Segunda-feira, 31 de Julho de 2006

MOVIMENTOS ANTICOLONIAIS E “INTERNACIONALISMO PROLETÁRIO”

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Há clichés adquiridos e, por repetidos até á exaustão, se confundem como dados históricos adquiridos. Um desses, curiosamente utilizado por “um” e “outro” lado, assenta na ideia difundida de que, durante a guerra colonial, a URSS e os seus satélites do “socialismo real”, foram aliados e apoiantes indefectíveis de três dos movimentos guerrilheiros que combateram (e venceram) o exército colonial português (PAIGC, MPLA, FRELIMO). Para os do lado da saudade do Império, isto demonstra que, afinal, Portugal lutou em África não contra os povos africanos mas contra o comunismo e o domínio geoestratégico da URSS. Para os do campo do internacionalismo proletário, o mesmo cliché funciona como demonstração de que sempre foi uma expressão do internacionalismo desinteressado e idealista.  

 

Só há volta a dar para desmontar o cliché e evidenciar as subtilezas, arestas e contradições da realidade da tal aliança, com a ajuda dos historiadores e pelo acesso difícil, a conta gotas, a arquivos fechados a sete chaves. Os de Cuba, os referentes á sua ajuda internacionalista em África, muito terão ainda de esperar pois o sol da democracia custa a nascer na Ilha. Os da falecida União Soviética lá vão debitando uma ou outra gota. Quanto aos do PCP, podemos esperar bem sentados que a demora promete ser longa.

 

Um artigo publicado por José Milhazes no último número da revista PÚBLICA (acessível aqui), contribui para desmontar um dos mitos metidos no cliché que apresentam Agostinho Neto como um instrumento ou um aliado sem mancha da “ofensiva soviética” em África. A documentação revelada comprova que as relações entre a URSS e a liderança de Agostinho Neto foram não só tumultuosas como chegaram a resvalar para o conflito aberto (só por um triz não terá sido mortífero). Integrando estes dados com as sombras percebidas de outros (a suposta preferência por Chipenda quando da cisão da “Revolta do Leste”; o apoio decisivo da Jugoslávia e da Argélia na instalação armada do MPLA em Luanda, apoio em que Cuba e URSS só vieram posteriormente a dar substância e predomínio; a desconexão de, no golpe “nitista”, Nito e companheiros, alguns deles antigos quadros do PCP, aparecerem com encapotado apoio soviético e os cubanos a defenderem Agostinho Neto e a salvá-lo), ganha recorte a conclusão, além da forte controvérsia que a figura de Agostinho Neto sempre alimentará, de que o primeiro Presidente de Angola foi muito mais que um mero e disciplinado “peão soviético”. Ou seja, começa a parecer indiscutível que Agostinho Neto, chegado ao nacionalismo angolano depois de militância no PCP e no MUD-Juvenil, regressou a África e tomou a liderança do MPLA, numa fuga à PIDE organizada pelo PCP (decerto sob “encomenda” e comandada por Dias Lourenço e Jaime Serra), para corrigir o desvio maoísta de Viriato Cruz, mas nem isso funcionou como garantia de um alinhamento incondicional pois, daí para a frente, com muitos erros, tirania e muita perfídia justiceira à mistura, Agostinho Neto suplantou a “fidelidade esperada”, sabendo até jogar, de forma a levar a sua avante, com as contradições e desacertos entre o “campo socialista” em que se a URSS afrouxava o apoio virava-se para a Jugoslávia e outros, salvando o poder contra o “nitismo pró-soviético” agora com a ajuda de Fidel Castro, até que consolidou o poder e o governo do MPLA na paz tranquila (a da guerra sem tréguas contra a FNLA e a UNITA), bem apoiada e complementada, com soviéticos e castristas.

 

O “caso Neto” não terá sido único entre os vários dirigentes dos movimentos de libertação. Existindo fortes indícios, em espera de cabal demonstração histórica, que parecido se terá passado com Amílcar, Mondlane e Samora. Ou seja, embora condicionados – para fazerem e continuarem a luta – a contarem com a ajuda armamentista e de combatentes da URSS e de Cuba, procuraram não só alargar as alianças e apoios para outras áreas de influência, como não abdicaram da possível independência dos interesses “nacionais” face à factura do funil do alinhamento dos apoios. E igualmente se vai demonstrando com quanto desagrado esta “indisciplina internacionalista” era vista no “sol que iluminava a terra”.

 

Particularmente no que respeita a Amílcar Cabral, o mais capaz entre todos os líderes africanos, estão para conhecer os contornos exactos de todos os dedos (além dos da PIDE e, eventualmente, de Sekou Touré) que puxaram o gatilho dos disparos que o assassinou. Sabendo-se que os conjurados tinham sido todos treinados e doutrinados na URSS e que antes, na invasão da Guiné-Conacry na “Operação Mar Verde”de 1971, em que um dos objectivos falhados era o assassinato de Amílcar e da sua direcção, Alpoim Calvão avançou com milhares de “kalashnikov” compradas pela PIDE à URSS por via do traficante de armas Zoio e não sendo crível que os soviéticos não soubessem do seu destino.

 

Enfim, o cliché continua. Mas a obra de desbaste e recomposição compete aos historiadores. Necessitando-se, para isso, que os arquivos se abram. O que não vai ser nem fácil e muito menos rápido. Para já, aproveitem-se as frestas que se vão abrindo.

Publicado por João Tunes às 16:46
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POIS É, MAS QUE FAZ IMPRESSÃO LÁ ISSO FAZ (3)

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Para este post, em “retaliação” de amigo com gosto por uma conversa exigente, o Manuel Correia disparou três (1, 2, 3). O que confirma que as “katiuskas” não são armas de um tiro só mas de disparos múltiplos (e sequenciais). E diga-se que, no caso, a balística dele é de alta qualidade e elevação, portanto a não perder de vista os tracejados das trajectórias.

 

Recapitulando com algum vagar os argumentos trocados, constato que andámos, cada um ao seu modo, a juntar algumas peças das metades do puzzle que é o drama do Médio Oriente naquela parte que vai do Sinai até Beirute (e o Iraque e o Irão ali tão perto…). Mas como cada um de nós (herança da orfandade da “guerra fria”?) não se arrisca a meter engenho na construção da metade ao outro cometida, quase certo é que, cada qual à sua maneira, se mostrará incapaz de ver o puzzle resolvido com as partes todas inteiras.

 

Nada de estranhar. É o que por aí mais se vê - mais desconversa que conversa (as ideologias são tramadas, teimam em não morrerem). Nem sempre com os mesmos escrúpulos de rigor, fair-play e respeito pelo pensar de outras cabeças, diga-se. Valha isso se da conversa, dos argumentos, dos factos também, alguém se quiser dar ao trabalho de juntar as duas metades dada a incapacidade que cada um demonstra de passar á almejada síntese.

 

Não descanso agora porque não tenha lucrado com a conversa. Nada disso, antes pelo contrário. O acicate promete durar. Só faço pausa para digerir com vagares de prazer intelectual, o Manuel Correia ter admitido que Stalin, quando da criação do Estado de Israel como noutros assuntos, nem sempre foi coerente entre o seu pensamento teórico (nomeadamente expresso na sua obra-prima “Marxismo, Nacionalismo e a Questão Colonial”) e a sua prática estatal. Caso contrário (se Stalin não claudicasse perante o seu pensamento, antes tendo seguido os Estados Unidos), o Estado de Israel nunca se teria encravado nas terras de paz, cultura, tolerância, avanço civilizacional e bem estar da Palestina, em plena harmonia sunita-xiita, sem Hamas nem Hezbollah. E aí também reside uma quota das culpas da instabilidade mortífera que por ali se viveu e vive, sem fim à vista. Stalin errou porque não teve capacidade de antever que Israel, mais que o direito de um povo a ter um Estado e uma Nação, nunca passaria além de uma ponta de lança hiperbélica ao serviço do imperialismo nas terras do muito petróleo. Manuel Correia reconheceu-o e eu marquei um ponto. Chega-me por agora.

 

Aquele abraço.

 

Publicado por João Tunes às 13:45
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Domingo, 30 de Julho de 2006

MEUS SENHORES...

Arrefeceram há pouco os corpos das vítimas, incluindo as muitas crianças, no massacre odioso, inadmissível como todos os massacres, em Qana no Líbano. E eu, na minha incapacidade de parar guerras, só posso chorá-las.

 

Vocês, meus senhores, sei que também choram essas mesmas vítimas e têm carpideiras sem fim para ampliar os choros. Mas, meus senhores, as vossas lágrimas não são mais humanas que as minhas. Porque choro sempre todas as vítimas da brutalidade humana. Melhor dito, de todas as brutalidades humanas. E espero sempre, num misto de confiança e ingenuidade, de outro ser humano, meu concidadão do planeta Terra, que faça o mesmo, não colocando filtros ideológicos na categorização dos sentimentos perante as vítimas e tendo a desumanidade, politicamente disfarçada, de dizer “esta vítima é mais vítima que aquela” e "este crime é mais inadmissível que aquele". Do género daqueles que dizem que Auchwitz foi o cúmulo do Mal Castanho mas o Gulag só existiu na propaganda do Mal Americano e é para esquecer. Os mesmos que se aproveitem das vítimas, como urubus, manipulando as perdas em função do saldo em conta de qualquer causa. Porque aos urubus ainda podemos desculpar o instinto de sobrevivência física. Aos urubus ideológicos, nem sequer isso. Muito menos que isso.

 

Eu não choro combatentes de qualquer lado, eles sabem ao que vão. Quando muito, apenas se dividem em heróis ou vilões, segundo o critério do lado da trincheira. Eu choro os civis apanhados sob o fogo das guerras dos combatentes, todas as guerras, sobretudo as crianças. Incluindo, com repulsa, as vítimas de Qana.

 

Espero, senhores antijudaicos, aliados - objectivos ou subjectivos - do Hezbollah, que me permitam misturar as minhas às vossas sonoras lágrimas de agora. Eu é que não vos permito essa mistura se amanhã se calarem com outras vítimas, outras crianças, gerindo o choro ao serviço do fim de Israel ou do quer que seja. E já não falo de hoje ou de ontem, porque então...

Publicado por João Tunes às 22:44
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NÃO SE PODE DORMIR

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Eles andam por aí.

Publicado por João Tunes às 01:55
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O RELATIVISMO DE UM ANTI-MANIQUEU (3)

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Duas exclamações espantadas (esta e esta) foram atrás feitas a um espantoso post de Vital Moreira. Mas a sofisticação do argumentário utilizado pelo ilustre “opinion maker” merece mais como comentário. Muito mais. Porque, entre o que li e ouvi, Vital Moreira, com o seu habitual brilhantismo expositivo, demonstra ser o mais lídimo representante argumentativo e imaginativo entre os intelectuais da nossa praça em luta de oposição a Israel. Não desperdiçando o requinte no uso dos sofismas. Talvez disputando, pela parte da esquerda culta, limpa e moralista, o ceptro do talento aliado ao sofisma ao seu concorrente que corre pela banda direita inteligente, limpa e culta (falo, é claro, do incontornável José Pacheco Pereira).

 

Vital Moreira faz o seu contra-ataque (primeiro) pela via da purificação antimaniqueísta e (depois) pelo exercício imaginativo de encostar à parede os “democráticos pró-Israel” exigindo-lhe a coerência com o princípio da “superioridade moral das democracias”. Ou seja, autopurifica-se (arremessando o “rocket” do maniqueísmo) e exige pureza (exigindo superioridade moral aos defensores de Israel enquanto Estado democrático). Na embalagem, generaliza sobre outras querelas e globaliza a discussão sobre a dicotomia ditadura-democracia, no que demonstra que, afinal, as dicotomias são irresistíveis no seu poder de sedução. Até para ele, Vital Moreira.

 

Descendo à substância argumentativa do discurso de Vital Moreira, as democracias têm responsabilidades de conduta que as ditaduras, pelo nefando da sua natureza, são automaticamente inimputáveis. Este expediente, imaginativo e bem esgalhado, leva a uns tantos absurdos repugnantes na valorização diferenciada de vítimas de agressões, opressões e abusos. Até porque, transitados para a história portuguesa recente, se aplicada aos abusos e crimes do salazarismo-marcelismo, nomeadamente quanto aos crimes da PIDE e aos crimes coloniais, representariam uma absolvição pela falência de deveres morais exigíveis à ditadura fascista doméstica. Dito de outro modo, os crimes do fascismo português seriam graves se cometidos por um regime democrático mas assim como assim… o que aconteceu às vítimas do fascismo e do colonialismo português foi o que foi mas a contextualizar, relativizar, porque tiveram o azar da circunstância de terem nascido e vivido numa ditadura.  Pelo conhecimento da vida e obra de Vital Moreira, só posso atribuir tamanha degenerescência de juízo histórico às armadilhas próprias do recurso ao sofisma.

