Terça-feira, 24 de Outubro de 2006

ENTENDIDO

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Francamente, fazer manobras militares com fuzileiros no Sul enquanto o Norte está ocupado a experimentar mísseis nucleares não é um “jogo de guerra provocatório” merecedor de “consequências catastróficas”?

 

Assim, resta esperar que o Sul se encolha para que o Norte não se amofine mais. A bem da paz nuclear. E para que os (maus) exemplos não se propaguem. Por exemplo, dar na bolha aos fuzileiros do Vale do Zebro fazerem exercícios no Cabo Espichel sem contar com a reacção (e retaliação) do Pinto da Costa …

Publicado por João Tunes às 14:03
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SINDICALISMO (in)DEPENDENTE

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“A primeira tarefa que temos é o fortalecimento da unidade do movimento sindical em torno do Partido, de Fidel e de Raul.”

 

(declaração do novo Secretário Geral da Central de Trabalhadores de Cuba, Salvador Mesa Valdês, antigo ministro do Trabalho e primeiro secretário do PCC na província de Camagüey)

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Para quem se lembra da célebre polémica entre Lenin e Trotsky sobre o papel dos Sindicatos num regime socialista, concordará que esta posição é ... demasiado trotsquista (andará Louçã agora a inquinar a revolução cubana tal como já havia feito ao Jerónimo de cá?).

Publicado por João Tunes às 11:53
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UM JUIZ E PERAS

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Hoje toma posse o novo Presidente do Supremo Tribunal da Justiça. Mas não deve ser o de cá. Provavelmente, quem sabe, no País das Maravilhas e das Vacas Gordas.

Melhores instalações e salários, um lugar no Conselho de Estado (órgão consultivo do Presidente da República) e um sistema médico alternativo para a classe foram outras propostas defendidas por Noronha do Nascimento na sua candidatura à presidência do STJ.

Publicado por João Tunes às 11:31
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RAPSÓDIA HÚNGARA (3)

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A “normalização húngara” após a revolta de 1956, é não só um dado significante como continua a marcar a política magiar dos nossos dias. Sem a entender, difícil é decifrar-se o aparente paradoxo de, no regresso pleno à democracia, o actual primeiro-ministro da Hungria ser não só dirigente do partido herdeiro do Partido Comunista Húngaro como se ter formado politicamente na liderança da Juventude Comunista.

No rescaldo da repressão soviética do levantamento de 1956, passadas as horas do trabalho dos tanques e dos carrascos, os soviéticos encararam com pragmatismo sábio a “recuperação húngara”. E, nesse trabalho, tiveram talentos destacados ao seu serviço, como foram os casos de Andropov e Suslov. Em vez de um retrocesso para a velha e irrecuperável máfia estalinista, foram à prisão buscar um comunista antes caído em desgraça e disposto a pagar com a alma o foguete da liderança (Janos Kadar). A funcionar também como uma espécie de “émulo alternativo” ao traidor Nagy e seu anterior “companheiro de desgraça”. Depois, a diáspora de centenas de milhares de húngaros em fuga através da Áustria afastou do cenário político e social muita da resistência vertebrável ao rumo do regresso ao marxismo-leninismo. Sobrava ainda o enorme sentimento de refluxo perante a possibilidade de mudança de rumo, tanto mais que o Ocidente falhara com os seus compromissos de ajuda na hora H.

Os soviéticos, escaldados, entenderam que as circunstâncias lhes eram favoráveis mas havia que não correr o risco de uma recaída. E assim, com o longo consulado de Kadar (que durou até à implosão soviética), permitiu-se à Hungria desenvolver um socialismo moderado e a meio gás, segundo os padrões das “democracias populares”. Os padrões de vida dos húngaros eram altos se comparados com os padrões do Leste, era permitida uma certa liberalidade de usos e costumes, o turismo era incentivado, desenvolveram-se nichos de desenvolvimento tecnológico (sobretudo no ramo dos medicamentos), a repressão era eficiente mas mitigada, o formalismo era contido, o Partido tinha práticas liberais nos padrões do centralismo democrático.

