Quarta-feira, 19 de Abril de 2006

IRRITAÇÃO (breve)

O que mais me irrita na grande parte dos críticos (violentos) dos deputados faltosos nas mini-férias pascais é que são, eles mesmos (os críticos), parte da gente que nutre um completo desprezo pelos mesmíssimos deputados, acha-os uma inutilidade a caminho de meros paus mandados, idem para com a Assembleia da República, quiçá com a democracia parlamentar, burguesa e representativa.

Grande parte da enxurrada crítica para com os faltosos não passa de farisaísmo puro e duro – mera alegria de confirmação de ranço de culpa. Apenas chafurdanço para que a lama mais mal cheire. Sem um grão de indignação cívica decente e correctiva. E, para esses (os críticos), tanto se lhes dava que os mesmos deputados, agora com o ónus das faltas grosseiras e indecentes, fossem dedicados, empenhados, mouros de trabalho, criatividade e dedicação. Se de inúteis nunca passarão (os deputados), por muito úteis que tentem ou tentassem ser, porque raio lhes sentiram tanto a “falta”?

Com estes (críticos)? Não!

Publicado por João Tunes às 12:31
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HOJE

Para que nunca esqueça que nesta barbaridade, esta vergonha, também nos fizemos como povo. Não só mas também.

Publicado por João Tunes às 12:10
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DA ESCRITA, DOS PÉS E, SOBRETUDO, DA INVEJA

Tenho os meus pessoalíssimos e privados gostos. Alguns são obsessivos e resvalam para o que é vulgar chamar de “pancada”. A maioria são vulgares de Lineu. Outros são uma espécie de emblema pseudo-aristocrático, não mais que pequena arrogância elitista de trazer por casa ou quando muito passear pelo bairro. Nestes últimos, porque farto de escrita de evidências explícitas que se esquecem mal passada a leitura, às vezes dando em bocejo, gosto da arte de lide com as palavras deixando mensagens para desembrulhar, deixando-nos o prazer lúdico-semântico de lhe desatar os nós, não por gosto por charadas, apenas para tecer uma das mais profundas das cumplicidades – a que se constrói através da escrita, ou seja, entre quem escreve e quem lê, plantando mais fechaduras que chaves.

A escrita “blogosférica” empurra para o directo, sintético, retumbante, explícito, interventivo, uma escrita de efeito. É seu estilo e sua sina. Mais que os do jornalismo, porque aqui a paciência de leitura não costuma dar para mais de três palavras e de forte tempero que pique na língua dos neurónios dos velozes viajantes de leitura que são os típicos consumidores de blogues. Caso contrário, um rápido clique vira, veloz, de folha e de autor.

Mesmo assim, há quem tenha a arte de juntar destreza, profundidade e poder de síntese, plantando mais símbolos de mensagens que discursos, mesmo que breves. Permitindo, não o atropelo entre ler e pensar (concordar ou não, está-me sempre fora de questão), mas essa pausa gostosa entre o prazer de ler e o prazer de entender. E então, confesso, o regalo vale bem a pachorra necessária que, por atacado, se tem de ter para com o reino “blogosférico”. Leia-se isto e diga-se ou desminta-se se, também na blogosfera, não vive a melhor entre as melhores escritas. Que inveja, caro Amigo Manuel Correia!

Publicado por João Tunes às 11:35
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Segunda-feira, 17 de Abril de 2006

AINDA SOBRE AS VELAS NO ROSSIO

A ideia do Nuno Guerreiro de se comemorar em celebração pública a matança de judeus de 1506 e que aqui comentámos, acabou por ter eco e alvoroço sobretudo quando o Lutz resolveu lançar de uma assentada, e a propósito, um package de seminário, work-shop, debate e mesa-redonda. Foi tamanho o reboliço que o assunto saltou para a comunicação social escrita (por exemplo, no Público de sábado e no DN de domingo). Só por isso, mesmo que agarrados a uns tantos preconceitos despidos em praça pública, a “vergonha”, uma das maiores vergonhas da nossa história, acabando por ser lembrada e menos coberta pelo pó do esquecimento, valeu a pena a ideia do Nuno e a acção de “agit-prop” em que o Lutz se revelou, confirmando esse talento, mestre inspirado. Verificando-se que enquanto o anti-semitismo continuar entranhado, como se demonstrou em vários comentários no post do Lutz, a “vergonha” resiste e persiste. E, por mim, as velas até já nem acrescentam muito mais. Ou serão, vá lá, reduzindo-se sobretudo a um exercício de remate ritualista e de duvidoso alcance de aproveitamento político-religioso. Embora admita que, sem essa “dramatização” (a das “velinhas”), a efeméride tivesse passado praticamente despercebida, ficando, pelo menos, com o crédito desse mérito.

Diz agora o Lutz:

“há um (…) problema que agrava a resistência à homenagem: Que uns se sintam convocados pelos representantes das vítimas para participar nela como representantes dos assassinos.”

”Para que os descendentes das vítimas e os descendentes dos assassinos consigam lembrar conjuntamente os mortos de 1506, é preciso construir um “nós” que abrange todos da mesma forma, e em que cada participante se assume tanto como representante dos perpetradores como das vitimas.”

Concordo com ele neste ponto. Tanto que a formulação do apelo-desafio do Nuno Guerreiro suscitou algum “lavar de mãos” (o meu caso, por exemplo). E a gravidade do crime lembrado não o merecerá. Mas, nisso, os “patrocinadores” terão tido alguma responsabilidade – ao deslocarem-no de crime histórico de uma intolerância, uma monstruosa intolerância, para uma afirmação de vitimização de uma fé religiosa perante outra, num contexto de exclusivismo de domínio religioso. E esta “apropriação”, evidentemente só podendo ser destinada a exaltação no presente, sabendo como sabemos dos excessos, abusos e crimes (claro que falo dos cometidos contra os palestinianos) que o hábito e vício de vitimização judaica tem conduzido. Um crime não absolve outros crimes, é certo, mas suponha-se que alguém da comunidade palestiniana decidia apelar a que, no exacto momento da cerimónia das velas no Rossio, se acendessem velas (ou se fizessem montinhos de pedras, homenageando a intifada) frente à sinagoga de Lisboa em lembrança dos crimes israelitas (e aí, de certo, teriam de ser bem mais que quatro mil velas ou quatro mil pedras) e que seria um rotundo disparate. Ou, para estragar ainda mais a festa, mais uns bons milhares de velas na Mouraria em lembrança dos muitos mouros chacinados na conquista cristã da Península?

Ao fim e ao cabo, o reduccionismo vítimo-religioso da iniciativa, acabou por afunilar o poder exemplar da efeméride. Não lhe beliscando - porque história é história - a importância da sua lembrança e do equivalente repúdio. E, assim, só podemos estar todos agradecidos ao Nuno e ao Lutz. Por mim, com velas à parte.

Publicado por João Tunes às 11:52
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Sexta-feira, 14 de Abril de 2006

Bom fim-de-semana

Este é um fim-de-semana mais alargado. E, como alargado que é, que se alarguem os abraços. E que se afaste para longe esse ambiente de exaltação necrófila de expiação de uma patifaria entre judeus, romanos e outros ocorrida há cerca de dois mil anos. Mas expiar o quê? Venham, antes, os abraços. Um abraço que seja. Mas que valha um excelente fim-de-semana. Estes, os meus votos.

Publicado por João Tunes às 20:51
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EQUILÍBRIO EM FALTA DE BULA

Almoço de carne. Excelente. Para equilibrar a transgressão, carne de porco. Para que os muçulmanos não se fiquem a rir.

