Terça-feira, 24 de Março de 2009
VIDA E MORTE DO MALTÊS

 

Leio este magnífico texto de Rui Bebiano que nos remete para o imaginário libertário construído à volta da idealização da figura do cigano, um mito que hoje se deixou apodrecer até à evidência crua com que nos tempos actuais se exclui e se segrega em nome, santa hipocrisia, da discriminação positiva, mesmo perante a evidência de uma separação carcerária. Quando, é certo, o imaginário de um povo, mormente os da plenitude juvenil, valerão quando muito dois cêntimos na loja socrático-política dos trezentos em que um magalhães faz a vez de uma criança feliz e aplicada e um painel solar pendurado no telhado é pneu recauchutado na viatura da velha máxima que recomendava “beba vinho para dar de comer a um milhão de portugueses”. Mas, não disparando só pela janela, também apontando a arma para corpo seu, o do romantismo revisitado, Rui Bebiano explica magistralmente como o carril político e ideológico pode trazer para dentro de cada um de nós uma qualquer Margarida da DREN que nos mate o sonho dando dois tiros na utopia.
 

Voando com asas abertas por efeito de perspicácia alheia, o texto de Rui Bebiano envia-me para a lembrança de outro mito romântico e libertário que foi alternativa, mas mantendo similitudes vincadas, ao mito cigano e que os tempos sepultaram com a marca da viagem de esquecimento sem regresso. Refiro-me ao maltês que ecoou no imaginário alentejano feito cultura pela mão dos neo-realistas e que Manuel da Fonseca, sobretudo ele mas não só, transformou em marca literária de excelência (leia-se aqui um hino poético em sua honra passado a canção por Vitorino). Este vagabundo, uma espécie de homeless camponês, com evidente inspiração chaplinesca, sem marca étnica que não a da rebeldia, tipificado como corpo de resistência à ordem latifundiária. Mas, igualmente como Charlot, recusando o alinhamento social e os códigos de compromisso ou luta, vivendo da poesia do luar feito almofada e cobertor e de pequenos roubos de alimentos em estado bruto para matar a fome. Permanentemente acossado por guardas republicanos, o maltês foi, para a esquerda desejosa que a ordem fascista se desfizesse, um sucedâneo à “inconsequência cigana” (que Rui Bebiano muito bem configura num julgamento de severidade marxista) necessário para condimentar a sede de romantismo tendencialmente contrariada pelo pragmatismo da eficácia política. Isto enquanto fez de ponte, para os urbanos letrados e antifascistas, com o distante camponês alentejano, esse proletário despojado até à fome, envolvido numa camaradagem comunista que era a única em que confiava e que tinha como sua mas com as suas raízes culturais bem mergulhadas num caldo misto de herança muçulmana e do anarco-sindicalismo que o tinham iniciado na politização, marcando-o desde o advento da República se não antes. O maltês estava muito longe do estereótipo do camponês proletário que lutava pelas quarenta horas mas era integrável na idealização radical de rejeição do latifúndio sem o incómodo da tentativa baldada de domesticar a figura compósita do cigano. Servia às mil maravilhas como compromisso entre o realismo político da luta e a transgressão da permanência do sonho romântico que muitos não despegavam da ideia da revolução. Depois, como se sabe, o último maltês não foi morto por um guarda republicano, nem por pancadas de um feitor, também não morreu de torturas numa masmorra da PIDE. O último maltês faleceu de morte política com a Reforma Agrária, deitado numa cama a cheirar a alfazema e alecrim, comendo comida repartida, após uma reunião do partido que lhe liquidou, por suspeita de ser atrevimento de dissidência, o olhar de vagabundo com que teimava imitar Charlot.

 

---

 

Adenda: Agradeço, pelo exemplo de solidariedade simplificada pela tecnologia, a música que aqui faltou e que a Joana Lopes, com a sua costumeira eficiência, emprestou a este post. Abraços, pois, um para o inspirador e outro para a sonoplasta. 

 



Publicado por João Tunes às 22:35
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7 comentários:
De Joana Lopes a 25 de Março de 2009 às 13:43
Eh! Eh!, João. É que tinha o disco aqui perto, nem foi preciso piratear nada!


De João Tunes a 25 de Março de 2009 às 14:38


(foi o sapinho mais parecido com um vietnamita que encontrei...)


De alexandre morgado a 26 de Março de 2009 às 01:30


A prosa é muito sugestiva mas só há uma coisa que não percebi e pedia encarecidamente que me explicasse.

Ou seja, porque é que foi a Reforma Agrária que acabou com «maltez» quando é certo que a Reforma Agrária, mesmo no auge, abrangeu cerca de um milhão de hectares, isto é, apenas 1/3 da propriedade agrícola da então chamada Z.I.R.A. (dados comprováveis numa obra de Afonso de Barros)

Porque é que o «maltez» não escolheu continuar a sê-lo nos outros 2/3 de terra agrícola ?


De João Tunes a 26 de Março de 2009 às 13:22
A pragmática mata a utopia romântica do imaginário dos urbanos politizados com vontade de pontes com os actores idealizados como delegados. A sociologia dos sérios também. Tanto como os "ismos". Portanto, encarecidamente lhe peço que não me leve por aí. Mas terá alguma razão, eu devia ter dito que o último maltês foi para a cova com o Manuel da Fonseca (um "monstro" da literatura e da poesia tão injustamente pouco lembrado). Felizmente, sobra-nos o Vitorino. É de aproveitar.


De Jorge Conceição a 26 de Março de 2009 às 15:27
Manuel de Oliveira, Vitorino, João Tunes, Joana Lopes, vários contributos, alguns notáveis contributos assinalando "os nossos" malteses! Mas acho que é cedo para o seu (do maltês) enterro definitivo. Alguns ainda o praticarão, mas muitos, embora que "prisioneiros", ainda o serão. Julgo...


De Jorge Conceição a 26 de Março de 2009 às 15:32
Manuel da Fonseca! Claro que não é Manuel de Oliveira...


De João Tunes a 26 de Março de 2009 às 16:02
Claro que concordo que nenhum enterro é definitivo.


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