Segunda-feira, 6 de Novembro de 2006

AINDA PELA ABOLIÇÃO DA PENA DE MORTE

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Subitamente, o drama do condenado Sadam desencadeou uma enorme avalanche de indignação dos opositores à aplicação da pena de morte. E eu com eles, como faz prova o meu post anterior. Países que praticam a pena de morte como forma de justiça vão enviar representantes dos seus partidos no poder (absoluto) a Lisboa, nos próximos dias 10 a 12 deste mês, para participarem no "Encontro de Partidos Comunistas e Operários" organizado pelo PCP. Casos, pelo menos, de Cuba e Coreia do Norte. Assim como as FARC que usam as execuções sumárias (além do sequestro) como formas de violência revolucionária. Reunindo-se em Lisboa (Portugal), estarão, goste-se ou não, entre nós. Portanto, à mão de semear para ouvirem as nossas declarações de princípio contra a pena de morte e os rituais de justiça com que as fundamentam e prolongam esta forma bárbara de usar o assassinato como castigo. Sejamos oportunos e eficazes, pois. Bem sei que, no caso, o dedo espetado não vai trespassar Bush mas … princípios são princípios. Ou não? Escuto.

Publicado por João Tunes às 15:19
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NA HORA DA FORCA

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Sou contra a aplicação da pena de morte. Assim, como a tantos, mas só por isso, repugna-me que enforquem o Sadam. Porque é um entre muitos a quem se preparam para lhes aplicar a pena de morte. Que, recorde-se, é feita milhares de vezes, cada ano que passa e em vários países. E ainda vai continuar a sê-lo por mais alguns até que esta componente bárbara seja completamente banida entre as formas arcaicas de aplicação da justiça.

 

Dito o que disse, acrescento que, entre os patifes e alguns inocentes a quem é aplicada a iníqua pena de morte, Sadam será o patife que menos me comoverá ao ir-se embora na hora da forca.  

Publicado por João Tunes às 13:55
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Domingo, 5 de Novembro de 2006

UM DEBATE TAMBÉM PODE SER EXERCÍCIO DE INTELIGÊNCIA

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Para além das crispações, estereótipos, simplificações, dogmatismos, tiradas demagógicas, o debate para o próximo referendo pode ser (devia ser!) uma oportunidade de exercício da inteligência.

Como o Lutz demonstra neste mais este “diálogos”.  

Publicado por João Tunes às 12:50
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CO2 E O POSTAL

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Entre 6 e 17 de Novembro decorre no Quénia a Conferência Mundial do Clima das Nações Unidas em que, como não podia deixar de ser, a redução das emissões de CO2 é ponto obrigatório de discussão. Dito, por outras palavras, vai tratar se tratamos ou não da continuação da vida no planeta. Ou se, por omissão e abuso, decide-se abusar até se acabar.

 

Os efeitos catastróficos da progressão incontrolável das emissões de dióxido de carbono deviam ser causa prioritária em todas as agendas e preocupações. Dos governos, das instituições, das organizações e dos cidadãos, de todos os cidadãos. Porque, sem vida, o que adianta discutir a sua melhoria, a distribuição, a repartição, sequer a existência? Sem vida, o que interessa na vida?

 

Claro que, pela sensibilidade do tema, ou não fosse discutir a vida ou a morte, o oportunismo, até o mais rasca, também adquire espaço de manobra. Como sempre e em tudo. Por exemplo, o desta notícia em que se lê que o Partido Ecologista Os Verdes organizou iniciativas contra as emissões de CO2 recolhendo assinaturas para o envio de um postal “dirigido ao primeiro-ministro, José Sócrates, protestando contra os aumentos nos transportes públicos”! Haja pachorra para estes ambientalistas de faz-de-conta. E, para tóxico, já bastava tanto dióxido de carbono.

Publicado por João Tunes às 12:31
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ESPÉCIE DE KOMINTERN PÓS MURO

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Entre 10 e 12 de Novembro, com organização do PCP, vai realizar-se em Lisboa o VIII Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários. Está prevista a presença de 70 delegações partidárias e, segundo os organizadores, a iniciativa “visa encontrar caminhos para o socialismo” e “discutir os perigos do imperialismo”.

 

Após a “queda do Muro de Berlim”, grande parte dos partidos comunistas desapareceram ou transformaram-se em outras coisas bem distintas. Isso foi notório entre os partidos que estavam no poder e os partidos com maior apoio de militância e de votos nos países democráticos. Sobraram uns tantos grupos partidários de maior ou menor dimensão, sobretudo os mais enquistados na velha ortodoxia que ainda vivem dos rendimentos da resistência ao autoritarismo de extrema-direita e cujos povos não provaram a construção doméstica das “democracias populares”. Além dos partidos que ainda mantêm as suas velhas ditaduras na América Latina e na Ásia (embora alguns destes, mantendo o domínio do aparelho de partido único, tenham adaptado os seus países à reconversão económica para a competição globalizante). E tão fracas foram as sobras que o PCP acabou por, no rescaldo, andar a fazer, entre eles, a figura de parente gordo. E, nesta predominância entre sobras, bem se entende que Lisboa seja agora o ponto de encontro dos saudosistas do “socialismo real”.

 

Claro que o que sobrou não dá para reconstruir o Komintern como bem explicou um dirigente do PCP: «Não estamos a criar uma estrutura, uma espécie de Internacional. Houve experiências no passado, nomeadamente a Internacional Comunista, criada em circunstâncias históricas concretas, que teve o seu tempo. No momento actual isso não faz qualquer sentido». Digamos então que este Encontro de Lisboa é “uma espécie de Komintern” ou coisa que valha ao descalabro de que estão a colar alguns cacos.

 

Um Encontro deste género precisa, primeiro, de definir um ou vários inimigos para se começar por se saber contra quem se luta. Por aqui não há lugar a surpresas. Ou seja, são os mesmos de sempre: «Os EUA, que com Israel, são a principal potência militar do mundo, levaram a guerra ao Médio Oriente e à Ásia». Arrumada a questão dos inimigos, impõe-se a definição de um plano de batalha e a irradiação de novos “focos socialistas”. Onde estão eles, dando esperança à humanidade? A resposta já teve um adiantamento: «Será que estes processos na Venezuela, Bolívia e no Brasil a outro nível, vão conduzir à criação de países socialistas do século XXI?”.

 

A deslocação do farol revolucionário “comunista-operário”, antes vivendo localizado no eixo Europa-Ásia, para a América Latina e, nesta, centrando a esperança no poder de Chavez, não deixa de levantar questões interessantes. Primeiro, além do adiamento da esperança na revolução na Europa (e até na Ásia, dadas as opções do Vietname e da China), é uma constatação das debilidades cubanas a precisarem, no momento actual, mais de ajuda que aquilo que mostram de capacidade de irradiação. Depois, sendo Chavez um populista suportado nas camadas suburbanas e no aparelho militar, com uma ideologia política em que mistura cristianismo de catequese com populismo caudilhista, sem apoio nos trabalhadores e operários venezuelanos, como entender esta entrega de liderança e de esperança dos resquícios do marxismo-leninismo? Não há revolução sem “suporte material” e o petróleo pode muito. Pois pode. Mas tanto que dê para a troca da memória do velho Komintern?

Publicado por João Tunes às 00:26
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Sábado, 4 de Novembro de 2006

PREJUÍZO COM PERA

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Li, no “Público” de hoje, um artigo de opinião da deputada Odete Santos narrando a sua zanga de não ter sido convidada para o “Prós e Contras” dedicado ao referendo sobre o aborto e onde conta que tanto se enervou com isso que deu pulos no sofá frente à tv. E desbobina, por escrito, o que não lhe deram oportunidade de desopilar no debate para o qual tiveram a lata reaccionária de não a convidarem. Fiquei a imaginar o que ela terá dito ao sofá mas não escreveu: "estivesse eu ali, com o pelo que tenho na venta, ia às fuças da Zita". Entretanto, lembrei-me que, na véspera, a televisão mostrara a mesma deputada Odete e a entrevistou numa mini-manif em Setúbal contra a co-incineração no Otão. Calhou reparar que a deputada decidiu começar a deixar crescer a barba, notando-se já uma razoável cobertura capilar do queixo. Mas, assim, se a Odete Santos está a deixar crescer a barba para entrar na campanha pelo “Sim” lá se vai ao ar o precioso trunfo de a Zita andar a defender o “Não”.   