Na Hungria, mais e antes que em qualquer outro país de “socialismo real”, logo que aberta a janela da perestroika por Gorbatchov, a cúpula política adiantou-se no reformismo político, procedeu à deslelinização do partido e, inclusive, recuperou, como sendo seu, pela via de um revisionismo ímpio, o próprio património do levantamento de 1956 que caracterizou, logo em meados dos anos oitenta, como uma revolução (e que escandalizou então meio mundo comunista, incluindo a direcção espantada e escandalizada do PCP). Resumindo, o camaleonismo de Kadar tinha feito escola, eficiente escola. De tal sorte a antecipação húngara estava em marcha relativamente ao que se seguiria, que quando dos acontecimentos de estertor político na RDA, a Hungria funciona como meio aberto de escapadela aos alemães orientais desejosos de respirarem ar fresco. Então, a Hungria já se apresentava como uma via de se chegar à … liberdade.

Como admirar pois que o poder hoje, em democracia, continue nas mãos dos “herdeiros de Kadar” (agora convertidos ao neo-liberalismo), o mesmo Kadar que liderou a contra-contra-revolução no pós-1956? Até ver, como em tudo (e como se vai ouvindo nos noticiários).

Publicado por João Tunes às 01:45
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RAPSÓDIA HÚNGARA (2)

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Imediatamente após o final da II Guerra Mundial, o futebol húngaro espantou o mundo desportivo. Uma fornada de talentosos e criativos jogadores, coincidindo com uma revolução de táctica no jogo colectivo, levou o futebol húngaro aos píncaros dos êxitos. Em 1952, a selecção húngara conquistava a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos e em 1954 sagrava-se vice-campeã do Mundo. Mas, além dos sucessos, o que espantava no futebol húngaro era a forma inovadora, mesmo revolucionária, como transformava a arte do futebol numa modalidade de espectáculo mágico (a selecção da Hungria era apelidada como “os mágicos magiares”).

A convulsão sangrenta de 1956 na Hungria teve efeitos erosivos sobre as suas equipas de futebol e na selecção nacional. Alguns craques ficaram na Hungria e continuaram a brilhar, outros seguiram os caminhos da diáspora. Idêntica trajectória (a do exílio) foi seguida por muitos outros que acabaram por rechear as equipas técnicas de grande parte dos principais clubes europeus ocidentais, imprimindo-lhes uma dinâmica de futebol moderno e dinâmico. De tal forma que se pode dizer (tamanha foi a influência da “imigração húngara”no futebol europeu) que o futebol moderno actualmente praticado na Europa e no mundo muito deve à “influência húngara” dos exilados de 1956 (jogadores e treinadores).

O mais célebre da leva dos craques húngaros exilados pelo 1956 foi, sem dúvida, o inesquecível Puskas (Ferenc Puskás Biró) (na foto), cuja classificação como melhor jogador do mundo de todos os tempos ainda hoje é discutida a par da de Pélé. Brilhou e espantou o mundo do futebol ao serviço da selecção húngara e do Honved, depois ao serviço do Real Madrid e da selecção de Espanha (após a sua naturalização como espanhol).  Igualmente célebres foram Kocsis (Sándor Kocsis Peter) que brilhou no Barcelona e no Valência e Czibor (Zoltán Czibor Suhai) que alinhou no Barcelona e no Español.  A estes nomes sonantes dos húngaros expatriados, junta-se o do genial Kubala (Ladislao Kubala Stecz) que emigrara antes dos acontecimentos de 1956 e que é símbolo-mito na história do Barcelona.

