Sexta-feira, 27 de Maio de 2005

UMA EFEMÉRIDE DE CHAGA ABERTA

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Como bem diz o WR, 27 DE MAIO DE 1977 é um dia macabro da história recente de Angola.

Hoje, visto à distância - e a história não pode desandar a sua roda -, sobra, sobretudo, a indignação que não pode calar-se perante o querer esquecer a memória desse monstruoso banho de sangue que atirou dezenas de milhares de angolanos para a marginalização, o desaparecimento ou, a maioria, para a vala comum. E nenhum dos chacinados, social ou fisicamente, teve direito a outro julgamento e processo de culpa que o ódio das barricadas. Nem à reabilitação que lhes compete. E às famílias dos fuzilados continua-se a negar a identificação e recolha dos corpos dos seus e o direito mínimo a dar-lhes uma sepultura para dirigir-lhes lágrimas particulares, íntimas, de afecto no luto.

O ódio fraticida, talvez o pior dos ódios, encharcou Angola de muito sangue e muita dor no período de dois anos de ressaca cruel da “insurreição nitista”. Não tenho qualquer ilusão que, se a fracção de Nito Alves & Cª tivesse saído vitoriosa em 1977, a orgia sectária e vampiresca teria outros fuziladores e seriam outros os fuzilados, sendo parente bem próximo, ou pior, na cegueira do ajuste de contas. Mas um fuzilado insepulto é sempre uma vergonha, seja castanho ou vermelho. E, no caso, eles, como costume, pertencem aos “vencidos” (os “nitistas” ou como tal considerados). Os perdedores, numa luta de mata ou morre, são sempre as vítimas. E só perante as vítimas nos podemos vergar em respeito e exigir, em seu nome, o respeito merecido. Quanto aos vencedores, esses ficam com o poder e que lhes baste o proveito, sem direito, nunca, a exercê-lo com ignomínia perante os vencidos e a exigir-nos, perante a História, amnésia para adormecer consciências.

Os acontecimentos de Maio de 1977 foram, parece-me, um caso de cegueira ideológica ao nível do pior que o marxismo-leninismo pode levar – a via de destruição dos “diferentes”, embora irmãos sob a mesma bandeira. Com a tragédia acrescentada de o “campo de apoio do internacionalismo proletário” estar nos dois lados da barricada – soviéticos e PCP ao lado da insurreição; cubanos ao lado de Agostinho Neto. A presença e poder de fogo dos cubanos, no terreno e sem dar tempo a que Fidel se entendesse com Brejnev, salvou Neto e a sua facção do MPLA. De nada valeram os militares e as massas mobilizadas e fanatizadas pelas quimeras irredentistas pelos candidatos a bolcheviques angolanos – os puros e os duros.

Dou razão ao WR quando diz da Angola saída da vitória do marxismo-leninismo de Agostinho Neto sobre o marxismo-leninismo de Nito Alves: “ um país com singulares condições para ser um país próspero, naquele contexto geo-político, se transformou naquilo que hoje é do conhecimento geral: um território devastado pela guerra, pelo caos, pela mais extrema das misérias, a par da opulência insultuosa da riqueza de um punhado de déspotas e oportunistas.”

Mas que me permita este companheiro que lhe diga que eu penso que, com a eventual vitória do radicalismo de Nito Alves & Cª, Angola só podia, hoje, estar ainda pior, provavelmente nem sequer existiria como País Independente. É que, embora muitas vezes se resista a esta ideia, o Pior é sempre Possível. E pode estar do lado dos vencidos varridos do poder e sem darem provas provadas de como iriam exercer o poder. Fico-me pela convicção que mais marxismo-leninismo só poderia resultar em pior marxismo-leninismo.

Para mais dados e opiniões sobre a efeméride, pode consultar aqui.
Publicado por João Tunes às 16:55
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SEMELHANÇA?

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Eu sei que o olhar não é tudo. Julgo que é importante mas não digo que seja o mais importante. Há mais para além do olhar, sobretudo dentro do olhar.

Olhando para esta imagem, penso: mudando o símbolo venerado como confirmação de fé, há ou não semelhanças entre este sujeito e um nosso político vivo mas retirado (supõe-se...)?

Se alguém concordar, ajude-me a identificá-lo. Ando com falta de memória, reduzida a uma vaga ideia. E, quanto a heresias, já levo a conta alambazada para as minhas posses.
Publicado por João Tunes às 15:45
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Quinta-feira, 26 de Maio de 2005

PARA QUANDO O PEDIDO DE PERDÃO PELO “NACIONAL-CATOLICISMO”?

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O “nacional-catolicismo” (a aliança entre o clericalismo e as variantes de fascismos europeus) foi das piores pestes na história do Século XX. Juntou o pior da tradição da Igreja Católica, em que os “vermelhos” ocuparam os lugares de recusa ainda quentes dos judeus, na vontade e poder de conservação de privilégios (os seus e os das esmolas gordas) e de domínio sobre as almas dos desvalidos, recusando cultura, justiça e democracia. Muitas páginas faltam no fazer história do Século XX que mostrem a vergonha da forma como a Igreja Católica passou ao lado, ou se aliou, com a violência pagã, animalesca e de ódio profundo com que os pagãos fascistas se alcandoraram e conservaram os seus poderes totalitários. Foi assim na Croácia, na Hungria, na Polónia e na Roménia, nas ditaduras fascistas aliadas ao nazismo. Foi assim na França de Petain. Mais duradouramente, foram os casos de Portugal e Espanha. A Igreja já havia baqueado e levantado o braço com Hitler e com Mussolini. Depois, deu o colorido ideológico do princípio de “cruzada” aos fascismos, sobretudo às versões mais persistentes e consolidadas das pátrias peninsulares. Com maior denodo e descaramento no caso espanhol, perfilando-se num dos lados do ferro e do sangue, a que ajudaram ao paganismo do ódio, da intolerância, da capacidade de perdoar, concedendo a Franco e aos fascistas espanhóis o direito à profanação pelo uso do crucifixo e do terço.

Claro que cada momento histórico tem a sua data e as suas explicações. No caso espanhol, esquerdistas (sobretudo anarquistas) descarregaram ódios, sevícias e martírios sobre os clérigos e freiras. Foi um ódio repugnante para o qual não desculpam os muitos séculos em que a Igreja esteve ao lado da opressão e do obscurantismo castelhanos. Mas também as suas penas, mesmo os martírios, não podem desculpar a forma violenta, sanguinária e manchada de ódio com que a Igreja abençoou Franco e a matança na sua vingança, acompanhando o regime, abençoando-o, até ao fim do ditador.

No último papado, foram beatificados e beatificadas à molhada, padres e freiras que penaram à mão dos esquerdistas ímpios. Mais que um gesto de reparação de justiça, João Paulo II, pela parcialidade demonstrada (não foi beatificado um único dos muitos sacerdotes bascos fuzilados por Franco porque defenderam o seu País e o seu Povo), prolongou, quis prolongar, o selo de “Cruzada” atribuída a Franco e ao nazi-fascismo que o apoiou e lhe ganhou a guerra.

Falta agora que o Papa, a Igreja Católica através dele, peça desculpa aos espanhóis chacinados, excluídos, aprisionados, perseguidos e ostracizados, porque defenderam o seu regime legal e constitucional contra um golpe militar, a democracia contra o fascismo, a república contra o domínio dos señoritos e marqueses, preferindo os curas um regime de ódio e vingança que a Igreja apoiou, abençoou e a ele serviu, servindo-se, levando o poder das sotainas até ao obsceno (durante décadas, após a guerra terminar, para quem procurasse um emprego era pedida informação ao pároco da sua residência sobre o seu comportamento cívico, moral e religioso). E que maior simbolismo podia haver, como pedido de perdão, que abandonar esse monumento ímpio e monstruoso chamado Vale dos Caídos, uma vergonha para a humanidade, caducando-lhe a categoria de “Basílica” que João XXIII lhe atribuiu, mandando que os monges beneditinos que lhe fazem guarda e missas se mudem para um lugar decente e de fé, revogando a benção católica a esse monumento à eternidade do ódio e da vingança, permitindo que as urzes, o rosmaninho e as estevas apaguem, com o passar dos anos, essa megalomania satânica de preito à vergonha do “nacional-catolicismo”?