Publicado por João Tunes às 22:38
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Sexta-feira, 3 de Novembro de 2006

KIROV: O ENIGMA PARADIGMÁTICO

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As teias de mistério que envolvem o assassinato de Sergei Kirov prometem permanecer como um dos maiores enigmas da história mundial do Século XX. E, assim, dificultar a compreensão plena da essência do paradigma bolchevique que, na versão “marxista-leninista” (que mais não é que a essência estratégica do uso do poder pelo estalinismo, ou pós-leninismo, nas suas múltiplas variantes), descambou numa patologia ideológica que vertebrou uma praxis de predominância violenta, depuradora e criminosa (enquanto tratamento da arrumação forçada de projectos nacionais e internacionais, pessoas e grupos sociais e políticos).

 

Como se sabe e se assiste, o paradigma bolchevique apresenta-se em quatro etapas sequenciais e só perceptíveis pela visão do conjunto do projecto: uma primeira fase, em que o projecto se estrutura na fase de luta contra o capitalismo e as formas primitivas de domínio conservador-reaccionário, em que se mescla com a defesa das liberdades, mimetizando-se como força de vanguarda, sacrificial e consequente no avanço democrático e social; uma segunda, em que disputa a hegemonia de poder com as forças democráticas num quadro de radicalização da luta de classes, explorando as tensões entre as pulsões da liberdade e as da igualdade; uma terceira, em que atinge e consolida a hegemonia política e de classe, delegada numa vanguarda partidária apresentada como a parte esclarecida das classes beneficiárias do fim da exploração das relações capitalistas, estruturando um aparelho de terror e aniquilamento contra as resistências ao poder absoluto, à colectivização, ao pensamento único e à uniformização social e política, culminando na destruição das classes fora (portanto, adversárias ou inimigas) da sustentação da nova pirâmide de poder absoluto; uma quarta, em que, destruídas as principais resistência de classe e política ao domínio do partido esclarecido e único, entretanto instituído como substituto das classes pretensamente representadas como beneficiadas do devir histórico, se institui a forma paranóica de Estado policial para a eternização no poder e limpeza das resistências e oscilações fora e dentro das fileiras da nomenklatura instalada no poder e invocando uma legitimidade no cumprimento de uma missão nacional e na procura de sustentações internacionalistas. A perversão patológica reside aqui: o ciclo começa em luta contra a opressão, pela liberdade, pela igualdade, pela fraternidade e pela democracia, termina invariavelmente, se o ciclo for completado, num domínio policial de partido sobre a sociedade (em formas mais ou menos sangrentas e criminosas, consoante a força das resistências e o grau patológico de violência criminosa das novas elites e, sobretudo, do seu líder). Em última instância, quando o ciclo se completa, o que predomina, enforma e caracteriza a fase terminal de um regime bolchevique (depois desta, só resta a sua implosão com regressão a formas primitivas de acumulação capitalista e à aprendizagem de práticas democráticas, quando é o caso), é a patologia pessoal e política do líder absoluto e absolutista que estica o regime até aos seus limites de sustentabilidade – Brejnev na URSS (a implosão começou com ele pois Andropov, Tchernenko e Gorbatchov, foram meros administradores desorientados da gestão da agonia), Mao na China e Ho Chi Minh no Vietname (onde as implosões graduais têm a forma de transfigurações capitalista proporcionadas pela globalização), Pol Pot no Cambodja, Ceaucescu na Roménia, Honneker na RDA, Kadar na Hungria, Husak na Checoslováquia, Kim (pai mais filho) na Coreia do Norte, Fidel em Cuba, etc.

