Sexta-feira, 2 de Março de 2007

CUBA EM ANGOLA

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Especialmente dedicado ao estimado companheiro Eugénio, lobitino de gema e erudito estudioso e divulgador dos assuntos de Angola e de África, e ao meu amigo Carlos, um esteta da memória africana, fica link sobre o início da “abertura do livro” da memória cubana da intervenção militar em Angola.

Publicado por João Tunes às 12:47
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AS VOLTAS DE SANTA COMBA DÃO

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Não faz qualquer sentido a iniciativa da URAP (União dos Resistentes Antifascistas Portugueses) em tentar boicotar a iniciativa da Câmara Municipal de Santa Comba Dão de construir, na casa onde nasceu o ditador, no Vimieiro, um “Museu Salazar”. A não ser que a sessão de combate político marcado para amanhã à tarde no Auditório Municipal de Santa Comba Dão tenha o patrocínio da RTP, com retorno promocional ao concurso “Grandes Portugueses”, destinando-se a promover a dupla dicotómica Salazar-Cunhal como funil enfiado na nossa memória histórica.

 

Não há que ter medo de Salazar. Muito menos, o ditador sinistro merece a benesse do silêncio. Porque silenciar Salazar é, sobretudo, dar-lhe a cobertura do manto do mito e dele saírem os refúgios sublimados dos saudosismos gerados por desencantos com o contraditório do viver democrático no alcance das expectativas. E se, mais importante ainda, o salazarismo como sistema e modelo político não tem viabilidade próxima como risco de reposição, as suas marcas culturais e psicológicas nos comportamentos políticos e sociais, activas ou reflexas, permanecem profundamente entranhadas no “estar português”.  Daqui que se deva falar de Salazar, escrever sobre Salazar, mostrar Salazar, discutir Salazar. E não há volta a dar: se se quer, como se deve querer, denunciar e documentar as marcas profundas deixadas na carne e na alma dos portugueses por uma das mais longas e tirânicas ditaduras da história mundial, não se pode querer fazê-lo monoliticamente, em orquestra de pensamento único, com sapatadas de catequese histórica, sem permitir a pluralidade de pontos de vistas, incluindo o espaço de intervenção hagiográfica a que têm direito os defensores de Salazar e do salazarismo. E, que raio, os argumentos dos neo-salazaristas são tão fraquinhos que o debate aberto desmonta o mito e as patranhas em tempo e meio.

 

Silenciar foi um dos mais persistentes e terríveis tiques do mando salazarista. É patético se a URAP lhe apanhou um gosto simétrico. Um e outro a merecerem a serenidade contemplativa proporcionada pelos museus. 

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Publicado por João Tunes às 12:07
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Quinta-feira, 1 de Março de 2007

EDMUNDO PEDRO E O IEJOV CASANOVA

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José Casanova, alto dirigente do PCP e director do “Avante” deu, no último número do jornal que dirige, uma demonstração prática de como o marxismo-leninismo lida com a memória e os factos históricos. Incluindo a aplicação da purga por retroactividade na avaliação política da trajectória dos personagens. Que é, como se sabe, prática antiga nas hostes e desde que Iejov, um dos mais cruéis carrascos de Estaline, se especializou a apagar das fotos os dirigentes comunistas que iam caindo em desgraça (quando eram eliminados pela bala, saíam dos retratos).

 

Na comemoração dos 80 anos do antigo dirigente António Gervásio, Casanova esclareceu a destrinça entre resistentes a tempo inteiro e os “outros”:

 

“Porque a vida mostra que «há os que foram e são resistentes e há os que foram mas deixaram de o ser». Os primeiros, prosseguiu, são os resistentes a tempo inteiro «e, por isso, com direito à preservação dessa memória resistente». Já os segundos, «por muito que se ponham em bicos de pés invocando momentos do seu passado, jamais conseguirão superar o fosso imenso que separa o seu passado resistente do seu presente capitulacionista».”

 

Noutra peça no mesmo número do mesmo jornal, Casanova menciona os nomes dos militantes e simpatizantes comunistas que inauguraram o Campo de Concentração do Tarrafal:

 

“Em 29 de Outubro de 1936, 152 antifascistas desembarcados do navio Luanda vão inaugurar o Campo de Concentração do Tarrafal, o Campo da Morte Lenta. São, na sua imensa maioria, militantes e simpatizantes comunistas – facto que é do conhecimento público mas que importa sublinhar dado que há por aí quem, fingindo desconhecer esta verdade, a silencie sistematicamente. Entre os 152 figuram os membros do secretariado do PCP Bento Gonçalves, Júlio Fogaça e José de Sousa e muitos dezenas de outros dirigentes, quadros e militantes, entre os quais Pedro Soares, António Guerra, Alfredo Caldeira, Gilberto de Oliveira, Sérgio Vilarigues, Manuel Rodrigues da Silva, Américo de Sousa, Henrique Ochsenberg, João Faria Borda, Hermínio Martins, Joaquim Teixeira, Joaquim Ribeiro, José Barata, Josué Martins Romão, Manuel Alpedrinha, Militão Ribeiro, Oliver Bártolo, João Dinis, Gabriel Pedro, Fernando Alcobia.”

