Segunda-feira, 26 de Março de 2007

QUATRO ANOS DE BLOGANÇO !!!

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Um abraço de felicitações ao João Carvalho Fernandes pelo quarto (!!!) aniversário do seu blogue (o excelente e veterano “Fumaças”). Como homenagem, dedico-lhe uma imagem do Marx com quem mais me identifico pela sua obra e que terá sido o fumador de charutos mais dedicado (fumava até a dormir).

Publicado por João Tunes às 23:29
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A HISTÓRIA REPETE-SE?

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Puxando pela minha memória sobre eventos estudantis crispados, na ameaça de Mariano Gago sobre a Universidade Independente só encontro precedentes quando José Hermano Saraiva, a fazer de ministro, mandou encerrar a Universidade de Coimbra. Espero que o tele-divulgador de história(s) faça agora demonstração pública da sua indignação contra a “prepotência do reaccionário Gago”. Até porque ele, Saraiva, quando investiu contra a academia de Coimbra foi por razões de esta se encontrar em estado pré-insurreccional e agora é só uma questão menor de trocos entre os bolsos vestidos na reitoria.

Publicado por João Tunes às 22:59
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RAPSÓDIA DE UM GRANDE BLOGO-PORTUGUÊS

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Em vez de perorar sobre o “concurso” televisivo de ontem, e o tema já está estafado e assim deve continuar, prefiro, com mil vénias, coser uma série de posts do Pedro Correia:

 

Não sei o que querem dizer aqueles que afirmam que o fenómeno Grandes Portugueses é “só” um programa de televisão. Estão a enganar-se a si próprios ou a mais alguém? Quem é esta gente que se entretém com qualquer escabrosos Reality Shows à semana, e ao Domingo aprova a liberalização do aborto? São os mesmos que depois votam Oliveira Salazar o “melhor português de sempre” por SMS ou na Internet?
Vivemos definitivamente num país modernaço, sem xailes ou coletes, mas com perfume caro e unhas de gel… onde se usam gravatas de marca e telemóveis da terceira geração. Mas perigosamente inculto e esquizofrénico.

(…)

Aristides de Sousa-Mendes, terceiro classificado (com 13%) nos Grandes Portugueses, repartiu o pódio com Salazar e Cunhal. José Miguel Júdice, que o defendeu com brilhantismo, pode recandidatar-se a bastonário dos advogados. Eis um sinal de que a reeleição é certa.

(…)

Passado, em Portugal, só o bife. Os que de facto mereciam ganhar o polémico concurso da RTP foram ultrapassados pelos representantes do século XX português - um dos piores da nossa História, como bem assinalou Paulo Portas, defensor de D. João II. O Príncipe Perfeito ficou em sexto lugar, só com 3% dos cerca de 260 mil votos recebidos. Ainda assim melhor do que o Infante D. Henrique (2,7%), o Marquês de Pombal (1,7%) e Vasco da Gama (0,7%).

(…)

Feminista de serviço, Maria Elisa lamentou várias vezes não ter havido nenhuma mulher entre os dez finalistas. "Em Inglaterra, ao menos, esteve a Princesa Diana", lembrou. "Mais valia não ter estado", contrariou-a o escritor Helder Macedo, defensor de Camões (5%, quinta posição). Foi o momento mais sexualmente incorrecto da noite.

(…)

Salazar perseguiu e torturou, por vezes até à morte, os seus opositores. Nesta sessão final dos Grandes Portugueses ficou claro que o mesmo fizeram D. João II e o Marquês de Pombal - já para não falar em D. Afonso Henriques, que começou por espadeirar contra a própria mãe. Fica-se com a sensação de que vários destes "grandes portugueses" eram afinal gente pouco recomendável.

Por mim, tal como a Clara Ferreira Alves, teria votado em Fernando Pessoa (oitavo classificado, 2,4%). Um homem que nunca conheceu ninguém "que tivesse levado porrada". E além disso não era bêbado nem homossexual, como garantiu uma sua sobrinha, presente na assistência.

Também teria votado de bom grado em D. Afonso Henriques (quarto lugar, 12,4%), que a Leonor Pinhão quis transformar em herói progressista avant la lettre. Mas, aqui para nós, ainda bem que não ganhou: só o facto de ter morto todos aqueles mouros seria motivo mais do que suficiente para Portugal sofrer um atentado da Al-Qaeda. Safa!

(…)

Mal foram conhecidos os resultados do concurso da RTP, logo algumas aves agoirentas desataram a soltar a língua contra o actual regime democrático, que não permite ao bom povo as condições de vida existentes na Escandinávia: isto basta, garantem, para justificar a nostalgia por Salazar. "Há famílias que voltaram a cozinhar com fogareiros a petróleo, por não terem dinheiro para pagar o gás", alertou Fernando Dacosta. Está explicado por que motivo Salazar e Cunhal têm tantos admiradores. E eu a pensar que, apesar de tudo, em Portugal nunca se tinha vivido tão bem como agora...

"A democracia é o pior dos sistemas, exceptuando todos os outros", dizia Churchill, democrata de gema e vencedor incontestado deste concurso na Grã-Bretanha. Segundo Odete Santos, ele era afinal um grande malandro que andava a trocar correspondência às escondidas com Mussolini. Nunca vi nenhuma dessas cartas. Sei, isso sim, que Churchill escrevia imenso a Salazar e depois da guerra visitou várias vezes a ilha da Madeira. Odete tem razão: isto anda tudo ligado. O neoliberalismo e tal, fascismo nunca mais, ianques fora do Vietname, já. Vocês sabem do que é que eu estou a falar. Ah, esta última frase não era ela que dizia - era o Octávio Machado, outro grande português, apesar de baixa estatura. Não importa: parabéns à RTP mesmo assim. Para o ano há mais. Ou para o século que vem.

E agora com licença, que vou ali cozinhar com fogareiro a petróleo. Rapidamente e em força, como dizia o velho senhor das botas.

 

Quase tudo dito, para quê acartar mais cera para tão ruins defuntos?

 

Imagem: Um “pide” preso por militares imediatamente após 25 de Abril.

[Se o senhor ainda vive e vota, terá votado em quem?]

Publicado por João Tunes às 22:34
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O "LEGADO REVOLUCIONÁRIO" DE SALAZAR

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[Nogueira Pinto dizia ontem na televisão, procurando encontrar um “legado” de Salazar, que este, com as prolongadas guerras coloniais, havia contribuído para a unificação e estruturação dos povos coloniais através das suas experiências guerrilheiras. Pode acrescentar este: graças a Salazar, entrámos em democracia pela porta da revolução. É isso, o PREC deve-lhe muito.]

 

O principal significado do Dia do Estudante de 1962 e da crise académica que lhe sucedeu, esteve no rompimento declarado e irreversível de Salazar e do fascismo português com as elites. Daí para a frente, pese embora um número significativo de estudantes universitários ter preservado a sua carreira e extremar-se um punhado de aguerridos “nacionalistas”, Salazar e o regime nunca mais contaram com a Universidade como uma fábrica dócil de quadros. Pelo contrário, com fluxos e refluxos (os "picos altos" de mobilização e politização foram 1962 em Lisboa e 1969 em Coimbra, mas mesmo nos refluxos a contestação nunca desapareceu), a agitação estudantil manter-se-ia e iria até agudizar-se nos últimos anos do mando marcelista. Ou seja, a partir de 1962, mais que um fornecedor de quadros qualificados para uma sociedade incompatibilizada com as baias caducas do sistema sócio-económico, a Universidade passou a ser um importante centro de tirocínio de quadros politizados apostados na substituição radical do regime. Dito de outro modo, gerador de uma elite para o combate, mais ou menos empenhado, contra o regime e, ainda mais importante, uma elite alternativa para a regeneração democrática. Tanto assim foi que, na geração política que esteve activa após o 25 de Abril e agora está em banho de veterania ou em vias de reformar-se, encontramos grande parte dos “filhos das crises académicas de 1962 e seguintes” (*).    