 

Vital Moreira não é um desprevenido e muito menos um inocente, política e ideologicamente falando. Por isso, saberá que o seu jogo com as dicotomias, as alternativas e os juízos, ao serviço da causa do combate a Israel e aos Estados Unidos, é um jogo perigoso com enormes riscos de boomerang. Porque infindável e levando a muitos e contraditórios caminhos. Permitindo, por embalagem, forçar a sua aplicação a outros paradigmas (e paradoxos) fora, ou além, da dicotomia democracia-ditadura. Por exemplo, no campo de um conceito de democracia verdadeira, ampla, justa e social, de amplas liberdades, muitos furos acima dos limites estreitos da democracia burguesa e representativa, concepção que não espanta ver perfilhada pela maioria dos que militam na causa anti-Israel e anti-EUA, se aplicada á receita dos sofismas de Vital Moreira, dariam resultados de ricochete. Caso da evidência de que, então, as prisões políticas de Fidel Castro são muito mais inadmissíveis que a prisão americana e abjecta de Guantanamo (lugar onde, do outro lado da cerca, se situa uma das mais duras e violentas prisões políticas em Cuba). Como assim? Porque a burguesia, sobretudo os cimeiros no poder do estádio supremo do imperialismo, fazem do jogo democrático uma farsa de enganos, exploram, oprimem, sugam direitos e mais valias, almejam o lucro e desprezam direitos e liberdades, querem as riquezas, nomeadamente o petróleo, nas mãos das suas oligarquias e monopólios. Gente sem escrúpulos, é da natureza dos burgueses imperialistas terem construído e sustentado Guantanamo. Mas os revolucionários cubanos, senhor, porque dão tanta dor e fazem padecer assim? Eles, que libertaram a Ilha da pata americana, que deram e dão o corpo e a alma a espalharem a revolução libertadora no mundo, que transformaram Cuba numa sociedade justa e igualitária, sem explorados nem exploradores, espalhando escolas, habitação, pão e saúde, mobilizando o povo na senda do bem estar e da democracia avançada, porque prendem jornalistas, porque espancam divergentes, porque não permitem a emigração livre, porque fogem ao sufrágio livre e sujeito ao contraditório e à alternativa em que possam eleger, em voto secreto, Fidel e outros dirigentes (ou outros que não os mesmos de sempre)?

 

Pelo exercício, mal, muito mal, vai o stock argumentativo dos da causa anti-Israel e anti-EUA. Vital Moreira, do pedestal da sua estatura intelectual e política, demonstrou-o.

 

Publicado por João Tunes às 01:11
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Sábado, 29 de Julho de 2006

O RELATIVISMO DE UM ANTI-MANIQUEU (2)

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“Guantánamo é mais inadmissível do que as prisões políticas castristas”

 

Claro. Muito pior é prender combatentes do terrorismo islâmico que jornalistas. Nem se compara. E quem não vê, é maniqueísta.

 

Publicado por João Tunes às 19:18
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POIS É, MAS QUE FAZ IMPRESSÃO LÁ ISSO FAZ (2)

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O Manuel Correia confirmou que é um prazer conversar com ele. Sobretudo quando nos desentendemos. Pelas razões que ele bem explica no intróito do seu comentário a este post e que convido à sua leitura.

 

Não vou insistir nas questões demasiadamente entrincheiradas das nossas posições. Sobre essas, proponho que deixemos assentar a poeira, pois, infelizmente, o drama no Médio Oriente está para lavar e durar. E pressinto que as voltas que vão ocorrer nos trágicos acontecimentos que nos perturbam, e é por isso que sobre eles falamos, vão obrigar um e outro a removermos algumas posições demasiadamente plásticas que bloqueiam eventuais caminhos para, agora, melhor nos entendermos. Pela minha parte, como sempre, confirmo que nunca tenho posições definitivas sobre nada, muito menos sobre uma tragédia. Que mais não seja por respeito para com as vítimas.