Publicado por João Tunes às 01:43
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RAPSÓDIA HÚNGARA (1)

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As personalidades históricas não devem ser extraídas do seu tempo e do seu papel e interesses nas circunstâncias em que intervieram e os condicionaram. Mas confirma-se que a tendência para a mitificação é irresistível, sobretudo se a personagem acabou mal e injustiçada. O martírio de Imre Nagy, empapado entre o muito sangue que correu na Hungria em 1956, acalenta o seu enaltecimento póstumo a ponto de, em tempo de efeméride, ser classificado, como já li algures, “um dos políticos que ousou lutar contra a imposição soviética no seu país, pela Liberdade dos magiares”.

Nagy, que cavalgou na crista da onda contra-revolucionária de 1956, assumindo o papel que lhe foi atribuído, por empurrão, de rosto da revolta, não foi menos que um quadro treinado pelo estalinismo para integrar a nomenklatura do “socialismo húngaro” após a ocupação da Hungria pelo Exército Vermelho no final da II Guerra Mundial. E, nesse papel, teve lugar destacado como ministro da Justiça (!), em que se esmerou nas purgas de “purificação estalinista”, e depois como responsável pelos assuntos agrícolas. É após a morte de Stalin (1953), que Nagy entra em dissonância com o rumo da colectivização agrícola e que o leva ao saneamento pelos seus pares. A utilização de Nagy como “rosto” do levantamento húngaro de 1956 foi uma mera circunstância de oportunidade – convinha aos chefes revoltosos, nada comunistas nem sequer parecidos, amigos da Liberdade talvez ainda menos, utilizar um “desalinhado” das hostes, mas nas hostes, para servir de trunfo de dissolução do poder instalado e tutelado. Tivesse a contra-revolução húngara triunfado e logo se veria rápido como Nagy seria engolido pelos novos ventos. Assim, caindo martirizado com a derrota, passou à história como democrata corajoso e combatente pela liberdade, quando a democracia e a liberdade eram objectivos bem arredados dos projectos e interesses dos que alimentaram a fornalha da revolta. E, quase certo, igualmente longe dos valores de Nagy.

Aliás, o posterior caso de Dubcheck funciona como espelho de semelhança para a apreciação de Nagy e do seu papel e destino provável no caso de não ter sido liquidado. Também este foi, durante décadas, apontado e celebrado como um reformador sincero e empenhado em levar a Checoslováquia em 1968 para a democracia e o socialismo de rosto humano. Mas quando da muito posterior “Revolução de Veludo”, a estrela de Dubcheck brilhou durante muito pouco tempo, pois rapidamente os checos e os eslovacos perceberam que, na via democrática, Dubcheck tinha mais de passado do socialismo real que de consolidação democrática a oferecer a um povo finalmente liberto dos jogos de sombras. E, entretanto, Vaclav Havel não tinha “rabos de palha”.

Publicado por João Tunes às 01:41
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Segunda-feira, 23 de Outubro de 2006

PORQUE SE COMBATEU NA HUNGRIA, 1956

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Há muito esquematismo redutor nas apreciações das raízes, amplitude e significado dos acontecimentos na Hungria (sobretudo concentrados em Budapeste) em 1956 e cuja efeméride hoje se celebra. Porque o que ali se passou (e ali se sofreu) teve muito pouco de levantamento popular democrático contra uma ditadura estalinista e a sua repressão pelo Exército Vermelho. E sendo assim apresentado, sem grande fundamento, como o ajuste de contas que ensanguentou a Hungria e provocou uma diáspora de centenas de milhares de cidadãos, outros mais concretos ocorreram e que explicam a violência com que o levantamento se processou e a brutalidade hedionda da repressão. Aliás, julgo que a violência sangrenta manifestada pelas duas partes da contenda se explica sobretudo porque teriam havido muito poucos democratas e ainda menos desejos de liberdade do lado do levantamento e do lado da sua repressão. Os fanatismos combatentes foram de natureza bem diferente.