”A desculpa divina, como tantas vezes, durante a História, serve para blindar a consciência perante as maiores atrocidades. Franco não foi excepção, antes pelo contrário. Utilizou a Igreja espanhola como salvoconduto para os seus objectivos de eliminar o adversário, encobrindo-os debaixo de conceitos espirituais. A Igreja fez-lhe a vontade, acreditando que ela também beneficiava nos seus próprios interesses e contribuiu tenazmente de suporte moral ao franquismo. Os verdadeiros “comissários” do regime não foram os falanguistas, foram sobretudo os padres, religiosos e religiosas, devotados a praticar princípios “pedagógicos” em que a exaltação da “nova ordem” figurava como matéria essencial.”
(in “Franco y yo”, Albert Boadella, Espasa-Calpe, Madrid, 2003)

”O Estado Espanhol, consciente de que a sua unidade e grandeza assentam nos pilares da fé católica, inspiradores das suas façanhas imperiais, e desejoso de mostrar, uma vez mais e de maneira prática, a sua fiel adesão à Igreja, assim como reparar o iníqua exploração que os regimes liberais fizeram do seu património através de despejos sacrílegos, propõe-se prestar o tributo devido ao abnegado clero católico, cooperante eficaz da nossa gloriosa cruzada.”
(in entrevista de Franco, em Janeiro de 1938, ao “National Catholic Welfare Conference”)

”Senhor, aceita com piedade a oferta deste povo que em teu nome venceu com heroísmo os inimigos da verdade porque estavam cegos. Senhor Deus, em cujas mãos está todo o Direito e todo o Poder, presta-me a Tua assistência para conduzir este povo à plena liberdade do Império, para glória Tua e da Tua Igreja.”
(Franco, ao oferecer a sua “espada da vitória” ao altar-mor da Basílica de las Salesas Reales, Madrid, no Te Deum de celebração da vitória do fascismo, 20 de Maio de 1939)

”O Senhor esteja sempre contigo. Ele, de Quem procede todo Direito e todo Poder, e debaixo de cujo império estão todas as coisas, te abençoe, e continue a proteger-te, assim como o povo cujo governo te foi confiado. Dou-te a bênção em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.”
(Cardeal Primaz Isidro Gomá, em resposta a Franco, mesma cerimónia)

”Foram sacerdotes [os padres bascos fuzilados por Franco, já com a guerra terminada, por terem defendido a República e a autonomia basca] que se valeram da sua autoridade para enganar o seu rebanho, para levá-los à morte, para lutarem em união com os inimigos da fé, traidores à sua pátria, pior ainda, traidores ao seu Deus. Tiveram que responder ante a justiça humana, não como sacerdotes, mas sim como atiçadores da luta, através de um forma indigna do seu carácter sacerdotal”
(Frei Justo Pérez de Urbel, Abade do Vale dos Caídos e professor da Universidade de Madrid, referindo-se aos padres bascos fuzilados por Franco)

”Levantado o nosso coração ao Senhor, agradecemos sinceramente, com Vossa Excelência, a desejada vitória da católica Espanha. Fazemos votos para que este queridíssimo País, alcançada a paz, retome com novo vigor as suas antigas e cristãs tradições e que tão grande a fizeram. Com estes sentimentos, enviamos efusivamente a Vossa Excelência e a todo o povo espanhol a nossa apostólica bênção. Pio XII.”
(Telegrama do Papa Pio XII para Franco, 1 de Abril de 1939)
Publicado por João Tunes às 18:22
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Quarta-feira, 25 de Maio de 2005

O ANO DA ONDA VERMELHA

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CSKA, Benfica, Liverpool, ...
Publicado por João Tunes às 22:54
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FAZER O MAL DEPOIS DE BRADAR PELA CARAMUNHA

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Tem razão o João Abel em recordar o ”caso Celeste Cardona” na sua nomeação política para a CGD e a propósito da ida de Fernando Gomes para Administrador da Galp pela mão do Governo PS.

