Domingo, 25 de Outubro de 2009

Ordem sim, vida talvez

 

Uma das viagens mais estúpidas, entre aquelas que fiz, aconteceu hoje. Enquanto ia embalado na A1 em direcção a Leiria para assistir à final do Torneio António Pratas de basquetebol, a ser disputada entre o Guimarães e o Benfica, aconteceu este drama desportivo. Quando cheguei ao Pavilhão Desportivo de Pousos (Leiria), com o mau agoiro de estar localizado mesmo á beira de um cemitério, já tinha sido confirmado o óbito de um jovem basquetebolista da Ovarense,de 24 anos de idade, Kevin Widewoord, durante o intervalo do jogo que antecedia a final, entre a Académica e a Ovarense, para disputa do 3º e 4º lugares. Obviamente, o dia desportivo em Pousos tinha acabado. Não havia equipamento médico à altura das necessidades para casos extremos de doença súbita grave, nem ambulância nem médico ou enfermeiro de serviço e os primeiros cuidados médicos (limitados) foram-lhe dispensados porque se deu o acaso de um dirigente desportivo da Académica ali presente ser médico. Este não é o primeiro desportista que baqueia num recinto desportivo. Sem que exista um apuramento objectivo dos casos mortais no desporto de alta competição em que uma melhor, mais rápida e mais eficiente estrutura e meios de assistência médica podia evitar esses dramas. Mas há que pensar, tomando medidas, no desleixo para com as vidas e saúde dos atletas nas várias modalidades desportivas e que é o reverso do desleixo e amadorismo irresponsável com que as autarquias plantaram pavilhões e campos desportivos por tudo quanto é cidade, vila ou vilória, tentando captar torneios desportivos para, uma vez por outra, aparentar justificação de uma “obra emblemática” do Senhor Presidente da Câmara local. Com Federações e Clubes em conivência chocante ao permitirem que os seus atletas participem em competições onde o esforço físico é levado ao limite, sem garantias mínimas para as suas integridades físicas em caso de acidente ou doença grave.  
 

Quando há um evento desportivo aberto ao público, há sempre um dispositivo de segurança, melhor ou pior, que é montado a fim de se evitarem “alterações da ordem pública”.  Pode, em casos complicados, falhar. Mas existe sempre. Obrigatoriamente. Já quanto à “saúde pública”, é o que se quiser, como se quiser. Incluindo nada. A “ordem” acima das “vidas”, como é costume nesta sociedade desconforme.

 

