Sábado, 31 de Março de 2007

ATÉ COMER A RELVA

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A cara Cristina, uma referência de simpatia e frescura na blogosfera, achou despropositados os trajes femininos que alvitrei para ir ao futebol. Respeito-lhe a opção por encadernações mais práticas para assistir à batalha desportiva de amanhã. Sabendo-a das minhas hostes, aqui fica alternativa. De facto, como a liderança está em causa, há que aliviar o equipamento e até a pele. E, se preciso, ir lá baixo enervar o Helton. Ou comer a relva. Olé!

Publicado por João Tunes às 00:24
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CARTAZ?

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Qual cartaz? Eu publiquei post a avisar que “eles” andavam aí e apanhei na cabeça, merecidamente, por lhes estar a dar publicidade. Cartaz? Qual cartaz?

Publicado por João Tunes às 00:04
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Sexta-feira, 30 de Março de 2007

FIAT LUZ pelas VENTOÍNHAS MEXIA

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Da EDP espera-se que se ligue o interruptor e saia luz. E arranque, sob nossas ordens, a máquina de lavar loiça e o micro-ondas nos aqueça a comida com o remanescente de véspera porque o tempo não está para desperdícios. E o aspirador não se negue a limpar as irritantes migalhas de bolachas deixadas como herança da manutenção nos níveis de hidrato-carbonos, vingando-nos, nestes gastos, um dia mal pago e mal urdido em que falhou a promoção prometida, coincidindo com a notícia catastrófica e de escárnio freudiano da perda de virgindade da filha do meio, e nos enfiamos no sofá para receber a tele-evangelização privada ou percebida pelos neurónios como serviço público. Estas e outras coisas que metem tomadas, fichas, fios e, sem pensarmos nisso “ao momento”, as contas para pagar pelas nossas úteis, acrescidas das lúdicas, necessidades. Sempre exorbitantes, mas depois banalizadas como escândalo instantâneo entre a cascata das muitas contas para pagar que predominam nas caixas do correio relativamente às parcas cartas de amigo ou de amor e só ultrapassadas pelos pedidos de comprarmos o inútil para sermos felizes

 

Um consumidor sujeito a este ciclo repetitivo de ligar e desligar interruptores, estender extensões a terminarem em fichas triplas, substituir lâmpadas fundidas e pagar as contas à EDP por desconto bancário, liga o PC, acende a Internet, liga-se à EDP, mãe da nossa energia, e :

 

Nos termos e para os efeitos do disposto no artigo 248.º do Código dos Valores Mobiliários, a EDP - Energias de Portugal, S.A. (EDP) vem prestar a seguinte informação ao mercado e ao público em geral:

A EDP celebrou hoje com a Goldman Sachs Group, Inc. um contrato de compra e venda de 100% do capital social da Horizon Wind Energy LLC ("Horizon"), uma empresa líder no desenvolvimento, gestão e operação de parques eólicos nos Estados Unidos da América.

Esta transacção valoriza os capitais próprios ("equity") da Horizon em 2.150 milhões de dólares. A dívida líquida da Horizon a 31 de Dezembro de 2006 era de 180 milhões de dólares. O valor de aquisição, à data da sua conclusão, será ajustado pelos investimentos incorridos, actualmente estimados em 600 milhões de dólares.

O financiamento desta aquisição será realizado através de empréstimo bancário à EDP e de entradas em dinheiro de um parceiro de investimento em "tax equity", encontrando-se ambos acordados em regime de "underwriting".

A conclusão desta operação está sujeita à verificação de determinadas condições típicas, incluindo a obtenção de autorizações regulatórias por parte de autoridades federais e estaduais americanas. Espera-se que esta operação venha a ser concluída até ao final do segundo trimestre de 2007.

 

A aquisição da Horizon integra-se no âmbito dos objectivos estratégicos da EDP, na medida em que:

(i) Antecipa o cumprimento das linhas estratégicas definidas para o período 2007-2010;
(ii) Reforça a posição de liderança da EDP no sector das energias renováveis;
(iii) Viabiliza a entrada da EDP, com uma posição de liderança, no mercado dos Estados Unidos da América, o qual apresenta perspectivas de elevado crescimento;
(iv) Diversifica as fontes de receita da empresa, reduzindo os riscos do respectivo "portfolio".

Com a aquisição da Horizon, a EDP tornar-se-à num player líder a nível mundial no sector das energias renováveis com mais de 3.800 MW brutos de capacidade de produção em operação até ao final de 2007.

Desde a sua criação em 1999, a Horizon tem sido uma das empresas de desenvolvimento de projectos eólicos com mais sucesso nos Estados Unidos da América, em grande medida devido à sua equipa experiente e a uma elevada reputação junto de proprietários de terrenos, comunidades locais e clientes.

 
A empresa detém actualmente 559 MW brutos de capacidade eólica em operação e 997 MW de projectos em construção, cuja entrada em operação se espera que venha a ocorrer até ao final de 2007, perfazendo um total de 1.556 MW brutos (1.324 MW líquidos). A Horizon detém ainda um "pipeline" de projectos atractivo em diferentes fases de desenvolvimento em 15 Estados com uma capacidade de produção potencial total de mais de 9.000 MW.

 

Lê e não percebe como vai melhorar a sua vida (energética). Nomeadamente, quanto aos efeitos nas lâmpadas, na máquina de lavar loiça, no micro-ondas, no aspirador, nas televisões pública e privada e se diminui o número de lâmpadas fundidas. Menos entende como é que a electricidade produzida pelas ventoinhas eólicas enfiadas pela Horizon nos vales dos Estados Unidos, atravessando o Atlântico, lhe chega às tomadas do lar e lhe melhoram o ambiente, por provir de uma fonte renovável. E qual o significado de a EDP passar a ser um “player mundial no sector das energias” quando reflectido nas facturas que paga. A que se soma a perplexidade perante o trambolhão com que a Bolsa penalizou a EDP por esta aventura nas ventoinhas eólicas americanas. Cansado de pensar, só pode desconfiar da capacidade de António Mexia justificar, em energia e rentabilidade, a gorda e milionária compensação que receberá quando for corrido e substituído na EDP. Sabendo que vai, fatalmente, ser ele a pagar na factura da electricidade descontada na conta bancária. Porque sem lâmpadas, sem máquina de lavar, sem micro-ondas, sem aspirador e sem televisão, a vida reduz-se à ausência de energia. Ou seja, acende-se-lhe a morte. Cruzes canhoto. E assim, enquanto durar, vamos todos precisar de Mexia. Pagando-lhe. Incluindo quando ele zarpar ou fôr zarpado.

Publicado por João Tunes às 23:15
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COMO PERCEBER OS “REVISIONISTAS”?

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Talvez o Tiago Barbosa Ribeiro tenha razão: a RTP falhou ao não meter o Леонид Ильич Брежнев na lista dos candidatos a “grandes portugueses”. Mas, mesmo assim, acho excessivamente maquiavélica esta forma malandra de, passado o prazo e feita a votação, teimar em insinuar formas sobre como se podia prejudicar o segundo classificado. Sabendo que não resolvia o "problema principal", o do "vencedor", aquele senhor que não foi fascista, só assim a modos que ditador conservador e autoritário. 

Publicado por João Tunes às 19:40
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RDA, MODELO OU CULPA?

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Que me desculpe o Lutz, mas fiquei com sérias dúvidas sobre a forma como caracteriza a “obra RDA”:

 

“Os que construiram devotamente o modelo mais evoluído do comunismo [a RDA], foram sempre uma minoria, e porventura os sobreviventes duma luta dedicada e com grandes sacrifícios contra o nacional-socialismo.”

 

No final da guerra, o DKP (Partido Comunista Alemão) estava destruído (ainda hoje é uma quinquilharia alimentada por um pequeníssima seita de fanáticos) e o comunismo erradicado da Alemanha. Uma parte da militância comunista na Alemanha (muitos militantes, vários milhões de eleitores nas eleições ganhas por Hitler) foi aniquilada por Hitler, outra (a grande maioria) reciclou-se no “nacional-socialismo”, uma terceira (uma ínfima minoria) emigrou para a URSS e sofreu uma violenta purga aniquiladora de Estaline. Sobraram meia dúzia de quadros conservados por Estaline, fanatizados ao seu culto, a que se podia juntar um insignificante núcleo que se conservara clandestino, mas disperso e inoperante, na Alemanha hitleriana.