Num caso e noutro, o escândalo equivale-se. Agora com uma carreira política em declínio, Fernando Gomes abriga-se numa bomba de gasolina perto de si. Uma vergonha.
Publicado por João Tunes às 14:49
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A TANGA DE VOLTA

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A irresponsabilidade prolongada levou ao estado lamentável das contas públicas. E a culpa tem nome. Agora, não há volta a dar ao inevitável. Lamento, em Sócrates, a leviandade com que, antes e reiteradamente, andou a garantir que não ia aumentar impostos. Nas promessas também se pode ser irresponsável. Durão e Santana iam estragando o País, a Sócrates faltou-lhe a capacidade de resistir à demagogia. Todos culpados. Para nós, sobra-nos a tanga.
Publicado por João Tunes às 14:38
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ALTO CARGO

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Obviamente que estou feliz pela escolha de Guterres para Alto Comissário para os Refugiados. Só é pena não terem, para ele, a mais apropriada função de Alto Comissário dos Fugitivos. É que, assim, a bota dava melhor com a perdigota.
Publicado por João Tunes às 14:31
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FÁTIMA E FUTEBOL

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Nos últimos onze anos, houve sempre, cada ano, Um Campeão. Nessas alturas, não se falou, a propósito, do "regresso de Fátima e Futebol". Conclusão: os Outros Campeões tinham o condão de não alienarem as massas populares.

Este ano é que sim. Poucos são os blogues de não-benfiquistas que não clamem "Fátima e Futebol" a propósito da euforia-festa Deste Campeão. Outra Conclusão: É o Benfica que aliena as massas populares.
Publicado por João Tunes às 13:24
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PUNKS AO BARULHO (2)

A Helena comentou, com as suas habituais simpatia, argúcia e energia, o meu post anterior com o mesmo título (ver na caixa de comentários). Uma oportunidade a não desperdiçar para continuarmos a conversa.

Bom, caríssima Helena, resolvidos os “problemas” com as salsichas, os punks e os turcos, o que resta como fio de conversa? O essencial, julgo. Que não tem rigorosamente nada a ver com chamar isto ou aquilo que isto aqui, como o seu blogue, não são lojas de etiquetas autocolantes.

Entendo e partilho a sua preocupação pelo crescimento de comportamentos violentos de grupos com sinais de intolerância e de exclusão. É um problema na Alemanha, é um problema em Portugal, é um problema um pouco por todo o lado. A violência está a crescer e a organizar-se em bandos com criminalidade exposta e que procura concentrar os alvos nos níveis mais indefesos da sociedade – crianças, mulheres, idosos, imigrantes, diferentes. O alastrar desta violência e a sua procura da impunidade é, concordo, um problema gravíssimo de cidadania e da democracia. Porque nos torna indefesos e inseguros, logo cidadãos diminuídos. Ao mesmo tempo que nos exige maior coragem cívica e física quando confrontados com os comportamentos violentos e inadmissíveis (por exemplo: no caso que narrou num seu excelente post). Porque aumenta a paranóia securitária com que a Direita procura contabilizar, demagogicamente, o aumento de insegurança. Porque, mais inseguros, tendemos a procurar catalogar e generalizar os nossos anátemas para com grupos de desconfiança, os nossos diferentes, tornando-nos nós próprios mais desconfiados e mais intolerantes. Os violentos à margem da vida democrática além do mal que fazem pelas suas mãos e pelas suas mentes sujas, corroendo a vida cívica e democrática, corroem-nos também a nós ao tornar-nos mais irritados, mais impacientes, menos justos, menos democráticos.

