Segunda-feira, 31 de Março de 2008

PRIMAVERA QUARENTONA

 

Joana Lopes evoca hoje os quarenta anos que passam sobre a “Primavera de Praga”, essa primavera política breve e pouco depois esmagada por tanques de invasores e ocupantes, provavelmente a prova mais provada da impossibilidade reformista após o momento em que o comunismo atinja o patamar da hegemonia, momento político em que, num ápice e por sede insaciável de poder total, paladinos dos direitos sociais dos mais fracos se transformam em repressores musculados. Dubcheck e seus seguidores, em 1968, quiseram fazer a síntese impossível entre comunismo e liberdade e os povos checo e eslovaco pagaram caro essa experiência de, durante uns breves meses, lerem jornais não censurados e elegerem as suas organizações. Mas, enquanto dura, uma primavera é uma primavera. Honra, portanto, à efeméride.

 

Também hoje, no “Público”, pode ler-se uma interessante entrevista com Slavenka Draculic, jornalista e escritora croata, actualmente em Portugal para lançar o seu livro “Não faziam mal a uma mosca”, da qual cito estas duas passagens sobre as experiências do poder comunista:

 

"O socialismo falhou porque foi implantado em países demasiado atrasados. Como me disse uma vez Kenneth Galbraith, se o comunismo tivesse nascido na Suécia teria sido completamente diferente." Em suma: o comunismo seria bom em países que não precisam dele. Onde era necessário, só piorou as coisas.

(…)

Com a excepção da Checoslováquia, nenhum destes países tinha tradição liberal. Passaram directamente do feudalismo para o socialismo.

 

Regressando ao drama primaveril checoslovaco de que hoje se celebra a passagem do 40º aniversário, Slavenka Draculic coloca uma ênfase importante na excepcionalidade checoslovaca. De facto, a Checoslováquia era, antes da segunda guerra mundial, não só uma importante potência industrial e cultural da Europa, como acumulava uma razoável experiência de tradição na prática normal da democracia (no período entre as duas guerras mundiais). Esta mesma tradição liberal, interrompida com a ocupação nazi (1938) e o domínio soviético com regime de partido único só abolido em 1989, depois de um afloramento breve em 1968 que inclusive “contaminou” parte importante das fileiras e da direcção do partido comunista, permitiu que o retomar da vida democrática, após a queda do comunismo, proporcionasse não só um pacífico divórcio entre checos e eslovacos como o facto de a República Checa ser hoje uma democracia consistente e personalizada no seio da União Europeia. E, de facto, no quadro dos países que viveram sob a bota da ditadura comunista, os checos seriam os que “menos mereciam” um regime que, pelo desenvolvimento que haviam atingido, arrastou uma “interrupção política” que os fez regredir na política, no uso da liberdade, na indústria, na tecnologia e na marcha do progresso.

 

Publicado por João Tunes às 13:25
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5 comentários:
De dissidentex a 31 de Março de 2008 às 17:18
J.Tunes:
os checos acima de tudo não mereciam os negociadores ingleses e franceses que autorizaram o desmembramento da Checoslováquia em 1937 através daquela vergonhosa política de appeseament.

Jan Masaryk que o diga, quando passou 6 horas em Berlim á espera de saber o que era decidido...
De João Tunes a 31 de Março de 2008 às 17:53
Sim, é claro. Nenhum povo merece os males que lhe caem em cima. E os checos (mais concretamente, os boémios e os morávios), historicamente, padecendo de uma localização geográfica no centro-coração da Europa, fartaram-se de, ao longo dos séculos, terem azares que não mereciam (tantos que, ao longo dos tempos, foram adquirindo uma incrível capacidade de adaptação à opressão). O Pacto de Munique foi não só expressão da maior das cobardias das democracias perante Hitler como uma tragédia para os checos (quanto aos eslovacos, o caso é diferente pois muitos adaptaram-se, alinado-se a Hitler e conseguindo a independência da Eslováquia sob um regime proto-fascista). Mas antes de Munique, também não mereciam a pata do domínio austríaco ´de que só se aliviaram em 1918. E, depois de Munique, a pata soviética (e é dessa efeméride que trata o meu post). Então, que tenham um futuro radioso que os compense de tão más memórias.
De dissidentex a 31 de Março de 2008 às 20:56
Já estão a ter.
Os " azares " dos checos (e eslovacos) ficaram no século 20.
De Van Aerts a 2 de Abril de 2008 às 00:05
A propósito desta primavera e a título de curiosidade, a minha cunhada é checa e o sogro do meu irmao viveu bem esse tempo. No respectivo caso, ele e mais amigos foram identificados e a pena que lhes foi atribuída (muito leve para a brutalidade do comunismo) foi a expulsao da universidade. A seu tempo concluíu ele e os demais colegas os respectivos cursos, mas já em 1991.
As fotografias da cerimónia de formatura sao divertidas, a maioria dos estudantes nao tinha 20 e poucos anos mas 40, 50 e 60 inclusivé.
De João Tunes a 2 de Abril de 2008 às 13:45
Obrigado pelo depoimento significante. Foram terríveis as consequências "normalizadoras" após a invasão que matou a primavera de Praga dirigida por Husak (um eslovaco que, antes no período estalinista, tinha estado na prisão!). Além da expulsão de meio milhão de membros do partido comunista (com as consequências inerentes), as universidades, institutos e escolas foram duramente afectadas, pela expulsão de todos os professores que tinham apoiado a liberalização e dos activistas estudantis que tinham ousado experimentar o intervalo de liberdade.

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