 

A Hungria havia saído há pouco da II Guerra Mundial, onde alinhou com o Eixo nazi-fascista e por ele combatera, e de uma ditadura clerical e proto-fascista (dirigida pelo Almirante Horthy) que durara de 1920 a 1944. Os sentimentos católico-clericais, conservadores, chauvinistas e tradicionalistas-monárquicos (remanescentes dos tempos da bi-coroa do Império Austro-Húngaro), eram fortíssimos e propagados ao longo de uma ditadura de 24 anos. O anticomunismo também e alimentado com força a partir da experiência falhada e sangrenta da experiência malograda de 1921 na curtíssima duração da ditadura soviética dirigida pelo brutal Bela Kun (revolucionário húngaro, elemento preponderante do Komintern, um dos fuzilados às ordens de Stalin). A cultura magiar é uma cultura minoritária e excêntrica em termos europeus (parecido com a cultura basca), assumindo, para alimentar a sobrevivência, um cunho elitista que continha uma componente de distanciação resistente quer perante a forte minoria interna cigana quer perante os eslavos ortodoxos e em que os laços com a Europa assentavam sobretudo na protecção do Vaticano e na histórica amizade de interesses com a Áustria (igualmente católica). Os limites territoriais eram apertados para a manutenção da identidade e do projecto magiares e daí o conceito de “Grande Hungria” que engloba territórios fortemente povoados pelos húngaros (depois da guerra e até ao momento, integrados na Roménia e na Eslováquia). Não surpreende, tendo em conta para mais a natureza da ditadura de Horthy, que os militares húngaros tenham combatido persistentemente e com afinco ao lado da Alemanha Nazi e participado massivamente na Frente Leste quando da invasão da União Soviética. Como não admira que quando o Exército Vermelho, na contra-ofensiva, invadiu e “limpou” a Hungria, na sua caminhada de ferro e fogo até Berlim, tenha imposto o seu domínio a pontapé num país com poucos admiradores e muitos rancores.

 

A implantação de uma “democracia popular” na Hungria foi pois, acima de tudo, um acto de “reparação de guerra”, castigando o povo húngaro pelo seu passado, pelas suas ambições e pelas suas opções, além da paga pelos crimes de guerra cometidos durante a invasão e ocupação de territórios soviéticos. Num clima de ocupação e de ordem militar e política, onde se enxertou uma “libertação redentora” pela passagem do reaccionarismo mais retrógrado à sublimação das gestas da vanguarda da classe operária. Num meio social, cultural e político hostil, a “pax soviética” foi imposta recorrendo aos comunistas locais (antes refugiados na União Soviética e apurados e depurados por Stalin) em que a sua dissonância para com os sentimentos dominantes no seu povo eram um incentivo à prática das maiores das brutalidades. E para agradarem a um Stalin no ocaso da vida e do mando, através da liderança sangrenta do seu “macaco de imitação húngaro” (Rakosi), copiaram, com zelo, tudo quanto era patifaria soviética, nomeadamente prendendo e assassinando os quadros comunistas com propensões mais moderadas na imposição da “vingança soviética” sobre a Hungria.

 

A morte de Stalin e a ascensão da “troika” em que sobraria Krutchov, não só isolou, deixando-o pendurado, o mando comunista-estalinista húngaro, como foi considerado um bom pretexto para um novo ajuste de contas, agora de sentido inverso. Contava então a contra-revolução, como factores favoráveis: o Vaticano (que não faltou à chamada); a proximidade com a Áustria (que havia escapado, por um fio, à imposição da “democracia popular”); as fragilidades e inibições do “novo poder soviético” pós-Stalin; a forma incipiente como as “democracias populares” se estavam a consolidar na Europa do Leste; o apoio na acção anticomunista por parte dos Estados Unidos e do resto do Ocidente. Com um apoio de massas impressionante, motivado pelo revanchismo mais decidido e brutal, abrindo brechas entre os desorientados comunistas húngaros, retomando a bandeira nacionalista e imperial, foi a hora da orgia da “vingança anticomunista” e na provocação mais frontal à capacidade de reacção dos soviéticos (de que foi peça chave a declaração do abandono da Hungria do Pacto de Varsóvia).