 

A resposta de Salazar à crise estudantil de 62, não foi uma sapatada unida da base de apoio do regime. Antes, foi uma brutal reacção radical de Salazar e dos ultras à crise aberta na sua fábrica de elites. E, sintomaticamente, encontramos Marcello Caetano “no outro lado”, a ser humilhado e ultrapassado pela dinâmica da repressão cega. Este factor terá tido um contributo decisivo para impossibilitar, depois, uma “transição pacífica” do regime quando, Salazar afastado, Caetano voltou a ser condicionado pelos ultras que o manietaram na tentativa tímida de “abrir o regime” e, da parte da oposição, contar com poucas mãos estendidas (a “ala liberal” foi um mero amontoado de meia dúzia com 80% de corporativismo e 20% de espírito democrático, e Soares rapidamente entendeu que a CEUD não tinha espaço nem do lado do regime nem da radicalidade da oposição). Assim, de certa forma, ao ordenar a cega e brutal repressão aos estudantes mobilizados em 1962, Salazar impôs a Revolução que, por acaso de circunstâncias, ocorreu em Abril de 1974. E, neste aspecto, Salazar conseguiu que, por obra sua, liberdades, democracia e partidos, nunca sairiam do fascismo a que ele deu cunho pessoal e tornou irreformável. Ou ele ou a revolução, cumprindo-se-lhe o pensamento, o desejo e a herança.

 

A “crise de 1962” dotou igualmente a oposição ao regime de uma nova radicalidade, disponibilidade e nível social e cultural. Até ao momento, esta oposição, centrada no movimento operário e do proletariado agrícola, mais um conjunto desconjuntado de personalidades intelectuais com projecção urbana, vivia dos fluxos e refluxos da luta do PCP. Era, assim, um caso de polícia que a polícia controlava, posta esta à prova em alguns grandes sustos (final da 2ª Guerra Mundial e campanha de Delgado em 1958, quando se alargava a frente de repulsa pelo salazarismo). Mas com o início da guerra colonial, em 1961, o regime, ao cristalizar-se num fanatismo colonial, aceitando o desafio da guerra, não só endureceu e rigidificou-se, conglomerando-se como um corpo de ultras à volta de Salazar e transformando a guerra colonial num dogma, e empurrando qualquer veleidade dissonante para a radicalidade oposicionista. Em 1962, um mero Dia de Estudante (se lermos os seus objectivos programáticos, veremos como são brandos e incaracterísticos os seus pontos de não conciliação possível com o regime) é motivo para uma desastrada e impiedosa repressão no pior estilo caceteiro típico de hordas fascistas. E, como saldo final, daí para a frente, as universidades portuguesas não mais pararam de fornecer ao combate ao regime centenas de novos activistas jovens, radicais, letrados e com suporte social. O PCP agradeceu (entretanto, Cunhal, no exílio, tinha recomposto uma direcção monolítica e submissa, com disciplina e absoluta obediência ao líder), incorporando nas suas fileiras revolucionárias centenas de quadros estudantis treinados na luta contra a polícia nas universidades e indo resolvendo a custo um novo “problema partidário” (o do equilíbrio entre a sua tradição operária e um número cada vez maior de filiações e funcionários políticos vindos do meio estudantil, não fáceis, à partida, de formatar como bolcheviques com culto de deferência complexada para com a “classe operária”) (**). E quem não era, só tinha que ser “companheiro de jornada” do PCP, mais ou menos conscientes dessa condição. Só Maio de 68 em França, a invasão de Praga pelos tanques soviéticos e o cisma sino-soviético, iria levar a que as sucessivas vagas estudantis fossem centros de estágio político não só para o PCP como para os movimentos esquerdistas, sobretudo maoístas e trotsquistas. Entretanto, no centro da questão central do regime (a questão colonial), milhares de oficiais milicianos eram enviados para a guerra colonial comandar tropas e acabadinhos de serem politizados nas universidades. Foi demais. O antifascismo radical, melhor ou pior trabalhado na retórica marxista, dos oficiais milicianos rapidamente contaminou os oficiais profissionais de patente baixa e média e quebrou a inércia destes em manterem uma guerra prolongada, sem solução e sem justificação. E deu-se o “segundo milagre” do regime (o “primeiro” havia sido a transformação de estudantes burgueses destinados a serem a “nata da nação” em oposicionistas radicais): transformar oficiais colonialistas em oficiais antifascistas. Pum, revolução.

