Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

UMA CARTA PARA A HISTÓRIA

 

Fonte absolutamente segura acaba de me enviar carta descoberta nuns arquivos secretos enterrados numa antiga Unidade Colectiva de Produção do Alentejo. Trata-se de uma carta com aspecto de ser verdadeira dirigida por António Barreto a Mário Soares exactamente na véspera do 25 de Abril. Dado o seu grande interesse histórico, transcrevemo-la com todo o gosto, apelando à sua máxima difusão para que a história da Revolução seja contada com verdade e seriedade.

 

Querido Camarada Mário Soares,

 

Como te lembrarás, querido camarada, nas nossas reuniões secretas que tivemos com o camarada Duarte, tu vindo de São Tomé e eu de Genebra, num dos palácios que o nosso amado líder tem em Karlovy-Vary, essa bela estância balnear na Checoslováquia, onde tão bem fomos tratados e em boas farras nos divertimos (melhores as regadas a Pilsen que as de água carbónica com gosto a sabão que disseram serem óptimas para nos curarem o estômago dos excessos gástricos), ficou perfeitamente definida a estratégia secreta que Brejnev, em reunião do Politburo do PCUS, definiu para quando nós os três, os portugueses mais revolucionários, na crista do levantamento popular, com ou sem apoio militar, fizermos a revolução e tomarmos o poder.  

 

Lembras-te decerto, querido camarada, que foi então combinado que eu devo, em data a combinar, aderir ao PS, a organização que tu criaste para servir de capa de fingimento oposicionista ao verdadeiro partido revolucionário, o PCP, e, uma vez ou outra, fazer o papel de adversário do camarada Duarte, na estratégia também secreta em que tu e os outros camaradas da direcção darão mais nas vistas. Nos tempos mais conturbados de conflitos entre as massas populares, uns pela revolução e outros pela contra-revolução, e caso o refluxo se avolume e a reacção decidir aguçar os dentes, tu, querido camarada, deves-me nomear ministro da Agricultura, para, em união de facto com o PCP, liderar um simulacro de ataque à Reforma Agrária, cumprindo um plano que é simultaneamente secreto e simples: eu mando a GNR ocupar as herdades colectivas e entregá-las aos antigos latifundiários, fazendo sempre antes, e caso a caso, dois telefonemas de aviso, um para a CAP e outro para o PCP. Assim, quando se der uma ocupação, encontram-se os soldados da GNR, os latifundiários e a célula local do PCP. Presumindo-se que todos irão armados para as ditas ocupações, teremos os mortos e os feridos que necessitamos para acelerar a revolução e justificar o célebre e secreto “plano x” que prevê a passagem à fase do terror vermelho no Alentejo e que, via Beiras Baixa e Alta, há-de levar à conquista do Norte reaccionário.

 

Sabendo das dificuldades de memória de que padeces, querido camarada, achei oportuno mandar-te este lembrete do nosso plano, que vai por carta em correio registado com aviso de recepção, não vão as massas populares resolverem de um momento para o outro libertarem-nos do fascismo e tu esqueceres-te da tua missão de me nomeares ministro da Agricultura quando a revolução tiver de ser levada às suas últimas consequências. Como sabes, revolução sem terror, com muitos mortos e estropiados, é, politicamente falando e como Lenine nos ensinou, uma espécie de coito interrompido. E nós, se somos revolucionários também somos muito homens e não fraquejamos no momento do orgasmo.

 

Viva a violência revolucionária!

 

Fogo na Reacção!

 

Genebra, 24 de Abril de 1974

 

O teu camarada sempre ao dispor para qualquer revolução

 

(assinatura com aspecto de ser legível)

 

 António Barreto

---

Nota: ler também este post.

Publicado por João Tunes às 12:00
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9 comentários:
De josealbergaria@gmail.com a 16 de Abril de 2008 às 14:03
Carissimo,

Como sabemos, ambos, o "nosso" SLB não nos tem dado, ultimamente, nem grandes, nem pequenas alegrias.

Só mesmo tu para me levares às lágrimas, de tanto rir com este documento do AB que vai, por certo, alterar todo o "cursus honorum" da historiografia oficial, oficiosa e mesmo a diletante - que se produziu, produz e produzirá (de tanto conjugar o verbo - parece-me que estou na batalha da produção...) sobre os anos de brasa de 1975 e seguintes.

Muitissimo obrigado por este teu post, que configura uma missão de sacrificio (que é o que o LFV pediu ao pequeno génio que é o nosso Chalana!), mas a História e a Verdade assim to exigiam!

Bem hajas, pelo teu despojamento e entrega a esta extremosa causa.

Abraço,

Zé Albergaria
De João Tunes a 16 de Abril de 2008 às 15:18
Não misturemos os temas, caro Zé. O glorioso vai tratado à parte. Por muito mal que esteja, não o misturo com o Barreto.
De Joana Lopes a 16 de Abril de 2008 às 14:22
João, Confime, para o mundo inteiro, que iso é puro HUMOR!!! Ou o mundo pode desabar...
De João Tunes a 16 de Abril de 2008 às 15:16
Humor? Ora essa, Joana. Eu quero é ler na próxima crónica do Barreto no "Público" se ele confirma que esta carta é tão verdadeira como a que ele difundiu sobre Rosa Coutinho no passado domingo. Porque o critério utilizado é exactamente o mesmo. E cada parvo comedor de tudo o que lhe metem à frente, tem direito não a uma mas a duas verdades. Ou três ou quatro. Ou mil.
De ramo-grande a 16 de Abril de 2008 às 15:19
Olhe! Se não foi assim poderia ter sido. E se fosse, teria sido muito pior. Com o AB tudo é possível, nomeadamente a conversão ao catolicismo pela mão santificada de B.Felix , com vista a salvar das penas do inferno a desgraçada Catarina Eufémia.
De João Tunes a 16 de Abril de 2008 às 22:45
De Anónimo a 16 de Abril de 2008 às 22:41
Sensacional! Muitos parabéns.
De Augusto a 17 de Abril de 2008 às 09:49
Excelente. Ao nível do melhor do "Gato Fedorento".
Por este caminho, não tarda teremos Barreto a repetir
a afirmação de que "Mário Soares foi o grande respon-
sável pela tragédia da descolonização", como há anos
repetem os saudosistas do passado.
A atitude de Barreto, publicando parte da referida "carta" no seu artigo é tanto mais indigna
quanto se sabe que Rosa Coutinho não está em condi-
ções de saúde que lhe permitam refutar a mesma.
E não me refiro já à falta de rigor que não fica bem a
um académico considerado um investigador em ciências sociais.
Esta estória fez-me lembrar, por contraste, o que Irene Pimentel escreveu neste blogue, há alguns meses, a propósito do seu livro "História da PIDE".
Transcrevo:
"Sabendo que não há neutralidade , acho que o investigador deve fazer tudo para tender a ela e tive
de me precaver contra as minhas próprias emoções,
não contaminando as testemunhas.Tive de defender-me, no caso dos "carrascos", da total ausência de
empatia e, no caso das "vítimas", da completa simpatia."
De luis januario a 29 de Abril de 2008 às 20:23
João, já perguntei ao Adelino (Gomes) se a carta é verdadeira. Ele diz que parece que não é. Fiz umas cadeiras de Paleografia e de Diplomática e parece-me que o paleio é do Barreto.
Um abraço e obrigado por teres divulgado o documento.

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