Quarta-feira, 27 de Setembro de 2006

AZNAR E O CARISMA

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A passagem de Aznar pela televisão pública portuguesa, no último “Prós e Contras”, foi um fiasco de todo o tamanho. E só não foi um fiasco absoluto pela clarividência demonstrada por Ernâni Lopes que deu uma aula de como se ser optimista descomplexado e empreendedor (este sim, a merecer um programa só com ele ou sobretudo com ele).

 

Todo o programa foi arquitectado para ser um fiasco planificado. Se não foi uma construção deliberada de um equívoco, ou mesmo, para os adeptos da teoria das conspirações, um acto pensado de sabotagem ao êxito da visita de Cavaco Silva a Espanha. Desde a figura semi-muda do actor principal. Até ao convidado redundante e desnecessário (Dias Loureiro). Passando por uma assembleia repleta de “gente ilustre” da economia e da política a fazerem, em auditório-estúdio, o que podiam fazer bem em suas casas no sofá e de copo de digestivo na mão (a única diferença seria não sabermos que “cochicham” mais do que ouvem).  

 

O sujeito que a jornalista Fátima Campos Ferreira apresentou como a “figura mais carismática da direita europeia” (elogio que não se cansou de repetir) é, desde logo, um produto não consumível em televisão. Coça-se muito, mostra os dentes quando quer fingir que se ri, incapaz de despir a pose de hirto emproado a representar solenidade. Falando pouco, quando fala fá-lo com palavras semi-pronunciadas e metidas para dentro que torna mediocremente perceptível aquilo que disse ou quis dizer. Aznar quando se dispôs a pronunciar-se, o que sempre procurou evitar, ou fugiu às questões (sobretudo quanto à grande mentira do 11 M) ou remeteu-se para a vaidade dos seus sucessos de governante ou deu uma outra luz aos seus ressentimentos e ao pendor autoritário como estilo de liderança. Na maior parte dos casos, o homem ou invocava que “estava retirado” ou “já não se lembrava”. E a única vez em que se mostrou claro e com firmeza lúcida foi no seu discurso sobre o terrorismo e de defesa da democracia. Coisa pouca para justificar uma presença televisiva com honras de estrelato.

 

Além do mais, Aznar é uma simetria penosa do espanhol típico ou comum. Mais manhoso que explícito, mais contido que extrovertido, de verbo difícil, curto e pouco perceptível. E se o programa se destinava a uma melhor compreensão de Espanha pelos portugueses, então Aznar seria a última das personagens televisivas a convidar. Aliás, já era bem conhecida a tendência de Aznar mais para a conversa interior e com companheiros de confiança do que em público e para o público. Tanto assim que, mesmo enquanto presidente de um governo na democracia espanhola, sempre se recusou a proferir uma única palavra de condenação do franquismo. O que foi correntemente interpretado como sindroma da sua condição de “franquista democratizado”, mais que da sua qualidade autêntica de democrata ou de liberal. Assim sendo, onde raio Fátima Campos Ferreira foi descobrir a excelência do carisma deste político retirado? E mostrar uma figura do passado espanhol (para mais, por via de um “ressentido”) é a melhor forma de construir um futuro mais descomplexado e frutuoso da cooperação ibérica?

Publicado por João Tunes às 15:51
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4 comentários:
De odete pinto a 27 de Setembro de 2006 às 18:48
Só vi os últimos 5 minutos do programa, mas o que vi foi suficientemente esclarecedor sobre o sofisma e a manha do personagem.

Estou a preparar um mail para o Prós & Contras a solicitar que, já que abriram este precedente, convidem Felipe Gonzalez para que ele possa explicar com cerziu o tecido social espanhol e o desenvolvimento do país, com ajuda de fundos comunitários que por cá, na mesma altura, se desbaratavam idênticos fundos.

E também para percebermos :

Como é que em Espanha, com uma lei muito semelhante à nossa, não seja necessária uma lei especial para que as mulheres não sejam condenadas por abortar, nomeadamente por não terem condições familiares ou económicas para ter mais filhos.

Como é que em Espanha o SNS é excelente com menos custos e muito menos abusos e desperdícios e, por ser excelente, não ser necessário haver "n" sistemas de saúde especiais e corporativistas.

E porque é que, em Espanha, não há recibos verdes.

De João Tunes a 27 de Setembro de 2006 às 22:41
Obrigado Odete pelo seu comentário. Bom, reconheço que é preciso coragem para se comentar algo de que se ouviram apenas os últimos 5 minutos. Já quanto a ir repescar o Felipe, não acho que seja uma boa alternativa, porque ás tantas lá temos a barrela inevitável sobre a profunda corrupção que contaminou o PSOE de Gonzalez e levou o PP ao poder. Para não falar no "negócio" dos pistoleiros do GAL. Pela minha parte, o melhor mesmo é olhar o futuro. Se temos um Zapatero em forma, embora contraditório e criticável, para quê fazer-se trajecto de caranguejo e ir-se desenterrar as múmias políticas? É que se pega a moda de começarmos a andar para trás, ainda alguém por aí se lembra de convencer o Mário Soares para se candidatar às próximas eleições presidenciais...

De odete pinto a 28 de Setembro de 2006 às 19:41
Pois só vi 5 minutos poque nesse dia tive assembleia de Freguesia. Por isso não comentei sobre o programa mas apenas sobre o personagem "especialmente convidado".

Continuo a pensar que Felipe Gonzalez fez muitíssimo por Espanha (nem vale a pena comparar com o que nessa altura por cá se fazia). Não há, que eu saiba, governos bacteriologicamente puros - como diz o povo, no melhor pano cai a nódoa.

Que seria de Portugal se tivesse tido, naquele tempo, de conviver com os efeitos da ETA?
De João Tunes a 3 de Outubro de 2006 às 17:20
Meu deus, o que faz o culto aos mitos... A estes, até o GAL se desculpa! Assim, tarda nada, voltamos a ter Soares na Presidência...

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