 

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(*) - Olhe-se para a actual faixa dos 50 aos 70 anos de idade dos que estão e estiveram nas esquerdas política e intelectual, contabilizando a revolucionária, a reformista, a académica, a literata, a artística e a jornalística, incluindo algumas fugas para o centro, desde a Revolução até hoje, e atente-se ao peso determinante das elites políticas saídas das fornadas de antigos activistas estudantis que lutaram contra o fascismo nas Academias no período 1962-1974. Ao fim e ao cabo, seguindo o pensamento de Nogueira Pinto, a democracia portuguesa foi também, através dos seus mais importantes actores constituintes e consolidantes, um "legado" de Salazar e Caetano. 

 

(**) Quanto à influência e organização das lutas estudantis pelo PCP (quase exclusiva até 68) é uma evidência. Muitos quadros estudantis destacados eram membros do PCP e muitos outros foram ali recrutados. Mas há uma tragédia, pouco e mal contada (e que merecia investigação), muito pouco abonatória para a segurança conspirativa da organização, associada a este facto: a infiltração genial da PIDE de Nuno Álvares Pereira no posto máximo do comando da organização dos estudantes comunistas em Lisboa e que levou (em 1964, 65) à prisão de todos os estudantes comunistas filiados que actuavam na legalidade, enquanto a PIDE, dando-lhe uma falsa identidade, colocou Nuno Álvares Pereira no Brasil. Ainda hoje persiste esta dúvida legítima: como foi possível a PIDE infiltrar no topo da organização estudantil comunista, como controleiro dos estudantes comunistas de Lisboa, um seu agente, passando todas as malhas do controlo conspiratório e, conseguindo vencer as clássicas barreiras da regra da "compartimentação", conhecendo os dados de todos os filiados no PCP e, com uma "limpeza", permitir à PIDE prender todos os estudantes comunistas filiados em Lisboa?

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[Um esclarecimento: Supõe o estimado M.C.R. que eu sou da sua geração de luta estudantil, a de 62. Na altura, eu ainda andava no secundário, pelo que acompanhei a “crise de 62” pelos ecos. De 63, já em refluxo, até 68, é que foi um permanente pegar fogo à peça. Portanto, o mais natural é que tenham havido bordoadas que acertaram nos costados de ambos. E nos "educaram" politicamente. Ele em Coimbra. Eu por Lisboa e Porto.]

Publicado por João Tunes às 19:22
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LETRAS EXTREMADAS

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Há um alarme justificado sobre a candidatura de uma lista de estudantes neo-fascistas à direcção da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa. Quanto à única lista oponente, ela pertence à “Jota” do PCP (que teve ajuda do “serviço de ordem” da URAP para refazer murais pintados pelos neo-fascistas).

 

Assim:

 

- A disputa da AE na FLL vai ser uma reedição local da “romagem de Santa Comba” e do concurso televisivo dos “grandes portugueses”. Falta, ali, uma faísca de inovação e criatividade.

 

- O PCP vai, mais uma vez, arrecadar, em seu proveito, os votos “antifascistas” e, com isso, provavelmente, proclamar mais uma sua vitória “contra o fascismo” que irá direitinha para a contabilidade sectária das “vitórias do partido”. Sobra ali, então, a estafada dicotomia.

 

- Os estudantes democratas da FLL, se existem (como não existirem?), andam a dormir ao permitirem uma polarização entre extremismos. Exagera-se, ali, em estados de preguiça política aguda.

Publicado por João Tunes às 17:01
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DICA DE INFORMÁTICO (engenheiro e competente)

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Informática explicada aos PC’s de “primeira e única geração”:

 

“quando uma cabeça é formatada e posteriormente nela se inscrevem determinadas configurações pessoais, seguidas do indispensável software, esse cérebro mantém o processo de raciocínio para o qual foi manietado, com as inerentes limitações do hardware, até que seja de novo formatado, num procedimento igualzinho ao dos imprescindíveis computadores. No contexto dos PCs, também há outro processo, por vezes mais eficaz, que são as repartições, que, por extrapolação, se podem aplicar também aos miolos. Todos os dias encontro pessoas a necessitar de novas formatações e outras a quem seria recomendável executar algumas repartições.”

 

O que o engenheiro Perdigão (não curando eu de saber se este estimado companheiro é engenheiro com canudo em ordem ou só engenheiro pelo talento que os neurónios lhe conferem) não explicou, ou não dissecou, é que há PC’s armadilhados com software (resistente à formatação e portanto o caso único em que o software manda no hardware) para só aceitarem um programa. São os chamados, e elogiados, PC’s Coerentes. Duram uma vida inteira e têm garantia sem prazo para neles serem felizes os que lá computam. As Igrejas usam-nos muito. Sejam ou não Partidos.

Publicado por João Tunes às 15:31
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Domingo, 25 de Março de 2007

EL PAIS

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Uma razão para reforçar a fidelidade ao meu jornal preferido (El País): está a ser boicotado pelo PP de Mariano Rojoy.

Publicado por João Tunes às 18:57
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Sábado, 24 de Março de 2007

TANTO QUE MUDOU EM 45 ANOS

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É uma cómica ironia que, hoje, comemorando-se o famoso Dia do Estudante (24 de Março de 1962), a única agitação estudantil digna de nota seja a barafunda na “Universidade Independente”. Em 1962, em ditadura, o regime abanava ao reprimir os estudantes. Em 2007, em democracia, quem abana é a máfia enfiada no “ensino universitário privado”.

Publicado por João Tunes às 12:24
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Sexta-feira, 23 de Março de 2007

O GUARDA-REDES VINDO DO BENELUX

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Se na Bélgica mesmo, os flamengos não se entendem com os valões, ou seja a maior constância da Bélgica é os belgas não se entenderem entre si, restando ainda os bruxelenses que são uma terceira casta, como é que fora da Bélgica, em Portugal por exemplo, podemos entender os belgas? Mas há excepções. Entre nós, um guarda-redes despertou quem sabe da Bélgica e sobre os belgas. Leiam-se então dois mestres em Benelux:

 

Aqui:

 

Não aprecio particularmente os belgas. São parolos e - suprema inglória - passam a vida a serem gozados pelos franceses. Que se lavam pouco. Ambos.
Isto das conversas é como as cerejas: vem um nevão, feliz Natal, traz-me mas é os bolinhos de abóbora.

O guarda-redes da selecção belga veio aí dizer umas coisas sobre hospitalizar Cristiano logo aos dois minutos de jogo, à patada, umas baboseiras de belga flamengo com fenótipo de metafêmea. Os valões não são muito melhores que os flamengos, aliás: é tudo parolada, ali.
Ali, é quase tudo Van - ou Mbo: que querem? É!

 

Ali:

 

Peço desculpa por contrariar o tom geral de indignação patriótica, mas esse guarda-redes belga merece o meu aplauso particular: é um herói num país ligeiramente aborrecido (eu gosto muito de Antuérpia). Digamos que ele se distingue bravamente – pediu que dessem duro no Cristiano Ronaldo. E, para corrigir, lamento que ele não tenha dito: “Não, eu não pedi para castigarem unicamente o Ronaldo. Eu pedi para aniquilarem todos!” Isso é que era. Eu levantar-me-ia, aplaudindo. Num mundo em que todos fingem e lutam para serem mais palermas e sonsos do que o vizinho, esse guarda-redes de que esqueci o nome merece aplauso, palmadas nas costas – e que lhe paguemos uma cerveja. Bravo, rapaz! Tu contrarias essa imagem papalva dos belgas! Tu estás à nossa medida. Futebol e estalada, uma bela dupla. E tudo se acabava, indo a rapaziada jogar à bola – esmagando os belgas, leal e convenientemente.

 

Entenderam? Não digo sobre a Bélgica e os belgas, refiro-me aos guarda-redes. Porque, lembre-se, não foi a Bélgica nem os belgas que falaram em sarrafada no Ronaldo. Foi um guarda-redes e belga. O que é curto mas suficiente para se despejar umas boas litradas de xenofobia, daquela em que um guarda-redes belga se transforma em Bélgica.

Publicado por João Tunes às 23:00
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A questão Euskal Herria

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Numa governação convincente, em que todos os indicadores lhe são favoráveis quanto ao lançar da Espanha no progresso e na modernidade, Zapatero sofre de mal no calcanhar (malvado tendão de Aquiles) por causa da “questão basca”. Parecendo que a ETA e os demais nacionalistas bascos se prestaram a esse lastimável papel de darem ao PP e a Rojoy trunfos e um protagonismo oposicionista que, de outra forma, dificilmente alcançariam. O certo é que Zapatero não só lida mal, muito mal, com a “questão basca”, como, dessa forma, constantemente dá oportunidades de afirmação oportunista ao PP e à ETA mais seus apoiantes disfarçados.

 

O atentado de Barajas desfez a estratégia optimista de Zapatero relativamente aos bascos e à ETA. E meteu a nu as suas debilidades enquanto chefe de governo. Quando a ETA lhe mordeu a mão de político apaziguador, Zapatero demonstrou que lhe falta, além da sua comprovada dimensão política, cultural e de homem de modernidade, a dureza de punho necessária para lidar com políticos assassinos, separando as águas entre a lide com democratas e o confronto com fanáticos. O PP e Rojoy aproveitaram magistralmente a oportunidade, num vergonhoso oportunismo em que demonstram que, para eles, uma vitória eleitoral vale mais que a Espanha, mobilizando a velha Espanha saudosista da mão férrea, tentando o retorno da cobrança eleitoral que apeou Aznar quando usou a ETA como mentira nos atentados do 11M. Quanto à ETA, metida a bomba em Barajas, cedeu o palco à Batasuna (os etarras disfarçados de políticos) e aos nacionalistas mercantis do PNV, enquanto mandava um dos seus mais odiosos assassinos aprisionados conseguir um sucesso jurídico-humanitário por via de uma dieta rigorosa, obrigando Zapatero a um novo dobrar de joelhos.

 

Certo é que a ETA parou nas bombas e nos tiros, vivendo agora dos rendimentos da feroz e persistente campanha do PP e da velha Espanha e dos trunfos políticos a jogar pelo Batasuna. Dando, para mais, a ilusão de que Barajas foi um episódio acidental no processo político e de tréguas.

 

É uma lástima que o excelente governo de Zapatero se tenha deixado aprisionar nesta complexa e sofisticada teia política ETA/PP/PNV, até parecendo combinados, embora cada qual a representar o seu papel de simetria nas aparências dicotómicas que se prendem com a “questão basca”. Mas, em política, o que é, é.

 

O grande feito da ETA/Batasuna, demonstrando capacidade de imaginação e iniciativa política, foi a proposta de transição autonómica e como substituta aparente da exigência radical da independência imediata. Claro que a proposta está envenenada e é pelo veneno metido que a proposta do Batasuna tem de ser lida. Ao proporem uma “região basca” (Euskal Herria, chamam-lhe eles) que inclua Navarra e as províncias bascas francesas (ver mapa), a ETA/Batasuna sabe que está a avançar com o engodo de uma impossibilidade. Nem os navarros, ou grande parte deles, se consideram bascos (como o demonstraram em manifestação, foto de baixo e ver post certeiro do Daniel), nem a França se dispõe a abrir uma “questão basca” a sul. E para uma eventual consulta referendária, caso houvesse entendimento sobre a dimensão territorial da consulta, sobre a vontade dos bascos, a ETA/Batasuna tem um veneno guardado como reserva: a decisão sobre quem pode votar (a ETA/Batasuna defendem uma linha racista de que só os bascos por raça podem votar, devendo tal ser vedado aos espanhóis de outras regiões que através de várias gerações nasceram e vivem nas províncias bascas). Assim, politicamente, os bandoleiros do nacionalismo basco entre as bombas e os tiros, vão lançando armadilhas políticas sem solução e que prolongam o impasse até à próxima bomba e ao próximo tiro.

