Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
Heil, Merkel!

Os dois políticos que se devem sentir mais porreiros com as nomeações de Van Rompuy e Catherine Ashton para os novos lugares cimeiros da UE do Tratado de Lisboa, devem ser Durão Barroso e Ângela Merkel. Além de outras pequenas alegrias como as de Cavaco & Sócrates, ramais subsidiários das grandes alegrias de Merkel & Barroso. O director geral dos comissários europeus exulta porque, assim, não é apagado na sua irrelevância em estatura política, pela ascensão de outros políticos igualmente apagados mesmo que originários de países com maior peso no xadrez de Bruxelas. E com Blair, pese embora o nojo que tal pessoa política merece mais os respectivos juros, não seria assim porque Tony ia querer holofote e palco, assim como usaria a sua caneta pessoal para assinar os protocolos. Merkel comporá a sua face de bolacha imperial sorridente porque, continuando a somarem-se as mediocridades do topo burocrático-europeu, o seu papel de Sissi da Europa do Século XXI expande dimensão.
O Tratado de Lisboa vai nascer torto e fraco. Desde logo pelas artes no enxerto de nascença. Um tratado que germinou com monda dos cidadãos europeus como se estes fossem ervas daninhas que chateiam políticos e burocratas, assume-se não como uma identificação dos povos da Europa mas como um fruto anão colhido por feitores de circunstância e arrogância que se consideram legitimados pela distância representativa face aos cidadãos-eleitores. Depois, porque os eixos cruzados entre os grandes países, para sobreviverem, definiram perfis (cumpridos) de mediocridade política para as figuras de topo com a missão de falarem pela Europa, falando sempre baixinho, diminuídos que se sentem pelas respectivas estaturas políticas que não ultrapassam a vulgaridade chã de chefes de juntas regionais.
O problema é que a Europa até podia, se estivesse bem, servir de centro de estágio para políticos a pedirem treino, reciclagem e nome, mas não está. Pelo contrário. É uma Europa, desde logo, flagelada pelo desemprego. Com mais de 22 milhões de desempregados (5 milhões mais que o ano passado!) e que se prevê possa atingir o número assustador e obsceno de 33 milhões no final do próximo ano e tendo como arma romba de suporte para o combate a este flagelo laboral e social uma debilidade económica e financeira, em que o cenário optimista do crescimento modesto do PIB é inferior a 1,5% … em 2011. Com uma liderança fraca face ao carisma de Obama que é o maior trunfo da sobrevivência do grão poderio norte-americano, mas que está a resultar. E com a China em momento alto na sua talentosa busca de sucesso pelo protagonismo mundial. O que faz que, face aos grandes blocos, a Europa é quem fica mais fragilizada pela passagem do furacão da crise. Tendo de lidar, ainda, com desafios ciclópicos como são o suporte energético, o acosso migratório, a reconversão agrícola, a regulação financeira e o alargamento do espaço europeu a novos povos integrantes. A esta dimensão medonha dos problemas europeus, a qual impunha a procura de um novo paradigma político, parametrizado na solidariedade (dissemelhante do assistencialismo), no encurtamento das disparidades sociais, num novo perfil económico liberto das amarras do jogo financeiro, só protagonizável por grandes políticos, criativos e ousados, a gigantesca e surda avestruz europeia preferiu o tripé de latão Barroso-Van Rompuy-Ashton. Resta-nos a clarividência e o sucesso da Kaiser Merkel. Boa sorte, querida senhora. Por si, por nós.
Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
Manias de um avaliador porreiro

O primeiro-ministro, José Sócrates, saudou hoje a escolha das personalidades que ocuparão os novos cargos criados com o Tratado de Lisboa, considerando que o belga Herman Van Rompuy e a britânica Catherine Ashton estão "à altura" das novas tarefas.
O admirável poder da síntese

Afinal, para os saudosistas da doutrina brejnev, o Muro e o Gulag existiram, só que cheios de aspas

Muitas centenas de milhares de mortos (mais de 650 mil só no Iraque, segundo outro estudo publicado em 2006 na Lancet) são o fruto «da queda do Muro» no Golfo, na Jugoslávia, no Afeganistão, no Iraque, no Líbano, na Palestina, e agora no Paquistão – para não falar das agressões «menores». E foram acompanhadas pelo «Gulag» de prisões secretas dos EUA espalhadas por todo o mundo, no qual desaparecem milhares de pessoas raptadas e torturadas por um sistema de repressão acima de qualquer controlo. Os dirigentes do «mundo livre» que se juntaram, ufanos, em Berlim, são todos responsáveis por este banho de sangue e repressão.
Raul não, mas Obama sim

