Sexta-feira, 26 de Março de 2010

PEC, paródias e chicanas

 

O PEC “aprovado” é, além do mais, um mero artificialismo para Bruxelas ver. Porque, rejeitado à esquerda do PS, com direito a vómitos semi-engolidos dentro do PS, representa uma paródia enquanto compromisso obtido entre o PS e o PSD. MFL, cumprindo Cavaco, conseguiu no último dia da sua liderança empurrar o PEC ainda mais para a direita relativamente à má versão original mas sabendo que os seus sucessores putativos, Rangel ou Coelho, garantem que vão rasgar o suporte do PEC já no dia seguinte à sua aprovação. E o facto de Sócrates ter, no dia da discussão e votação do PEC, preferido estar em Bruxelas que na Assembleia, tem um valor simbólico e caricatural sobre a virtualidade da paródia.  

 

Mas se, face á situação do país, é da maior irresponsabilidade política tratar das matérias incluídas no PEC como um instrumento de paródia, como fizeram o PS e o PSD, atrás não se fica a chicana política praticada pelas esquerdas à esquerda do PS. Nomeadamente Louçã, ao fazer declarações públicas e prévias à votação em que, face às posições de pressão das empresas internacionais de rating, defendeu, impensável e irresponsavelmente, que … não se ligue ao que dizem. Ou seja, Louçã, um economista de gabarito, apontou um caminho de combate político fora da realidade, subjectivando as questões de governo, como se o impacto do rating sobre a dívida internacional do Estado possa ser desconhecida. E, naturalmente, que este tremendismo político-partidário, demonstrando a incapacidade de maturação do Bloco, fornece ao PS o seu único álibi, fraco mas real, para, sujeito a minoria relativa, se ter encostado ao PSD. 

  

Pior que um mau PEC, para mais artificial, com o país a precisar urgentemente de medidas inadiáveis para responder ao défice e à dívida, reanimar a economia e evitar o abismo das rupturas sociais, que só um PEC pensado à esquerda podia ajudar a resolver, é a irresponsabilidade com que direita e irredentismo de esquerda, pisando os problemas de Portugal e dos portugueses, se entregam a paródias e chicanas. Mais tarde ou mais cedo, vão responder por isso, prestando contas sobre as formas como os partidos estão a degradar as formas de fazer política. Se, entretanto, o populismo extremista não tomar conta da loja. Significativamente, e isso devia dar para pensar, Paulo Portas foi o único dirigente partidário que se pode gabar de ter assumido uma posição "séria e coerente" nesta peça de teatro de mau gosto.

Publicado por João Tunes às 01:43
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João Tunes

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