 

E o que faz o PNV, o partido conservador, de raiz clerical, associado à próspera burguesia basca e que comanda o governo regional? Governa-se em vez de governar e ajudar a uma saída política para a “questão basca”. Pisca um olho ao PSOE e a Zapatero para lhe comer, bem, muito bem, à mesa do Orçamento. Pisca o outro olho à pressão dos assassinos da ETA e do Batasuna. Uma estratégia de puro mercantilismo político. Que, diga-se, agrada à maioria dos bascos (e que explica as sucessivas vitórias do PNV). Para quem tem costume de visitar Espanha, constata com toda a facilidade que onde lá se vive melhor, com melhor qualidade de vida, é precisamente nas duas regiões onde se faz chantagem autonomista e nacionalista sobre Madrid (País Basco e Catalunha), sabendo eles perfeitamente que, independentes, sem a Espanha e sem mamarem na teta de Madrid, desceriam uns bons degraus nos seus níveis de prosperidade.

 

Apertado entre a pressão autoritária do PP, as bombas da ETA e o maquiavelismo do PNV, com a situação política a descambar permanentemente para impulsos oportunistas ou para impasses e impossibilidades, como vai Zapatero descalçar a bota que lhe aleija o calcanhar? Hoje, a sua imagem é de desgaste e desorientação. Talvez amanhã nos surpreenda. De uma surpresa agradável da parte de Zapatero, um revelar não previsível de uma sua estatura política guardada como reserva, depende muito do bom futuro de Espanha. Desejo isso. Tanto mais que nada nos convém termos aqui ao lado um vizinho calmeirão à zaragata nos seus condomínios. 

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Publicado por João Tunes às 16:57
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Major Rottweiler

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Não sei não, caro Raimundo, se a Judite Sousa fosse ucraniana o major não lhe teria mordido.

Publicado por João Tunes às 12:05
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MENINOS BARATOS

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Entre 9 e 40 euros custa cada menino no “mercado” de tráfico de menores na Índia. E o montante das “transacções”, naquele país, chega ao número espantoso e doloroso de 60 milhões de crianças (ler notícia aqui).

 

Lendo esta denúncia, fica-se com a ideia que a humanidade necessita urgentemente de tornar infinita a dimensão da sua vergonha. Ou então, o problema é ela ter descido aos zeros.

Publicado por João Tunes às 00:57
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BASKET-TEATRO?

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Belíssima foto "AP-El País" em que o melhor basquetebolista espanhol Pau Gasol (jogando na NBA) enfrenta um adversário. Admirável a captação das expressões faciais dos dois jogadores que nada ficariam a dever a um "flash" de uma meritória representação teatral.

Publicado por João Tunes às 00:43
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Quinta-feira, 22 de Março de 2007

NA MÁ HORA DOS “PIDES DE LESTE”

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Estão maus os tempos para os que foram “pides do Leste” no implodido bloco do “socialismo real”. Zelosos funcionários de Estados conquistados pelo Exército Vermelho e que da supremacia operário-camponesa passaram para Estados de Partido Único até culminarem (todos!) em Estados de Polícia, vivem agora momentos difíceis. Habituados, impunemente e com direito a benesses e medalhas, a vigiarem, denunciarem, prenderem, torturarem e assassinarem, combatendo a diferença, os antigos “pides do Leste”, repudiados pelos povos que lhes sofreram a canga ditatorial, estão em aflição para se reintegrarem nas “novas ordens” decididas aos votos.

 

O “Avante”, como era de prever na velha tradição dicotómica do ódio a Peniche com amor a Lubianka, sofre com a má sorte dos seus queridos camaradas “pides do Leste”, prestando-lhes a previsível solidariedade:

 

"Agora [na Polónia], todos aqueles cuja data de nascimento é anterior a Agosto de 1972 (isto é, maiores de idade na altura da derrota do regime socialista, em 1990), e exerçam as profissões abrangidas (cerca de meia centena), devem revelar os pormenores da sua eventual colaboração com os órgãos de segurança do país.
Nesse sentido, dispõem de um prazo de dois meses para entregar a declaração ao inquisitório Instituto da Memória que a confrontará com os arquivos da polícia (SB) da antiga República Popular da Polónia e divulgará os resultados na Internet."

