Terça-feira, 5 de Dezembro de 2006

PODER COM UMA SOMBRA ÁS COSTAS

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Diogo Pires Aurélio sobre o “castrismo sem Fidel” (DN):

 

“No discurso que pronunciou, sábado passado - Dia das Forças Armadas e aniversário do comandante-chefe -, Raúl Castro, seu irmão e ministro da Defesa, reiterou, por um lado, a vontade de encetar negociações com os EUA, a fim de resolver o contencioso que dura desde a revolução, por outro, a sempre alegada "unidade monolítica entre o Povo, o Exército e o Partido". É a língua a bater onde o dente dói. Se há coisa que se tornou óbvia para os dirigentes cubanos, ao fim deste tempo todo e, sobretudo, após a derrocada do socialismo no Leste europeu, é a impossibilidade de sobreviverem isolados. Hugo Chávez possibilitou-lhes, é certo, uma espécie de segundo fôlego. Cuba, porém, sempre que há eleições na Venezuela, fica de credo na boca. Já porque nunca se sabe o que poderá, um dia, vir a sair das urnas. Já porque, mesmo com todo o populismo à mistura e toda a devoção por Fidel, a democracia chavista ainda está a alguns passos da ditadura castrista. Daí a necessidade de esconjurar, com a ladainha da "unidade monolítica", qualquer assomo de divisão nas hostes.”

”Sabe-se o que esta unidade significa e o preço que tem. As estatísticas internacionais sobre prisioneiros políticos são claras quanto aos atropelos e silenciamentos de que ela é feita. Pode haver escritores e artistas que continuam a venerar o comandante, ignorando os que apodrecem nas prisões por delitos de opinião e fazendo de conta que nunca existiu essa ignomínia que foi o "caso Padilla". Mas isso já conta pouco. À medida que os meses passam e o líder não volta, o poder limita-se a andar com a sombra dele às costas, numa encenação que lembra um filme de Kurosawa, fingindo acreditar na existência de um castrismo sem Fidel. As páginas do Granma, jornal oficial do partido, ao repetirem diariamente que haverá continuidade e não ruptura ou sequer transição, mais não fazem que verbalizar o compreensível receio que vai pelo estado-maior.”

 

Publicado por João Tunes às 14:36
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DIFERENÇA MAIOR

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A diferença maior que encontro entre Fidel e Pinochet, irmãos na tirania, é que não consta que o primeiro tenha recebido a extrema-unção. Uma questão de "segredo de Estado"?

 

Imagem: Foto de Fidel Castro e Augusto Pinochet quando de uma visita do primeiro ao Chile dos tempos de Allende.

Publicado por João Tunes às 00:09
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Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006

PARABÉNS SÓNIA (a uma Mãe que já “blogou”)

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Uma querida amiga, minha sobrinha honorária, antes companheira de “bloganço”, mandou-me esta foto do seu “pimpolho na primeira hora de vida neste mundo”. E sublinha a data: “24 de Novembro, no meio de uma tempestade, nasceu o meu sol”.

 

É isso, lembro-me bem. Nesse dia, houve água e ventania que nos abanou e alagou. E com muita lama à mistura, sarjetas entupidas, colectores feitos em fanicos, água suja de um castanho terroso a transformar caminhos em rios que desconvidavam o gosto de serem vistos e agradecidos. Até porque, que eu saiba, ainda estão para aparecer os poetas das enxurradas. E atarefadas as enfastiadas gentes em escapulirem da borrasca, poucos se terão dado conta de que, mesmo assim, ou pior que fosse, houve sol a querer e conseguir nascer. Na teimosia de fazerem alguém feliz, sobretudo os ansiosos na espera de confirmarem o direito ao dom da vida replicada.

 

Olá “pimpolho”. O melhor para ti, desejo-te eu, e enquanto, por breve instante, desvio o olhar da protecção maternal, para espetar um beijo amigo à querida Sónia, uma mulher feliz com medalha de merecida vaidade.  

Publicado por João Tunes às 23:35
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AGNÓSTICO PERANTE DOIS CHEFES MONOTEÍSTAS

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Transcrevo uma reflexão serena e penetrante de um agnóstico (meu primo, porque eu sou de família sanguínea mais radical) sobre a “entente” cordial e circunstancial entre dois mandantes de supremacias monoteístas, dilacerando ambos, com espadas de fé oficial e oficiante, o corpo ameaçador do laicismo. Subscrevo e só acrescento de minha lavra: e a Turquia aqui tão perto. Quase Europa, por obra e graça dos laicos estratégicos ávidos de retaguardas confortáveis em que outros nos façam as fronteiras, desviando-as para longe e deixando-nos a adormecer e engordar nos ricos e remediados sofás europeus.

 

Disse, inspirado, o Luís Januário:

 

“Virados para Meca mas sem ajoelhar. Rezando. Ou meditando, uma coisa que todos podemos fazer. Assim vimos os corifeus das duas grandes religiões monoteístas, as mais mortíferas. E no fim, sorriam, coisa boa.”
”Não sabemos de que falaram, se falaram. Ou o que disseram os que por eles falaram. Dizem que Bento XVI procurava o apoio do Islão para o seu grande objectivo, contrariar a laicização do Ocidente. Mas isso que importa. A imagem fica. Na Mesquita Azul o homem de branco é um laico do islamismo. Não faz sentido para ele rezar virado para Meca. Não acredita no Profeta, na revelação, nos ensinamentos do Corão. Não acredita naquele deus. Mas respeita os crentes daquela fé e respeita aquele espaço. Um verdadeiro agnóstico do islamismo, fazendo o que nós, os agnósticos do cristianismo, fazemos nas Igrejas. Soltar o espírito. Como dizia Unamuno e Lodge citou no final de um dos seus melhores romances: Há um momento em que podemos estar juntos, em silêncio. Se os pensamentos se materializassem, veríamos uma nuvem onde se fundiam as dúvidas dos crentes e as certezas dos agnósticos, e essa mistura magnífica é o chão do mundo de tolerância a vir.”

Publicado por João Tunes às 22:40
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ESTEJAM QUIETOS, AMEM ESTA NOSSA SOCIEDADE

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Oração conformista de João César das Neves na sua homilia paisana no DN de hoje:

 

 

“Todos conhecemos bem os defeitos e vícios da sociedade que temos. Mas nunca devemos perder o respeito, simpatia, até amor por ela. Porque ela é tudo o que temos. É tudo o que somos. É verdade que nos desiludiu, enganou, agrediu e violentou tantas vezes. Mas ao mesmo tempo é ela que nos sustenta, que nos dá vida e segurança. Foi ela que nos formou como somos. Até foi ela que nos ensinou tudo o que sabemos. É ela que nos permite ainda ter esperança, ao menos de poder vir a ter esperança.”

”Devemos amar esta nossa sociedade porque ela é nossa. Como os pais, que apesar dos defeitos dos filhos, que conhecem como ninguém, os amam porque são seus. E também porque ela é como cada um de nós. Também eu sou muito pior do que devia ser. Também eu sou o resultado de múltiplas reformas falhadas, ideais traídos, princípios abandonados. Mas continuo a ter respeito e amor por mim. Devemos amar e respeitar a nossa sociedade, finalmente, porque ela vai ser nossa até morrermos. A não ser que a estraguemos. Sabemos bem das últimas décadas como muitos dos que pretenderam transformá-la criaram monstros muito piores que ela. Do alto da sua generosidade arrogante, com um supino desprezo nascido do ideal elevado, esses acabaram por esbanjar os sonhos e só deixar escombros.”

 

(texto completo aqui)

 

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Adenda: Oportuníssimo o comentário do Lutz, no seu blogue, a este post.

Publicado por João Tunes às 11:58
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Sábado, 2 de Dezembro de 2006

DE HONRA AO PEITO

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Uma honraria não se recusa nem se olvida. Agradeço à ilustre e estimada equipa do Passado/Presente a alta consideração da transcrição (integral e autorizada) de um meu post. Que vai direitinha para a minha colecção de honras e simpatias. Assina, um autodidacta envaidecido.  

Publicado por João Tunes às 22:19
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IMAGINO

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Oiço na rádio, numa qualquer síntese da semana, um eco do rasgado elogio de Cavaco Silva à obra poética de Mário Cesariny. E imagino os serões no Palácio de Belém inundados de poesia - lida, pensada e declamada. Ah, como é feliz este país de poetas por ter um Presidente que os conhece e estima. Finalmente.

Publicado por João Tunes às 21:57
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Sexta-feira, 1 de Dezembro de 2006

UMA ESTAÇÃO DE RÁDIO A VOTOS

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Pensava eu que jornais, rádios e televisões eram para ler, ouvir e ver. Nunca imaginei que, numa consulta eleitoral, fosse chamado a pronunciar-me a favor ou contra um órgão de comunicação social. Mas se é assim que a Rádio Renascença quer, eu no referendo do dia 11 de Fevereiro, vou votar “não” àquela estação de rádio.

Publicado por João Tunes às 00:12
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João Tunes

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