Como lidar com esta nova forma de violência, esta delinquência organizada recrutada em adolescentes de má adolescência ou não adolescentes com adolescência retardada? Estudar-lhe as causas e prevenir, evidentemente. Mas para a violência à solta, à explícita que ataca as camadas mais vulneráreis, a questão, em termos imediatos, é uma questão de polícia. Não de mais polícia, entenda-se. Não de um polícia em cada esquina e ao lado de cada um de nós. Um estado policial ou policiado seria uma sociedade irrespirável, imprópria para viver. Mas as polícias, falando das polícias dos estados democráticos, pesem embora os esforços visíveis de adaptação, deixaram-se ultrapassar, em técnica, em meios e em cultura de organização, pela evolução da delinquência. Quanto à delinquência contra o património, como na lide com as micro-organizações de carácter terrorista, racista, xenófobo, nacionalista, neo-nazi ou neo-estalinista. No meu entender, isto exige uma sofisticação e firmeza que tornem as polícias mais eficientes sem ofender direitos de cidadania e de defesa como pessoa humana. E exige uma outra atitude de cada um de nós, como cidadãos que nos queremos ver melhor defendidos, perante uma polícia melhor e mais eficiente. E a Helena saberá tão bem quanto eu que o normal num cidadão é querer um polícia ao seu lado quando dele precisa mas reprovar, por preconceito anti-policial, a intervenção repressiva quando ela ocorre, prolongando assim um ambivalência de atitude que retarda a resolução do velho trinómio cidadão-polícia-delinquente.

Dou-lhe um exemplo recente, ocorrido em Portugal e na nossa segunda cidade (o meu estimadíssimo Porto). É admissível que um mini-grupo de pertença a uma convicção (no caso, uma identidade clubista) declare a principal Avenida da cidade como espaço de “propriedade única” de sua exaltação (mesmo quando não ganha) e o declare “espaço interdito” para que diferentes (no caso, rivais) ali celebrem uma sua vitória desportiva? Que, tendo antecedido a ocupação e a exclusão, de um comunicado público de ameaça, mesmo assim a violência se tenha verificado com agressões físicas e queima de símbolos? Que a polícia só tenha intervido para separar os bandos, após a ocorrência dos confrontos? Sabia-se o que ia acontecer e não se preveniu. Porquê? Julgo que as explicações se encontrem não na pertença dos “exclusivos” (obviamente que a claque delinquente é uma parte mínima dos adeptos do emblema utilizado) mas porque dominou um sentimento de expectativa e de impunidade. Expectativa porque se admitiu que os delinquentes eram suficientemente ameaçadores para afugentar os rivais (primado da força). Impunidade confirmada depois quando o Presidente do Clube “justificou” os “seus delinquentes” (primado da ideologia da exclusão e do ressentimento). Talvez também porque a PSP do Porto seja mais portista que portuense ou portuguesa (primado das cumplicidades políticas regionais). Haverá casos mais graves, muito mais graves, mas não deixa de ser uma tristeza a merecer uma reflexão.

Finalmente (isto vai comprido para burro), algumas breves notas de reflexão sobre algumas formas que considero infelizes (ia dizer perigosas, mas evito por temer que soe a exagero agressivo) nos reflexos defensivos face aos comportamentos desviantes e delinquentes ou potencialmente delinquentes. E, se a Helena me dá licença, vou inspirar-me nos seus textos:

- Ainda sobre os punks de Weimar ou conotados como tal: Há ou não uma marca de rejeição segregadora, embora involuntária, quando os refere como “Andam por aí com o cabelo feito crista eriçada, as correntes, as botarronas”? Esses sinais exteriores de “diferença” (o penteado, as correntes e as botas) irritam-na porquê? Seriam melhores, mais decentes e mais agradáveis (estética à parte, é claro) se usassem outro penteado e outro vestuário? Por exemplo, turbante eles e véu na cara no caso delas? E se outros cidadãos se lembram de embirrar com turbantes e com véus? Ou com mulheres de calças e braços descobertos? Ou com homens barbudos?

- Dá uma prova de assimilação e bom comportamento aos “ciganos alemães”, ao dizer deles: “Nunca vi aqui ciganos itinerantes”. Ora todos sabemos, os ciganos chegaram à Europa por serem nómadas. O nomadismo é uma marca fortíssima da origem e raízes ciganas. A sedentarização é um processo longo, tão mais longo quanto mais lento é o processo da sua aceitação e integração. Por outro lado, é sabido, os ciganos têm especial apetência pela prática de ocupação de sobrevivência através do comércio ambulante. Mas os ciganos não são os únicos nómadas. Ninguém critica, por exemplo, os artistas de circo (onde os ciganos não dominam) porque andam sempre de casa às costas. Ser itinerante não é crime, apenas é diferentes dos nómadas, tantas vezes tristes por não itinerarem um pouquinho.

