Terça-feira, 4 de Maio de 2004

HAJA EUROPA !

Young.jpg

Ora essa. Claro que estou pelo alargamento da União Europeia. Não nego aos outros o que tenho para mim. Deviam lá estar estes “mais dez” e os outros todos. Só cá não devem estar os que não querem. Até que a União Europeia seja a Europa (toda). Claro? Claríssimo. Então, como diz o outro, ponto final parágrafo.

O problema é que esta não é a questão. Ou é, apenas, uma questão de princípio.

O busílis é a partir daqui, do enunciado de princípio da partilha europeia.

Que Europa? Como se constrói a nova identidade. Como se gere e partilha a soberania. Como é que, política e socialmente, se matriza a apropriação, repartição e reconstrução dos mercados e dos tecidos económicos. Como é que a cultura modera a selvajaria da finança. Como se reduzem os fossos. Como se evitam mais marginais (socialmente, falando). Como se superam as desconfianças e os complexos de superioridade e de inferioridade.

Deitar foguetes na actual situação da festa, é (apenas) retórica comemorativa. É preferir beber um copo do que pensar e fazer, deixando isso para outros. E esses outros já demonstraram que se ficam pelo negócio.

Pela cantilena dos festivos euro-optimistas, e por este andar, a literatura, a boa literatura europeia, ainda acaba reduzida à poesia infantil e aos contos para adormecer meninos. Enquanto a bolsa dita a vida.

Haja Europa ! Mas uma Europa em que ser Europeu é ser exigente. Então que a Europa cresça e apareça. Vamos lá a essa ginástica.
Publicado por João Tunes às 12:17
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Segunda-feira, 3 de Maio de 2004

A BUNDA

butts1.jpg

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo,
nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem.
Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
rebunda.

(Carlos Drummond de Andrade)
Publicado por João Tunes às 01:02
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Domingo, 2 de Maio de 2004

CONSUMIR, NÃO CONSUMIR

Madre_1.jpg

Detesto o esquema consumista instituído para celebrar datas numa rotineira sucessão do dia disto e do dia daquilo.

Hoje, não vou consumir. Mas hoje, particularmente hoje, gostava de consumir.

Hoje, eu gostava de comprar flores, muitas flores, levar a conta a zero a gastar todo o dinheiro a comprar flores. Porque gostava de te cobrir de flores e depois afastá-las para ver o teu rosto aparecer do meio das pétalas, poder espreitar os teus olhos e fazer uma festa nas linhas do teu rosto, passeando nelas os meus dedos. Devagar, devagar, fazendo render o tempo, ganhando tempo contra o tempo. Depois, agarrar-te a mão, dar-te a mão, não deixar que voltasses a sair.

Hoje, eu gostava de consumir. Hoje, eu não vou consumir.
Publicado por João Tunes às 02:04
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Sábado, 1 de Maio de 2004

DESALENTO DE UM FEIO

feio.jpg

Sabia dos méritos do meu amigo Vicktor mas estava longe de imaginar tamanha dimensão da sua fama e de reconhecimento pelas massas populares. Estamos sempre a aprender. No caso, só aumentam as minhas peneiras de o ter como amigo.

O Ene resolveu fazer um concurso de narcisismo fotográfico e desafiou os blogueiros a “mostrarem a cara”. Eu passei logo à frente. Feio, baixinho, desdentado, óculos grossos e mal conchavados a esconderem uma miopia que torna os olhos minúsculos e lhes apaga o brilho, sinais de tabagismo exponencial, barba mal aparada, orelhas de abano, pelos hirsutos a saírem das narinas e das orelhas, unhas mal cortadas, pontos negros espalhados pela epiderme, olheiras fundas, roupas numa desgraça de desalinho, como me atrevia a enviar foto para exposição pública? Nem pensar. Prefiro esconder a minha horrível imagem física por trás das palavras que aqui vou soltando como golfadas na ânsia de esquecer que sou tão feio. Porque acho que sou melhor de palavra que de rosto. Ou seja, não sou tão mal de escrita como sou de visual. Antes desancarem-me nos escritos que me verem a cara. Porque é melhor dizerem-me “escreves mal como a merda” que me atirarem “és feio como o caraças”. Porque eu sei que sou feio. Feio mesmo. Mas, chamarem-me feio é horrível, insuportável, traumatizante mesmo, traz-me à lembrança as namoradas e os empregos que falhei e perdi, a carreira que nunca realizei, as gajas que não engatei, o mau atendimento que recebo de todas as garotas recepcionistas que me viram a cara e me despacham à trouxa moucha. Tudo por causa de ser feio. Muito feio.

No meu caso, convém ter um amigo romântico, bonito e artista como o Vicktor. As mulheres param na rua para o mirar e remirar, eu imagino que é para mim. Riem-se para ele e eu rio-me para elas. Dão-lhe um beijo, eu recebo uma réplica condescendente porque o acompanho e isso faz parte da boa educação. Ele oficina excelentes textos, belíssimos poemas, apetitosos cozinhados e imagens imortais, eu arrebanho umas migalhas da sua glória, lembrando que conheço o Vicktor há uma data de anos.

Pois isto tudo vem a propósito de eu ter encontrado lá no Ene a foto vaidosa do Vicktor (mais o gato) e achei que roubá-la e metê-la num post desta Bota ia criar sucesso pelo mistério. Quem será este tipo catita? Palpite aqui, palpite ali e tinha assunto para entreter e intervalar nas minhas turras com o Teixeira Pinto por causa do alargamento da UE. Não contei que me estava a meter com um famoso e ultra-estimado conhecido por mundo e meio da blogosfera. Eu com a bazófia que o Vicktor era meu amigo e de mais uns poucos quando, afinal, todo o mundo é amigo do peito do Viktor. E toda a gente identificou o rosto e gostou do gato dele. Falhei. Riscos de um tipo que é feio e incapaz de imaginar como a beleza (no corpo e na alma) dá fama e proveito. Desculpem.
Publicado por João Tunes às 00:44
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