Sábado, 28 de Outubro de 2006

SACANAGEM DE QUEM ESCREVE PARA ESCREVER

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Não resisti a ver a entrevista de António Lobo Antunes na RTP durante a semana. Um SMS e uma chamada de atenção do meu filho transformaram a sessão televisiva numa espécie de cumprimento de dever. E vi.

 

Valeu a pena. Não pela entrevista porque ela não existiu apesar do muito suor arfado pela diligente Judite no desespero de encontrar um fio de comunicação. Valeu pelo espectáculo de uma entrevista não entrevistada. Talvez se explicando pela minha fraca prestação como tele-espectador, nunca tinha assistido a tamanha contrariedade de alguém ali estar sem qualquer vontade de conversar ou dizer o quer que seja. O homem não queria falar, nem abrir boca, mas estava ali sentado, sempre mal sentado, a cumprir um frete (doloroso para ele, para a pobre entrevistadora, para quem o estava a ver e ouvir).  De onde deduzo que aquele espectáculo de sacrifício se deveu a uma obrigação de ganha-pão, imposto pela editora, que o cidadão-escritor transformou, subverteu, num acto de resistência cívica e connosco, no papel de parvos, a pagar as favas. Consciente. Preparado (a maior parte das vezes, impossibilitado de não falar, ele acintosamente apoiava o maxilar inferior sobre as mãos para não se perceber patavina do que soletrava). E julgo que entendi a mensagem do criador literário -  neste país de treta em que todo o mundo dá o cú e dez tostões por aparecer na televisão eu estou aqui metido num trono de famoso para falar e não falo, nem para a televisão nem para vocês, se me querem ouvir leiam os meus livros e não me chateiem que eu tenho mais que escrever.

 

Um grande sacana este Lobo Antunes. Que se apaga para nos apagar, desligando-nos a televisão na cara. Mas um bom sacana como não deixa mentir aquele sorriso iluminado e cortante de menino meigo e cruel com que amenizou, de tempo a tempo, a pólvora da provocação.

 

No fundo, o marketing (e tão mal habituado ele anda) ainda está para aprender que há escritores que escrevem livros. Por isso, as editoras que agradeçam ao sacana. Eu não. Contribuí com o meu papel de parvo e chega.

Publicado por João Tunes às 15:36
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4 comentários:
De RN a 29 de Outubro de 2006 às 01:47
Vi uma entrevista que ele deu há muito tempo. 1,2 anos? Eo espectáculo foi exactamente como o descreves.
Acho que aquilo é tudo pose estudada. Desde que passou a escrever só para ele acha-se um génio. Incompreendido. Gosto das crónicas que faz por aí em revistas. Mas os últimos livros... Já por duas ou três vezes prometi ler umas 20 páginas para ver se aquilo faz sentido. Mas não consigo passar das 3 ou 4 páginas. Não estou para o aturar.
De Lutz a 29 de Outubro de 2006 às 21:11
Vi só dez minutos, depois mudei, por causa dum sentimento de embaraço, mais do que pela óbvia má educação do escritor, pela Judite, que não evitava de repetir o que o Lobo Antunes acabara de dizer, mas na linguagem dela, que infelizmente consiste de frases feitas. Penoso para todos.

Bela descrição, este post. E tem razão, é reconfortante que alguém ainda consegue estar-se tão visivelmente a cagar pela imagem que faz na TV. Mas também senti outra coisa: Que o Lobo Antunes, artista 100%, monomaniaco, também não deixa de fazer uma triste figura, algo infantil, uma criança birrente.
Porquê não recusa aparecer de todo, como p.ex. Herberto Helder? Já deve ter independência económica para o fazer.
Mas enfim, nada disto tem a ver com o que realmente interessa: os seus livros.
De lili a 5 de Outubro de 2007 às 18:45
Ainda pensa da mesma maneira, depois das entrevistas, que António Lobo Antunes deu, ultimamente, na Visão e no DN ? Não creio que a pose dele seja a de um incompreendido a marcar presença porque a editora que lhe publica os livros assim lhe exige nem na altura a que se refere o seu post nem agora, Outubro de 2007.

A senhora em questão não era a Judite, era a Ana Sousa Dias e se não fosse o entrevistado, cheio de boa vontade, fazer alguma coisa para que aquilo que ela perguntava resultasse nalguma coisa, aí sim, tinha sido um descalabro e uma parvoíce autênticos, porque, na verdade, a senhora não tem jeito nenhum para traballhr televisão.

De João Tunes a 5 de Outubro de 2007 às 20:45
As entrevistas que ele dá agora não têm nada a ver com a aqui referida.

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