Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007

A GRANDE ENTREVISTA

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Publicada hoje no KØNTRÅŠTËS 2.0 de João Ferreira Dias, licenciado em Comunicação Social e Cultural (vertente cultural) pela Universidade Católica Portuguesa, a “Grande Entrevista”. Tão grande e importante, tão incisiva e acutilante, tão informada e inteligente, tão decisiva para os destinos da blogosfera e do próprio País, que não resistimos a transcrevê-la com a devida vénia cumprida perante o simpático, estimado e qualificado blogger-entrevistador:

 

 

1. Sabendo que a blogosfera é uma janela para a vida cibernética, como vê o fenómeno «blogue»?

R: Um conjunto, mais contraditório que convergente, funcionando como “rede” de emoções, irritações, opiniões, lutos, sobras de afectos não realizados, vaidades e depressões. Por vezes, confluindo em simpatias e cumplicidades de circunstância. Outras, em despiques de verbo fácil e bílis à flor do teclado, também de circunstância. Num caso e noutro, nada de importante ou grave, pois. No fundo, uma tertúlia de cidadãos de todas as cores e feitios em estado anarquista. Mas é o primarismo (expontaneismo) comunicacional da “blogosfera” que faz o seu encanto e interesse. Ou seja, e no mínimo, melhor que qualquer sondagem. Porque o “blogger” mais comum é um cidadão em escrita no estado de estremunhado, em pijama social e político e antes do café da manhã do politicamente correcto. Menos composto, menos contido, menos cerimonioso, menos elaborado e menos rigoroso que no emprego, no transporte público, no partido e no jantar de família. Resumindo: menos socializado, mais humano.

2. Quando acede à blogosfera que tipo de blogues procura?


R:
Tenho a minha lista organizada dos blogues que já conheço e me interessam ler. E este interesse é do mais diverso tipo: pela qualidade de escrita, pelo poder de imagem, porque me comunica com mundos que me prendem (África é um caso e bem sério), porque me acicata os neurónios com um contraditório desafiante, gente de sinceridade estética e ética, os meus amigos que blogam é claro. Raramente me interessam “companheiros de jornada”. Esta “short list” (ou “hard list”), volta e meia, é actualizada quando algum link me leva a conhecer um desconhecido interessante (entra na lista) ou quando a leitura sistemática de um blogue me satura dando-me sono (sai da minha cena).

3. O que o levou a criar um blogue?


R:  Fui fortemente pressionado por amigos veteranos na blogosfera. Ainda hoje não lhes perdoo terem-me metido este vício mais toxicodependente que o tabagismo. Mentira, claro que perdoo. São amigos, o que se lhes há-de fazer?

4. Que balanço faz da sua estadia na blogosfera e da blogosfera actual?

R: Quanto à minha estadia (e vão três anos e picos), lamento a blogodependência e agradeço-lhe o espartilho da disciplina em lidar com a escrita sistemática, esta forma de escrever e corrigir diariamente perante um espelho (que, no meu caso, é extremamente severo, mais cáustico que benévolo). Quanto à blogosfera, sinto a perda de muitos talentos que se cansaram e desviaram (e só podem ter feito bem) e a chegada daqueles que vêm mais prevenidos e com a espontaneidade mais amadurecida e sofisticada (alguns, tarda nada, vão-se fartar). Diminuindo e somando, a qualidade mantêm-se entre a “elite blogosférica” (felizmente, os milhares de sub-medíocres cansam-se rapidamente e piram-se da circulação), agora menos truculenta mas mais adulta, embora medianamente irreverente. Menos polémica, sobretudo. O que é pena. Mas com Sócrates & Cavaco, sem oposição que se veja, o que se podia esperar?

5. Acha que os blogues podem substituir a imprensa online?

R: Nem pensar. Exactamente o contrário. A imprensa on-line tem o supremo privilégio de poder usar, sem pagar cheta, o canal poderoso de promoção que são as citações-link nos blogues. Os tipos do “Público”, conseguindo ser mais ciber-burros que o DN, demoraram mas aprenderam como perdiam dinheiro ao tentarem sacá-lo no acesso por “assinaturas”. A tendência, como se vê pelo caso do “El País”, é sofisticarem a oferta online. Ao fim e ao cabo, a blogosfera é uma caixa enorme de “correio de leitores”. Para mais, dinâmica e não controlada. Com enorme peso no “mercado paralelo” da opinião.

6.  Em que medida os blogues influenciam ou influenciaram a sua vida e/ou actividade profissional?

R: Nenhuma. A “blogosfera” não é vida e muito menos a vida. Não acreditando na vida para além da morte, também não creio na vida virtual.

7. O que faz um bom blogue?

R: A sinceridade, o talento e o respeito pelos outros. Também a insatisfação permanente com a obra feita. Finalmente, não cair na tentação das “capelinhas”.

----------- 

Adenda: Agradeço as simpatias amistosas do Óscar atribuído pelo Carlos e a transcrição de uma frase - uma entre as muitas autenticamente geniais - concedida pelo Pepe.

 

Publicado por João Tunes às 11:45
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