Quarta-feira, 8 de Junho de 2011

E o Bloco, pá?

 

Parece ser norma considerada como adquirida por cá que líder de partido derrotado eleitoralmente deve demitir-se (ou então, como já fez Paulo Portas, demitir-se e depois reencarnar-se). Naturalmente que esta moda é fruto da fulanização da política e dos partidos e foi um dos efeitos da rarefacção ideológica da disputa política em Portugal.  

 

Se houve um partido que, em eleições, levou uma tareia descomunal (correspondente a uma vaia do eleitorado), o Bloco de Esquerda foi um deles e nestas eleições. E o impacto só não foi maior por o desaire monumental ter sido prévia e bastamente “anunciado” pelas sondagens (o que, por exemplo, foi um factor que induziu o meu impulso compensatório - ou "útil" - de votar no Bloco). E não faltaram, tentando cumprir a tradição, os que, em consonância com a moda, exigissem a Louçã a "coerência corajosa" de se demitir.

 

Só que o Bloco - contrariando, por exemplo, o apelo vindo do cinismo dialéctico e científico do Zé Neves -, reduzido a metade da sua expressão (em votos e em mandatos parlamentares), não pode, sobretudo agora, deitar fora muito mais de metade do património político que lhe resta e lhe sustenta os restos (Louçã, ele mesmo). Obviamente que este (a força exagerada da individualidade da sua liderança) é um dos “problemas bloquistas” (sobrando outros e gordos) e que “bloqueiam o Bloco”, sem que deixe de ter a força do contexto incontornável. Provavelmente, o Bloco pratica a direcção colectiva e Louçã é apenas o mais mediático, influente e talentoso dos seus dirigentes. Mas a percepção pública fica-se pelo segundo aspecto e, para a maioria da população, sobretudo relativamente a um partido cuja visibilidade quase se reduz ás arenas parlamentar e eleitoral, Bloco é Louçã. Todas as segundas figuras de dirigentes bloquistas ou são pardas ou são sobretudo enfadonhas por repetitivas e pouco ou nada criativas (fenómeno recorrente nos partidos radicais ou revolucionários, como efeito personalista do "centralismo democrático"). E os dois casos que podiam prenunciar a quebra deste sindroma de unipessoalidade (falo de Rui Tavares e de José Pureza), um porque está remetido ao Parlamento Europeu (o que lhe rouba espaço público de visibilidade interna) e outro porque falha este mandato (ao não ser reeleito por Coimbra), saíram apostas semi-fracassadas. E assim sendo, o círculo vicioso empurra para a indispensabilidade de Louçã. Resta somar-lhe (se não existe) uma real direcção colegial, com obrigação atestada de ali se aprenderem com as asneiras, os zigue-zagues e as manias das imitações, libertando-se da atracção fatal pela miragem enganadora da CDU+. E capacidade (mais disponibilidade) para enrijar a saúde com os duches frios da realidade, demonstrando, se mais não fôr, que não se arruma o projecto bloquista como quem, puxando dos galões da antiguidade gasta dos partidos velhos e envelhecidos, mete um epifenómeno na borda do prato.  

Publicado por João Tunes às 00:45
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5 comentários:
De O Rural a 8 de Junho de 2011 às 14:40
O Bloco cumpriu-se e prontes!

De Rui Bebiano a 8 de Junho de 2011 às 23:34
Concordo com o essencial. Também vejo como inútil e perigosa a solução "tábua rasa". Era ver os meninos da Ruptura a porem os pés em cima das secretárias até chegarem as ordens de despejo... Um pequeno reparo: o Rui Tavares não é militante do Bloco. Nem me parece pessoa "partidarizável"...
De João Tunes a 9 de Junho de 2011 às 21:51
Sabe-se da "independência" do deputado europeu Rui Tavares. É um facto (irrelevante, no caso do Bloco).
De Rui Bebiano a 13 de Junho de 2011 às 11:24
Só agora aqui voltei, peço desculpa. Não conheço ninguém com responsabilidades associadas ao Blodo de alguém tão independente quanto o RT. Com compromissos, claro, até porque política sem compromisso me parece uma coisa cada vez mais exótica e perigosa.
De João Tunes a 14 de Junho de 2011 às 12:34
Não questiono o fundamento do elogio.

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