(…)

"Depois da queda do muro de Berlim, e a absorção da RDA pela RFA, muitos milhares de funcionários do Estado, professores universitários, pessoal diplomático, entre outros, foram simplesmente expulsos pelo governo alemão. Até Dezembro passado, muitos cidadãos alemães, acusados de terem colaborado com os órgãos de segurança (Stasi), tinham o acesso vedado aos quadros da função pública. Esta interdição mantém-se para os cargos de ministro, deputado, juiz e de dirigente desportivo.
Na Estónia, os candidatos a altos cargos do Estado eram obrigados, até ao ano 2000, a declarar sob juramento não terem colaborado com o KGB (órgãos de segurança da URSS) ou a reconhecer publicamente a sua «culpa»."
"A Bulgária acaba de aprovar uma lei que visa apurar o passado de 28 grupos profissionais, entre os quais estão os políticos e os jornalistas, enquanto que a Roménia exige uma declaração de honra aos funcionários públicos, sancionando os que prestam falsas informações. Entretanto, o parlamento nacional prepara-se para aprovar uma lei mais severa."
"Na Checoslováquia, desde 1991 que os antigos colaboradores da polícia estão impedidos de ingressar na administração pública."

Resta agora esperar pela inevitável tomada de posição da URAP, provavelmente pedindo uma ala de recordação dos "pides de Leste" num Museu da Memória para que se perceba bem a diferença, do ponto de vista dos perseguidos, entre a sorte dos que sofriam por tratos daquelas mãos sujas de sangue e as congéneres saídas das mangas odiosas dos "pides salazaristas".

Publicado por João Tunes às 17:20
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RECEITA ALBANO

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Receita de Albano Nunes, alto dirigente do PCP e seu guia no internacionalismo proletário optimista, para, com a esperança na acção dos bombistas no Iraque, o “chavismo”, o “castrismo” e a pujança chinesa, tudo bem temperado com a leitura das “Obras Escolhidas” de Cunhal mais a “luta de massas” contra o PS, “discernir na incerteza” a grande vingança histórica e política contra a inversão no “curso libertador” iniciado com a Revolução de Outubro e consolidado com o Exército Vermelho:

 

A incerteza e a desordem que realmente reinam nas relações internacionais são produto do capitalismo. Resulta das tentativas do imperialismo – explorando a fundo as derrotas do socialismo e a brutal alteração na correlação de forças que daí resultou – de inverter o curso libertador impulsionado pela Revolução de Outubro e, ulteriormente, pela derrota do nazifascismo na II Guerra Mundial.

(…)

A resistência no Iraque e a viragem à esquerda na América Latina (com Cuba socialista e a Venezuela bolivariana na primeira linha) são porventura a face mais visível de uma realidade que temos de acompanhar de perto e valorizar muito pois ela constitui um forte incentivo à luta que travamos em Portugal.

(…)

Mas é já uma evidência que a contra ofensiva do imperialismo está a ser tudo menos o passeio com que sonhou, defronta-se com crescente resistência e com processos de rearrumação de forças em que grandes países, com destaque para a China, exercem influência crescente na cena internacional.

(…)

Como a história do PCP ensina, para os comunistas só há uma maneira de estar à altura desta complexa e contraditória situação: estar lá onde estão os trabalhadores, reforçar o Partido, confiar nas massas e organizar a sua luta. Foi assim que se forjou este grande partido que hoje somos com um papel insubstituível na luta libertadora da classe operária e do povo português. Neste sentido, o I Tomo das Obras Escolhidas de Álvaro Cunhal, pelo período que abarca e as experiências que comporta, constitui um precioso instrumento para ajudar a discernir na incerteza as grandes tendências de evolução e dar à nossa luta quotidiana o necessário enquadramento histórico.

Publicado por João Tunes às 16:43
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