Terça-feira, 7 de Junho de 2011

Os burocratas festivos

 

 

 

 

Vindas de um partido que se afirma revolucionário e leninista, tão internacionalista quanto patriota, que coloca a frente eleitoral e parlamentar atrás do mergulho e direcção nas lutas sociais da rua, custa a entender as manifestações de júbilo que iluminaram a noite de 5 de Junho do PCP. Certo que conseguiu ver o PS despojado do poder, soma mais um deputado e assistiu ao depenar eleitoral do Bloco. Mas, entretanto, o PCP desceu em número de votantes, a direita conseguiu pela primeira vez o tal cúmulo de maiorias (presidente, governo, parlamento), o cumprimento do “acordo da troika” vai ser liderado por quem se gaba ser mais “troikista” que os ditos cujos. Feito o balanço, de onde vem essa vontade de fazer festa? Naturalmente, o paradoxo esfuma-se se tivermos em conta que atrás da representação simbólica que o PCP faz do seu papel revolucionário, representação que adoptou como sucedâneo logo que perdeu a aposta na “revolução real” de 74/75, a vida dos comunistas continua enquanto seres necessitados de sobrevivência social. Assim, por trás dos slogans, das bandeiras, dos punhos, dos cânticos, das memórias dos heróis e santos defuntos, aninha-se o comezinho partidário de um quotidiano que é necessário para alimentar milhares de funcionários-dependentes que exigem um certo "equilíbrio social" (aumentando de importãncia com o acelerar do desemprego, o que frusta alternativas à partido-dependência), os funcionários partidários propriamente ditos mas sobretudo os mais numerosos: os autárquicos e os sindicalistas, aqueles a quem, em última instância, ao partido devem o emprego e ele é a sua garantia por troca da absoluta fidelidade. Esta interligação condicionante é absolutamente compreensível em termos humanos e sociais mas ela aniquilou há muito não só a massa crítica infrapartidária (garantia da pax interna) como explica a calma conservadora, por via de um certo conformismo com o status quo pintalgado de protestos ritualizados pela rotina do protesto de calendário, com que o PCP gere e harmoniza os seus clichés revolucionários e a sua prosa referencial com um conviver na subalternidade política dentro da democracia burguesa (que justificam a necessidade dos clichés). O PCP sabe que nunca ultrapassará a irrelevância política e eleitoral, restando-lhe da revolução a saudade, e por isso o seu compromisso social recoberto de zangas e protestos para que perdurem as fontes de sobrevivência. E desde que o PCP percebeu e interiorizou que o erro político de Cunhal mais crasso foi quando este profetizou que em Portugal não seria possível existir uma democracia burguesa, que este partido se transformou num partido essencialmente comprometido com as ordens estabelecidas sob protesto permanente do direito ideológico ao nojo que não permita que se veja a vergonha fazê-lo corar da cor das bandeiras. O que levaria o PCP a retornar ao ímpeto revolucionário seria ou uma hecatombe autárquica ou os Sindicatos repentinamente acordarem para a democracia sindical e expulsarem de lá os burocratas gordos e alapados. Essas exclusões gerariam uma torrente perigosa de funcionários irados com as perdas de postos de trabalho e de lugares de algum mando. Já a governação de direita, mesmo a pura e dura, não é tanto que apoquente os revolucionários conservadores. Pelo contrário, até pode dar direito a risos e alguma festa.   

Publicado por João Tunes às 13:49
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1 comentário:
De Ana Paula Fitas a 7 de Junho de 2011 às 18:37
E cá vão 2 link's meu amigo... com um grande abraço :)

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