Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Ratio capaz de tornar feliz qualquer controleiro, chegando ao que Silva Pais não alcançou

 

informadores incluídos, a Stasi terá tido um espião por cada 66 cidadãos da RDA
 
Adenda: Sobre este ratio, a historiadora Irene Pimentel, autora do post de que se fez link, em comentário colocado aqui, esclarece que ele é referente apenas aos informadores pagos. A relação, no total de informadores (pagos e não pagos, recrutados ou voluntários) atingia o número impressionante de um informador da polícia política leste-alemã por cada 6,5 cidadãos da RDA. Este número condiz com o indicado por Peter Molloy e referido num outro comentário, o de Miguel Cardina. Esta precisão transforma, ainda mais, o pesadelo da RDA como estado policial em algo de inimaginável enquanto sítio onde se pudesse viver fora de um quadro de aptidão para a cidadania paranóica.

 

Publicado por João Tunes às 22:58
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13 comentários:
De Miguel Cardina a 29 de Outubro de 2009 às 11:40
Peter Molloy, no recente O Mundo Perdido do Comunismo, ainda dá um número mais impressionante: «na Alemanha de Leste, se incluirmos todos os informadores a tempo parcial, havia aproximadamente um informador por cada seis pessoas.»
De João Tunes a 29 de Outubro de 2009 às 13:13
Faço a justiça de não comparar a Irene Pimentel ao Peter Molloy, ela é historiadora, ele é produtor de séries televisivas. De qualquer forma, 1/66 ou 1/6 ou algures entres estes dois ratios, há um número impressionante de "antigos pides e bufos" para funcionarem como base actual da "nostalgia".
De Rui Silva a 29 de Outubro de 2009 às 11:59
Interessante que, apesar dos horrendos crimes cometidos na RDA, a força política sucessora do SED (o SPD, hoje Linke) tenha votações na casa dos 30% em vastas regiões da antiga Alemanha de Leste. Interessante também que uma sondagem recentemente realizada nos estados do Leste tenha revelado que a maioria dos inquiridos lamentam a união com a Alemanha Ocidental.
De João Tunes a 29 de Outubro de 2009 às 13:42
Sobre a "nostalgia", o Rui Bebiano já respondeu.

Sobre o Linke, vamos por partes:
1) Não é sucessora do SED. O SED transformou-se em PDS, abjurando o marxismo-leninismo mas conservando os poderosos meios financeiros e patrimoniais do SED, permitindo-lhe ser um dos "mais ricos" partidos alemães. Depois, o PDS fundiu-se com a ala esquerda do SPD para formar o Linke (se cá tivessemos um fenómeno semelhante, o que não é previsível, provavelmente daria numa fusão entre a "ala alegrista" do PS e a "ala direita", a do ex-comunistas, do BE). Em termos ideológicos, o Linke é social-democrata "de esquerda", em termos de máquina e meios, goza dos rendimentos da herança do SED.
2) Tal como na CDU portuguesa nunca sabemos quantos votos recolhem o PCP e o PEV (será metade para cada lado? 80/20? 10/90?), no Linke tb não se descortina quantos eleitores lhe são dados pelos ex-SPD ou pelos ex-PDS(ex-SED).
3) Duas demonstrações de como o PDS-Linke não são associáveis linearmente ao SED e antigo poder na RDA: a) Honnecker, entre o fim da RDA e a sua morte, recusou filiar-se no PDS e inscreveu-se como militante do KDP. b) O PCP tinha o SED como "partido irmão" (um daqueles com quem tinha relações mais estreitas) mas seguiu Honnecker na apreciação do PDS, transferindo o seu internacionalismo proletário para o KDP, um pequeno grupúsculo estalinista, sectário e dogmático que antes existia na RFA (curiosamente, é o DKP que assume o património histórico e político da RDA, ao contrário dos que foram do SED e agora estão no Linke). O PCP não só não tem relações com o Linke (é o Bloco que se considera seu parceiro político) como é ao KDP que convida para as suas iniciativas - conferências, encontros, festa do avante - assim como é nas inciativas do DKP que o PCP participa.
De Rui Silva a 29 de Outubro de 2009 às 14:49
Quando escrevi SPD queria escrever PDS. Sobre o DKP, conheço bem a organização mas não vou rebater o que o João escreve.
De João Tunes a 29 de Outubro de 2009 às 17:12
Uma pena, segundo a minha máxima de "aprender, aprender sempre". Como não sei alemão e portanto não consigo ler o Die Welt, vc, um dos raros portugueses que se podem gabar de conhecer bem o DKP, balda-se...

No "meu tempo", Alemanha era RDA-SED. O DKP estava confinado e não passava de um grupúsculo de casmurros sectários. Mas contactei três ou quatro quadros sindicalistas do DKP em conferências e viagens sindicais. Eram metalúrgicos (da fracção DKP do IG Metal), patuscos folclóricos, tão gordos quanto bêbados, metendo "marxismo-leninismo" em cada frase, incapazes de debitarem uma ideia própria. Nunca convivi com outros camaradas que bebessem tanta cerveja entre tantos brindes feitos a Marx, Engels, Lenin e Thaelman... (sem que sequer dedicassem uma pequena imperial a Rosa Luxemburg, provavelmente porque a heróica polaca-alemã seria abstémia).
De Rui Bebiano a 29 de Outubro de 2009 às 12:04
Existe, sem dúvida, uma percepção da perda de algumas seguranças (nomeadamente no campo da saúde e do emprego) que o regime da RDA oferecia e que muitas pessoas perderam. Há também sentimentos de nostalgia perante uma imaginária «grandeza» que desapareceu. Passa-se o mesmo em quase todos, senão todos, os países da Europa de Leste (e na Rússia também). As democracias emergentes, muitas vezes corruptas ou incapazes de responder às necessidades de populações desprotegidas, são as responsáveis por este inegável (embora fugaz) revivalismo.
De João Tunes a 29 de Outubro de 2009 às 14:16
Não concordo, de forma alguma, com a generalização "o mesmo em quase todos, senão todos, os países da Europa de Leste (e na Rússia também)". Na Polónia, o número de nostálgicos deve chegar para uma missa com meia casa. Na República Checa e na Hungria, ainda para menos. Na Lituânia e na Eslovénia, só iriam à missa o padre e o sacristão. Na Albânia, nem esses. Na Roménia, na Eslováquia, na Bulgária, na Letónia e na Estónia, não há hesitações na escolha entre a pertença à UE e o passado no Comecon. E os países da ex-Jugoslávia que não entraram ainda na UE querem-no o mais breve possível. Na Geórgia, na Arménia, no Azerbeijão, noutras repúblicas ex-soviéticas da Ásia e do Cáucaso, a memória do colonialismo soviético ainda está muito vivo e não deixou saudades e em parte destes países o islamismo substituíu o marxismo-leninismo. Na Ucrânia, há divisões e oscilações mas a aversão anti-russa domina e ela é associada à ex-URSS. Onde há fenómenos significativos de "nostalgia"? Na Rússia (muito alimentada de cima), na Bielorússia (uma ditadura mitigada que também a alimenta), na pequena Moldávia, numa parte da parte da Alemanha que foi RDA. Olhando o todo do panorama, a "nostalgia", nem está generalizada nem é consistente.

Quanto às explicações para os fenómenos nostálgicos, além dos que o RB apontou e que são inegáveis, há a apontar a perda de privilégios das nomenklaturas, dos muitos que "viviam do partido-Estado" e dos que eram pides e bufos das polícias. Veja-se a enorme "base eleitoral" (e política) que dá, nos territórios da ex-RDA, os que foram agentes e informadores da Stasi, tendo em conta o ratio entre estes e a população. Se reparar na trajectória dos antigos quadros (pequenos, médios e grandes) das organizações comunistas nestes países (no partido e na jota) verá que a maioria dos mais novos até aos de meia idade enriqueceu rapidamente, através da corrupção e da rapina das desnacionalizações, transitando ideologicamente 180 graus, com a crise da desqualificação e do empobrecimento a atingir os mais velhos e os menos adaptáveis à nova ordem económica, sobretudo os reformados e que se vieram a reformar, estes sim verdadeira base da nostalgia mais irritada e mais visível.
De nuno granja a 29 de Outubro de 2009 às 13:01
Esse tipo de "nostalgia" também aparece por cá relativamente ao Estado Novo.

Mas num e noutro caso foram regimes que quando cairam, cairam de podres e salvo algumas excepções irrelevantes, ninguém apareceu para os defender.

Esses são os factos, depois com o afastar do anos cada um constroi as liusões que quer.
De João Tunes a 29 de Outubro de 2009 às 14:18
Concordo.
De Rui Bebiano a 29 de Outubro de 2009 às 16:45
Respostas rápidas e escritas em cima do acontecimento às vezes tornam-se ambíguas. "Mea culpa": claro que o revivalismo não tem idêntica medida em todos os países do Leste, mas existe em todos eles. Em regra, quanto melhor as pessoas vivem menos invocam essas coisas. Um caso particular é o da Alemanha de Leste, no qual esta regra não se aplica inteiramente. E da Rússia, onde outros aspectos se metem pelo meio.