 

A RDA foi, sobretudo, obra da ocupação do Exército Vermelho e do posicionamento de forças no início da “guerra fria” (como a RFA foi a sua dimensão simétrica, a “ocidental”). Assim, sempre foi um Estado artificial e meramente do género geoestratégico e conjuntural. Porque RFA e RDA sempre foram Estados em espera de reunificação.

 

Enclausurados na “zona de ocupação soviética”, os alemães que não conseguiram passar para as outras zonas, com o país destruído (e a ser posteriormente saqueado para as “reparações de guerra”), com a “culpa do nazismo” agarrada ao corpo por serem apoiantes de véspera do fanatismo irredentista hitleriano, incorporando uns milhões de patrícios expulsos da Checoslováquia, Hungria e Polónia, o que podiam fazer? Melhor, o que podiam escolher? À maioria desses alemães, os que sobreviveram à “desnazificação”, não restava alternativa que a de seguirem e obedecerem ao novo poder instalado - um misto de poder militar soviético e uma nomenklatura constituída à base de quadros exilados na URSS e sobreviventes das purgas estalinistas e rapidamente reproduzida através do desespero e do arrivismo. O que essa clique dirigente teve arte foi de permitir, sob controlo militar soviético, uma transferência de redenção e superação (por instinto de sobrevivência) da adesão fanática e passada ao “nacional-socialismo” para o culto da RDA (construída por muitos quadros que haviam pertencido ao Partido Nazi e sobreviventes do “processo de desnazificação” e que não só foi breve como selectivo). E, reprimida a revolta de Berlim-Leste em 1953 e construído o “muro”, a formatação da RDA passou a ser obra essencial do pelouro da Stasi. Ou seja, mais que obra de partido-guia, um assunto de polícia.

 

Foi a RDA “o modelo mais evoluído do comunismo”? Por um lado, sim, pelo processo de transferência de fanatismos (nem sequer o “passo de ganso” foi abolido do “Exército do Povo”). Por outro, na RDA, principalmente em Berlim-Leste, não só se era a “montra” do “bloco socialista” como era a primeira linha do confronto (militar mas também cultural, de usos e costumes) na “guerra fria”. Claro que se pode falar também de desporto e feitos olímpicos, mas então teremos de falar de “dopping” e de engenharia eugénico-desportiva. Falemos de mais se aprouver, mas não vejo como e onde vamos encontrar “os sobreviventes duma luta dedicada e com grandes sacrifícios contra o nacional-socialismo”. Se faz favor, diga-me quantos e quais.

Publicado por João Tunes às 16:19
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MODA PARA MODERAR

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O tempo deve estar bom. E as adeptas não vão faltar. Para que apareçam bonitas na “Catedral”, aqui ficam duas sugestões em linha com as tendências da Moda para esta primavera e segundo as opções clubísticas. Talvez influenciem para que a estética neutralize a boçalidade dos fanáticos. É que, quando a barbárie ameaça vir à tona, é sempre hora de nos lembrarmos do valor moderador do bom senso feminino. Que sejam, no caso, o último reduto do fair-play. Mas bonitas, é claro.

 

Fotos de El País.

Publicado por João Tunes às 14:54
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NEM AS FREIRAS ESCAPAM

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Duas candidatas a freiras, naturais da Índia, foram expulsas do “Convento de la Piedad” em Granada (Espanha), em cumprimento das ordens do Arcebispo Francisco Javier Martínez que não quer estrangeiras a tomar os hábitos.

 

Numa religião que se pretende universal e universalista, a xenofobia também lá mora. E nem as freiras escapam. E como uma fobia nunca vem só, quero ver o que lhes resta quando aos Arcebispos lhes der para a homofobia.

Publicado por João Tunes às 12:43
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BOLA, COCA, ALCOOL

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O ciclo infernal da dependência continua a amarrar Maradona, o mais genial entre os génios do futebol. Dói.

Publicado por João Tunes às 12:19
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Quinta-feira, 29 de Março de 2007

AINDA O “CONCURSO”

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Lido na “Mala do Porão”:

 

E nos outros países, onde concursos similares tiveram lugar (…) (com excepção do Equador e Malásia, acerca dos quais não consegui obter informações) quem ganhou? Vejamos:Reino Unido - Winston Churchill , França - Charles de Gaulle , Alemanha - Konrad Adenauer, Bélgica - Jacques Brel, Holanda - Pim Fortuyn, República Checa - Karel IV, Roménia - Stefan Cel Mare, Bulgária - Vasil Levsky, Finlândia - Carl Mannerheim, Estados Unidos - Ronald Reagan, Canadá -Tommy Douglas, África do Sul - Nelson Mandela, Nova Zelândia - Ernest Rutherford. Num total de 13 países, temos como vencedores oito líderes políticos democráticos, dois monarcas, um revolucionário, um cantor e um cientista. E em Portugal?


Em Portugal ganhou o homem que foi o fundador e principal mentor do Estado Novo, um regime político autoritário e corporativista, um regime onde estavam proibidos os partidos políticos e os sindicatos, onde existia a Censura, onde foi criada uma polícia política para perseguir aqueles que discordavam do regime, o único estado que após a II Guerra Mundial se recusou a acatar as recomendações da ONU e não reconheceu o direito à autodeterminação dos povos das regiões por si colonizadas, numa política de isolacionismo internacional sob o lema "Orgulhosamente sós". Ganhou o homem que, perante a sangrenta revolta no norte de Angola, em Março de 1961, respondeu com o célebre "Para Angola rapidamente e em força", conduzindo o país para uma Guerra Colonial que causou milhares de vítimas, que o arruinou economicamente e que abalou as suas estruturas sociais e políticas, o homem que poucos meses depois, a 14 de Dezembro de 1961, a três dias da invasão do Estado Português da Índia (Goa, Damão e Diu) pelas forças da União Indiana, pediu o sacrifício da vida aos três mil militares portugueses aí colocados, com outra fase famosa: "Só soldados vitoriosos ou mortos". Ganhou o homem austero e de falas mansas, por oposição à exuberância de Hitler, Franco ou Mussolini, mais bombásticos, mas que permitiu o culto do chefe, sendo muitas vezes apelidado pela imprensa da situação de "ungido de deus", "salvador da pátria" ou "redentor da nação".

 

Publicado por João Tunes às 23:47
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SCOLARI, UM JOGO, UMA SELECÇÃO, DOIS CLUBES

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Um:

 

Para quem é estrangeiro, cedo se travestiu da mediocridade lusa e, como todo o autóctone médio, vive a vida a jogar para o empate, despreza os melhores e, a juntar a tudo isso, é rancoroso.
Mas afinal não veio esta luminária do Brasil?
Em 1500, Pedro Álvares Cabral…

 

Outro:

 

O jogo de Belgrado: fazer descansar Meireles e Quaresma; fazer correr Simão e Petit. Eis a estratégia. Mesmo assim não correu mal: nenhum deles partiu as pernas.

Publicado por João Tunes às 23:08
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AINDA SOBRE O MOVIMENTO ESTUDANTIL DURANTE O FASCISMO

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Como aqui ressaltámos, entre 1962 e 1968 (1), pese embora a massiva participação de estudantes sem convicções políticas ideologizadas e outros com convicções plurais, a luta dos estudantes portugueses contra o fascismo teve, na sua organização e condução, o papel determinante e absolutamente hegemónico, embora camuflado, do PCP. O que não diferia de toda a restante oposição e luta contra o regime de Salazar. Este “património político” do PCP, quase uma constante na dicotomia fascismo-comunismo que Salazar impôs e que o PCP tudo faz ainda agora para que se prolongue na situação democrática, é usado pelo PCP para tentar legitimar, pelo espartilho do maniqueísmo, a sua prática política e o seu modelo de sociedade como a única alternativa superadora do fascismo e do capitalismo (ou o marxismo-leninismo soviético-sindicalista à PCP ou o regresso do fascismo). Esta sectarização também se exerce sobre a memória e foi levada ao extremo na sessão patrocinada pelo PCP, no passado sábado, para comemorarem, na sua família política, o Dia do Estudante de 1962 e as crises académicas que lhe seguiram (2). Segundo Albano Nunes (3), só os comunistas terão sido combatentes consequentes na luta estudantil e, nestes, há que segregar retroactivamente os que de então até hoje divergiram ou se afastaram [porque (e Iejov não diria melhor): “mudaram entretanto de campo e negam hoje valores que então os colocaram nas primeiras linhas da luta”]. Donde, seguindo-lhe o efeito da vassourada, das dezenas de milhares de activistas estudantis que combateram o fascismo nas três academias (em 1962 e 1969, não se pode esquecer que a luta estudantil teve carácter de luta de massas), nos dignos de “medalha antifascista” sobrará hoje um mero punhado com Albano Nunes à cabeça.

 

Pelo noticiado no “Avante”, Albano Nunes e restantes oradores, se enalteceram à saciedade os méritos da organização dos estudantes comunistas, exagerando pelo excesso do exclusivismo (muitos destacados e influentes dirigentes estudantis não eram nem vieram a ser comunistas, por exemplo: Jorge Sampaio, Vítor Wengorovius, Medeiros Ferreira, Jaime Gama, falando só dos mais destacados em Lisboa em 1962), não falaram de outra face conectável com a história da organização comunista nos movimentos estudantis – a capacidade da PIDE em infiltrar a organização e as inúmeras, algumas gravíssimas, traições de quadros do PCP, incluindo funcionários na clandestinidade, quando das suas prisões. Nesta “face negra”, que não se pode escamotear, nem varrer para baixo do tapete da história, quando se fala da hegemonia comunista entre os estudantes em luta, pois também ela faz parte do “património”, o caso mais marcante é o de Nuno Álvares Pereira. Sobre ele diz a historiadora Irene Pimentel (4):

 

“A 6 de Dezembro de 1964, João Crisóstomo Teixeira, estudante do Instituto Superior Técnico e membro de um organismo de direcção do PCP para parte do sector estudantil de Lisboa, é preso no decurso de um encontro de rua com Nuno Álvares Pereira, controleiro de toda a organização estudantil que usava o pseudónimo “Moreira”.”

Álvares Pereira integrava um nível de controlo partidário especialmente criado para os sectores estudantil e intelectual, cujo responsável era António Joaquim Gervásio, um assalariado agrícola de Montemor-o-Novo, membro do Comité Central.”

“Nascido em 1927, natural de Ponta Delgada, teria, segundo as suas próprias declarações, iniciado a actividade em 1959. É efectivamente referenciada a sua presença logo em Janeiro desse ano num jantar comemorativo do 31 de Janeiro e em Maio subscreve o manifesto “402 estudantes das 3 Academias”, reclamando o afastamento de Salazar. Porém só passa a militante no ano seguinte. Integra então uma das células da Faculdade de Direito, passando depois ao sector militar durante o período em que esteve na tropa.”

“Em Setembro de 1961 passa a funcionário do PCP, substituindo José Bernardino no controlo do sector estudantil de Lisboa, no âmbito da reorganização operada no trabalho partidário entre os estudantes, que decorre da chamada correcção ao “desvio de direita”, empreendida por Álvaro Cunhal, a partir da sua fuga da prisão no ano anterior.”

(…)

“Regendo-se por um modelo orgânico profundamente centralizado, Nuno Álvares Pereira, enquanto controleiro dos estudantes de Lisboa, cohecia a organização profunda e detalhadamente e era ele próprio quem em muitos casos decidia sobre os novos recrutamentos, examinando-os um a um.”

“É certo que a investigação directa e a rede de informadores permitia à PIDE ter um grau de suspeição sobre quais eram os estudantes simpatizantes do PCP, principalmente entre os mais expostos, mas de qualquer forma tratava-se de um retrato desfocado e muito fragmentado.”

“Em Novembro de 1964, pouco antes de ser preso, Nuno Álvares Pereira redige um relatório para o partido sobre a situação conspirativa no sector em que refere que 12,5% dos quadros são conhecidos como comunistas pela polícia e 20% fortemente suspeitos de ter ligações partidárias.”

“Há nos arquivos da PIDE um documento intitulado “Organismo da Direcção Regional de Lisboa do Partido Comunista Português segundo o funcionário “Moreira-Nuno Álvares Pereira”, datado de 6 de Dezembro de 1964, que é precisamente a data em que este fora preso juntamente com Crisóstomo Teixeira, o que, a ser verdadeira a referida data, remete para um conhecimento prévio por parte da PIDE de uma minuciosa descrição de toda a estrutura do Partido Comunista entre os estudantes de Lisboa, em relação a nomes e respectivas células e comités em que estavam integrados, bem como cargos e posições que ocupavam. Longa lista de muitas e muitas dezenas de nomes, que somariam mais de quatro centenas.”

“É certo também que no seu magro processo-crime instruído pela PIDE em todos os autos de perguntas aí incluídos, entre 7 de Dezembro de 1964 e 5 de Abril de 1965, Álvares Pereira nega sempre pertencer ao PCP, e numa informação da polícia política de 6 de Abril conclui que “Não foi possível reunir elementos de forma a poder-se concretizar a suspeita de que o arguido (…) se vinha dedicando à prática de actividades contrárias à segurança do Estado”.”

“Trata-se evidentemente de documentos falsos, destinados a possibilitar a sua libertação, encobrindo as extensas denúncias que fez. Em meados de Abril de 1965, fosse desde antes da sua prisão fosse nos dias que se lhe seguiram, Nuno Álvares Pereira entregou à polícia, com um grau de pormenor impressionante, todo o sector estudantil de Lisboa, indicando os quatro escalões da organização, desde a troika de controlo às células de Faculdade, aos militantes dispersos e às JAP, Juntas de Acção Patriótica, criadas no âmbito da FPLN.”

“Os documentos em posse da PIDE indicam a constituição dos dois organismos que compõem o chamado 2º escalão, com nomes e pseudónimos, bem como a escola que frequentam, assim como as células e comités de escola que cada um desses elementos por sua vez controla, que constituíam os 3º e 4º escalões partidários.”

“Segundo esse documento, João Crisóstomo Teixeira, por exemplo, fazia parte de um dos dois organismos controlados directamente por Nuno Álvares Pereira, usava o pseudónimo “Gonçalo” e controlava, ao nível do 3º escalão, as células da Faculdade de Ciências, do Instituto Superior Técnico e o organismo composto pelos dois militantes que faziam parte da RIA, Reunião Inter-Associações. Dirigia ainda, no 4º escalão, no IST, mais uma célula, através da qual era controlado o presidente da respectiva Associação de Estudantes.”

(…)

“Há gente presa nesta altura que afirma ter mesmo visto Nuno Álvares Pereira, que seria formalmente libertado ainda antes do final desse mês de Dezembro de 1964, a observar algumas das sessões de interrogatórios.”

(…)

“Só a organização estudantil de Coimbra pôde escapar praticamente incólume a esta enorme vaga repressiva. O seu responsável, Valentim Alexandre, mantinha contacto com Nuno Álvares Pereira, para efeitos de coordenação nacional do movimento estudantil, mas “Vieira”, como Valentim era conhecido no PCP, apesar da insistência nunca quisera revelar o nome dos poucos militantes organizados no sector em Coimbra.”

“A traição de Nuno Álvares Pereira foi tão longe quanto pôde. Não foi só – e era tanto! – a organização estudantil. Revelou as quantidades de imprensa clandestina – setecentos exemplares do Avante – que nesse ano eram distribuídos na Academia de Lisboa, endereços em Paris para onde se devia comunicar, a partir do interior do país, a composição e funções da célula criada para intervir junto dos estudantes oriundos das colónias que gravitavam em torno da CEI., Casa dos Estudantes do Império, os comités por onde, mesmo que esporadicamente, passou. Forneceu listas de militantes e ex-militantes que estavam em discordância com a linha política do PCP e se aproximavam da FAP, Frente de Acção Popular, criada por dissidência do partido, bem como relatou ou esclareceu a partir de documentos que tinha na sua posse, o posicionamento de vários quadros em relação ao debate político e ideológico que a propósito desta dissidência se travou no partido.”

“Também do ponto de vista da estratégia política para a intervenção no movimento estudantil esclareceu longamente sobre as principais reivindicações a desenvolver, o papel das diferente estruturas legais, desde as Associações e Pró-Associações à RIA e à CEI ou a propósito do lançamento de Comissões de Apoio à libertação dos estudantes presos.”