Publicado por João Tunes às 20:32
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Quinta-feira, 13 de Abril de 2006

Vá de retro!

Se gasto horas na Internet, leio compulsivamente jornais, mas não ligo peva à televisão, sou um pecador moderado e recuperável?

Sim ou não, declaro solenemente o Vaticano como um antro de depravados com a tara de quererem castrar o mundo.

Publicado por João Tunes às 21:59
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FUMAR, NÃO FUMAR

Na semana passada, tive a oportunidade de constatar a forma como a lei de restrição anti-tabágica está a ser aplicada em Espanha, em espaços públicos como bares e restaurantes. Fiquei surpreendido com a flexibilidade clarividente como a lei vigora e foi levada à prática. Cada restaurante, café e bar, desde que situados em espaços fechados, afixa clara e visivelmente a indicação se, naquele espaço, é proibido ou permitido fumar. Assim, o cliente, antes de entrar nesse espaço, sabe o que “a casa gasta”. E ou entra ou não entra. Os fumadores sabem onde irem ou não, idem com os alérgicos ao fumo. Depois, simplesmente , vinga a lei da oferta e da procura.

Se não erro, o afã globalizante de impor uma única modalidade (restritiva, proibicionista) é uma pulsão de impor a virtude e fornicar o vício. Mas, essencialmente, é uma reacção contra a força do mercado. É que, pela amostra do que vi agora na Andaluzia, os bares e restaurantes (a maioria) que permitiam o fumo estavam cheios de clientes, enquanto a minoria proibicionista vivia a míngua de clientela. Quanto a estes, suponho que, brevemente, ou mudam para a permissão do vício ou vão reivindicar o proibicionismo totalitário como regra estatal de emissor impositivo das santas virtudes, lixando-se a liberdade de escolha. Como cá, por aqui, por aí, se lê e ouve. Verdade: totalitário, por regra, é cavalheiro ou dama que não sofre de sono.

Publicado por João Tunes às 00:00
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Quarta-feira, 12 de Abril de 2006

POST AMIGO PARA UMA CATÓLICA PRATICANTE

Como o costume, que é o pai de muitos defeitos, neste post fiz generalizações provocatórias. Só podia sê-lo vindo de quem confessa, já e aqui, que, ao longo da vida, leva uns tantos padres católicos na sua contabilidade afectiva de (boas, excelentes) amizades e camaradagens. Até levo, como crédito de conta de poupança para quando me chegar a hora da indesejada partida, uma boa remessa de terços e caminhadas de joelho em martírio (puxa!) por mercê de ter procurado conter, tentando trazer para os bons caminhos, um padre capelão, meu camarada e meu amigo, atropelado na tentação de ímpios caminhos. E um gajo, este gajo, que muito fez para segurar um padre católico de se perder no pecado, não é, no mínimo, credor do título de ateu catita? Ora…

Defini uma regra. Que mantenho. Não beliscando as excepções. Mas, na luz da claridade chã e serena do meu ateísmo convicto, que espero me salve a alma enquanto dela prestar contas de homem para homens, limpa de “charros” de uma muleta metafísica feita de ópios ao serviço do domínio sobre pessoas (falo das Igrejas enquanto instrumentos de poder), sobretudo por lhes atalharem as consciências, claro que tenho o maior respeito para com os crentes, meus diferentes, meus iguais. Sejam eles não praticantes, os praticantes e (com uma ternura especial, fraqueza de qualquer ternura) os “semi-praticantes”. Encantando-me, na comunhão da força da parábola, ler a prosa cristalina da estimada companheira M. Conceição que me deu o maná de assim comentar o meu modesto post:

”Eu que me assumo, o que normalmente se chama de "católica praticante" , sei distinguir (presunção;)) o que é o cristianismo e a frequência das sacristias. Não são coincidentes.”