 

A resposta soviética é bem sabida e a mais recordada nesta efeméride. Krutchov, percebendo que perdendo a Hungria perdia o império num inevitável “efeito dominó”, mandou os tanques do Exército Vermelho repetirem as façanhas do fim da II Guerra. Ou seja, varrerem os húngaros a ferro e fogo. Numa sangrenta contra-contra-revolução. Com Nasser, no longínquo Egipto, a oferecer-lhes uma aliança decisiva, indirecta e inesperada. A nacionalização do Canal do Suez provocou uma fractura ocidental mortal para os contra-revolucionários húngaros – colocou Estados Unidos e União Soviética de um lado, Inglaterra e França do outro. Impossibilitando que o Ocidente tirasse as castanhas do lume húngaro que tinham ajudado a pôr a assar. Sobrou das labaredas húngaras, onde arderam milhares de vidas de um e outro lado do confronto, o apoio do Vaticano (que teve, mais tarde, a sua desforra vitoriosa na Polónia), o abrigo austríaco para uma nova diáspora, a retoma da “normalização” pelo “socialismo húngaro” e a ferida aberta na unidade do movimento comunista internacional pela introdução de um factor perturbador insanável e eterno (a desconfiança perante a brutalidade da “pax soviética”) que teria réplicas ainda mais fortes em 1968 na Checoslováquia e em 1980 na Polónia.

 

A liberdade e a democracia, valores que pouco ou nada contaram de um lado e do outro das barricadas em 1956, tiveram de esperar, na Hungria e no resto do Leste, por 1989, o ano da Grande Implosão. O ano em que se demonstrou que, afinal, Gorbatchov não era (por já não poder ser) Brejnev ou Krutchov.

Publicado por João Tunes às 16:01
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Sábado, 21 de Outubro de 2006

REGRESSO QUE TARDAVA

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A blogosfera promete animação com mais neurónios espevitados. O Lutz decidiu regressar. E, inconfundível, narra a sua marcha cívica para adquirir um novo monitor nas promoções do Lidl.

 

Saudado o regresso, o link regressou à coluna da direita como apontador para (infalível) visita diária.

Publicado por João Tunes às 22:53
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COMO LIDAR COM A TURQUIA? (3)

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Se méritos tiveram estes meus dois posts (este mais este), o maior terá sido espicaçar a clarividência depois traduzida em duas peças estruturadas e informadas (esta mais esta). Porque é um bálsamo, nos tempos que correm, discutir sério sem o tropeço dos clichés.

 

Como fio de arrumar de feira na conversa, mais que de polémica (que essa faltou pelo cavalheirismo intelectual do meu interlocutor), deixo uma questão para reflexão (que não se aplica só ao “caso turco”):

 

- Os países aderentes à UE devem preencher previamente as condições de adesão, demonstrando que entram por merecimento consolidado, ou podem adquiri-las posteriormente e como fruto de pressão adquirida pela adesão consumada (ou mesmo, por pressão circunstancial do preenchimento das questões interrogativas geradas, muitas vezes burocratizadas numa check list negociada, no processo de adesão)?

 

Dito de outra forma: - A UE, em vez de ser uma união de democracias amadurecidas e consolidadas, tem capacidade política, eficácia e meios de controlo para funcionar como “grande educadora de boas práticas democráticas” a países sem tradição democrática?

 

Tudo isto, num quadro em que falta, como bem chamou o Pepe a nossa atenção, esse arrumar essencial da “casa europeia” que é “pensar o futuro da CE, colocando na ordem do dia a necessidade duma Constituição Europeia”.

 

Regredindo ao particularismo do “caso turco”, no estado em que estão a UE e a Turquia, a adesão ajuda uma e outra? E não é uma evidência que é (ainda) estruturalmente frágil a democracia turca (atreita, portanto, a uma qualquer recaída autoritária e fascistóide) que não consegue afirmar-se em si mesma sem o interesse no “amparo” europeu e sem o interesse europeu em contar, finalmente, com um exército aguerrido ao seu serviço pretoriano?