“Na Universidade de Lisboa tratou-se de um verdadeiro terramoto. A estrutura estudantil do PCP desabou, gorando-se anos de trabalho persistente, de alargamento, de reforço de influência política, precisamente por efeito das denúncias de um dos que, tendo trabalhado praticamente desde o início nessa construção, a renegou completamente.”

“A situação tornara-se particularmente grave porque decapitava o movimento etudantil numa altura em que se começava a ultrapassar uma certa ressaca resultante da forma como se encerrara a crise académica de 1962.”

 

(1) – A partir de 1968, a hegemonia do PCP sobre os estudantes passa a ser progressivamente sempre mais disputada até 1974. Efeitos dos ecos de Maio de 68 em França, a repugnância pela invasão de Praga pelo Pacto de Varsóvia, o cisma sino-soviético, as erupções do trotsquismo, do guevarismo e dos “católicos progressistas”.

 

(2) – Segundo notícia do último “Avante”. Nela pode ler-se:

“O dirigente do PCP [Albano Nunes] chamou a atenção para aqueles que, tendo rompido com valores e ideais, invoquem a sua participação no movimento estudantil antifascista, muitas vezes na condição de membros do Partido, «para fins de promoção pessoal e, pior ainda, para dar cobertura de “esquerda” a políticas que têm afinal o mesmo sinal de classe (os interesses do grande capital) daquelas que então combateram».”

(…)

“Da «crise académica» de 1962, acentuou o dirigente do PCP [Albano Nunes], há «certamente dirigentes e activistas, comunistas e não comunistas, que foram protagonistas destacados, com méritos individuais próprios». Méritos que, não sendo lícito apagar, seria «inapropriado» exagerar, até porque «não poucos mudaram entretanto de campo e negam hoje valores que então os colocaram nas primeiras linhas da luta».”

 

(3) – Albano Nunes foi militante comunista e dirigente estudantil em 1962 e alguns anos seguintes (conheci-o, e com ele reuni e trabalhei no movimento estudantil, quando ele foi, por algum tempo, Secretário-Geral da RIA, após Medeiros Ferreira). Depois, passou à clandestinidade como funcionário do PCP, onde se manteve até 1974 (sem nunca ser preso pela PIDE). É actualmente dirigente do escalão máximo do PCP, sendo seu orientador espiritual sobre o “internacionalismo proletário” do nosso tempo, advogando uma aliança revolucionária do PCP com Cuba, Chavez e o fundamentalismo muçulmano para derrubar o imperialismo e o capitalismo.

 

(4) – No livro “Vítimas de Salazar”, João Madeira, Irene Pimentel e Luís Farinha, Edições “a esfera dos livros”.

 

Imagem: Sede central da PIDE em Lisboa, Rua António Maria Cardoso (ao Chiado).

Publicado por João Tunes às 19:04
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Quarta-feira, 28 de Março de 2007

CÁ NÃO RESULTOU. E LÁ?

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O integralismo católico desceu às ruas de Varsóvia para exigir a proibição do aborto para qualquer circunstância que tenha resultado em gravidez (incluindo violação e incesto). Mesmo tendo a Polónia uma das legislações mais restritivas da UE para a possibilidade de se abortar, os integralistas católicos polacos querem mais, tudo. O obscurantismo nunca é feliz.

Publicado por João Tunes às 23:53
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Terça-feira, 27 de Março de 2007

SÓCRATES E A ENGENHARIA

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Há que tirar ilações da famosa investigação jornalística do “Público” sobre as habilitações académicas do primeiro-ministro, José Sócrates. E, julgo, elas incidem em três pontos ilustrados neste exemplo de “ascensão universitária”:

 

1 – Continua difundida na sociedade portuguesa (resistindo ao efeito da explosão banalizante no número de licenciados e ao facto de, hoje, uma licenciatura não assegurar ascensão social, nem sequer um emprego) o efeito atractivo do valor simbólico de se ser “doutor ou engenheiro”. É um resquício pacóvio-salazarento dos tempos em que se praticava o culto servil perante os notáveis (por nome, por título, por herança, mais que pelo valor humano e de competência).

 

2 – Muito do "ensino universitário privado" sempre tem funcionado, desde que existe e se multiplica, como “fábrica de canudos”, em que o aluno paga, e bem, um título para status mesmo que se mantenha canhestro em termos de competências adquiridas. E assim, com honrosas excepções, quem paga caro o “ensino universitário privado” são, por regra, os alunos com baixas notas que sobram do acesso ao ensino universitário público, ou profissionais minguados de habilitações académicas e que são obstáculos a progressões profissionais desejadas. Num caso e noutro, não passam de patologias sociais e académicas. Em vez de complementarem a oferta universitária, este “ensino” criou um próspero nicho de mercado para gente ansiosa por polir status, pagando por isso.

 

3 – José Sócrates não tinha que ser engenheiro para mostrar as suas (comprovadas e polémicas) competências políticas e como líder governativo. Mas apequenou-se ao sê-lo na forma como lá chegou. E o que arranjou foi que agora, quando se fala de “Engenheiro Sócrates”, fica sonorizado o seu sentido provinciano de gestão do status e o usufruto das misérias do “ensino universitário privado” (para mais, nessa desgraça chamada “Universidade Independente”). Para alguém a fazer pela vidinha, compreende-se. Para quem chefia um governo, é uma nódoa. Pior, Sócrates, ao apequenar-se, encolhe o lustre do governo e do país, mostrando que os estereótipos “sócio-salazaristas” ainda marcam a nossa sociedade a todos os níveis.

 

[Obviamente que se entende bem o afã e destaque dado pelo “Público” a este caso. Cheira demais a Belmiro mandar que Sócrates pagasse a factura da derrota da OPA. Mas isso não invalida que o trabalho jornalístico feito pelo “Público” cumprisse as regras deontológicas e tivesse saído uma boa peça jornalística. Quem anda à chuva molha-se e o importante é a notícia.]

Publicado por João Tunes às 17:46
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VERGONHA NOSSA

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Por cá, vamo-nos arranjando. Ou seja, andamos por aí à cata dos responsáveis (a RTP? o mau ensino? a desmemória? o falhanço das expectativas democráticas? a culpa dos historiadores? a culpa dos “revisionistas” que deram etiqueta branca de “autoritário” ao chefe do fascismo português? a culpa de todos?). Enfim, cá nos entenderemos. Mas ler-nos assim lá fora, custa. Se custa. Sobretudo quando a melhor resposta é ficar-se calado e desviar a conversa por uma vergonha reposta em sermos portugueses, sendo outra vez "pequenos portugueses". 

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Nota: Sirva de consolação precária que, em ignorância histórica, qualquer dos votantes em Salazar está ao nível do correspondente da EFE em Lisboa que guiou a notícia de El País acima linkada. Diz o incompetente jornalista espanhol: “Salazar fue el continuador del régimen militar que en 1926 encabezó el mariscal Antonio Carmona, que depuso a Sidonio Pais”. E numa penada, comete duas calinadas grossas: troca Gomes da Costa por Carmona, ressuscita Sidónio Pais já falecido (assassinado) há vários anos (não atendendo sequer que os insurrectos do 28 de Maio de 1926, eram seus continuadores e não opositores). Por esta amostra jornalística, em Espanha sofre-se do mesmo mal lusitano: ignorância com dolo acerca de História. 

----------- 

 

Imagem: Salazar em amena cavaqueira com o seu amigo, pupilo e aliado Franco, irmão de ditadura em Espanha.

Publicado por João Tunes às 16:15
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Segunda-feira, 26 de Março de 2007

EM DEBATE DE ENGENHEIROS, LICENCIADO NÃO ENTRA

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Só com o andar da carruagem é que percebi porque é que José Sócrates não foi convidado para o debate de hoje no “Prós e Contras” da RTP sobre o novo aeroporto. Ele é licenciado em engenharia e só permitiram a entrada no programa aos engenheiros. Finalmente, a RTP teve mais respeito pela Ordem dos Engenheiros que graxa para os governantes que tantos (engenheiros e também doutores) por aí denunciam.

Publicado por João Tunes às 23:54
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