”O das Neves apresenta uma religião que parece que anula os problemas dos homens. Não anula. Não há nenhuma religião que o consiga. Enquanto vivermos esta vida que temos, vamos errar, vamos pecar. Não há nenhuma fé ou deus que nos livre disso. Se aceitarmos essa verdade, então sim, sabemos viver a vida que temos. Vamos perder menos tempo a arranjar leis para nos condenarmos uns aos outros e vamos aceitar a vida tal qual é. Não paraísos terrestres como o das Neves e outros parecem que descobriram. E os santos que o Vaticano vai arranjando foram pessoas que sabiam isso muito bem. O paraíso não é aqui.”

”Ter fé, não é ter asas e sermos imediatamente transformados em anjinhos. É viver a vida tal qual ela se nos apresenta.”

Afinal, cara M. Conceição, exceptuando nos fios da retórica, discordamos em quê? Ora… (bis)

Publicado por João Tunes às 22:55
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António Carmo

Segundo me conta José Alberto Franco, em mail que teve a gentileza de me enviar, ontem aos microfones da Rádio Pax, de Beja, disse Alberto Matos:

“Para os filhos do António do Carmo, isto é, à Maria Catarina, ao Adolfo e ao José (o mais novo, ao colo da mãe quando ela foi varada por uma bala assassina), vai de nós todos um abraço de homenagem a este homem simples e bom, com alma de poeta.”

António Carmo, filho de Baleizão (Beja), faleceu no passado dia 6 de Abril. Era homem de muitos silêncios, vá-se lá saber porquê. Nem isso interessará muito agora quando o silêncio definitivo é a sua eterna condição.

António Carmo foi marido de Catarina Eufémia, a camponesa alentejana assassinada a tiro pela GNR em 19 de Maio de 1954 ao reivindicar melhores jornas. Criou - viúvo da ceifeira que manchou a campina alentejana com o sangue saído dos buracos das balas do fascismo luso que lhe ceifaram a vida e a luta - os seus três filhos: Maria Catarina, Adolfo e José. Prolongando, assim, as raízes e os frutos da vida e da luta de Catarina Eufémia, dando corpos e almas à continuidade de Catarina que atravessam esta democracia que teima em nos retardar a lembrança dos tempos, tanto tempo, tanto tempo, em que Portugal foi um país escuro, tão escuro que as suas campinas como que tinham sede de sangue de luta e de heróis para que o sol da liberdade fosse, como hoje é, uma simples banalidade.

As campinas alentejanas já não pedem sangue, apenas água e bons olhares, como agora, nesta mesma altura em que António Campos se foi, em que são um regalo para a vista e a alma, ajudando cada um a ser, pelo menos, um pequeno poeta de ocasião. Mas poetas livres. Todos.

A minha sentida homenagem. E respeito. Sobretudo respeito.

Publicado por João Tunes às 17:48
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A COUVES E ÁGUA

O Evaristo tem a receita para se extinguir (por falta de objecto) o SNS e toda a actividade clínico-farmacêutica. O que resolvia de vez o pesadelo do défice orçamental e poupava um ministro, uns tantos secretários de estado e grande parte do funcionalismo público, encerrando as Faculdades de Medicina, Farmácia, Enfermagem e Saúde Pública, reconvertendo médicos, enfermeiros e farmacêuticos em operários das Companhias de Água Engarrafada. Ora leiam:

“Se todos os portugueses fossem como eu, não havia necessidade do SNS, nem das farmácias e muito menos das clínicas de saúde privadas. (…) em questões de saúde, o melhor é prevenir: uma alimentação saudável, isenta de "cadáveres", com muita hortaliça e fruta, não fumar, nem beber fora das refeições. Não devemos fazer do nosso estômago um contentor do lixo... (…) para se gozar de uma boa saúde, é preciso evitar os exageros da alimentação «fast-food», das gorduras, fritos, tudo o que tenha corantes e conservantes, e ainda as bebidas sintéticas. Só água.”

Pois. Tudo bem, caro Evaristo. Muito bem. Só água, não é? E passávamos a andar por aí a imitar sapos e rãs. Safa!

Publicado por João Tunes às 00:09
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Terça-feira, 11 de Abril de 2006

QUANDO AS MULHERES IAM À BOLA PARA O ENGATE

Leia-se, se aprouver, este mimo de prosa marialva de um bolchevique-bacoco na exaltação das fêmeas aperaltadas (mas soviéticas!) “para dar continuação à vida” a encherem bancadas de estádios de futebol:

“Na imensa cinematografia soviética, tão mal conhecida entre nós, há vários filmes que retratam os vários ângulos do fenómeno desportivo. Lembro-me de um, consagrado ao futebol, onde se viam os estádios cheios, e com muitas mais mulheres do que homens. Era o pós-guerra, milhões de homens tinham ficado para sempre no campo de batalha agarrados às armas com que derrotaram o fascismo e libertaram a Europa. As mulheres iam ao estádio vestidas como para um baile. Pudera! Explicavam elas que tinham milhares de olhos masculinos cravados nelas. Depois dos descomunais sacrifícios, havia que dar continuação à vida.”

Publicado por João Tunes às 23:10
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E OS AGRICULTORES?

Não pondo em causa o contributo dado por Joaquim Casimiro ao associativismo dos agricultores, não duvidando sequer dos seus comprovados méritos, dedicação, talento e espírito de luta, o falecimento deste dirigente supremo da CNA (Confederação Nacional dos Agricultores) e a revelação da antiga militância partidária deste seu líder confirma que esta foi uma estrutura criada e controlada pelo PCP para competir com a CAP e influenciar pequenos e médios agricultores na adesão ao projecto de “aliança” com a classe operária para se chegar ao poder “operário-camponês” destinado a suprir, de uma vezada, os entorses da democracia burguesa (ou seja, a tradução do símbolo da foice na bandeira vermelha). E acabou por evidenciar a evidência escondida – se a CAP foi, e é, a organização dos latifundiários reaças viciados na mama dos subsídios e apaparicada pela direita e extrema-direita, a CNA nunca passou de uma resposta bolchevique e um (outro) instrumento de submissão partidária de simétrico sinal totalitário na manipulação político-partidária dos agricultores.

A vaidade incontrolada de contabilizar mártires e ícones por parte do PCP acabou por trazer à luz o tão escondido. Bastando, para isso, ler o “Avante” e as suas notas necrológicas. Como esta: “O Secretariado do Comité Central do PCP, apresenta, por esta forma, à sua companheira, filhas e demais família «os mais sentidos pêsames e sentimentos de sincera amizade e à CNA toda a sua solidariedade». Jerónimo de Sousa esteve presente no velório do seu camarada, que se realizou na Casa Mortuária das Águas, Bairro do Areal, em Alenquer.”

Publicado por João Tunes às 22:24
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NEVES, este NEVES

 

Os e as melhores, mais simpáticos e simpáticas e com quem se tem com gosto uma conversa de jeito, entre os católicos e as católicas que conheço, são todos “semi-praticantes”. São daqueles e daquelas que se recusam a rezar terço ao centralismo democrático. Juntam uma moralidade evangélica “qb” com uma iconoclastia igualmente “qb” e, na mistura, sai malta com princípios, meios e fins. Catitas, pois. São, numa religião que é muito mais de obediência ao Vaticano que ao exemplo de Cristo, um derivativo fascinante desses fumígenos, esfalfados e decrépitos “chapas” que vi circular em Maputo e em Luanda, semi-carrinhas a abarrotar de gente, substituindo carência de machibombos municipalistas, privadíssimos e com cobrador de molho de notas a aquecer-lhes as mãos e a cobrar as corridas (tantas vezes sem destino certo mas muitos destinos inventados), e que o pessoal crismou e consagrou com essa alcunha fabulosa, criativa e de compromisso marxista-liberal de “transportes semi-colectivos”. Quer-se dizer: “colectivos” são (pelo peso enorme da quantidade de pessoal e haveres acumulados no vai-vem entre a cidade e os subúrbios), mas também “semi” porque ali o povo paga e não recebe, sem que perca a alegria de circular. E qual é a alma que goste de estar quieta e não vadiar um pouquinho e consoante as posses reais ou inventadas?

 

Pois, com os católicos “semi-praticantes” não tenho eu pruridos conviviais, até mesmo de tertúlia, porque de amizade não se fala pois que, entre eles, muitos amigos cultivo no meu canteiro. Gosto mesmo deles. Prefiro-os, de longe, aos racionalistas neo-liberais que querem programar o progresso com a régua das OPA’s e o esquadro da precaridade como janela de oportunidade ou aos “jerónimo-estalinistas” que querem levantar o mundo até à justiça perfeita a espalharem um colectivo de “pides” em cada quarteirão para que as “amplas liberdades” nunca minguem na caderneta da devoção.

Tanto dito para apenas desabafar que vi e ouvi, ontem, na TV, uma vez mais, o inefável Professor João César das Neves (ena, levou claque!), um católico que, problema dele e sobretudo dos seus alunos, é católico “integral”. Ouvi-o e vi-o com a sua repetitiva e indomável retórica, género “talliban” saído direitinho da “última ceia” e remetendo o parceiro de bancada - que até é cardeal e fabricante de beatos e santos - ao papel humilhante de seminarista caloiro. Ouvi-o e vi-o. Topei-o, como costume. Disse ele que falava em nome da vida, não da religião. Pelos fetos mais que por Cristo, porque de Alá e Maomé ele também gosta, de Judas também, de rabinos nem se fala, mais toda a molhada dos sacerdotes indús, budistas, cucos, codornizes, patos e milharufos. Desde que haja religião, o Neves está feliz. Venha ela aos molhos. E vida, sobretudo vida, com fetos fresquinhos a despontar, amados ou não amados, desejados ou acidentais, bem formados ou mal formados, frutos do amor ou vítimas de violação ou descuido, com direito futuro ao amor pelo fruto desejado ou à violência da lide com a frieza da contrariedade. O Neves, este Neves, cultiva adoração por fetos, estejam ou não à direita, ao centro ou à esquerda do seu Cristo e do seu Papa entronado no Vaticano opulento e nomeado segundo a ditadura mais obscena que o tempo histórico retém em lembrança viva. Só um problema sobra para o Neves, este Neves, o de mil fetos a florirem: quando se souber quantos filhos tem, sabemos todos quantas “quecas” deu na vida. E, então, lá se vai o resguardo da sua casta intimidade. Ficando o aviso: se houve punhetas pelo meio, o Neves, este Neves, vai ter de, por coerência, confessar publicamente quanto fetos falhou no turbilhão insano do autoclismo, dando-nos o gozo da exibição das suas católicas fraquezas. Promovendo-se a "semi-praticante", passando do religioso ao humano, aqueles de quem gosto. E, a partir daí, ele que apareça quantas vezes quiser na televisão, pois terá este ateu como seu telespectador atento, até na claque "dele" eu entro, se disso a eminência laico-católica necessitar.

Publicado por João Tunes às 15:21
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A HORA TRICOLOR

Foi por uma “unha negra” que um político boçal larga o leme do poder italiano. Mas que largue, que largue. A Itália, os italianos, merecem bem melhor. Nós também, porque uma Europa com “bota” mal calçada, era uma Europa bem coxa.

Verdade que o vencedor tem pinta de amanuense e burocrata picuinhas, género primeiro oficial de repartição de registo predial, mas antes isso, antes isso. E venha a França, venha a França, sem CPE nem charmoso apressado e desastrado.

Publicado por João Tunes às 11:29
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