Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

O venerável silencioso (2)

 

A “veneralização” de Pio XII, estendendo-lhe o tapete da santidade, calha bem com o manhoso e cínico Ratzinger. Reconheça-se, embora e aliás, que a carimbadela de se considerar santo cada papa entronado e passado é uma rotina burocrática no Vaticano. É até uma mera confirmação do anúncio institucional na medida em que, logo que eleitos entre os seus pares, eles, os papas, adquirem automaticamente direito ao tratamento de “Sua Santidade”, protocolar mas obrigatório e premonitório entre fiéis. Depois, a questão, afinal, resume-se a lobrigar um “milagre” que formalize a imagem da vinda do selo divino, nada que o mercado da fé e encomendas não resolva, mais cedo ou mais tarde. Seguindo a tradição, um papa virá amanhã que santifique Ratzinguer sem lhe contraditar o ónus da sua juventude hitleriana ou a responsabilidade moral e pastorícia pelas mortes que tentou acrescentar no número de vítimas da sida através da sua pregação anti-preservativo.  
 
Se dizemos que Pacelli rima com Ratzinger, justificando cumplicidades nas dádivas da medalha da santidade do papa actual para com um seu predecessor, isso prende-se com a consideração de que o cinismo os une, tornando-os irmãos entronados em Roma. Pio XII vem do tempo do fascismo poderoso na Europa e do pós-fascismo, emparelhando então com o lado “forte” e “ocidental” (o do anticomunismo, fosse ele democrático ou ditatorial) da guerra fria. Foi, nesses contextos, um cúmplice pela cobardia colaborante do silêncio, para com todos os silêncios favoráveis aos mais fortes. E na parte portuguesa, nossa e mais próxima, Pio XII, papa de 1939 a 1958, foi um bordão importante no casamento entre a Igreja Católica, chefiada por Cerejeira, e o regime de fascismo clerical encabeçado por Salazar. O então jovem Ratzinger, nazificado primeiro e iniciando-se como padre nesse período papal, o de Pio XII, é natural que, agora papa, torne o seu patrono inspirador em “venerável” talvez como prefácio da visita a Fátima no ano que vem. Coerência não lhes faltando, é necessário entendê-los. Para que não nos tomem como parvos desatentos e veneradores.

 

Publicado por João Tunes às 22:53
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4 comentários:
De mc a 23 de Dezembro de 2009 às 22:34
apesar de...(não, não são as suas palavras, mano)

desejo-lhe um Feliz Natal


Um abraço de partilha
De João Tunes a 25 de Dezembro de 2009 às 12:54
Partilhas é quando quisermos, mc.

Abraço com muita estima.
De Palma a 25 de Dezembro de 2009 às 01:31
Como visitante habitual deste excelente blog aqui deixo os meus votos de Bom Natal - Palma (http://www.louletania.com/)
De João Tunes a 25 de Dezembro de 2009 às 12:54
Obrigado. Retribuo.

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