Nota de ímpio curioso: Não seria mais sábio e mais santo que antes de atirarem os curas prevaricadores, caçados em contumácia de tara e abuso, ao mar, permitir-lhes passar serenamente da fase da masturbação compulsiva para o namoro e o acasalamento?
Quanto ao resto tudo bem, sobretudo se levarem o Represas para cantar
Três coisas são certas para mim: 1) quando sair, se sair, à rua para se mandar Sócrates embora, não irei vestido de branco; 2) não dou para o peditório de substituir Sócrates por Cavaco; 3) a liberdade de expressão estará cada vez menos garantida se for reduzida à liberdade berlusconiana dos donos dos jornais, rádios e televisões, esquecendo que só bons jornalistas podem fazer, e nem sempre estes o fazem, o bom jornalismo.
Uma casa real que contratou os serviços de um bolchevique monárquico com competências de Iejov
Don Jaime de Marichalar y Sáenz de Tejada, até há pouco tempo Duque de Lugo, divorciou-se da Infanta Elena, filha mais velha do casal que ocupa o trono de Espanha (preterida da sucessão ao trono de Espanha pela regra medieva e machista de excluir senhoras desde que haja um irmão disponível para a função). O matrimónio, o de sacramento, (ainda) não foi anulado por falta de requerimento conjunto apresentado ao juízo do Papa, nada se sabendo, portanto, se Bento XVI estará pelos ajustes. Portanto, à luz dos mandamentos e disposições da Santa Igreja, Don Jaime e Doña Elena, continuam formalmente matrimoniados. Até ver. Mas, para já, Don Jaime, mesmo continuando a ser pai de dois dos netos do casal real, perdeu o título de Duque e foi apagado da foto oficial da família real no seu nobre site. A alma penada de Iejov, em estranhos voos, paira nos sotãos cibernáuticos da Casa Real de Espanha. Uma prova de que os carunchos se atraem.
Respeito alguns desatinos e até vários desaforos. Mas chamar a baleizoeira Catarina Efigénia Sabino Eufémia (1928-1954), uma camponesa valente assassinada pelo fascismo quando lutava pelo pão contra a fome, sem vida de culpa para conferir posteriores explorações iconográficas partidárias feitas a partir do seu martírio real, metendo link para este blogue, de “personagem neo-realista mais ou menos composta pela agit-prop do PCP”, é um gesto de objectiva preferência retardada pelo Tenente Carrajola, o assassino de Catarina. Simplesmente repugnante. Agora, depois do vómito, punk ou skin-head, pode calçar botifarras, rapar o cabelo, meter soqueira nos dedos, tatuar gamada e convidar o Mário Machado para degustar uns salmonetes na brasa à beira do Sado. Tudo lhe ficará bem, a condizer. Eu fico-me com o Zeca, a quem o meu gostar tantas coisas, terras e gentes, incluindo Setúbal, a cidade que o viu morrer, é parte importante do tanto que lhe devo:
Este voto de pesar de simbólica justiça póstuma foi subscrito por todas as bancadas parlamentares, o que só lhes fica bem. Incluindo pelos que representam agora as forças que, antes e nos anos de brasa, quando a ditadura pedia fogo além dos panfletos, tentaram ridicularizar Manuel Serra, impaciente mas decidido, fazendo circular sobre ele, na tentativa de lhe diminuir a marca da coragem, a alcunha de “Manel das Intentonas”. Um dia, com mais calma e distância, será feita a história serena dos paradoxos da alergia antifascista ao putshismo mas que desembocou, celebrante, a colar-se ao putsh vitorioso, o de 25 de Abril de 1974.
