Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

A escravatura nunca existiu

 

Em princípio, é apenas mais um concurso. Não muito desparecido com o dos “grandes portugueses”. Só que este, com eco na RTP, tem apoios de várias entidades: Presidência da República, dois Ministérios e vários Institutos dependentes do governo, CPLP, Universidade de Coimbra. Além de contar com os habituais patrocínios comerciais. E trata de se elegerem, por voto pela Internet, as “Sete Maravilhas de origem portuguesa no Mundo”. A iniciativa aparenta-se a uma modalidade de incentivo de patriotismo artístico que padece, desde logo, da ambição desmedida de divulgar e ter um retorno imediato de escolha de bafejados por lugares em podium. Mas o pior, suficiente para desqualificar a iniciativa, é o silenciamento, que só pode ter sido programado, de um aspecto intrínseco a alguns dos monumentos levados a votos – eles terem sido criados como pontos de apoio ou mesmo entrepostos do comércio esclavagista (denúncia aqui). O que indicia uma manipulação histórica inadmissível enquanto contaminante de uma iniciativa pretensamente com intuitos pedagógicos e incentivadores da auto-estima nacional, patrocinada e apoiada por uma Universidade, pela Presidência da República (onde mora um titular que insiste em qualificar o 10 de Junho como “dia da raça”), por ministérios governamentais e institutos seus dependentes e (pasme-se!) pela CPLP.

 
Mesmo retirando este grande senão, nunca votaria neste concurso. Pela simples razão de que não entendo como se pode escolher entre monumentos sem os visitar, apreciar, estudar, recorrendo apenas a um catálogo de imagens e textos apologéticos. E não perceber também qual o interesse e que espécie de juízos subjacentes permitem a alguém dizer que “gosta mais” deste do que daquele. Muito menos considero minimamente pedagógico levantar afectividades de preferências que serão suscitados por tudo e mais alguma coisa mas decerto pouco ou nada tendo a ver com a síntese histórico-estética que impregna cada monumento.
 
De todos os monumentos levados “a concurso”, apenas conheço a fortaleza da Cidade Velha da Ilha de Santiago (Cabo Verde) que, curiosamente, é muito mais espanhola-filipina que portuguesa (o que torna duvidosa a sua integração no lote das “maravilhas de origem portuguesa”). Trata-se de facto de uma enorme e bela fortaleza, bem localizada (com uma vista magnífica) e relativamente bem conservada. Mas a sua construção e localização teve um fito principal e outro derivado: apoiar um entreposto esclavagista (na rota dos escravos capturados e comprados em África e que funcionava de filtro de selecção e comércio dos escravos enviados para a América) e defender a preciosa mercadoria esclavagista dos assaltos dos piratas. E foram as debilidades defensivas da Cidade Velha perante os assédios dos piratas em busca do roubo de escravos que levou a que a capital de Cabo Verde se deslocasse depois mais para norte, para a Cidade da Praia. O povoamento de Cabo Verde deu-se com o (e pelo) comércio de escravos e o seu núcleo inicial estruturado foi a Cidade Velha. E, ainda hoje, uma parte importante da população caboverdiana ou é descendente de escravos, ou de esclavagistas, ou da mistura sexual de ambos. Desassociar a Cidade Velha do esclavagismo, como estupidamente faz este “concurso”, é negar a própria Cidade Velha e “apagar” a maioria da sua população, projectando Cabo Verde para um conjunto de ilhas desabitadas em pleno Atlântico. Porque sem esclavagismo, não só a Cidade Velha não teria existido como possivelmente as ilhas de Cabo Verde nunca viriam a ser povoadas (mesmo a economia pós-esclavagismo assentou num aproveitamento de espaços inóspitos só rentabilizáveis pela disponibilidade de abundante e esfomeada de mão-de-obra constituída por antigos escravos, uns fugidos, outros libertos).
 
Não tem que haver qualquer complexo histórico com o passado esclavagista que teve um papel de destaque em grande parte da história portuguesa (sem ele e o racismo que lhe está associado, não teriam ocorrido as epopeias dos descobrimentos e da colonização, ou seja, seríamos um povo sem nada a ver com o povo que somos). É uma mancha no humanismo português, como foram a Inquisição, uma prolongada ditadura fascista, a guerra colonial? É, mas venha o primeiro povo que só contabilize um passado impoluto de grandezas e bondades. Para mais, nenhum povo escolhe o seu passado. O que os povos escolhem é terem ou não memória. E serão os complexados com o passado os mais interessados na sua amnésia. Estranho é que se dediquem a organizar “concursos” com métodos de enquadramento histórico inspirados no Mestre Estaline, o grande inspirador dos apagões e emendas nos registos da memória.
 
Nota: Sobre o tema, recomendo a leitura de posts de Joana Lopes e Rui Bebiano.
Publicado por João Tunes às 23:48
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2 comentários:
De Luis Barreiro a 4 de Junho de 2009 às 00:44
Também nós descendemos de escravos, os portugueses foram escravizados por romanos, e antes destes por fenícios e cartagineses. E após, no mesmo período em que escravizavam africanos, também o eram por piratas berberes e pelos turcos que serviam os sultanatos na Índia. Porque razão omitimos também o esclavagismo feito pelos Ingleses, Holandeses e franceses? afinal todos construíram infra-estruturas que hoje constituem património histórico, e que deve ser preservado e admirado, o esclavagismo africano é endémico em África. Existia desde a mais remota antiguidade dele participaram africanos, brancos e negros (egípcios, núbios, africanos da África abaixo do Sahará .
O esclavagismo islâmico durou mais de doze séculos. O cristão pouco mais de dois em termos pouco significativos. Porque razão ninguém faz referência a esses factos, entristece ver que "uma certa corrente filosófica" aproveita tudo para criticar, até um simples concurso, sobre a beleza dos monumentos, dá direito a petição, ao menos Saramago optou por Lanzarote, assumiu que não se revia " nesta gente".
De João Tunes a 4 de Junho de 2009 às 21:19
Ripostei a este comentário. O comentador sentiu-se ofendido. Devolvo o comentário à sua merecida solidão verberante. E que sirva para o comentador se auto-deleitar na sua "certa corrente filosófica" e de bem com o seu direito ao exclusivo da susceptibilidade.

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