Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010

Lembrar, lembrar sempre

 

Fez ontem 23 anos que, no Hospital de Setúbal, nos morreu o José Afonso. Que, “antes” da “data”, cantava assim, muitas vezes não cantando, como nos lembra o Isidoro de Machede, meu compadre honoris causa, homem justo, despachado, bom de escrita e memória:
 
O concerto estava marcado para as nove da noite no Cine Teatro em Viana do Alentejo. O pai do ‘Boquinhas’, dono do local, emprestou a sala de borla. Os músicos e cantores eram o Zeca Afonso, o Francisco Fanhais e o Grupo de Cante dos Vindimadores da Vidigueira dinamizado pelo João Manuel Mansos.
Desde da manhã que a pacata Vila de Viana conhecia um movimento desusado de gente. De Évora viriam, mais tarde, camionetas de carreira carregadas de gente. Das redondezas da Vila apareceriam, pelos seus próprios meios, ainda mais um ror gente. Lembro-me, perfeitamente, de ter encontrado um jovem de barba rala, de mochila às costas, vindo à boleia do Porto. Fiquei estupefacto. A coisa prometia. Mais um indício do princípio do fim do regime.
À hora marcada, o largo frente ao Cine Teatro estava à cunha de pessoal. Se não estou em erro, o sargento da GNR da Vila, subiu os degraus da porta principal da sala e anunciou que, por ordens superiores, o concerto estava cancelado.
Foi a agitação geral. O Zeca e os outros cantores que se encontravam no meio do pessoal, começaram a cantar os ‘Vampiros’. O Chico Baião, com uma pequena flauta, acompanhava a solo a já famosa cantiga. Nada tardou que, em uníssono, o largo se tivesse transformado num imenso coro de protesto.
Dos lados da praça principal, a alta velocidade, surge o célebre volkswagem azul FE-52-24. De dentro da tenebrosa carripana, sai arfante de fúria o obeso chefe Melo, esbirro maior da delegação da Pide em Évora. Empurrão daqui, empurrão dali, tenta chegar junto dos cantores. Com a tarefa dificultada pela mole humana, não é de modas e furibundo puxa da pistola ao mesmo tempo que dá ordem de dispersão. Com algum custo a malta esgueira-se do largo.
Sozinho, no meio do largo, ficou apenas o Chico Baião continuando impávido a tocar a melodia na pequena flauta. Incrédulo com a ousadia, o gordo chefe Melo, tirou-lhe a flauta das mãos e pisou-a a pés juntos.

 

Publicado por João Tunes às 10:39
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