Pertinho de meio século tem esta foto vinda do baú dos meus anos verdes escolares. Foi tirada na já então velhíssima Escola Industrial Fonseca Benevides (Santos, Lisboa) que, contra a decadência do edifício e da época então salazarista (por ser escola industrial e contemplar um curso de química tinha uma forte componente de alunas, o que levava a que a cantina tivesse duas alas de comensais devidamente controladas na fronteira, uma para as raparigas que se queriam prendadas e passivas e uma outra para os moços que se queriam lusitos valentes mas castos), contava com, pelo menos, uma tríade de magníficos e marcantes professores. Desde logo, o sempre insuficientemente venerado Salvado Sampaio, notável professor de história, grande cívico, pedagogo e sindicalista e uma das almas fundadoras e inspiradoras da Fenprof (quando esta ainda não estava entregue à liderança indigente e compulsiva da patologia sindical e anarco-estalinista do Nogueira, um medíocre escuteiro sénior de olhos arremelgados parecendo, sempre que fala, que acabou de consumir a dose diária de heroína ideológica e salvífica). Ele, Salvado Sampaio, era a autoridade, a bonomia e a inspiração, o Mestre que ficou inesquecível para quem o conheceu (dediquei-lhe este post perante a notícia do seu desaparecimento). Mas o Mestre tinha, na Fonseca Benevides, discípulos à sua altura. Começando pela adorável Matilde Rosa Araújo, óptima escritora e professora de Português, mulher de ternura infinita, centrada - como não podia deixar de ser e se não esquecermos que o coração é sal em qualquer poema escrito ou não - na poesia de Sebastião da Gama, que desafiava todos os seus alunos a escreverem mas escrevendo bem. E o então jovem arquitecto irrequieto desafiador dos conformismos da época, um talentoso dramaturgo vanguardista, o Augusto Sobral, que ali nos ensinava a passarmos do gatafunho para o desenho mas que, ao menor pretexto, desviava os temas das aulas para passarmos do trato sobre a perfeição dos traços traçados para discussões sobre literatura, sobretudo a riscada pelo lápis azul da época. Estão os três neste retrato e, nele, ficaram todos bem, ao lado de mais uns profs insignificantes que os há em todos os lugares, até nas ruas com bandeira na mão e a vomitarem avaliações indigestas. Como também bem ficaram os alunos-discípulos, incluindo-me no grupo varonil, que desaguados num ensino destinado a produzir uma aristocraciaproleta de assalariados especializados, com ambições de carreira reduzidas às paredes e tetos de uma fábrica, fosse numa oficina ou dentro de um laboratório, perante tais mestres inspiradores, fanatizados e sofisticados no amor à história e à literatura, ganharam sobretudo gostos pela leitura e pela escrita, mais além que uma afirmação reduzida e chã, embora honrada, como afinadores de máquinas ou reprodutores de resultados por análises químicas. Nesta tribo escolar, nenhum dos três mancebos fixados pela câmara era bonito para se ver, culpa da natureza que assim nos fez e depois nos juntou na caquética Fonseca Benevides. Mas as fealdades machas daquela turma eram compensadas pelas companhias femininas que anulavam o défice estético e de alegria da minúscula e diluída mancha de androceus intrusos e inestéticos entre uma dezena de beldades próprias da alvorada da década de sessenta do século findo.
Exceptuando a colega com quem me casei mais tarde e é a mãe da minha filha mais velha, perdi o rasto à maioria dos retratados, dos mestres e discípulos, os figurantes neste retrato. Relativamente a grande parte da maioria, não voltei, neste meio século passado, sequer a voltar a pôr-lhes a vista da nostalgia em cima. O que não impede reencontros não previstos (abençoada internet). Como o agora havido com uma destas colegas de escola e retrato e que, passados quase cinquenta anos, despoletado por um post que acumula três anos de edição, enviando-me, por mail contaminado pela ternura decantada por meio século sem me aturar, este verbete indulgente de reencontro através da memória:
“Pois também me lembro bem de ti, no meio daquela turma fazias a diferença: discurso solto, culto e inteligente.”
O que me dá uma dimensão, fazendo-lhe preito de sinceridade, mais que o olhar narcísico perante oespelho de vaidade, fim de post, sobre as toneladas de atributos, insuspeitos ou desaparecidos em combate na carcaça humana que hoje me resta, e que a vida me fez perder, desperdiçando-os, pelo caminho, feito andando e, sobretudo, tropeçando.
E os números falam por si: em 2009, 81.715 descendentes de espanhóis republicanos, distribuídos pela diáspora dos derrotados da guerra civil de Espanha (1936-39), com especial incidência na América Latina (particularmente em Cuba), ao abrigo da Lei da Memória Histórica que lhes dá essa faculdade (abrangendo os familiares dos exilados espanhóis até 1955, ano que se considera de viragem dos exílios políticos para a emigração económica), requereram e obtiveram a cidadania espanhola. Como a faculdade de abrigo desta lei se estende até 2011, calcula-se que o número de requerentes de pedidos de nacionalidade espanhola que vão ver os seus pedidos satisfeitos, possa rondar os 200.000 “novos espanhóis”.
Em Cuba, estes “netos de espanhóis republicanos” adquirem a nacionalidade espanhola sobretudo como meio de escaparem à ditadura e à miséria imposta pela irmandade Castro ao seu povo. O que não deixa de constituir uma ironia histórica a possibilidade selectiva de se libertarem do pavor comunista através do recurso a uma lei que faz justiça aos descendentes de foragidos do pavor fascista. Noutros casos, trata-se apenas de uma oportunidade de emigrar, com plenos direitos, para Espanha, embora este país não seja, actualmente, pelas suas condições económicas e sociais, um el dorado como alvo de emigração. Finalmente, uma parte importante destes “novos espanhóis”, os da diáspora que permaneceu na Europa, recorreu às faculdades da Lei de Memória Histórica como acto simbólico de fazer justiça póstuma à memória e honra dos seus avós, reparando, na medida do possível, os efeitos da vontade-lei de Franco, o mais vingativo de todos os generais que ganharam uma guerra, de situar eternamente como apátridas os seus compatriotas que se exilaram para não serem fuzilados em nome do pagamento do “crime” de serem pela legalidade constitucional contra o golpismo militar, pela democracia contra o fascismo, pela república contra a monarquia, pelo laicismo contra o domínio do obscurantismo clerical católico.
