Sábado, 21 de Novembro de 2009
Havana aquece a brutalidade quando um blogue incomoda gente

Depois do sequestro e maus tratos aplicados à blogger Yoani Sanchéz, a ditadura cubana amofinou-se com o facto de Obama ter respondido a uma sua blogo- entrevista (já referida aqui). A resposta seguiu o velho estilo bolchevique no poder assente num Estado policial: um ajuntamento de polícias políticos, fanáticos e marginais, fez uma “demonstração de repúdio” e incluiu na arruaça a prisão temporária e o espancamento de Reinaldo, marido de Yoani Sanchéz (foto). Duros os tempos para os que não desistem do projecto de que também a liberdade se junte ao sol que ilumina e aquece Cuba. Mas, mesmo na mais dura repressão, há sempre um punhado de valentes que resiste, dizendo não.
Luto por um estimado adversário

Num blogue marcadamente político, nada dado a devaneios e intimidades, quando se lê um post assim (com poucas horas de idade):
Não está escrito em lado nenhum que o biorritmo só cresce. Também desce. Hoje é o caso. Pronto. É questão de esperar. E recomeçar. Com a fotografia nova que recebi no telemóvel e que apaguei com o meu providencial jeito para as tecnologias. Vem outra a caminho, para a montanha russa recomeçar a subida até aos céus infinitos da eternidade.
os olhos e as orelhas metem-se na atenção da surpresa. Quando, hoje, a chave do enigma me veio pela rádio do automóvel, sintomaticamente quando eu me dirigia para o Estádio da Luz (para assistir a um jogo de basquetebol), fiquei siderado e emocionado. Com a estranha sensação de ter perdido um amigo que não cheguei a conhecer.
Eu nunca contactei pessoalmente o Jorge Ferreira. A memória do seu rosto vinha-me da lembrança de televisão quando ele liderava o grupo parlamentar do CDS. Muito menos o sabia doente. Pela forma assídua, regular e combativa como alimentava o seu blogue, supunha-o um político activo, embora situado na irrelevância marginal do PND, empenhado e com horizontes interventivos. Estava nas minhas antípodas políticas e ideológicas, embora partilhasse com ele a preferência pela democracia face a qualquer projecto de iluminação tirânica, a transparência versus opacidade corrupta de interesses instalados, o benfiquismo em que nunca nos entendemos. O “Tomar Partido” era minha visita diária e o Jorge Ferreira era um dos meus leitores mais assíduos. Trocámos picardias, remoques e divergências, sem que sequer o Glorioso, o nosso Glorioso, escapasse às nossas refregas. Mas sempre nos respeitámos, e, relevância maior, fomos, pelas divergências mais expostas, adquirindo não rancores mas uma web-estima tecida pela unidade dos contrários. Volta e meia, quando concordávamos num ponto, o que era raro, trocávamos a gentileza celebrante de o anotar, com a devida transcrição que era uma forma de bebermos um copo virtual.
Sei agora, no momento de desfecho e luto, sobretudo pelo magnífico depoimento do Pedro Correia, que o blogue de Jorge Ferreira fazia parte, desde a nascença, da sua estratégia de combate à doença e suas sequelas. Essa novidade só me faz sentir consolado por o ter animado com os duelos esquerda-direita que com ele teci. Tanto assim quanto me sinto inconsolado e inconsolável, agora, ao saber que não vou ler outro seu novo post. A esta angústia de perda não sei o que lhe fazer. Desajeitadamente, como é próprio de um desajeitado que estima mais um adversário político frontal e leal que um comparsa com interesses no cartão ou na algibeira, vou deixar o link do "Tomar Partido" onde está desde que dele tomei conhecimento. E mandar um abraço solidário de perda a quem é meu amigo e era amigo do Jorge Ferreira, ao João Carvalho Fernandes, supondo que não há maior elo de humanidade socializável que termos um amigo comum. Especialmente relevante quando se quebra um suporte de um tripé de estima partilhada.
Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
A baronesa menchevique