 

Neste rol, significativamente, falta o nome de Edmundo Pedro, então dirigente da Juventude Comunista e que fez parte da mesma leva de presos políticos e tinha então 17 anos de idade (tendo voltado do campo com 27), mantendo-se sempre como militante comunista enquanto prisioneiro. Assim, no mesmo exemplar jornalístico, Casanova fez prova do tratamento dispensado aos que não se mantiveram “resistentes a tempo inteiro” – são corridos da história. Simplesmente, não existiram. Porque foram cortados do retrato. Ou seja, dito e feito. Mas, felizmente, com míngua do "resto" que também celebrizou Iejov (as balas na nuca).

Publicado por João Tunes às 17:45
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FICA A BOA MEMÓRIA

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Lembro-me de ti desde quando defendias as redes do Barreirense e entraste nos meus “cromos da bola”. Depois, o Benfica levou-te. E a Selecção Nacional também. Nunca nos separámos em emblemas, jogos e emoções. Fica a boa memória das tuas mãos quando salvavam a gaiola com redes. Sobretudo agora, Manuel Bento, em que falhaste ao não defenderes o mais difícil dos “penalties”. O único sem defesa possível. 

Publicado por João Tunes às 16:31
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O TEMPO DOS CARDEAIS GORBATCHOV

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Disse um nosso Cardeal (José Policarpo):

 

“A questão da sexualidade é fundamental, das mais interessantes mas também das mais complexas. Não há sexualidade sem responsabilidade. Mas estamos numa de «faz o que te apetecer que depois resolve-se». Há perigo da sida? Tem solução... Há uma gravidez indesejada? Faz-se um aborto! Mas nunca ninguém levantou a hipótese de educar estes cidadãos para terem uma vida sexual... vá lá, normal!”

 

E disse quase bem. Porque faltou reconhecer que nada ajuda a uma “sexualidade com responsabilidade” que a Igreja Católica, a mesma que restringe o sacerdócio aos homens castos abstinentes, e só com eles continua a manter a pirâmide da sua “nomenklatura”, seja contra a contracepção, permanecendo no seu dogmatismo misógino e só por pudor não decreta mais sobre a “sexualidade … vá lá, normal”, legislando canonicamente sobre o correcto e o incorrecto, o responsável e o irresponsável, a posição santa e a penetração satânica, o orgasmo do bem e o do mal, exactamente quando os fiéis mais precisariam de deus porque se encontram abandonados entre lençóis, a gerirem, sem eucaristia, as leis dos corpos, ao mesmo tempo que têm de lidar com a força subversiva da indómita fantasia que é, afinal, a essência da alma humana.

 

O Cardeal Policarpo é um homem aberto, tolerante, culto e inteligente. Esta sua entrevista, como sempre que fala, é um convite ao prazer de o escutar com vontade de replicar (que é a melhor homenagem que se pode prestar a um orador inteligente). E faz a diferença, a maior diferença, para com a savana da mediocridade paroquiana que domina a praxis da sua Igreja. Mas, ou muito me engano, José Policarpo, com outros, está condenado a ser um “gorbatchov” do Império do Vaticano. O outro, o Gorbatchov original agora tomado como referência, esboroou um Império com a maligna ideia da “perestroika” (não se lembrando que não há bactéria pior para matar o comunismo que a transparência), este, mais uns tantos, é capaz de soçobrar por causa da vitalidade humana, a sexualidade. Um paradoxo este, o de uma Igreja feita para conduzir homens e escangalhar-se pela impossibilidade de viver com as mulheres e entre as mulheres, nunca conseguindo superar o sindroma do nojo e do medo perante a vagina. Mas se, um dia, quiserem apresentar factura pela falência, não têm nada que enganar – dirijam-se ao guichet do “culto mariano”. Estão lá pendurados os preços das sublimações rebarbativas.     

Publicado por João Tunes às 15:51
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CHORAM PORQUE RIEM?

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Um estudo agora divulgado, esclarece:

 

“As mulheres choram mais do que os homens, fazem-no entre amigas ou sozinhas no quarto, mas muitas vezes nem sabem porque motivo vertem as lágrimas, conclui um estudo português”

 

Se o estudo confirma o que todos sabemos, já não entendo a dúvida quantos aos motivos porque as mulheres choram mais e muitas vezes sem saberem porquê. Não é uma compensação por se rirem mais?

Publicado por João Tunes às 13:47
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A FORÇA DO MITO ALFREDO DA SILVA (1)

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Um dos grandes paradoxos no movimento operário em Portugal é a história da atitude para com o patronato industrial. Se este soubesse dosear com habilidade o paternalismo com o autoritarismo, e normalmente fazia-o bem, o patrão teria a contrapartida do reconhecimento agradecido pelo emprego proporcionado e os pequenos e médios “ódios de classe” seriam cobrados à pirâmide das chefias sem chegar a chamuscar o culto pelo dono. O caso da CUF, do Barreiro e de Alfredo da Silva (na foto), será um excelente “case study” do mito patronal no meio operário. E oportuníssimo se tivermos em conta que este ano passam 100 anos sobre o arranque do maior parque industrial português e a maior concentração operária de todos os tempos na então vila do Barreiro, sob inspiração e direcção do maior industrial português, Alfredo da Silva.

 

A obra de Alfredo da Silva, o patrão entre todos os patrões portugueses, a maior de todas as excepções industrializantes concedidas por Salazar à sua visão de predomínio rural e agrícola, é não só glorificada como é objecto de enorme culto agradecido pela esmagadora maioria dos que trabalharam nas suas fábricas. Mais que explorador, ele foi e é recordado como um benfeitor. E, no entanto, Alfredo da Silva foi não só um homem ligado à extrema-direita (apoiou a ditadura de Sidónio e foi amigo de Salazar), como desenvolveu o seu império (industrial e financeiro) à medida do proteccionismo conferido pelo regime do Estado Novo no clássico figurino monopolista, instalou-se no Barreiro pelo seu privilegiado posicionamento na recepção de matérias-primas e exportações, foi base importante da exploração colonial, aproveitou-se das fomes alentejanas para captar mão-de-obra barata, as suas fábricas tinham dentro um posto da GNR, o Barreiro foi, até o 25 de Abril e a par da Marinha Grande, uma vila ocupada militarmente (pela GNR), muitos dos que trabalharam na CUF foram alvo apertado da vigilância da GNR e da PIDE e vários penaram anos nas cadeias políticas do fascismo, por falta de mínima preocupação ambiental, a poluição industrial (sobretudo pelos abundantes fumos ácidos) retirou anos de vida e saúde a todos os habitantes. Por outro lado, a militância comunista sempre foi alta entre os núcleos operários da CUF, ali se realizaram greves duramente reprimidas, o “Avante” clandestino era regularmente distribuído e lido e, ainda hoje, o Barreiro vota maioritariamente PCP (após um curto interregno em que a vitória foi dada ao PS). Nada disto obstando que Alfredo da Silva tenha, no Barreiro, nome em Avenida, dado nome a Escola Secundária, nome em Estádio de futebol, nome em navio da marinha mercante, museu e até Mausoléu (a lembrar os mausoléus de tipo estalinista, ficando incólume e como monumento quando arrasaram o cemitério onde estava colocado). Em todo o processo revolucionário, numa das terras de maior tradição e afirmação revolucionária, autêntica fortaleza comunista, nunca um dedo se levantou para questionar ou atrever-se a desmontar o culto por Alfredo da Silva por parte do povo vermelho do Barreiro. E, no centenário que agora passa, lá temos a Câmara Municipal, dirigida por um membro do CC do PCP, em conjunto com os herdeiros de Alfredo da Silva, a deitarem mãos à comemoração da efeméride da instalação da CUF (agora, Quimigal) no Barreiro. O que demonstra a tremenda força praticamente unanimista do mito reverencial para com Alfredo da Silva, o patrão benfeitor para os seus operários. E que ninguém se atreve beliscar. Como se de um santo padroeiro se tratasse.

 

Paradoxal e interessante como, ainda hoje, já com a maior parte das fábricas desmanteladas, para as pessoas do Barreiro, as figuras de saudade e admiração mais reverenciadas são, em idêntico nível de dedicação afectiva, Alfredo da Silva e Álvaro Cunhal, o maior monopolista e o principal lutador contra os monopólios. É também de paradoxos como este que se faz o desenho ideológico e mitómano do movimento operário.  

Publicado por João Tunes às 02:41
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João Tunes

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