Publicado por João Tunes às 22:54
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6 comentários:
De carlosfreitas a 26 de Outubro de 2009 às 10:32
João:
Em Portugal, como bem sabe, só existe uma actividade a que poderemos conceder o titulo de profissional: o futebol. O restante panorama desportivo nacional vive da carolice, do amadorismo e do relevo que alguns desportistas. Estes, que ultrapassam a mediania do país e se elevam, por motu " próprio, na maioria dos casos, ao relevo internacional ou mundial, conhecem profundamente a realidade do desporto que praticavam. Deviam ser os primeiros a denunciar situações e casos gritantes. Referiu que o único médico que estava presente era o da Académica. Na realidade o que vai salvando a Académica é por vezes essa carolice e amor à camisola dos muitos médicos desta cidade universitária onde é ministrado um curso de medicina. Conheci, em tempos, a realidade do Rugby infanto- juvenil e se não fossem estes algumas tragédias mais aconteciam. Por isso não resta lamentar é preciso remar contra a maré do amadorismo desportivo e da inusitada proliferação de equipamentos desportivos a esmo pelo país. Dignificar a prática desportiva também na componente medica e assistencial é um factor crucial. Os tempos da carolice e do amadorismo já passou, embora este e outros casos, demonstram cabalmente que 5000 euros para comprar camisolas não chegam para elevar o desporto português. O amor à camisola é no entanto outro assunto. Muitas associações vivem claramente da mão estendida. Sendo tão numerosas e os recursos escassos deveríamos começar pelo seu "emparcelamento" a nível local, ou até regional, juntando valências e estruturas. É necessário fazer muito mais. Por isso venho aqui escrever que estou plenamente de acordo com este seu texto, escrito entre a raiva pelo mais uma vez sucedido e pelo seu amor ao basquetebol.
De João Tunes a 26 de Outubro de 2009 às 16:42
Claro que concordo com a maior parte do que diz. Deixo uma precisão e uma discordância. A primeira é para referir que o "médico da Académica" não estava lá enquanto médico mas pela mera coincidência de ser dirigente desse clube e médico de formação e profissão. Ao nível de vários clubes e em modalidades que não o futebol, já há estruturas absolutamente profissionalizadas (nos jogadores e nas equipas técnicas e de acompanhamento).
De carlosfreitas a 26 de Outubro de 2009 às 19:08
Sabia a qualidade pela qual o médico da Académica se encontrava presente no jogo. Apenas queria referir o enorme amor à camisola que ainda habita a Académica e a possibilidade que este clube desfruta por puder contar nos seus quadros com estes elementos. Poderia contar alguns exemplos. mas não vale a pena. Quanto à evolução de alguns clubes, nas ditas modalidades "amadoras" apenas refiro que essas são algumas das boas excepções, que ao longo dos últimos anos perceberam que resultados desportivos acontecem com organização, zelo e profissionalismo e persistência em todos os sectores, embora o panorama geral não seja propriamente esse. Acredito que a Ovarense seja um deles. Não é isso que aqui está em causa. É o panorama geral.
Abraço, João.
De João Tunes a 27 de Outubro de 2009 às 16:04
O caso do enraizamento de modalidades desportivas que não o futebol é deveras interessante. Além dos "grandes" que apostam em algumas destas modalidades (o que lhes dá público, competitividade e difusão) temos os casos de clubes "menores" ou específicos que fermentam a devoção desportiva de ligações a localidades e onde o futebol não tem dimensão de monta. Acontece sobretudo no hóquei, no andebol, no futsal e no basquetebol. Exigem menores custos de estruturas (um pavilhão) e em despesas com o plantel. No basquetebol, a única modalidade não-futebol que conheço relativamente bem, esse fenómeno verifica-se com força na região de Aveiro onde há várias localidades que se motivam à volta da sua equipa de basket. Também temos a Académica e o Barreirense, com fortes tradições (como já teve Queluz), recentemente Guimarães. Além do Porto e do Benfica que agigantam a dimensão competitiva da modalidade. Se formos para outras modalidades, idem. Ou seja, muitas localidades, ás vezes muito pequenas, polarizam-se desportivamente não pelo futebol mas por desportos alternativos. De que é prova, por exemplo, as massas de adeptos fanáticos da equipa de basquetebol que se encontram a apoiar a Académica e a Ovarense, entre outros clubes, inclusivamente acompanhando deslocações a outros pavilhões. Claro que estes enraizamentos têm altos e baixos, muitas vezes ao sabor dos apoios (que vêm e vão) e, sobretudo, pela disponibilidade dos dirigentes desportivos "carolas" que referiu, a qual também se processa em marés altas e baixas.
De carlosfreitas a 28 de Outubro de 2009 às 10:24
Daí o sucesso de um programa que agora saltou para a ribalta da televisão generalista, que havia descoberto ainda nos canais do cabo, a "Liga dos Últimos". Excelente fonte de análise sociológica, porque não dize-lo, do "fenómeno" futebol enquanto desporto de multidões, com raízes profundas, ao nível popular, desde inícios do século XX. Ali se podem constatar boa parte desses fenómenos que o João, refere: o da carolice e amadorismo de dirigentes, estruturas, adeptos, etc. também no dito "desporto-rei". Embora o programa reforce alguns aspectos das figuras ditas "bizarras" (até esse pormenor é delicioso), deu a conhecer a realidade no todo nacional que muitos desconheciam ou apenas conheciam localmente. Num país, cuja equipa principal de futebol disputa o acesso a um campeonato mundial, existem associações desportivas, cuja dimensão se reduz a uma equipa de futebol. Nestas mourejam jogadores do dito "copo e bucha", como era usual referir-se antigamente, como paga ou, então, como forma de complemento à sua base de rendimento - o seu trabalho - uns euros para ajudar a compor o pecúlio mensal, mas que congregam em seu redor boa parte da população local onde se inserem. Toda essa realidade é base da superstrutura que hoje importa e compra jogadores de boa parte do mundo, fazendo parte dessa "globalização futeboleira ", como melhor diria o famoso Bitaites " tripeiro. Filho das classes populares, o futebol, ajudou alguns dos seus - com arte, talento para a bola e sorte - na ascensão, alguns de forma fulgurante, na hierarquia social , embora muitas vezes esta seja apenas ilusão passageira. Tirando honrosas excepções. O processo evolutivo dessa estrutura de base - lento, vivendo na sua essência, como o João, bem refere, dessas "marés altas e baixas" que se alicerça na existência ou não de uns quantos carolas, com arte e engenho, que também procuram alguma projecção pessoal a nível local é, por isso e ainda, de um amadorismo atroz. Espero que a existência das novas faculdades de ciências do desporto venham, neste campo, a dar frutos num futuro próximo, se entendermos a sua real utilidade. A alternativa que refere em oposição à massificação do futebol seguida nalguns pontos do país pode ser interessante de seguir. Observo, com algum interesse, o novo velódromo em Sangalhos que pode vir a dar alguns frutos numa modalidade olímpica como é o ciclismo de pista coberta. Como nunca se conseguiu erigir o hóquei-em-patins , onde fomos reis e senhores durante décadas consecutivas, enquanto modalidade olímpica, esse poderia ser um interessante trabalho a desenvolver quer por dirigentes, quer por políticos, que se movimentam no interior do desporto em geral. Sabemos alguns dos porquês, mas que arrastariam a reflexão. Acompanhe-se então as diferentes e diversas opções alternativas e vejamos se os seus frutos são consequentes ou se apenas vivem do aparecimento cíclico de dirigentes com visão.

Abraço fraterno, João.
De João Tunes a 28 de Outubro de 2009 às 12:17

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