Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006

ÁFRICA NELES E EM NÓS

000qhs6q

A historiografia sobre o colonialismo é fraca e frágil. Sobre a brutalidade colonial, a concreta, a sofrida pelos africanos, a infligida pelos portugueses, pior. Se formos, então, para a perspectiva africana, chegamos à beira do deserto. No conjunto, se somarmos uns tantos dedos de persistência, boas vontades e exotismo, contamos a súmula do rescaldo da memória, historicamente trabalhada, dos nossos quinhentos anos de presença em África.

 

Do ponto de vista do povo colono, nós, temos o que se julga bastar para tornar nebulosa e distante uma marca a merecer pouco orgulho e alguns arranhões – esparsas obras de referência com valor científico e documental mas sem a abrangência da apreciação global e abrangente, umas tantas memórias de saudade, feitiços e ressentimento dos espoliados das supremacias grandes e pequenas, algum material de testemunho e de ficção sobre a guerra colonial. Somado, tão pouco que até parece que nem por lá passámos. Por preguiça ou por uma espécie de amnésia conveniente?

 

Surpreendente à primeira vista, é haver uma míngua historiográfica ainda maior no lado africano. Há razões objectivas para isso – o terem estado do lado de fora nos mais variados domínios, a predominância da tradição oral sobre a da escrita, a míngua de quadros dominando a metodologia necessária, a falta de materiais de consulta em arquivos organizados ou fora deles e a prioridade em construir e aguentar Estados e em que se dilui o significado da preservação da memória como património de um passado. Também, certamente, por factores subjectivos não muito límpidos – resistência a juntar as pontas do passado de resistência, nem sempre lineares, confluentes e heróicas, receios de que nos retratos retroactivos das novas camadas dominantes se mostrem, mais que as valentias, umas tantas vergonhas que se preferem esquecer ou saia demasiado saliente a aberração das arrogâncias, esbulhos e benesses dos tempos actuais.

 

O certo é que, para Portugal e para os países africanos libertos do colonialismo português, o período 1950-1975, é não só uma fase marcante das histórias comuns (com traços indeléveis sobre o futuro reconstruído de todos) como, por outro lado, uma peça imprescindível para se compreender África. E uma África que, por muito que os portugueses procurem esquecer, representando o papel, em mimetismo de fresco, de europeus integrais e dos sete costados, está entranhada no ser português e, se fugimos de África (sendo de lá corridos), ela vem ter connosco, sinalizando a sua presença com as sucessivas e inesgotáveis levas de imigrantes. E, assim, África está cada vez mais ao nosso lado, entre nós.

 

O elo mais fraco dos testemunhos sobre a realidade colonial pertence aos africanos que a sofreram e dela tiveram consciência, resistindo-lhe em maior ou menor grau. Se às dificuldades já referidas quanto ao registo africano do seu passado histórico na segunda metade do século XX, acrescentarmos o facto de que as testemunhas vivas irem rareando porque consumidas pelas leis da vida (no quadro de povos com horizontes de vida mais baixos que os europeus), teremos a aproximação da ideia de catástrofe histórica perante a fatalidade de eles, e nós por tabela, termos de viver com um enorme buraco no entendimento sobre o passado colonial (catástrofe que só alivia os interessados nesse buraco histórico).

 

Neste quadro, assume um relevo extraordinário o trabalho da Professora Doutora Dalila Cabrita Mateus, do ISCTE, que tem vindo, desde há vários anos, a debruçar-se sobre a guerra colonial no período 1961-1974 e que culminou numa monumental tese de doutoramento sobre o tema após aturadas investigações nos arquivos e na recolha de testemunhos orais em Portugal e em África. Desta tese, a Editora Terramar já havia publicado a síntese do corpo principal (*) incidindo sobre a acção da PIDE nas colónias africanas. A Editora ASA acaba agora de editar (**) um complemento de enorme valor testemunhal e que são os depoimentos orais que a investigadora recolheu, aferiu e cruzou junto de portugueses e africanos que foram protagonistas, nos vários cenários coloniais, do drama do conflito-estertor do colonialismo português, esse banho de sangue com que quisemos selar o fim da presença portuguesa em África, na teimosia de contrariar os ventos da história.

 

Significativamente, os depoimentos recolhidos por Dalila Mateus entre 1999 e 2001 e sistematizados neste segundo livro, são quase todos acompanhados de uma nota em que se refere os falecimentos da maior parte dos depoentes antes da edição do livro. O que demonstra que essa recolha, para além dos seus valores próprios e impressivos, foi salva “à tira”, ou seja, mais uns poucos anos passados e testemunhos únicos e riquíssimos perdiam-se na poeira das leis da vida.

 

Para um português, não deixa de ser inovador e perturbador ouvir as vozes das elites dos africanos que “nos sofreram” em África. Dando-nos uma dimensão mais profunda à nossa vergonha necessária. E obrigando-nos, até, a relativizar o nosso próprio quadro europeu de sofrimento da ditadura e do consequente preço pelo alcance da democracia. E o único consolo que resta, no quadro abrangente do regime ditatorial, é que a brutalidade estremada utilizada no cenário colonial (basta comparar as práticas da PIDE na metrópole e nas colónias, lá mais brutal para os prisioneiros que cá, lá mais apoiada que cá pela população branca) acabou por ser a pá de cal deitada no caixão da ditadura.

 

Vem aí o Natal, época de prendas. Para os outros e para nós. As minhas sugestões ficam aqui. Porque não há melhor oferta que a de nos ajudarmos a entender. E essa obra de entendimento (do eu, de nós, dos outros), ideia minha, é mister sobretudo dos poetas e dos historiadores. Sem uns e outros, seremos apenas, por muito bem que cantemos, pássaros à janela (para sair ou entrar).

 

(*) – “A PIDE/DGS na Guerra Colonial (1961-1974)”, Dalila Cabrita Mateus, Ed. Terramar

 

(**) – “Memórias do Colonialismo e da Guerra”, Dalila Cabrita Mateus, Ed. ASA

Publicado por João Tunes às 22:36
Link do post | Comentar
liuxiaobo.jpg

j.tunes@sapo.pt


João Tunes

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO