Segunda-feira, 17 de Setembro de 2012

Sobre a dialéctica que liga Fátima à Praça de Espanha

As pessoas mudam. Mas o povo permanece o mesmo. Nunca igual ao que foi e ao que será. Prever as mudanças de um povo será, talvez, o teste mais arriscado em qualquer curso de futurologia. O melhor mesmo, então, é não o tentar. Em Maio de 74 foi o que nos lembramos. Uns por lá terem estado, outros porque a imagem existe para não ser apagada. No último sábado, o povo, o mesmo mas mudado pela permanente mudança, repetiu a graça e arregaçou as mangas da cidadania. Só que, por mérito indiscutível, fazendo agora exigências cívicas quando em 74 saira para festejar agradecido uma conquista que a tropa lhe havia oferecido. Após décadas em que o povo português parecia estar civicamente adormecido e demissionário - com representações fugazes de despertares pueris para cumprir agendas e sob comando orgânico e orquestrado dos funcionários e burocratas dos aparelhos do contra-poder enquadrado e organizado -, eis que o povo, o mesmo e sempre diferente povo, fez, num sábado ao sol de Setembro, melhor que aquilo que havia feito em Maio de 74. O que dá espanto sobretudo àqueles que nunca imaginaram tal ultrapassagem e que talvez sejam a maioria. Mas o quadro, o da dialéctica deste povo, ficará mais completo se nos lembrarmos que este povo, o mesmo mas diferente povo, também, umas décadas antes de Maio de 74, se havia manifestado assim:

 

É este caminhar já feito (sim, o muito que andámos para se chegar ao 15 Set) que nos dá um pó de esperança sobre o que o futuro nos reserva enquanto povo que se redescobre e grita quando acorda. Sabendo-se que o futuro não passa de um permanente recomeçar sempre num ponto diferente. Para onde? Até onde? Caminhemos para saber.

 

Nota: O comentário da Joana levou-me a precisar melhor a ideia que quiz aqui partilhar, acrescentando o último parágrafo ao texto.

Publicado por João Tunes às 00:32
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2 comentários:
De Joana Lopes a 17 de Setembro de 2012 às 10:20
És lixado porque «acordas» o pior que há em mim.
No Sábado não pensei em Fátima, mas veio-me a imagem do Sporting - Benfica de Abril de 74 (eu estava lá..), com grande parte das gentes a aplaudir Marcelo, de pé.
Juntamente com a certeza de que uma enorme percentagem daqueles muitos milhares de pessoas que gritaram durante horas, numa manifestação convocada contra a troika, votaria num dos partidos que a trouxeram, caso se realizassem eleições nessa mesma noite.
De João Tunes a 17 de Setembro de 2012 às 11:19
Problema das manifs inorgânicas, né? Fixe, fixe, vai ser a malta do 29 (controleiros à frente, serviço de ordem ao lado, papelinhos com palavras de ordem, slogans e discursos aprovados à lupa, colaboração com os camaradas chuis se alguém mijar fora do penico), será?


Abraço.

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João Tunes

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