Um cão que seja dele, como ele

Escrito por Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:
Falta, evidentemente, o cão. Se Sócrates tem um cão, sugiro que o submeta a vigilância apertada. Parece óbvio que vai ser o bicho a protagonizar o próximo escândalo. Ninguém sabe se fez um desfalque nas latas de ração, se alçou a pata para uma árvore protegida, se foi visto a cheirar o rabo do Presidente. Mas alguma coisa terá feito. E a justiça há-de deixar no ar a ideia de que se trata de qualquer coisa grave, ideia à qual a comunicação social dará o eco devido. E, no final, o caso terá um desfecho terrivelmente inconclusivo.
Imagem: Um quadro de Paula Rego.
Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
Porreiro, Zé

A corrupção é como porcaria de cão que se nos agarra ás solas dos sapatos. Andamos, pisamos, já está. Ela anda aí como sempre esteve cá. E não se pense que é doença da democracia. O salazarismo-marcelismo segregou-a sempre nos cães velhos, sábios e protegidos, os avôs e os pais dos cachorros poluidores de agora. Tanto e tão eficazmente que se entranhou culturalmente num povo habituado mas desesperado com as carências e que, no entanto, se considera esperto e desenrascado. Se a corrupção gera desequilíbrios, por mor das escalas e contradições conexas, também normaliza e institui a idiossincrasia. Aliás, muita da parametrização da sobrevivência e da ascensão social neste país filiou-se na espiral da cunha, do pedido, do favor, do esticar do direito e da regalia, do abuso a ver se pega, da falcatrua, seja esta micro, pequena, média ou grande. O legionário barrigudo e boçal de antigamente urbanizava a prole pedindo empregos na cidade para os filhos ao padre ou ao regedor. Os já urbanizados por baixo pediam ao doutor ou ao engenheiro. Os urbanizados pelo meio pediam ao vizinho que conhecia a amante do chefe do gabinete do secretário de estado. Os urbanizados por cima e os latifundiários putanheiros, bêbados e ginastas da roleta, untavam mãos aos alfandegários, usavam o proteccionismo do fascismo isolacionista ou convidavam ministros para caçadas para lhes sacarem despachos favoráveis. Tudo se fazia mas nada acontecia nem se sabia porque os aparelhos policial e judicial tinham trela ligada à mão do ditador e o lápis azul da censura velava pelo pudor face à verdade podre do regime. A revolução foi um interlúdio que não nos descontinuou a cultura. Por falta de tempo ou de arte. Mário Soares, o patriarca da redemocratização, não só cortou as veleidades da solução bolchevique e mandou os militares políticos reformarem-se para que os outros voltassem aos quartéis como repôs a marcha da idiossincrasia portuguesa. Ele próprio teve sucesso e tornou-se popular por méritos de resistência e bonomia como igualmente devido ao seu laxismo típico. O lastro original do financiamento do PS levou-o a ser um permissivo no que tocava a golpadas de desenrancanços mesmo que gordos. A proverbial tolerância de Soares incluiu estender a manta protectora aos espertos para que a democracia portuguesa nunca fosse verdadeiramente alérgica ao desenrascanço tout court que, por dinâmica própria e porque a carne é fraca, leva à fraude e à corrupção. Os partidos do regime adaptaram-se. Os de direita, pelo cavaquismo, criaram as sinecuras pela alta, a bancária e empresarial. Manigância de gente fina por enriquecimento galopante. Os do PS andam na baixa e média, mas desejosos de subirem como os da direita, por um despacho permissivo, uns favores a sucateiros, envelopes e carrões, coisas assim, umas menores e outras maiores. Com ambos a distribuírem empregos pela máquina do Estado, gerindo inevitavelmente mal a contradição de não dar para os dois. Os do PCP fazem o nepotismo baixinho e lateral pelos cargos, empregos e assessorias nas suas coutadas, autarquias e sindicatos, onde chegam. Os do Bloco não dão provas por falta de meios, embora a experiência solitária de Salvaterra faça prever o pior caso cresçam em poder e mando. No meio de tudo isto, Sócrates é uma síntese. A da velha-nova idiossincrasia portuguesa, agora vestindo Armani e amante, tipo bimbo exclamativo, das novidades tecnológicas. É um típico político fura-vidas, provinciano fino como um alho, palavroso, não mostrando amor pelos escrúpulos, sem cultura nem estatura mas enérgico e optimista, o desenrascado sempre enrascado em trapalhadas e em fífias, o género de pessoa que não se deseja sequer cumprimentar. Bem que podia, para mais chamando-se José, surripiar a inspiração de Rafael Bordalo encadernando-se como novo e emblemático Zé Povinho. O que talvez o ajudasse a ganhar eleições para o resto da vida.
Na república dos comezinhos

Cá, no entanto, ninguém se incomoda, muito menos o dr. Soares. Porventura lembrado do fax de Macau e de outros miasmas do mesmo género, eis que o pai fundador do P.S. actual desqualifica com desdém uma questão que, enquanto figura moral e tutelar da jovem democracia lusa, deveria ser o primeiro a denunciar ou pelo menos a não desculpar com uma burrice supina que é o epíteto de comezinho. Como se estes malabarismos, estas omissões e inverdades, fossem pascigo habitual de quem se senta, ou sentou, à mesa do orçamento, de quem pediu e pede votos e poder aos paisanos, aos de a pié que somos todos nós.
Mais ainda do que a pouco sofisticada (para não dizer imbecil) distinção entre oficial e oficioso, com tudo o que ela encobre de recurso a patranha de quinta categoria, dói-me o desprezo por nós todos. Como se eles dissessem e, pior, pensassem: para quem é bacalhau basta. Toma lá e cala-te!
Terça-feira, 17 de Novembro de 2009
Deve-lhe ter sabido a pouco

Mariano Gago, ele que no seu tempo de estudante universitário foi um duro e combativo dirigente maoísta, confrontado com a revolta estudantil do ensino superior de hoje em Lisboa e que metia capas, batinas, chapéus tricórnios e tunas, deve ter pensado para os seus botões: - são assim tão mansos e encadernados os filhos da burguesia de agora?
Mais uma que veio enganada para o governo, atrás das loas prometidas e optimistas de Sócrates?

Só não se entende é como a senhora participou recentemente na redacção e defesa do programa do governo. O cenário de que partiu enquadrava a vida social em Marte?
Esquerda baixa

Quando assisto a Sócrates, Vieira da Silva e Teixeira dos Santos metidos em esgares de satisfação por umas décimas acima no PIB lá por baixo, constatando isto, compreendo que estas pessoas ou nunca foram socialistas ou nunca o chegarão a ser. Quando muito, só sabem disfarçar, pois, caso contrário, nunca diriam que a economia está a melhorar com o desemprego sempre a subir.
Há dias assim

Jorge Lacão, no Prós e Contras, não teve unhas para dar a estocada retórica em Bacelar Gouveia quando este, num péssimo dia de raciocínio mas com ar de que todos os seus dias são assim, invocou o referendo de Timor Leste como prova da excelência democrática da figura do referendo na defesa dos direitos das minorias a (des)propósito do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em vez de se enrolar em lucubrações jurídicas e metendo a ONU à colação, Lacão despachava aquele resistente conservador lembrando-lhe o que decerto aconteceria se, em vez do referendo ter sido entre timorenses orientais, ele tivesse sido realizado, então, em toda a Indonésia (e, na altura, Timor Leste "pertencia" à Indonésia). Para a próxima, o governo deve mandar um político em vez de um jurista para este género de debates.
Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
Pides cubanos
Yoani Sánchez decidiu expor no seu blogue imagens captadas dos esbirros castristas que têm como missão segui-la e controlar-lhe os passos. Ficam para memória futura, os rostos destes pides que provavelmente dirão, quando a democracia chegar a Cuba, que “se limitavam a cumprir ordens”. Lá como cá nos idos de 74.




Conversões líbias

Que Khadafi vá fazer proseletismo corânico para Roma, tudo bem. Vale em nome da livre concorrência. Que as candidatas a conversas não pudessem comparecer com mini-saias e decotes pronunciados, vá lá. Pagas a 50 euros por cabeça para o aturarem, enfim. Mas que tivessem de ter entre 20 e 35 anos e mais de 1 metro e 65, já não se entende. Pior de tudo, para converter as moças ao Corão pintou-lhes a estória de que o crucificado era um sósia de Jesus. Saramago fez bem melhor pelo ateísmo e só queria vender um livro a preço módico.
“Meninos emigrantes”, uma versão de pedo-eugenia social

Entre 1930 e 1970, centenas de milhares de meninos ingleses "emigrados" à força para Austrália, Canadá e Nova Zelândia? Uma história de arrepiar.