 

[Se Lenin deixou para Stalin (faltando demonstrar se esta sucessão-transmissão era ou não inelutável e se outra alternativa de passagem de poder daria resultados substancialmente diferentes) a fase da orgia sangrenta e policial em que a maioria dos velhos bolcheviques foi liquidada (ou seja, a fase em que o comunismo se refinou a assassinar comunistas), falecendo na etapa em que ainda só havia o terror de vermelhos contra brancos, Cunhal ficou-se pelos méritos de o PCP se ficar pela imagem do martirológio da luta contra a ditadura fascista por só ter participado na primeira fase e ser sustido a meio da segunda fase do projecto bolchevique. A ausência de capacidade, pelo PCP, de atingir o poder absoluto e culminar nas fases de terror e de violência com predomínio policial (ou seja, chegar á terceira e quarta etapas, as do terror vermelho sobre os "brancos" e do terror vermelho sobre "rosas" e alguns dos "vermelhos"), permitiram que o seu refluxo sustentado lhe dão azo a explorar a aura ambígua de força democrática e de emancipação social, cuja duplicidade só é posta a nu quando o PCP revela quais os modelos internacionais de praxis política que o apaixonam e ele apoia (numa revelação eufórica que a sua atracção genético-política vai inteira para os regimes mais paranóicos e mais criminosos, onde as formas mais mitigadas de democracia e liberdade não afloram). Isto é, são os homens das "relações internacionais" do PCP que, hoje, revelam melhor e mais descaradamente como é persistente a matriz das patologias associadas às terceira e quarta fase do projecto bolchevique na versão portuguesa (ora em "stand-by") e desenvolvida por Cunhal a um ponto que o fundiu com a essência política e a natureza ideológica do PCP, restando este partido como um dos últimos e mais fortes esteios mundiais do estalinismo consequente.]

 

Sergei Kirov, um bolchevique ascendente com qualidades de organização, experiente, culto, enorme talento de orador e mobilizador, cruel mas não implacável, com um enorme carisma, converteu-se à normalização da afirmação estalinista na disputa de poder contra os velhos bolcheviques com apetência a recolherem a herança de Lenin. Assim, Kirov foi um precioso aliado na luta de predomínio de Stalin contra Trotski, Zinoviev, Kamenev, Bukharin. Melhor orador que Stalin, mais popular que Stalin, com o carisma que faltava a Stalin, Kirov acabou por se ver alcandorado por muitos quadros do partido (assustados com as revelações patológicas da afirmação do mando único de Stalin na repressão, na colectivização forçada da agricultura, na industrialização acelerada, na perseguição aos resquícios das identidades nacionais) ao papel da derradeira alternativa à liderança de Stalin antes deste impor, pelo sangue, o seu poder absoluto, celerado e inquestionado (no XVII Congresso, Kirov teve mais votos para o CC que Stalin). Foi assassinado em 1 de Dezembro de 1934, na então Leninegrado, por um medíocre despeitado. De imediato, Stalin transformou Kirov, enfim desaparecido, num objecto de culto por toda a União Soviética só comparável ao prestado a Lenin. A par do endeusamento de Kirov, a perseguição aos “assassinos de Kirov” transformou-se numa paranóia infernal e sangrenta que atingiu praticamente todos os comunistas que alguma vez, em menor ou maior grau, tinham afrontado ou discordado de Stalin, ou simplesmente tivesse perdido a graça dele. Entre 1936 e 1939, foram dezenas de milhares os comunistas fuzilados e deportados sob a acusação de envolvimento na conspiração do assassinato de Kirov. Como se grande parte do partido bolchevique tivesse estado apostado na liquidação do discípulo mais dilecto de Stalin. Depois, Stalin ficou solitariamente com o seu poder acolitado por obedientes e atemorizados burocratas.

 

As versões sobre o assassínio de Kirov nunca foram esclarecidas e surgem inúmeros elementos contraditórios (*). Dificilmente o autor dos disparos poderia ter actuado sozinho. Mas a única alternativa que dá consistência à existência de uma conspiração organizada, no grau de apuramento de uma sociedade já com grande controlo policial, levam inevitavelmente à polícia política (NKVD) e esta só podia actuar sob ordens de Stalin. Ou seja, tratar-se-ia de um crime político com o máximo de perfídia: Stalin liquidava o seu então principal discípulo e único concorrente e, sob pretexto de perseguir e castigar os assassinos, liquidava grande parte dos quadros comunistas com que antipatizava, impondo um terror absoluto conduzindo à fidelidade absoluta pelo medo extremo. Resumindo: uma limpeza absoluta na atracção pela diferença e o medo imposto como moral política.

 

Misteriosas são também as razões porque  o assassinato de Kirov nunca se esclareceu após a morte de Stalin. Krutchov, em 1956, nomeou uma comissão de inquérito que, anulando a teoria da conspiração, concluiu por o acto ter sido perpetrado por um assassino solitário. Gorbatchov voltou a nomear outra comissão de inquérito que concluiu o mesmo. Um e outro relatório foram fortemente contestados e apontada uma deficiente investigação com falta de muitos documentos de arquivo que podiam ser esclarecedores. Ieltsin nomeou outra comissão que não foi conclusiva até desembocar no desinteresse pelo assunto. Putin não mostra vontade em adiantar mais sobre o mistério. Tudo indica que vigorou e continua a vigorar um “interesse de Estado” em que o mistério não se esclareça, não se deslindando o caso que pode configurar o enigma paradigmático do poder estalinista que, com o tempo, acabou por ser parte dos patrimónios russo e bolchevique e da herança estalinista espalhada pelo mundo. Talvez a perfídia, neste caso, seja insuportável e não digerível. Veremos até quando.  

 

 

 

(*) Leia-se, a propósito, o livro “Quem Matou Kirov?”, Amy Knight, Ed. Record (Brasil)

Publicado por João Tunes às 15:54
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Quinta-feira, 2 de Novembro de 2006

OS “BUFOS” DESTE TEMPO

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Quem sofreu o tempo da praga dos “bufos”, esse grau maior da miséria humana e social, o da sub-gente que angariava emprego ou uns cobres a passar à polícia política o que fazia e dizia um amigo, um familiar, um vizinho ou um companheiro de estudo ou trabalho, saberá entender isto. Os mais novos, não tanto. Mas, a uns e outros, a decência devia obrigar à abstinência de exaltar um regime em que a polícia sem lei pauta a moral de um povo.

Publicado por João Tunes às 16:56
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O GRANDE ESTETA DO CINEMA

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Luchino Visconti nasceu há precisamente cem anos. Elevou o cinema à sua máxima dimensão estética. Ao longo da sua produtiva carreira trabalhou desde o neo-realismo mais chão (“La Terra Trema”, 1947-48) até ao mais introspectivo das subtilezas da alma (“Morte a Veneza”, 1970). Nunca no simples e no imediato, muito menos no gratuito, sempre na exigência sofisticada nas possibilidades estéticas do cinema que um argumento e os meios expressivos proporcionam. Até o fez, de uma forma notável, no parêntesis que se concedeu de explorar o melodrama dos estereótipos sociais e sentimentais (“Rocco i suoi fratelli”, 1960) que não se consegue imaginar como a excelente obra de arte que é sem a direcção de Visconti. E pelo meio deste percurso único de excelência e exigência, estão as suas obras maiores, as da grande maturidade da síntese cinema-realidade-estética (“Senso”, 1953-1954, “Il Gattopardo”, 1962).

 

Visconti foi também o maior director de actores que viveu o cinema. Quem já era actor ou actriz eméritos, nas suas mãos atingiu os píncaros da arte de representar cinema (Anna Magnani, Dirk Bogard, Katina Paxinou, Renato Salvatori, Ingrid Tullin, Paolo Stoppa), os que nadavam serenamente no sucesso da mediania transformaram-se, com Visconti, em estrelas de eleição (Silvana Mangano, Cláudia Cardinale, Alida Valli, Burt Lancaster, Alain Delon, Annie Girardot, Laura Antonnelli). Com a mesma mestria com que dirigiu pescadores transformados em actores em “La Terra Trema”. O génio de Visconti era, de facto, contagiante. Para os actores e para os espectadores.

 

Numa época de forte afirmação do cinema italiano (após o final da II Guerra Mundial até ao início da década de 70), com muitos e excelentes filmes, realizadores, produtores e actores, o “cinema de autor” não se perdeu nem se diluiu na quantidade e na qualidade. Existiu e eternizou-se o “filme Fellini”, o “filme Antonioni”, o “filme Rosselini”, o “filme Pasolini”, até o menor e menos prolixo “filme De Sicca”. Pairando acima de todos, no cume da estética, no melhor do cinema, o “filme Visconti”. Que, diferente dos restantes génios transalpinos que lhe fizeram companhia na longa época de oiro do cinema italiano, filmando tanto, não fez dois filmes parecidos nem sequer sequenciais ou complementares. Na obra de Visconti, cada filme foi um filme.

 

Está atestado que, a par do cinema, Visconti deixou um rasto de genialidade na encenação de teatro e de ópera. Não admira que assim tenha sido, nessas incursões em artes sem legado de testemunho, pela influência marcante que uma e outra arte têm na mestria de encenação que marca toda a obra cinematográfica de Visconti.

 

Visconti filmou até mais não poder. Totalmente hemiplégico, numa cadeira de rodas, ainda dirigiu o o seu último filme (“L’Inoccente”). Porque nem os génios são eternos, Luchino Visconti deixou-nos em 1976. Ficou a obra. Obra maior.

 

A começar hoje e a terminar em 30 de Novembro, alguns dos grandes filmes de Visconti podem ser vistos em Lisboa, na Voz do Operário (entrada livre) num ciclo organizado pelo ABC Cine-Clube de Lisboa (consultar o programa aqui).

Publicado por João Tunes às 12:24
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Quarta-feira, 1 de Novembro de 2006

VOLUNTÁRIOS PARA A FLAMA? PRESENTE!

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Coito Pita, vice-presidente da bancada social-democrata, acordou o hemiciclo com a ameaça de que a Flama (Frente de Libertação da Madeira), criada no pós-25 de Abril, pode ser reactivada”.

 

Nem mais. Uff. Quanto tardava a desejada ameaça. Querem a independência? É para já. E só se perde pela demora.

 

Assina: Um voluntário para combater pela FLAMA.

 

PS: Com concordância extra nesta ressalva: é preciso não confundir a Madeira com Porto Santo”. Fica então assim: Madeira independente já, Porto Santo com o Continente sempre.

Publicado por João Tunes às 23:31
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O QUE ESTE PAÍS PRECISA

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É de tranquilidade. Tranquilidade! Quem passa o recado a Sócrates, a Jerónimo e à CGTP?

 

Veja-se e oiça-se quem disso sabe. De quê? Ora, de tranquilidade.

Publicado por João Tunes às 19:54
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O FIM E O PRINCÍPIO DE CAHORA BASSA

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O difícil parto do acordo Portugal-Moçambique sobre a Barragem de Cahora Bassa deu à luz. Do ponto de vista financeiro, diz um lado e outro que o acordo foi o melhor dentro do possível. Mas do ponto de vista simbólico, foi muito mais que isso.

 

A transferência de propriedade de Cahora Bassa tem um gigantesco significado como selagem do nosso fim colonial. Concebida essencialmente como obra de prestígio do regime e consolidação da presença colonial portuguesa em Moçambique em aliança com os regimes racistas da África do Sul e da Rodésia, visou não só servir de tampão à capacidade de penetração da Frelimo, ser chamariz de fixação de milhares de colonos portugueses, como afirmar o domínio colonial pela excelência espectacular da engenharia do colonizador. Falhou nos seus dois primeiros objectivos - não travou a Frelimo e não chegou a fixar os desejados colonos para a europeização do vale do Zambeze, partindo a africanidade de Moçambique ao meio. E o próprio quadro geo-político da região nada tem a ver com a realidade e desejos de então. Restou, e não foi pouco, a extraordinária obra da engenharia portuguesa (só entendível por quem lá vá). A par, embora esse não deva ter sido um objectivo, de proporcionar uma vista de paisagem inigualável (sem comparação, por exemplo, com a faraónica Assuão). Ao fim e ao cabo, ali está, em Cahora Bassa, o melhor e mais perdurável da presença portuguesa em África. Para mais, com um enorme activo de futuro de desenvolvimento e rendimento, assim Moçambique saiba gerir e explorar as suas enormes potencialidades. Só posso desejar isso. Que mais não seja para que a memória do génio de engenharia dos portugueses, de que Cahora Bassa é exemplo maior, sobreleve em recordação tantas manchas de patifarias muito nossas e em que tanto nos esmerámos a mostrar engenho na arte da perfídia selvagem (por exemplo, Wiriamu e Macuti não ficam muito longe de Cahora Bassa).

 

Pelos tempos que passei em Cahora Bassa, em desempenho profissional, com os olhos para sempre cheios do extraordinário resultado do casamento da força da engenharia com a força da natureza, partilhei agora com o orgulho moçambicano na transmissão do último e grande legado da presença colonial, uma ponta de emoção serena e respeitosa. Sentindo que o sentido literal de “Cahora Bassa” (“a hora do fim do trabalho”) está finalmente cumprido. Da nossa parte. Porque agora, sem desculpas, a “hora” é dos moçambicanos. Usem-na bem, para felicidade e desenvolvimento de um dos países mais bonitos do mundo e com melhores e mais simpáticas gentes.

Publicado por João Tunes às 16:55
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O FIM DO IMPÉRIO

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Por esta via, tive conhecimento da realização próxima, em 3 e 4 de Novembro, de um “Encontro Internacional” a realizar no ISCTE (em Lisboa) subordinado ao tema “30 Anos do Fim do Império: Guerra, Revolução e Descolonização”.

 

O tema que, quando discutido politicamente, ainda se contamina rapidamente pelas paixões das adesões e dos rancores, é não só de primordial clarificação para que os fantasmas fiquem na paz do sossego como para que o nosso passado recente de colonialismo e descolonização mereça o tratamento histórico que bem merece, numa forma de olhar inteligentemente o passado para libertar o futuro das marcas dos traumas e dos ressentimentos. E aqui, a Academia tem um papel único a desempenhar. No caso, esta iniciativa contará com os contributos de David Castaño, Ana Mónica Fonseca, Daniel Marcos, Leopoldo Amado, Aniceto Afonso, Dalila Cabrita Mateus, Pedro Aires de Oliveira e João Milando.

 

A entrada é livre. O programa pode ser consultado aqui.

Publicado por João Tunes às 15:59
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PREMONIÇÃO

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Não sou menos que o Fernando nem que o Jesualdo. Também tenho as minhas premonições. Para hoje, com os lagartos católico-escoceses, tenho o pressentimento que vão deitar abaixo uma canela do Simão e expulsar o Nuno. Mas, no final, os lagartos levam na pá.

 

Bem sei que as premonições se contam depois de se saber o resultado. Mas eu arrisco antes. Para ver se dá sorte.

Publicado por João Tunes às 14:50
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MUNDO ZITA

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Dando o flanco da sinceridade, reconheço que foi uma óptima ideia a “campanha do não” ter dado ribalta de protagonismo a Zita Seabra. A ideia, teoricamente, estava bem esgalhada: ainda perdurando a imagem de arquivo da luta das calendas pela liberalização do aborto quando ela era da CP do CC do PCP, a sua actual “conversão” era o trunfo para demonstrar que não há alma pecadora que não seja convertível. Mas, na prática, o desconchavo contorcionista da senhora está tão mal esgalhado que traz, á causa (dela), mal e caramunha.

 

Não sei se, quando dirigente do PCP, portanto na vanguarda da classe operária, Zita Seabra sabia como era e vivia o “povo”. Talvez não, pois suponho que ela só lidava com células de estudantes universitários e de intelectuais, ou seja com as franjas revolucionárias da classe média e remediada. Do resto, terá conhecido apenas os punhos levantados e apontados em comícios de fé exaltada. Mas se então o “povo” lhe era pelouro estranho não será agora que lhe vai sentir o cheiro, os hábitos, os desopilos e os constrangimentos.

 

Cada qual generaliza a partir do que sabe e conhece. E depois idealiza ou não cenários à conta da água que quer acartar para o moinho. O meio actual de Zita Seabra deve estar repleto de meninas e senhoras sexualmente educadas e controladas, até nas horas boas e quentes, com a aparência e pronúncia da sua companheira Tété, com aproveitamento nas aulas de educação sexual, sem falhas nas consultas de planeamento familiar, a carteirinha da pílula na carteira de mão junto à colecção de camisinhas, além do inevitável porta moedas com os trocos para, se necessário, ir ao Hiper comprar a “do dia seguinte” para o caso de tudo o mais falhar.

 

Um dia destes, Zita Seabra vai andar por aí, conhecendo o que não viu, não ouviu e não sentiu. E então perceberá que há mais mundo(s) além dos estudantes, das senhoras de laranja e da Tété. Não já, por favor. Até ao referendo, continue a ajudar o “sim”. Se não se importa.    

Publicado por João Tunes às 00:05
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