 

Que me desculpem os turcófilos, mas estou mais de acordo com um dos turcos que apanha no pelo com as “imperfeições turcas” e que, antes da UE ou além da UE, aposta no desejo de viver em democracia (entrevista a Orhan Pamuk que referi aqui).   

Publicado por João Tunes às 22:05
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Quinta-feira, 19 de Outubro de 2006

GRANDE LIVRINHO

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Não há conchas nacionais. O tempo de um povo se enfiar no beco do “orgulhosamente só” já se foi (se é que alguma vez existiu). Não existimos sem os outros. Muito menos sem termos em conta os vizinhos. E não entender o nosso vizinho é galgar três quartos do caminho para definharmos no resmungo solitário do condómino acometido de esquizofrenia ressentida. Em sorte ou azar, geográfica e historicamente, calhou-nos ter um único vizinho com quem habitamos este duplex peninsular. Entender Espanha é, pois, um fatalidade civilizacional e de sobrevivência. Porque sem a entender, não conseguimos nem irmanar num destino que se queira comum nem dar-lhes o necessário safanão quando nos quer meter no bolso. E entender Espanha, para os portugueses, exige esforço, muito esforço, tantos e tamanhos são os clichés acumulados (muitos deles incentivados por quem lhes foi conveniente a vizinhança rancorosa). E o inverso, sem dúvida, é igualmente vero.

 

Não é possível entender Espanha sem lhe ser capaz de ler, nas brasas da memória, o significado do rastro deixado pela sua terrível Guerra Civil no Século XX (Julho 1936/ Abril 1939), talvez o maior drama europeu quanto a rupturas culturais, ideológicas e políticas levadas ao cúmulo do mata-ou-morre. Acresce que conhecer e ter uma ideia global de síntese sobre a guerra civil em Espanha está longe de ser uma tarefa fácil. Primeiro, porque os próprios espanhóis ainda conservam dificuldades de lidar com um espaço de memória que bebe numa realidade que perdurou até 1975 e uma das principais forças políticas de hoje é herdeira do franquismo democratizado. Depois, pela riqueza multifacetada e policromática do drama espanhol, em que a morte, a crueldade e a propaganda atingiram os píncaros, suscita uma curiosidade historiográfica que no conflito encontra manancial inesgotável, de que resultou a extensa bibliografia publicada em Espanha e em todo o mundo, a maioria de enfoque parcelar, episódico, com elevada carga polémica devido a que, pela carga política do drama, ele seja pouco propício à distanciação histórica e à serenidade da síntese. Para os portugueses, o quadro é particularmente pungente – junta-se a escassa difusão bibliográfica (a fazer figura de pigmeu se comparada, por exemplo, com o velho e prolixo interesse dos historiadores ingleses) e o facto de estar em causa a cumplicidades e ódios peninsulares que tiveram um importante papel no desencadear, desenrolar e desfecho da guerra. E as persistentes preguiças culturais das nossas esquerdas e das nossas direitas, ajudam a estragar o resto.

 

Por acaso editorial feliz e mais que oportuno, um pequeno livro lançado discretamente pelas “Edições Tinta da China” (*) traz-nos a possibilidade de se ter à mão nos escaparates um livro essencial, sintético e inovador sobre a guerra civil de Espanha da autoria de Helen Graham, Professora do Departamento de História da Universidade de Londres (na foto de topo). Livro de síntese, na medida em que não se perde nos meandros guerreiros e nos episódios. Livro de análise concentrada porque revela o uso de moderna metodologia de abordagem em que o choque dos conflitos e fracturas culturais é o principal filtro da análise. Livro oportuno entre nós, recuperando da míngua acumulada, porque editado em 2005 na original versão inglesa, traduzido este ano em Espanha, chegou até nós, numa boa tradução para português, logo em meados deste ano.  