É sempre fácil escolherem-se entre escolhas feitas por outros, pagando estes todos os custos das opções. E, assim sendo, não resisto à facilidade de dizer que, entre tantos “novos espanhóis”, muitos aproveitando uma Lei “oportuna”, os que mais comovem e honram a cidadania são aqueles que, nada tendo a beneficiar com o novo passaporte de cidadania espanhola, o requereram e ostentam com orgulho como tributo a avós tresmalhados pelo mundo a quem um ditador quis retirar o sinal de auto-estima cidadã de terem direito a serem filhos da sua pátria. Civicamente, é irresistivelmente bonito haver “netos republicanos” assim.
Apesar das ondas e das modas, entre a aparente monocordia e mesmo entre os jovens de uma mesma geração, comparar o que é incomparável, por geneticamente diferente, é empresa falhada e pela certa.
A Joana, minha comparsa a tentar ladear farsas e outras coisas mais, partilha:
Nunca tive um poster do camarada Mao, as paredes dos meus quartos de juventude foram sobretudo habitadas por Martin Luther King e pelos barbudos latino-americanos, mesmo quando ainda nem sabia quem era Korda.
Pois eu também não. Ou seja, nem Mao nem Luther King. Um por ser pequeno-burguês radical e chauvinista, com a mania de meter os camponeses no lugar dos operários vanguardistas, outro por não usar uma arma ou um panfleto no lugar da oração e do martírio. E quanto a Korda, descontando-se-lhe o génio, além de nunca ter vindo por aqui fotografar o Alentejo nem o Barreiro, mal ele saberia que o poderoso e imperial marketing lhe privatizava o talento, vendendo a imagem do Che como quem promove a coca-cola. Pois eu, sem que queira comparar o incomparável, quanto a parede decorada em teimosias juvenis expostas, fiquei-me pela Catarina Eufémia, num poster com o seu rosto de ceifeira santinha decorado com um poema que a Sophia lhe dedicou. E desse poster, um dia, ela desceu da parede, feito nome, para dar nome à minha filha mais velha. O que tornou o nome, contra ventos e marés no culto da santinha, sem Korda mas com muita corda, inesquecível porque fonte não perecível de ternura.
Nas coisas que aprendeu com a conversão, o Faisal Xavier com carapuço de hussardo oxigenado já não diz ó-sana mas sim ó-seja. Quando aprender mais, ainda vai dizer ó-xalá no lugar de há-men.
Nota: A Joana Lopes, mais atenta às crises políticas que às conversões, para mais não indo à bola com a bola, questionou a oportunidade de a Grande Entrevista da RTP de hoje ter como convidado o Faisal. Mas perdeu uma aula de feminismo quando a estrela convertida de cabeleira oxigenada explicou à Judite que a poligamia de exercício masculino a que o islamismo dá cobertura é uma tradição de solidariedade, vinda de quando os guerreiros por Alá morriam nos campos de batalha e os sobreviventes tomavam conta das pobres viúvas. E que a burka é um gosto ditado pela moda e pela imagem.
Das Honduras ao Dalai Lama, passando pelo Haiti, um requiem antecipado e com carapinha por Obama
Luís Carapinha, um típico funcionário burocrata estalinista em tarefas internacionalistas ao serviço da direcção do PCP, na tribuna do “Avante”:
O golpe nas Honduras, a infame ocupação militar do Haiti e as bases na Colômbia são sinais da ambiciosa contra-ofensiva com vista a retomar a iniciativa na América Latina e aniquilar os exemplos da Venezuela, Cuba e da ALBA. Não cessam as medidas de pressão sobre a Rússia, a par da acção diplomática visando arrancar «compromissos» a Moscovo. E o anúncio da nova venda de armamento a Taiwan e o apoio ao Dalai Lama sinalizam as reais intenções da agenda de Washington em relação à China, facto bem revelador do carácter e ameaças do nosso tempo. God bless the United States. Os epígonos do Capital pedem bênçãos ao Céu. Sabem que, com todos os seus perigos, o frenesim militarista não pode reverter a decadência do EUA.
Ícone que se desvanece, Obama interpreta a matriz do poder imperialista. Restam-lhe a retórica da oratória e a exímia arte do teleponto…