 

Neste espírito pacificador e de confiança nos benefícios da distanciação, escolho, se me é permitido, como continuação do debate, dois dos tópicos que ele considera nucleares (ou seja, dou ao MC a escolha dos tópicos importantes, eu escolho na escolha dele aqueles a abordar e a contornar no momento):

 

1. Diz o MC: “A história do Estado de Israel tem de ser recapitulada. Temos de recordar o que aconteceu naquela região desde o fim da 2ª Grande Guerra.”. Duvido que leve a alguma solução pacífica o revisionismo histórico (ou recapitulação histórica) das origens dos estados e nações e seus actuais traçados. Dois exemplos que podem tornar catastrófica esta via - a Conferência de Berlim que dividiu África ainda não foi há muito tempo; ontem mesmo a Al Khaeda falou na reconquista islâmica urgente da Andaluzia. Mas como este meu temor pode ser um exagero, dou umas parcas achegas à “recapitulação” proposta:

1.1. Obviamente, a ideia sionista que levou à criação do Estado de Israel no então protectorado britânico da Palestina obedeceu a um sentimento profético étnico-religioso e ao desejo de autodefesa e de desforra catárquica pelo sofrimento e sentimento de culpa de cobardia do Holocausto. Assim, a terra de origem era-lhes vista como a terra da redenção.

1.2. Na luta, com uma forte componente terrorista, para a imposição da existência do Estado de Israel, os judeus defrontaram os britânicos e os árabes. Foram sobretudo financiados pela rica e numerosa comunidade judaica nos EUA (esta é a base historicamente objectiva que desde sempre até hoje sustenta a aliança Israel/EUA). Ganharam, sabendo que eram altas as probabilidades de perderem o que tinham conquistado.

1.3. Foi decisivo, na aprovação e consolidação do Estado de Israel, o apoio então dado pela URSS que foi, recorde-se, o primeiro Estado a reconhecer Israel e teve protagonismo na sua admissão na ONU. Os motivos deste apoio decisivo são óbvios – os judeus lutavam contra os imperialistas britânicos; a maioria das elites árabes estava fresca nos seus sentimentos germanófilos que a tinham levado a simpatias pró-nazis; a filosofia da prática social israelita tinha fortes componentes de semelhança com os estereótipos da colectivização soviética (kibutz versus kolkhoses); Israel permitia a existência de um forte Partido Comunista de Israel; alívios de vários tipos por muitos judeus soviéticos saírem portas fora para habitarem em Israel.

1.4. A viragem da URSS da sua posição pró-Israel para a entrada posterior deste Estado no catálogo dos inimigos imperialistas segundo os soviéticos e a abater, deveu-se à consolidação da aliança Israel/EUA, numa fase de agudização da “guerra fria”, e um redesenho da política de alianças da URSS no Médio Oriente (via “socialismo árabe”) a partir do “nasserismo” e a propagação da sua influência nos outros países árabes, em que a espinha dorsal geoestratégica passou para a aliança Egipto/URSS e a proliferação dos Partidos Baas cujos ramos eram comandados por “militares progressistas” e que substituíram, nas preferências soviéticas, os próprios partidos irmãos do PCUS (os Partidos Comunistas nos países árabes). Entretanto, a causa da Palestina e a OLP passaram, além de carne para canhão da política soviética e anti-israelita, a representar o zénite da propaganda comunista na apresentação do modelo de combatentes e de mártires na causa dos “movimentos de libertação”. Até hoje.

 

Proponho que completes a lista. Ou a corrijas.

 

2. Diz o MC também “O que tem sucedido no Médio Oriente tem sido algo que se assemelha estranhamente com o que aconteceu na Europa entre 1918 e 1939.”. E aqui concordo em absoluto. Pela razão adiantada pelo MC (“As humilhações sucessivas dos «derrotados» explicam uma identificação crescente com os líderes que apontam o caminho do desagravo, da vingança e do aniquilamento do inimigo.”) mas não só. Também, acrescento, pela complacência, quando não colaboracionismo, com que a Europa (a burguesa e a revolucionária) lidaram com o nazismo nos seus primeiros ímpetos expansionistas (a burguesia imperialista em Espanha e em Munique, permitindo a Hitler levar a Espanha ao franquismo, permitindo a Hitler abocanhar a Áustria, as Sudetas e a Boémia, na crença de que estavam a empurrar o Nazismo para Leste; os soviéticos - depois de serem derrotados por Hitler em Espanha - pelo Pacto imperial Germano-Soviético na ilusão de expandirem o império soviético e virarem os dentes de Hitler contra o Ocidente capitalista na previsão oportunista do efeito de “boomerang” sobre o Ocidente da “traição de Munique”). O que lembra, infelizmente e nos tempos de hoje, os dois pesos e duas medidas com que alguma burguesia europeia e antiamericana, em aliança “subjectiva” com o campo revolucionário deste nosso tempo, vêem islâmicos, israelitas e americanos, na perpétua esperança que o terrorismo islâmico faça o “trabalhinho sujo” contra os Estados Unidos e contra Israel.

 

Já vai longa a fala. É tempo do abraço protocolar mas sincero. Aqui vai ele, caro Manuel Correia.

 

 

Publicado por João Tunes às 01:21
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Sexta-feira, 28 de Julho de 2006

O RELATIVISMO DE UM ANTI-MANIQUEU (1)

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“os métodos repressivos de Israel nos territórios ocupados e a destruição punitiva do Líbano são mais censuráveis do que a violência dos movimentos extremistas islâmicos”

 

Desde que os rockets e as bombas vão cair longe, permito-me acrescentar. O “problema” será se ou quando “acontecer” em Santa Apolónia, em Campanhã ou na Estação de Coimbra. Contra o maniqueísmo, então esperemos.

Publicado por João Tunes às 17:39
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UMA HISTÓRIA? QUE HISTÓRIA?

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A propósito de um post anterior, comentou o Vítor Sousa:

 

“João, já leu "Gulag, uma História", de Anne Applebaum? Galardoado com o Pulitzer em 2004, é uma obra impreterível para quem, antes de evitar o esquecimento, procura o conhecimento.”

 

Agradeço a recomendação. Mas não só li a obra como quando da edição da tradução portuguesa (*) coloquei post em que previa aquilo que se está a confirmar: um fiasco editorial. Porque estando consistentemente adquirido no politicamente correcto que o Mal é (e só) Castanho, quem tem a coragem repugnada de querer admitir que o Gulag foi mais que uma invenção da propaganda imperialista? Sabemos que, depois de com ele se bater em Espanha, perdendo, o Bem Vermelho se aliou com o Mal Castanho através de um Pacto escrupulosamente cumprido entre 1939 e 1941. Tão bem cumprido pelo Bem Vermelho que comportou, além da partilha da Polónia, a ocupação dos países bálticos e outras miudezas, a transferência de prisioneiros comunistas alemães e seus familiares, caídos em desgraça perante Stalin, directamente da Sibéria para os campos nazis. E pôs tanto zelo naquela aliança que ela foi respeitada escrupulosamente até ao minuto fatal em que o Mal Castanho invadiu as terras do Bem Vermelho, apanhando o aliado traído e desprevenido com grande parte dos seus comandos militares purgados pelo fuzilamento, pela prisão e pelo Gulag. Como é que, agora, vem uma jornalista (americana!) falar em Mal Vermelho? Mesmo que ostente o Prémio Pulitzer que, como se sabe, é prémio da América. A não ler, meu caro, a não ler. Como se confirma.

 

(*) “Gulag, Uma história”, Anne Applebaum, Civilização Editora

Publicado por João Tunes às 13:53
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2-1, SE FAZEM FAVOR

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Este é um falso contentamento, por muito que se badale repetindo a falsa mentira do 3-0. Para mais, com um golo genial e talvez irrepetível, por ele ou por outro, de Konstantinos Katsouranis. E o facto de Moreira estar, desprevenidamente, bastante adiantado relativamente à baliza, não belisca o mérito inspirado do grego genial. Aquela, nem o Ricardo a defendia. E deve ter sido isso que passou pela cabeça do Katsouranis pela forma aberta como se riu a bom rir a apreciar o feito e demonstrar um notável e saudável sentido de humor desportivo.

 

Tenham a honestidade de corrigirem: 2-1 foi o resultado. E como foi a feijões, nada mau. Ao menos, serve de treino para distinguir as balizas.

 

Publicado por João Tunes às 13:08
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TEMOS MINISTRO

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A intervenção de ontem de Luís Amado na Assembleia da República, sobre a crise no Médio Oriente e o papel a desempenhar por Portugal e pela UE, pela sensatez, clareza e firmeza, demonstra que, finalmente, temos Ministro dos Negócios Estrangeiros.

 

No essencial, Luís Amado disse o que havia a dizer – se queremos ter moral para lamentar as vítimas e condenar os abusos, provocadas e cometidos de uns e outros dos vários lados, contribuindo para que umas e outras terminem, temos de “dar o corpo ao manifesto”. Porque não passa de pura demagogia disfarçada de sentimentalismo, ficarmos pela exploração choramingas sobre as vítimas e os abusos dos fortes para batermos nos do costume (claro, os “américas” e os judeus) e depois defender-se a “não intervenção”.  Porque, de facto, a arrogância imperial e belicista dos Estados Unidos e de Israel, deve-se em grande parte à inacção hipócrita da Europa, traduzida na condenação, nas marchas e desfiles, na repugnância higiénica perante a guerra e o uso da força, demonstrando afinal, perante quem ataca a civilização e a democracia, que não arrisca um dedo para se defender. O que, no fundo, confirma um velho vício europeu próprio de tartufo (ou de parasita) -  deixamos para a América a tarefa de nos defender as costas, o bem estar, os usos e costumes, para depois lhe condenarmos a forma abusiva e desbragada como usa a força, mordendo-lhe a mão de protecção ao gritar-lhe “terroristas são vocês”. O nosso direito, como europeus, à superioridade moral perante os abusos exige o fim desta estratégia oportunista e o assumir pleno das responsabilidades na contenção dos abusadores. Todas as responsabilidades - as políticas e as diplomáticas, sabendo-se que uma e outra só serão mais que retórica se tiver o poder de uma força que as sustente. E, indo-se lá, com a diplomacia e a força, está bem de ver, é para levar e dar.

 

A racionalidade política e diplomática de Luís Amado representa uma mudança significativa para aplauso e fazendo esquecer os tempos recentes em que o MNE se dedicava ao sincretismo teológico da impotência e da tolerância para com os intolerantes. Afinal, uma doença ou um cansaço, ou ambas as coisas, mais ou menos diplomáticas, vieram bem a calhar num Palácio das Necessidades que estava a ficar pateticamente inútil e ridículo.

Publicado por João Tunes às 00:53
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Quinta-feira, 27 de Julho de 2006

UM CANDIDATO À INFILTRAÇÃO

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Entendo bem, partilhando as suas angústias, o comentário que o Vítor Sousa colocou num post anterior:

 

“João, estas linhas, que prevejo frugais, são as primeiras que dedico à espiral belicosa que fustiga o médio-oriente. Pelo calvário do povo judeu, agudizado pelas perseguições e chacinas promovidas pelos nazis, sou obrigado a manter-me fiel à defesa do Estado de Israel. Na contemporaneidade, e devido à logorreia revisionista do presidente iraniano, qualquer palavra censória que incida sobre a política de defesa israelita pode ser estigmatizada. Não acredito que Vital Moreira seja um adepto da amputação de Israel do mapa, embora se insurja contra a estratégia que Israel adopta como antídoto contra os inimigos circundantes. Todavia, no último artigo de Pacheco Pereira no Público, a analogia entre Vital e o presidente iraniano despontou, num claro sintoma de que a dicotomia insuprível impera: ou somos amantes cegos de Israel, ou o deploramos.
O meu silêncio deriva dos dilemas que pululam. Reitero a necessidade moral de pugnar pela sobrevivência de Israel, mas os "danos colaterais" - que Pacheco considera inelutáveis e compreensíveis - provocados pelas retaliações israelitas geram tumultos internos. No entanto, se Israel renunciar a uma política agressiva, será esboroado pelos vizinhos. Julgo que os dilemas aflorados guindam-se a amostra das razões que suscitam a inanição do Ocidente, hoje e sempre perseguido pela História como responsável pelo Holocausto.
É possível repudiar a política externa de Israel sem enlanguescer na defesa do seu direito à existência? Não será este outro paradoxo? Neste conflito, há duas facções, e eu quero por força infiltrar-me no meio.”

 

Sem ofensa, caro Vítor, se a Mossad te ouve ou te lê, ainda te vai raptar ao tédio madeirense e contrata-te como “agente infiltrado”. Não te gabaria a sorte mas respeito que haja opções em que se tem de dar o corpo por elas. Faço-o á minha maneira, sem Mossad, faz tu a parte que te compete.

 

Um abraço amigo de quem muito preza a tua companhia e a argúcia do raciocínio.

 

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Adenda: A ler na caixa de comentários a precisão feita pelo Vitor Sousa.