Por vezes existe alguma tendência em muitos de nós para generalizar e meter o "Leste" todo no mesmo saco. Apesar de saber que não é assim, não é a primeira vez que em respostas menos elaboradas caio na esparrela. A propaganda anticomunista do tempo da outra senhora deixou as suas marcas mesmo em quem pensa que se livrou dela...
De João Tunes a 30 de Outubro de 2009 às 14:32
Claro que há revivalismo em todos os lados. Aqui, temos os de Salazar e os do PREC. Mas dizer o que disse, mesmo onde a nostalgia é mais forte, seria o mesmo que, para Portugal, dizer-se que o que domina politicamente são essas nostalgias, fiando-nos nos taxistas, nos retornados, no forum TSF ou nos do concurso do "melhor português". E, sendo o sistema partido-Estado fortíssimo nas sociedades comunistas, dependendo a postura do cidadão perante essa dupla o acesso aos bons cursos, aos bons empregos, à possibilidade de viajar e vários privilégios e seguranças, em nenhuma das outras sociedades havia um conjunto tão vasto de cidadãos que dependiam, nas suas vidas, do regime. E o comunismo caíu nesses países como o fascismo baqueou em Portugal, de podre. Havendo, como em Portugal, um "equilíbrio" que sustentava, por omissão, o regime, em que "a política era o trabalho". Poucos foram, entre as multidões que vitoriaram as quedas locais do comunismo, naqueles apelos ajudados da pulsão da liberdade contra o medo e a opressão, que tinham no seu currículo de vida um simples gesto contra a ditadura do PC. Eram, não esqueçamos, sociedades de medos, em que a polícia intermediava a relação entre o cidadão e o partido-Estado, pois o contacto directo povo-partido tinha acumulado uma ruptura de décadas. Repentinamente, uma sociedade aberta à liberdade e ao mercado, ao desemprego e à expansão da corrupção (este fenómeno não era novo), das máfias e da criminalidade, com os jovens quadros do partido e da jota a tornarem-se milionários do noite para o dia, naturalmente que criou novas marginalidades sociais e pessoais.

Mas sendo este fenómeno geral, o dos focos da nostalgia, em cada país, ele tem uma incidência e impacto diferentes. Na Polónia, na Hungria, nos países bálticos, na Eslováquia, na Roménia, na Eslovénia e na Croácia, havia uma tradicional idiossincrasia anti-comunista que reduziu a nostalgia a salpicos, adoptando um anticomunismo de direita ou mesmo de extrema-direita. Na República Checa, onde a convicção comunista era antiga e forte, socialmente muito sólida, o desencanto com o assassinato da Primavera e a invasão soviética e a "normalização" que se seguiu gerou uma superação sofisticada, cínica e dúplice: criminalizaram o marxismo-leninismo em leis mas mantêm um grupo pequeno mas forte e coeso de comunistas. Na RDA, o que temos é sobretudo efeito da unificação, com culpas dos dois lados. Porque se tinham, entretanto, criado, de facto, "dois povos" (segundo os mais variados ângulos), com a agravante de um ter alimentado a ilusão de ser como o outro sem que o oposto se verificasse, antes desprezando os patrícios encerrados atrás do muro (uma mistura explosiva de inveja-desprezo). E em questões vitais para os alemães ocidentais, nomeadamente as atitudes perante o trabalho, a competitividade e o respeito pelo ambiente. E, para as elites, a atitude cultural e o julgamento da delacção monstruosa gerada pela Stasi. O que, ainda por cima, tinha uma base geo-histórica: no lado leste tinha ficado sobretudo a Prússia (além de parte da Saxónia), essencialmente camponesa e latifundiária, de domínio aristocrático e militarista, tradicionalista; enquanto o germanismo mais clássico e desenvolvido, industrializado, europeu, ficou na RFA.
De Irene Pimentel a 6 de Novembro de 2009 às 22:03
Só agora li este post e as diferenças nos números relativos a informadores da Stasi . Eu referi os informadores pagos, a tempo inteiro (1 por cada 66 habitantes da RDA ). Já os informadores adultos em part-time, pagos ou não, seriam cerca de 1 por cada 6,5 habitantes cidadãos da RDA (in John Koehler , Stasi : The Untold Story of the East German Secret Police , Boulder , Colorado: Westview Press , 1999).

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