 

Um pequeno grande livro. E um contributo a entender a alma (as almas!), nos seus desvarios, contradições e paixões, do grande vizinho que nos calhou em sorte e nos separa geográfica, cultural e politicamente do resto da Europa.

 

[Recomendo vivamente a leitura do excelente post em que Rui Bebiano comenta o livro]

 

(*) – “Breve História da Guerra Civil de Espanha”, Helen Graham, Edições Tinta da China.

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Publicado por João Tunes às 23:49
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O DESCONCHAVO NAS SCUTS

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Estava-se mesmo a ver que era insustentável o prolongamento da gratuitidade das SCUTS. Mais tarde ou mais cedo, a garantia demagógica tinha de se esfarelar perante o real imposto por uma lógica de tempo de aperto de cinto. Sócrates e o ministro das Obras Públicas adiaram, até mais não conseguirem, a revisão de uma promessa eleitoral inviável e injusta. O governo acaba de tentar sair do indefensável com uma retirada de sendeiro. Como quem não dá nas vistas, mansamente, anuncia-se o fim das SCUTS nas autoestradas “litorais”. Mantendo, o que tem argumentos razoáveis de algum suporte, a gratuitidade nas vias que ligam o interior ao litoral e o interior entre si.

 

O que não dá mesmo para entender é que a zona litoral mais rica do país, falo da Via do Infante, se tenha mantido na zona das borlas de circulação, tratando-se, como se trata, de uma via sobretudo utilizada em condução para usufruto do lazer. Sabendo-se do poderio do “lobby municipalista” dos autarcas algarvios (onde estão metidos de pedra e cal os autarcas socialistas), entende-se que o governo não tenha querido, nesta primeira fase, enfrentar a resistência mais poderosa e barulhenta. O que não invalida o clamoroso desconchavo da semi-emenda de mão numa promessa insustentável.

Publicado por João Tunes às 19:14
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OS AMIGOS DO COMITÉ CENTRAL

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O Comité Central valoriza e saúda os processos de resistência e de luta que prosseguem por todo o mundo, expressando em particular a sua solidariedade: ao povo de Timor-Leste e à Fretilin, que enfrentam a continuada conspiração do imperialismo e da reacção interna; ao povo da Guiné-Bissau e ao PAIGC que acabam de celebrar o 50.º aniversário da fundação do partido de Amílcar Cabral; ao povo do Brasil e à coligação de esquerda que apoia a reeleição do Presidente Lula contra o regresso da direita reaccionária; aos comunistas e ao povo coreano pela reunificação pacífica da sua pátria e contra o bloqueio económico e as ameaças de agressão imperialista à RPDC; ao povo e aos comunistas cubanos empenhados na defesa da sua revolução e na luta pela libertação dos cinco patriotas encarcerados nos EUA.

 

[Da Resolução da reunião do CC do PCP de 16.10.2006]

Publicado por João Tunes às 18:40
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O MELHOR É FUGIR JÁ

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Está em gestação uma sociedade elitista em que participam os banqueiros neoliberais, os bispos-empresários, os católicos banqueiros, os corruptos e os investidores filantrópicos do lucro e do cifrão. Com Sócrates, serão eles a herdar a terra.

Publicado por João Tunes às 18:17
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PARA ALÉM DAS HIPOCRISIAS E DOS SOFISMAS

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Vai ser hoje aprovada no Parlamento a nova consulta referendária e os termos da pergunta a colocar sobre a despenalização, com limites e condições, da IVG.

 

Sendo esta uma questão que, por ainda se arrastar, nos coloca na cauda do pelotão da modernidade no encarar das questões puníveis, e em que a pulsão do castigo se sobrepõe ao respeito pela dignidade e pelo direito de opção, o alinhar de águas retóricas no Parlamento (e fora dele) coloca várias e interessantes perplexidades.