- Concordo consigo quando diz “Mas gostava de ter o nome certo para usar nesta história. Dizer apenas "três rapazes, uma mulher" é escamotear a parte mais importante da questão.” De facto, um mulher agredida é mais (no caso, menos) que uma mulher, três delinquentes são mais (no caso, também menos) que três rapazes. É isso: três agressores (no caso e como costume: cobardes) e uma agredida. Eles a merecerem repúdio e castigo, ela a merecer maior protecção e mais coragem dos seus concidadãos e das autoridades na sua defesa.

Nota: A Helena não se deu conta mas no post anterior tentei ir pela ironia, com umas chalaças pelo meio, para amenizar uma interessante conversa sobre um assunto bem sério e bem preocupante. Pela sua reacção, o resultado foi um desastre. Aceito que, ao querer ir pela ironia, provocatória mas amiga, saíu disparate completo. Pior, desajustado perante o tema. E já não é a primeira vez que meto a pata na poça. Fique registado, para além do reconhecimento da inépcia, que não pretendi colar etiquetas do quer que fosse, parametrizando comportamentos, posições ou opiniões de outrém. Mudei de tom neste post. Talvez ainda vá a tempo de me limpar da borrada anterior. É que sou um homem de esperança. Além do velho sonho estético de usar o cabelo à punk, ainda não desisti de conseguir atingir a nirvana do socialmente correcto.

Publicado por João Tunes às 12:37
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Terça-feira, 24 de Maio de 2005

PUNKS AO BARULHO (1)

Cara Helena,

Primeiro, digo já que não lhe vou responder. Desde logo, por amuo derivado de Vc ter inventado uma desculpa esfarrapada para não nos trazer, em Outubro, um camião de salsichas a seguir (e perseguir) o prometido camião de cerveja. É que eu adoro salsichas. Sobretudo salsichas alemãs. Daquelas enormes que estalam no acto de mastigar como se fossem um balão sobe sobe. E gosto mais de salsichas que de cerveja, muito gostando do divino derivado do malte. Aliás, consigo comer salsichas sem beber cerveja mas já não consigo beber cerveja sem mastigar salsicha. Adiante.

Eu não sou punk. Porque não quero ser. Embora adorasse ser capaz de usar um penteado como os dos punks. Mera questão estética que não se mistura com a filosofia deles. Que até nem sei qual é. Mas, pelo que sei, estudando-os distraidamente porque concentrado na admiração dos seus penteados, eles serão uma tribo que se afirma a-social (não confundir com anti-social), marcando diferença de estilo e de conduta, representando um alheamento provocatório mas com um código de conduta não violento. Um verdadeiro punk só quer que se repare neles e por aí se ficam. Eles existem para exibir a diferença, agradecem o olhar de choque e vão às suas vidas. São, declaradamente, exibicionistas pacíficos. Não pintam graffiti. Uns adolescentes lúdicos na provocação.

E por aqui estava segunda boa razão para não lhe responder, reabrindo e consolidando amuo. Vc não só não traz salsichas como se vê que não gosta de punks. E eu adoro salsichas e gostava de me pentear como punk. E, segundo a pureza punk, profanou-lhe os atributos e comportamentos.

O que vc disse sobre os “3 punks” é uma generalização. Se os “3 selvagens” de Weimar se dizem punks ou se penteiam como punks, isso não envolve a tribo de que eles macaquearam pertença. As generalizações levam a isso mesmo. Um usurpador ser confundido com a pertença ao “grupo errado”.

Da mesma injustiça, talvez ainda mais infeliz, padece a sua referência aos “ciganos portugueses”. Outra generalização que talvez derive do facto de que quando temos (e há muitos, uns tempos atrás o Expresso trazia uma lista imensa de ciganos com destaque nas mais elevadas funções sociais) “ciganos de sucesso” (isto é gente de posição, prestígio e honrada na sua labuta) deixam de “ser ciganos” na referência. E o “cigano” fica agarrado a um comportamento marginal/desviante. Tal como ainda se diz, em Portugal, a uma criança que comete uma travessura: “não faças judiarias”.