 

Publicado por João Tunes às 17:13
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POIS É, MAS QUE FAZ IMPRESSÃO LÁ ISSO FAZ (1)

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Diz o meu estimado e admirado Manuel Correia:

 

“E o Hezbollah, no Líbano, ou o Hamas, na Palestina, pese contra eles tudo o que se quiser, tem uma legitimidade democrática que não se compara, nem de perto nem de longe, com a da pax americana que gerou e protege o Sr. Maliki. Os grandes exportadores da democracia têm o topete de recusar «certos» resultados eleitorais quando os eleitos não lhes convêm. Já se tinha visto antes, é certo, mas faz sempre alguma impressão.”

 

Pois é, falaste bem. Em perfeito acordo com a regulamentação democrática. Na parte que toca ao critério de apreciação “interna” (ou seja, a aferição da legitimidade governativa pelo resultado dos votos). Mas, meu caro, não entendes que essa mesma legitimidade tem, se as nações e os estados têm obrigações para com os “outros”, particularmente para com os vizinhos, ser aferida (ou homologada, se preferires a linguagem jurídica) pelo respeito ou não respeito do princípio da eternidade da não agressão e não contestação da soberania exercida noutros limites de fronteiras (se também legitimadas em outras escolhas e outros votos)?

 

Hitler chegou ao poder por eleição legítima dos alemães. E até final, a esmagadora maioria dos alemães adoraram-no e seguiram-no, matando e morrendo por ele. Assim, do ponto de vista estritamente alemão, se houve político com “legitimidade” perante os “seus”, Hitler está nesse retrato. O problema com o Hitler “apenas” foi dos internos perdedores (judeus, comunistas, social-democratas, maricas, ciganos e testemunhas de Jeová) e dos “outros” - os vizinhos a ocupar e a abater.

 

Se o Hezbollah fosse um “problema libanês”, o Hamas um “problema palestiniano”, os ayatollas um “problema iraniano”, os tallibans um “problema afegão”, seriam apenas escolhas internas democraticamente conseguidas, portanto legítimas, e o baile devia acabar aqui. Só que, como Hitler não foi só um “problema alemão”, o Hezbollah, o Hamas, os ayatollas e os tallibans, são também um problema para todos. Porque o fito comum e fanatizado de todos eles é destruir Israel, atacar a civilização, impor uma ordem islâmica integrista pela bomba, pela pedra e pelo “rocket”, escaqueirar a democracia onde quer que ela se pratique, regredir aos tempos do expansionismo muçulmano, levar as mulheres de volta à regressão medieval, destruir o legado mais importante deixado ao mundo pelos soviéticos (a unipolaridade americana). Restando-nos, desesperadamente, como única alternativa á unipolaridade imperial dos States, a regressão ao domínio das madrassas, dos xeques e de Meca. E, como canta bem o Sérgio, “para melhor, está bem, está bem, para pior já basta assim”.

 

Finalmente: claro que os israelitas não são "santos", são até legitimamente detestáveis, mas como não lhes reconhecer que fazem, estão a fazer, com abusos condenáveis de toda a ordem, o trabalho sujo dos "pecadores" que nos recusamos a ser? Mas se é esta, a "linguagem do pecado", a única capaz de conter o "problema para os outros" constituído pelo Hezbollah, pelo Hamas, pelos ayatollas e pelos tallibans... 

Publicado por João Tunes às 16:29
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MEA CULPA

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Mal sabia eu que a minha passada, íntima e anónima decisão de deixar de ler e comprar o “Expresso” - pelo manifesto e pesado desinteresse daquelas resmas de papel -  ia ter tão terríveis consequências:

 

“A Impresa, grupo liderado por Pinto Balsemão que detém a SIC e o semanário Expresso, anunciou esta segunda-feira os resultados do primeiro semestre do exercício em curso, de onde sobressai a queda homóloga de 53,7% no lucro líquido, o qual alcançou 7,02 milhões de euros.”

 

Lido mal com o capitalismo. Pior que com a democracia. Mas na lista das coisas que ambiciono na vida não consta o prejuízo de Pinto Balsemão. Sempre é o Militante Nº 1 do PSD.

 

Publicado por João Tunes às 13:05
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UM DIA

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Para que se entendam todas as cores com que o Mal se pintou e pinta, este passo, importante passo, também um dia se dará relativamente ao Gulag. Depois, talvez mereça mais siso que riso alguma impunidade política angariada pela falta de registo de uma metade da memória, esse naco de memória sepultada sob a mentira persistente de que a culpa apenas e desde sempre se veste com a cor castanha.

Publicado por João Tunes às 02:24
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