 

Desde logo, espantando no desaforo da histeria bota-abaixo, pelo voto contra do PCP (com quem, desta vez e excepcionalmente, o PEV também alinha!) e em que combate a consulta por duas invocadas razões sublimes -  o “problema” (a revogação do “Não” que venceu o primeiro referendo) podia ser resolvido administrativamente na “secretaria parlamentar”; segundo, considera-se tímida a proposta do PS pelas 10 semanas de despenalização, antes devendo ser, para passar a ser “científica”, de 12 semanas. O primeiro pretexto redemonstra a contumácia do PCP em fazer um jogo de duplicidade democrática (ora encara a “luta institucional” como forma subsidiária da luta de massas, ora pretende elevar o Parlamento desta democracia burguesa lusitana ao papel decisório e autoritário de um “Soviete Supremo”). O segundo argumento é simplesmente ridículo por deslocar o problema para um regateio de quantidade de semanas (e porque não 14 em vez de 12?).

 

O jogo retórico do CDS é esperto mas infantil. Diz-se pelo “Não” (é claro!) mas defende a alteração da pergunta para que a sua campanha seja facilitada. A habilidade da proposta de substituição da “despenalização” pela “liberalização” tem as barbas de um velho sofisma. Como se não se tratasse, como se trata, de promover uma libertação do medieval impulso punitivo e indigno de perseguir mulheres dramaticamente incapazes de arcar com uma gravidez não desejada. E nunca, por nunca ser, como raramente o terá sido e irá ser, um gesto leviano e liberal de interromper a formação de uma vida.

 

Fora das hostes parlamentares, mas talvez não menos influentes, temos duas fontes de hostilidade ao referendo e ao “Sim”, e que já se manifestaram. Por um lado, a horda das sotainas de obediência ao Vaticano, daqueles que as usando só engravidam senhoras em hora libidinosa de pecado contra o celibato subscrito, que prometeu usar todos os meios propagandísticos ao seu alcance (nada que não se esperasse). Noutra banda, afinal confluente, as posições ilustradas e elitistas dos que consideram que, com tanta pílula (do antes e do após), preservativo e educação sexual agora disponíveis, deixou de haver justificação para quem quer que seja engravidar contra sua própria vontade. Como se a paixão da hora sexual fosse, ela mesma, um momento de concentração de sínteses cultural e de rescaldo racional e informativo.

 

Temos pois um quadro distinto de quando da realização do primeiro referendo. Por um lado, o PS está agora alinhado numa posição coerente, enfim liberto das contradições geradas pelo anterior constrangimento do guterrismo social-cristão. Enquanto os do “Não”, mantendo o instrumento poderoso da influência clerical, acrescentaram uma elite de sofistas que manipulam factores de modernidade ao serviço do conservadorismo medieval (leia-se o artigo infame de Zita Seabra no “Público” de hoje e perceba-se até onde irá a procissão desta banda).

 

O desafio não se ganha com favas contadas nem é hora para se adormecer na forma. Ao combate, pois.

Publicado por João Tunes às 17:33
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VODKA NO PADRE E NO URSO

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Deliciosa a anedota transcrita pelo Machede em que um padre novato aceita o conselho do bispo para se descontrair na missa com uma pinguinha de vodka. Com os resultados esperados pelos malefícios do vodka e dos efeitos, não menos esperados, que resultam da descontracção de um padre ainda não batido em missas.

 

Muito pior do que esta anedota do padre com um grão de vodka, é a crónica de José Milhazes em que conta que o Rei Juan Carlos andou pela Rússia a caçar ursos … previamente embebedados com vodka.

 

Da anedota e da crónica, pode-se concluir que se a vodka não é bebida para padres caloiros, muito menos deve ser usada para adormecer ursos veteranos para serem caçados, sem luta, pelos restos da realeza. No primeiro caso, pode dar uma boa anedota. No segundo, trata-se de um realíssimo embuste.

Publicado por João Tunes às 13:10
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