Domingo, 28 de Junho de 2009

A Cidade Velha e o espanto crioulo

 

Num post anterior, a propósito de um celebrado concurso televisivo sobre as “maravilhas de Portugal no mundo” em que os sítios levantados por integração no circuito do esclavagismo eram pudicamente isentos dessa condição, referi-me à Cidade Velha na ilha de Santiago (Cabo Verde), o único local concorrente que conheço em visita repetida e a que, com todo o gosto, tentarei regressar. Pois a Cidade Velha não só foi uma das vencedoras desse concurso como acaba de ser classificada pela Unesco como “património mundial”. E, curiosamente, a declaração da Unesco invoca, com descaramento histórico notável perante o pudor português, para a atribuição do título, exactamente o papel de entreposto negreiro do sítio. Como não podia deixar de ser. Porque, de outro modo, a Cidade Velha simplesmente não existia. Nem Cabo Verde. Nem o desenvolvimento das Américas. Nem…
 
Pedro Pires, Presidente de Cabo Verde, durante a campanha de promoção da Cidade Velha junto da Unesco, teceu um discurso cultural que devia fazer corar de vergonha os académicos de Coimbra que asseguraram o staff científico do prémio televisivo português. Colocando a distância histórica no seu lugar, Pedro Pires declarou:
 
"A ideia é que foi o primeiro porto no comércio de escravos na costa ocidental africana, ou seja, a meio caminho para os países da América do Sul e Central. Foi um ponto de passagem, mas para além de ponto de passagem ficou gente. Nós entendemos que este facto é o início de qualquer coisa nova. Fala-se tanto do mundo novo. Mas eu creio que o novo mundo começa aí, começa em Cabo Verde. Há marcas, é certo, de ordem material, mas é mais do que isso. É esse valor histórico, esse momento da história do mundo. Podemos estar contra a escravatura mas não é isso que estamos a discutir. O que estamos a discutir são factos históricos que não vamos valorizar do ponto de vista moral. São factos históricos que mudaram qualquer coisa. E esses factos tiveram como ponto de partida ou como ponto de referência a Cidade Velha ou o porto da Ribeira Grande de Santiago"
"Entendemos que a partir daí nasce qualquer coisa nova que é uma nova cultura, a cultura caboverdiana, que é uma cultura mestiça. E nasce um novo homem, que é o homem mestiço quer biologicamente, quer culturalmente. Será que na verdade Cabo Verde é a origem de qualquer coisa? Eu acho que sim. Penso que é a origem do que se passa nas Américas do Sul, Central e do Norte. É o primeiro exemplo de miscigenação do ponto de vista biológico, o primeiro exemplo de uma cultura crioula, de uma cultura mestiça que vem também desse encontro de povos. Nós vamos discutir se foi um encontro forçado ou voluntário mas foi um encontro. E quando há encontros entre povos há qualquer coisa nova que nasce. E entendemos que Cabo Verde é o sinal e que a Cidade Velha é o ponto de partida. Merece ou não merece ser considerado um património da humanidade? Pensamos que sim."
 
Ou seja, talvez nada melhor que um mestiço não complexado para ensinar a distância entre julgamento moral e apreciação histórica a doutores de Coimbra sentados sobre tampa de vergonha do baú onde se (res)guarda o passado.
 
Pela sua parte, José Maria Neves, primeiro-ministro de Cabo Verde, celebrou a declaração da Unesco sobre a Cidade Velha, desta maneira:
 
“Trabalhamos todos para este estatuto e vamos continuar juntos esta caminhada, em cooperação com o governo de Portugal, uma vez que a Cidade Velha é também um património importante de Portugal. Aliás, há poucos dias foi declarada como uma das Sete Maravilhas de Portugal no Mundo. Mas é um dia singular e histórico para Cabo Verde. Podemos ganhar o futuro e construir uma grande Nação, um grande país. Só quem tem uma história grandiosa, um grande passado, pode ter a ambição de construir o futuro. Representa que Cabo Verde é um país possível e que podemos realizar os nossos sonhos. Deveremos continuar a lutar para obter novos ganhos no futuro.”
“[Cidade Velha] É a primeira cidade europeia nos trópicos, é a diocese primaz da África Ocidental, a primeira diocese em África. No século XVII era a cidade com mais igrejas por metro quadrado, mais do que em Roma. Tem um património religioso e imaterial extraordinário. Há um trabalho diplomático feito mas há o valor histórico e patrimonial, que é mais importante.”
“Tenho neste momento duas grandes prioridades. Uma delas é a elevação do Campo de Concentração do Tarrafal a Património Mundial da Humanidade. Tomei, há dois ou três anos atrás, a decisão de classificá-lo como património nacional. Agora é prepararmos a candidatura, com o apoio dos outros países de Língua portuguesa, para que o Tarrafal, que, no fundo, já é também Património Mundial da Humanidade, seja formalmente assim considerado pela UNESCO. A segunda grande prioridade é transformarmos também a Língua Cabo-Verdiana, que é também um património nosso, que é uma riqueza singular de Cabo Verde e que resulta desse diálogo intenso de culturas. Temos dois grandes patrimónios em termos linguísticos, que é a Língua Portuguesa, nosso património, que assumimos como nossa, como parte da nossa história, e, ao lado, temos uma língua que se baseia na Língua Portuguesa, que é a Língua Cabo-Verdiana.”
 
Cabo Verde continua a ser um caso surpreendente de como, sendo um país africano e paupérrimo em recursos materiais, em vez de se afundar na miséria e na cleptocracia, é um caso de democracia e governação saudável, apostando na cultura como o seu melhor recurso para sobreviver, desenvolver-se e afirmar-se, desmentindo os que entendem que barriga não cheia não é amiga do desejo pela riqueza cultural. As metas colocadas agora de afirmar o Campo do Tarrafal (*) como local histórico marcante da humanidade (como face das ignomínias fascista e colonial) e a valorização do crioulo são projectos que os portugueses sem complexos deviam apoiar.
 

(*) – Entre nós, tenho a expectativa do empenho da notabilidade cultural, universitária e política que é o venerado Doutor Adriano Moreira, o autor do despacho ministerial que, em 1961, ordenou a reabertura do Tarrafal para internar prisioneiros africanos suspeitos de simpatias nos movimentos de libertação. Como Adriano Moreira nunca reconheceu publicamente esse crime político e dele não pediu desculpa aos povos africanos nem sequer o lamentou, talvez o seu empenho na elevação do Campo do Tarrafal a património da humanidade, lhe facilite a limpeza dessa lama que arrasta nos sapatos desde que serviu Salazar.

 

Publicado por João Tunes às 23:20
Link do post | Comentar
liuxiaobo.jpg

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

João Tunes

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO