Sábado, 28 de Outubro de 2006

UM VOTO NO CONCURSO

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Confesso que quando o concurso televisivo, ou lá o que é, aquele dos “Grandes Portugueses”, foi lançado, torci o nariz ao empreendimento. Cheirou-me a mais do mesmo, ou seja concentração populista de escolha entre famosos com proveito. Ou um desfile de artistas com santos e heróis à mistura. Tão desconfiado fiquei que até me passou pela cabeça que a ideia tivesse saído da mente brilhante do Scolari.

 

Logo a seguir fui apanhado no chinfrim dos saudosistas do chanfalho para voltar a meter o pessoal na ordem, arregalando o escândalo de o “Manholas” (como o Manuel Correia bem lhe recordou a alcunha) não constar da primeira lista. E ganharam o primeiro “round” – o “Manholas” entrou mesmo nos canhenhos dos “recomendados” ou “sugeridos”. Aqui, vi o caso mais a fino. Percebi que há campanha organizada para resultar numa concentração de votos que enalteça a saudade do tirano que nos apertou o torniquete décadas e décadas e nos conservou no cú da Europa de onde ainda agora temos dificuldade em despegar. Para completar o resto, confirmei que o mesmíssimo António estava a servir outras bandas, agora como alegoria de repúdio, para dizer de Sócrates que ele não passa do “Salazar ressuscitado”. Uma e outra banda a servirem a mesmíssima ignorância, servindo-se dela, sobre o tal figurão. Num caso e noutro, insultando quem sofreu do “Manholas” o escuro e o chicote. Foi então que percebi que, afinal, o caso também era comigo e não podia ficar a ver a banda passar.

 

E já votei. Numa figura que julgo encarnar, para além dos seus elevados méritos como patriota, democrata, professor, cientista e pedagogo divulgador, uma antítese do “Manholas”. Este sim, um daqueles nossos grandes (e tão pouco divulgados) cuja perda ainda hoje se sente. Para dar coluna de dignidade e pundonor a este país bom em campeonatos e em concursos. E péssimo em memória. Votei em Bento de Jesus Caraça. Pela memória grata da sua obra, coragem e exemplo. Por homenagem ao autor do livro que mais me impressionou e marcou ("A Cultura Integral do Indivíduo"). Também contra o fantasma do “Manholas”.

Publicado por João Tunes às 01:02
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2 comentários:
De Manuel Correia a 28 de Outubro de 2006 às 11:13
Viva João. Eu tb vou votar num português ou numa portuguesa de extracto semelhante. Gostei muito do teu poste. Quanto às alcunhas dessa asa negra que adejou sobre a pobreza, o desespero e a frustação de tantos anos, deveríamos fazer um concurso paralelo e lembrá-las todas. Não só as do "Sal e Azar", como lhe chamou Fernando Pessoa, mas tb as dos restantes dignitários do regime façanhudo e brutal, como o Cabeça de Abóbora. A falar a falar, lembrei-me de mais uma que aqui deixo, o "Esteves". O Chefe do Conselho, nas notícias, nunca "ia estar" em lado nenhum. Estivera sempre em algum lado -- "Sua Excelência estevena cerimónia tal"; "O Professor Doutor Oliveira Salazar esteve ontem de visita à Obra Social dos Canhotos". De tanto ter estado também ficou, com a cooperação veneranda e obrigada da imprensa censurada, o "Esteves". Um abraço
De João Tunes a 28 de Outubro de 2006 às 16:04
Caro Manuel, ora viva também. Falas de outra alcunha, a do "Esteves", que não conhecia. Talvez por ela nunca ter sido aplicada ao crime político e geracional maior cometido por Salazar - a guerra colonial. É que, empurrando, em teimosia, em estupidez e em loucura, dezenas de milhares de jovens para defender o Império, morrendo por ele, o Botas nunca meteu as botas, nunca "esteve" portanto, num centímetro quadrado de qualquer das colónias. Abraço.

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