Sexta-feira, 24 de Novembro de 2006

PARA UMA ANTOLOGIA DA SEARA PAISANA

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Volta e meia, lendo o Isidoro Machede, dá-me vontade de arrumar o teclado e dedicar-me ao jogo de berlinde ou qualquer mister e passatempo que não enfade outros com inútil perda de tempo. Volta e meia, o Machede zarpa em largos intervalos sabáticos, e eu (re)animo-me por me ver livre da intimidante concorrência deste alentejano cheio de searas com espigas de pão na escrita.

 

O Machede deu um pulo até à Guiné para curar as cataratas do sindroma africano (só quem lá não caiu é que não sabe o que isso é) e agora anda aí alinhadinho com a escrita posta (outra vez) em dia. E eu leio-o como se bebe um copo de tinto de estalo cor de rubi, sentindo o teclado mais pesado que a cabeça cheia e a deitar por fora, empurrando-me para a preguiça do descanso, dizendo para comigo: “hora da sesta é quando um homem quer” e distraio-me com os olhos à procura de uma imaginada sombra de chaparro.

 

Digam-me lá como é que um gajo do bloganço consegue atrevimento de postar depois de ler assim:

 

Grato pelo 25 de Abril. Mil vezes grato!

Ao contrário do meu avô e do meu pai que vos odiava pelo 28 de Maio e a ditadura. Como vocês, militares, devem estar gratos a vós próprios por terem acabado com uma guerra onde morriam que nem tordos para outros engordarem que nem galinhas. Uma guerra que não fazia sentido só porque os políticos teimavam em ser teimosos que nem burros por via de meia dúzia de ideólogos patéticos armados em fachos que teimavam em querer travar a roda da história.

Agora, mil vezes obrigado e pronto ficamos por aqui! Ou deveríamos ficar, mas não, vocês teimam em querer brincar aos magalas e às guerras de alecrim e manjerona. E mais, deu-lhes para exigirem submarinos, tanques, aviões, pistolas, metralhadoras e demais outros brinquedos para efectivamente brincar às guerras em exercícios que varrem de orgasmos a basta e bem fardada generalada e outros bem aprumados e engraxados menores que observam de binóculos em punho, entre umas baforadas de puros cubanos, a barbuda armada com pólvora seca dos amarelos contra os vermelhos, ainda???. Só que estes folguedos custam uma pipa de massa que decididamente não há. E já agora, não vos bastava umas maquetas com bandeirinhas e uns soldadinhos de chumbo e uns dados para avançarem e recuarem casas tipo monopólio. Até eu fechava anualmente os olhos ao entretenimento da medalha a mim medalha a ti.

Eu percebo o amor à instituição, o que a pátria vos deve, aquele cheirinho a caserna do feijão verde, o rufar dos tambores e o bater dos tacões, a regalação do enche mais cinquenta ó praça, a libido na ponta do pingalim, o zelo do impedido, as botas e os amarelos engraxados e polidos até à exaustão, sim claro que percebo… e a fotografia do avô façanhudo de longos bigodes e dragonas douradas e duas prateleiras de medalhas, uma por cada peito, assomando em permanência por cima da estanheira na obscuridade da sala de jantar a abençoar natal após natal o peru e os comedores do dito que o olham com reverência mas no fundo o mandam dar uma volta de gatas à parada enquanto palitam os dentes e arrotam rancores ao sacripanta do cunhado que quer é meter a unha pintada na herança. Como percebo a chatice e a desonra de terem engolido um ministro que a vossa mãezinha não aprovaria nem para chauffer. Por quem sois, jamais quereria que caíssem na situação de excluídos sem abrigo, tal como muitos outros compatriotas vossos que, por outras razões, igualmente pensam que o não foi para isto que vocês fizeram o 25 de Abril. Como acho que se deve zelar pela saúde dos antigos combatentes com stress de guerra, também se deve zelar pela saúde dos dependentes da tropa.

Agora passear pelo Rossio o vosso descontentamento? Já repararam que antes de vocês, não haveria Rossios que chegassem por este país fora para passear todo o nosso pasmo civil!!!!

Publicado por João Tunes às 23:25
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