Sobre a adesão da Turquia à UE, troco-lhe as voltas: nem tudo o que acontece na Alemanha desculpa ou subtrai o longo caminho a percorrer pelo regime turco e pela sociedade turca (por favor, repare que não falo em “turcos”).

Quanto aos “skin-heads”, aí o caso muda radicalmente de figura. Trata-se de terroristas em acção de permanente violência. Nesses, sem dó nem piedade. Contra eles, temos de nos defender. Como contra ETA ou IRA, Bin Laden & Companhia.

Não tenho nada a ver com os punks mas invejo-lhes o penteado. Não sou cigano mas são ciganos alguns dos melhores toureiros, bailarinos e bailarinas que me encantaram e encantam (e sou fan do Ricardo Quaresma, mesmo não lhe venerando a camiseta). Adoro salsichas. Acho que o regime e a sociedade turcas têm de dar ainda mais passos para cumprirem padrões aceitáveis de “pertença europeia”. Por atacado, aqui estão quatro boas razões para não replicar ao seu post. Embora já tenha passado a fase crítica do amuo, perdura a memória. Uma chatice, a memória. Mas negoceio o amuo, até a sua memória, se prometer reconsiderar quanto às salsichas. Negócio à vista?
Publicado por João Tunes às 23:45
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A SALVAÇÃO DE UMA ÉPOCA

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Pinto da Costa conseguiu enfiar Fernando Gomes (o antigo Edil com o penteado mais artístico) na Administração da Galp.
Publicado por João Tunes às 22:09
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FALAR DE SÁBIO

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Diz o Sábio Mussele:

“Calculo eu, ninguém tem saudades do "peixe podre, fuba pobre, 50 angolares e porrada se refilares". Como ninguém tem saudades das transferências compulsivas de trabalhadores, dos trabalhos de escravo nas roças e nas estradas, dos cartões de assimilados, dos "brancos de segunda", e por aí fora.”

Ora, ora, Sábio não sabe tudo. Ou então tem a sabedoria de não querer ouvir o que não quer ouvir. Os gemidos que mais oiço por aí, outra vez, cada vez mais, são pelos “heróis do ultramar”, contra os “crimes da descolonização” e suspiros de saudade do “pôr do sol africano” e das cidades lindas de morrer.
Publicado por João Tunes às 16:07
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DOBRADINHA

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“Agora.... é a dobradinha” diz-me, compincha e a gostar de festa prolongada, o mfc. Pois que sim. Seja lá o que tem que ser, devendo ser.

Mas um gosto pode sê-lo a dobrar? Duas é melhor que uma? Aos pares, o sabor não se perde? E se com uma, a alma se esgota e os dedos se cansam, como estar disponível e fresco para a réplica? Não vai saber ao sem sabor da repetição? Talvez a chave seja apenas uma questão de treino. Treinemos. Se tem que ser, seja. Mas só por isso.
Publicado por João Tunes às 15:44
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O Melhor (à portuguesa)

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“José Peseiro recebeu esta segunda-feira o troféu de Melhor Treinador da SuperLiga. O técnico do Sporting foi distinguido na Supergala do campeonato nacional, após eliminar Jesualdo Ferreira e Carlos Brito, os outros dois nomeados.” (in “Diário Digital”)

Ora aqui está um muito luso conceito de qualidade pela via da auto-flagelação. Nada como perder tudo para se ser O Melhor.
Publicado por João Tunes às 12:40
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POSSÍVEL MAS REAL?

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Guiado pelo Nuno Ferreira, cheguei aqui. Um exercício histérico ou um suicídio na blogosfera? Seja o que for, uma sensação desagradável na boca do estômago. E porque não? A blogosfera presta-se – perigosamente - a tudo, para tudo. Mas se a Vida não é a blogosfera, Alá Ak-Bar, porque há-de ser parte da Morte ou sua companhia?
Publicado por João Tunes às 11:26
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