstância de, paulatinamente, Barroso ensaiar um regresso a Portugal e ao PSD. Deixará que alguém se espete nas legislativas e depois pode abalançar-se de novo ao partido. Romano Prodi fê-lo em Itália, não será novidade. Barroso pode fazer nova cura de oposição ou esperar que Cavaco Silva não se recandidate a Belém. Barroso é "chinês". Sabe esperar e, mais que isso, sabe lidar com as adversidades.

 

Publicado por João Tunes às 16:29
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Post-sugestão para Marques Mendes e José Manuel Fernandes

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Metem o pai a controlar a TVI e logo a seguir o filho ilustra um livro com fotografias. Que falta de carácter tem este governo!

Publicado por João Tunes às 15:57
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CONTIGO, PANTERA!

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Como foi contra a Coreia do Norte, vais dar a volta ao resultado.

Publicado por João Tunes às 15:40
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ADEUS COM VODKA

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E vai um copinho pelo eterno descanso de Boris Ieltsin.

Publicado por João Tunes às 15:29
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CRIME EM DUPLICADO

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O prisioneiro de consciência cubano José Luis García Pérez (Antúnez), na foto, terminou em 15 de Março o cumprimento da pena de prisão de 17 anos aplicada sob acusação de produzir “propaganda inimiga” e “tentativa de sabotagem”. Ainda não foi libertado. Como assim? Provavelmente, se cumpriu pena por ser opositor, falta-lhe cumprir a pena extra por ser opositor e … negro. Em Cuba, também o racismo é marxista-leninista.

-------------

Adenda (24 Abril): Muito doente, devido ao longo tempo de presídio (17 anos), onde foi maltratado e com andanças em várias colónias penais, Jorge Luis García Pérez "Antúnez" foi libertado na manhã de 22 de Abril passado. Para a sua libertação, que ocorreu mais de um mês após terminar a longa pena a que foi condenado, muito contribuiu a solidariedade internacional. Registe-se o espantoso contributo da blogosfera portuguesa para a denúncia deste caso e para a libertação de “Antúnez” (imagino assim, porque não tenho tempo para ler todos os blogues).  

Publicado por João Tunes às 14:49
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SOUTIEN ROSE

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“il faut mantenir le soutien à Madame Royal”

 

(Luis Novaes Tito, aqui)

Publicado por João Tunes às 13:05
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DIA MUNDIAL DO LIVRO, HOJE

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“Hoje é dia do Livro. Força, leiam um livrinho e que vos saiba! E que vos alegre a alma ou lá o que temos, um livro mesmo pequenino, tem muita serventia nem que seja para amparar o pé manco de uma mesa.”

 

(M.C.R., aqui)

Publicado por João Tunes às 12:55
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Sarko-Sego

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O melhor nos resultados das eleições francesas não é os que passam à finalíssima. É o alívio pelos que não chegam lá.

Publicado por João Tunes às 00:09
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Sábado, 21 de Abril de 2007

QUANTO AO MEU JARDIM DE LUZ

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Antes, queria ser cremado para ter a certeza que as minhas cinzas, pelas leis da gravidade, não subiriam muito, espalhavam-se pelos caprichos do vento antes que voassem até ao céu. Agora mudei de ideias: quando eu morrer quero ir para o Limbo. Na altura em que mais sossego se quer não há nada como ter uma casa vazia toda para nós.

Publicado por João Tunes às 16:19
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PARA UM SANTO FIM-DE-SEMANA

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É um post que, só por si, justifica a blogosfera, esta peça requintada do inspirado humor do Rui Bebiano sobre as crianças e o limbo religioso. Para mais, ajudando a entrar num santo fim-de-semana (digo eu, pela ajuda da chuvinha às hortaliças).

Publicado por João Tunes às 02:42
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