Terça-feira, 28 de Novembro de 2006

QUE ACADEMIA?

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Vi parte mas não aguentei tudo do “Prós e Contras” de ontem sobre o Ensino Superior. Porque foi demasiado o enfado e desgosto com aquela montra da nossa Academia. A má disposição começou ao ver aqueles mancebos fardados de capa e batina, género auto-praxados de “neo-con” com encadernação revisteira da Idade Média. Depois, a claque de palmas reverentes para com o Prof Mor, a sumidade veneranda e santificada do guia espiritual dos paradigmas geo-estratégicos da Nação e dos desígnios do País, faltando-lhe na vergonha da cara o faltoso pedido de desculpas a África de quando, no início dos anos sessenta e sendo ministro das colónias de Salazar, assinou os despachos ministeriais em que ordenou, paradigmaticamente, a reabertura do campo de Concentração do Tarrafal e a abertura do campo de Concentração de S. Nicolau para aprisionamento, longe das suas terras e famílias, dos muitos milhares de prisioneiros africanos sem julgamento nem culpa formada, cumprindo penas “administrativas” de “fixação de residência” em campos de concentração. Também detestei os ares enfatuados e gordurosos de importância vã e solene a pingar do bolso da retórica que encadernava aquela catrefa de magníficos reitores a defenderem corporativamente poderes de umbigos académicos encastelados em forma de capelinhas. Finalmente, não entendi aquele ministro socrático. A desculpar-se, no aperto do cinto, que o gasto com o ensino superior relativamente ao PIB estava alinhado com a “média europeia”. E dizendo, com um ar de cretino que se sabe não ser, que para aumentar o contributo para o ensino é preciso que o PIB cresça. Como se o PIB crescesse por qualquer razão independente do investimento feito no ensino, designadamente no superior.

 

Este país, para passar a ser país a sério, além de contas sérias e afinadas, precisa bem de outra Academia. Mas, pelo retrato televisivo de ontem, por que ponta se há-de começar? Talvez por Maio, outro Maio.

Publicado por João Tunes às 22:32
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5 comentários:
De ana a 29 de Novembro de 2006 às 12:10
Vi esse mesmo programa televisivo de cabo a rabo e, na minha modestíssima opinião, se alguém teve brilho, foi o socrático ministro. Quando se tratou de chamar os bois pelos nomes, em relação ao que o caro João chama, e lindamente, de "magníficos reitores a defenderem corporativamente poderes de umbigos académicos encastelados em forma de capelinhas", Mariano Gago esteve à altura!
Quando falou dos números relativos de professores e assistentes e da produtividade/performance de cada um destes grupos, esteve lindamente. Quando falou da necessidade de auto-financiamento parcial nas universidades, foi convincente.
Daí, os meus aplausos para o "apagado" ministro M. Gago que, a meu ver, naquela noite brilhou.
De João Tunes a 29 de Novembro de 2006 às 14:01
Obrigado, Ana. Já percebi que perdi a melhor parte.
De ana a 29 de Novembro de 2006 às 17:22
João, meu caro, não sei se foi a melhor parte a que não viu ou, se mesmo que o João visse o programa até final, teria a mesma opinião que eu tenho. Mas garanto-lhe que o Sr. Ministro subiu uns degraus valentes na minha consideração.
Um abraço, com estima e a admiração de sempre.
Ana
De SAM a 1 de Dezembro de 2006 às 23:51
Da minha parte, enquanto ex representante estudantil, sempre tive bastante consideração por Mariano Gago (um dos muitos ministros que apanhei durante os meus anos de estudo).

Mas a questão que me chamou a atenção foi que, como sempre, no que concerne ao desenvolvimento universitário, que é a raíz do progresso científico, cultural, social e noética dum povo, é relegado para segundo plano em Portugal.

Eu? Não aguentei! Mudei de canal! E admiro muito qualquer pessoa tenha conseguido ter a paciência de ver o programa na íntegra.
De João Tunes a 2 de Dezembro de 2006 às 22:41
O que diz só confirma que a querida amiga Ana é uma mulher de infinita paciência, só ultrapassada por uma ainda maior benevolência.

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