Deve ser um dos segredos políticos internacionais mais bem guardados pois ninguém sabe se a Internacional Socialista ainda existe. Se sobrevive, ter-se-á transformado num clube de excêntricos snobs. Esta de indicarem para as relações externas da UE, a troco do usufruto pelos conservadores da sua presidência, uma trabalhista baronesa (graduada em título e brasão por um governo de um partido que já foi emanação dos sindicatos) que desempenhava o cargo de leader da Câmara dos Lordes - uma abencerragem da monarquia britânica -, é prova que o ridículo nem sempre mata, também promove.
O PS e a caspa do caruncho

Notável a concepção sobre a árvore do aparelho do Estado que transforma os governos civis em prémios de cargos compensatórios para autarcas derrotados. Perdeste eleições? O povo não te quer? – Vais para governador civil! O PS está a apodrecer e a apodrecer-nos e nós a ver. Sócrates meteu e mete o bicho da madeira na árvore estatal. Um dia, a caspa do caruncho ainda lhe descompõe a imagem do fatinho de estadista.
Heil, Merkel!

Os dois políticos que se devem sentir mais porreiros com as nomeações de Van Rompuy e Catherine Ashton para os novos lugares cimeiros da UE do Tratado de Lisboa, devem ser Durão Barroso e Ângela Merkel. Além de outras pequenas alegrias como as de Cavaco & Sócrates, ramais subsidiários das grandes alegrias de Merkel & Barroso. O director geral dos comissários europeus exulta porque, assim, não é apagado na sua irrelevância em estatura política, pela ascensão de outros políticos igualmente apagados mesmo que originários de países com maior peso no xadrez de Bruxelas. E com Blair, pese embora o nojo que tal pessoa política merece mais os respectivos juros, não seria assim porque Tony ia querer holofote e palco, assim como usaria a sua caneta pessoal para assinar os protocolos. Merkel comporá a sua face de bolacha imperial sorridente porque, continuando a somarem-se as mediocridades do topo burocrático-europeu, o seu papel de Sissi da Europa do Século XXI expande dimensão.
O Tratado de Lisboa vai nascer torto e fraco. Desde logo pelas artes no enxerto de nascença. Um tratado que germinou com monda dos cidadãos europeus como se estes fossem ervas daninhas que chateiam políticos e burocratas, assume-se não como uma identificação dos povos da Europa mas como um fruto anão colhido por feitores de circunstância e arrogância que se consideram legitimados pela distância representativa face aos cidadãos-eleitores. Depois, porque os eixos cruzados entre os grandes países, para sobreviverem, definiram perfis (cumpridos) de mediocridade política para as figuras de topo com a missão de falarem pela Europa, falando sempre baixinho, diminuídos que se sentem pelas respectivas estaturas políticas que não ultrapassam a vulgaridade chã de chefes de juntas regionais.
O problema é que a Europa até podia, se estivesse bem, servir de centro de estágio para políticos a pedirem treino, reciclagem e nome, mas não está. Pelo contrário. É uma Europa, desde logo, flagelada pelo desemprego. Com mais de 22 milhões de desempregados (5 milhões mais que o ano passado!) e que se prevê possa atingir o número assustador e obsceno de 33 milhões no final do próximo ano e tendo como arma romba de suporte para o combate a este flagelo laboral e social uma debilidade económica e financeira, em que o cenário optimista do crescimento modesto do PIB é inferior a 1,5% … em 2011. Com uma liderança fraca face ao carisma de Obama que é o maior trunfo da sobrevivência do grão poderio norte-americano, mas que está a resultar. E com a China em momento alto na sua talentosa busca de sucesso pelo protagonismo mundial. O que faz que, face aos grandes blocos, a Europa é quem fica mais fragilizada pela passagem do furacão da crise. Tendo de lidar, ainda, com desafios ciclópicos como são o suporte energético, o acosso migratório, a reconversão agrícola, a regulação financeira e o alargamento do espaço europeu a novos povos integrantes. A esta dimensão medonha dos problemas europeus, a qual impunha a procura de um novo paradigma político, parametrizado na solidariedade (dissemelhante do assistencialismo), no encurtamento das disparidades sociais, num novo perfil económico liberto das amarras do jogo financeiro, só protagonizável por grandes políticos, criativos e ousados, a gigantesca e surda avestruz europeia preferiu o tripé de latão Barroso-Van Rompuy-Ashton. Resta-nos a clarividência e o sucesso da Kaiser Merkel. Boa sorte, querida senhora. Por si, por nós.
Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
Manias de um avaliador porreiro

O primeiro-ministro, José Sócrates, saudou hoje a escolha das personalidades que ocuparão os novos cargos criados com o Tratado de Lisboa, considerando que o belga Herman Van Rompuy e a britânica Catherine Ashton estão "à altura" das novas tarefas.
O admirável poder da síntese

Afinal, para os saudosistas da doutrina brejnev, o Muro e o Gulag existiram, só que cheios de aspas

Muitas centenas de milhares de mortos (mais de 650 mil só no Iraque, segundo outro estudo publicado em 2006 na Lancet) são o fruto «da queda do Muro» no Golfo, na Jugoslávia, no Afeganistão, no Iraque, no Líbano, na Palestina, e agora no Paquistão – para não falar das agressões «menores». E foram acompanhadas pelo «Gulag» de prisões secretas dos EUA espalhadas por todo o mundo, no qual desaparecem milhares de pessoas raptadas e torturadas por um sistema de repressão acima de qualquer controlo. Os dirigentes do «mundo livre» que se juntaram, ufanos, em Berlim, são todos responsáveis por este banho de sangue e repressão.
Raul não, mas Obama sim

Um cão que seja dele, como ele

Escrito por Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:
Falta, evidentemente, o cão. Se Sócrates tem um cão, sugiro que o submeta a vigilância apertada. Parece óbvio que vai ser o bicho a protagonizar o próximo escândalo. Ninguém sabe se fez um desfalque nas latas de ração, se alçou a pata para uma árvore protegida, se foi visto a cheirar o rabo do Presidente. Mas alguma coisa terá feito. E a justiça há-de deixar no ar a ideia de que se trata de qualquer coisa grave, ideia à qual a comunicação social dará o eco devido. E, no final, o caso terá um desfecho terrivelmente inconclusivo.
Imagem: Um quadro de Paula Rego.
Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
Porreiro, Zé

A corrupção é como porcaria de cão que se nos agarra ás solas dos sapatos. Andamos, pisamos, já está. Ela anda aí como sempre esteve cá. E não se pense que é doença da democracia. O salazarismo-marcelismo segregou-a sempre nos cães velhos, sábios e protegidos, os avôs e os pais dos cachorros poluidores de agora. Tanto e tão eficazmente que se entranhou culturalmente num povo habituado mas desesperado com as carências e que, no entanto, se considera esperto e desenrascado. Se a corrupção gera desequilíbrios, por mor das escalas e contradições conexas, também normaliza e institui a idiossincrasia. Aliás, muita da parametrização da sobrevivência e da ascensão social neste país filiou-se na espiral da cunha, do pedido, do favor, do esticar do direito e da regalia, do abuso a ver se pega, da falcatrua, seja esta micro, pequena, média ou grande. O legionário barrigudo e boçal de antigamente urbanizava a prole pedindo empregos na cidade para os filhos ao padre ou ao regedor. Os já urbanizados por baixo pediam ao doutor ou ao engenheiro. Os urbanizados pelo meio pediam ao vizinho que conhecia a amante do chefe do gabinete do secretário de estado. Os urbanizados por cima e os latifundiários putanheiros, bêbados e ginastas da roleta, untavam mãos aos alfandegários, usavam o proteccionismo do fascismo isolacionista ou convidavam ministros para caçadas para lhes sacarem despachos favoráveis. Tudo se fazia mas nada acontecia nem se sabia porque os aparelhos policial e judicial tinham trela ligada à mão do ditador e o lápis azul da censura velava pelo pudor face à verdade podre do regime. A revolução foi um interlúdio que não nos descontinuou a cultura. Por falta de tempo ou de arte. Mário Soares, o patriarca da redemocratização, não só cortou as veleidades da solução bolchevique e mandou os militares políticos reformarem-se para que os outros voltassem aos quartéis como repôs a marcha da idiossincrasia portuguesa. Ele próprio teve sucesso e tornou-se popular por méritos de resistência e bonomia como igualmente devido ao seu laxismo típico. O lastro original do financiamento do PS levou-o a ser um permissivo no que tocava a golpadas de desenrancanços mesmo que gordos. A proverbial tolerância de Soares incluiu estender a manta protectora aos espertos para que a democracia portuguesa nunca fosse verdadeiramente alérgica ao desenrascanço tout court que, por dinâmica própria e porque a carne é fraca, leva à fraude e à corrupção. Os partidos do regime adaptaram-se. Os de direita, pelo cavaquismo, criaram as sinecuras pela alta, a bancária e empresarial. Manigância de gente fina por enriquecimento galopante. Os do PS andam na baixa e média, mas desejosos de subirem como os da direita, por um despacho permissivo, uns favores a sucateiros, envelopes e carrões, coisas assim, umas menores e outras maiores. Com ambos a distribuírem empregos pela máquina do Estado, gerindo inevitavelmente mal a contradição de não dar para os dois. Os do PCP fazem o nepotismo baixinho e lateral pelos cargos, empregos e assessorias nas suas coutadas, autarquias e sindicatos, onde chegam. Os do Bloco não dão provas por falta de meios, embora a experiência solitária de Salvaterra faça prever o pior caso cresçam em poder e mando. No meio de tudo isto, Sócrates é uma síntese. A da velha-nova idiossincrasia portuguesa, agora vestindo Armani e amante, tipo bimbo exclamativo, das novidades tecnológicas. É um típico político fura-vidas, provinciano fino como um alho, palavroso, não mostrando amor pelos escrúpulos, sem cultura nem estatura mas enérgico e optimista, o desenrascado sempre enrascado em trapalhadas e em fífias, o género de pessoa que não se deseja sequer cumprimentar. Bem que podia, para mais chamando-se José, surripiar a inspiração de Rafael Bordalo encadernando-se como novo e emblemático Zé Povinho. O que talvez o ajudasse a ganhar eleições para o resto da vida.
Na república dos comezinhos

Cá, no entanto, ninguém se incomoda, muito menos o dr. Soares. Porventura lembrado do fax de Macau e de outros miasmas do mesmo género, eis que o pai fundador do P.S. actual desqualifica com desdém uma questão que, enquanto figura moral e tutelar da jovem democracia lusa, deveria ser o primeiro a denunciar ou pelo menos a não desculpar com uma burrice supina que é o epíteto de comezinho. Como se estes malabarismos, estas omissões e inverdades, fossem pascigo habitual de quem se senta, ou sentou, à mesa do orçamento, de quem pediu e pede votos e poder aos paisanos, aos de a pié que somos todos nós.
Mais ainda do que a pouco sofisticada (para não dizer imbecil) distinção entre oficial e oficioso, com tudo o que ela encobre de recurso a patranha de quinta categoria, dói-me o desprezo por nós todos. Como se eles dissessem e, pior, pensassem: para quem é bacalhau basta. Toma lá e cala-te!
Terça-feira, 17 de Novembro de 2009
Deve-lhe ter sabido a pouco

Mariano Gago, ele que no seu tempo de estudante universitário foi um duro e combativo dirigente maoísta, confrontado com a revolta estudantil do ensino superior de hoje em Lisboa e que metia capas, batinas, chapéus tricórnios e tunas, deve ter pensado para os seus botões: - são assim tão mansos e encadernados os filhos da burguesia de agora?
Mais uma que veio enganada para o governo, atrás das loas prometidas e optimistas de Sócrates?

Só não se entende é como a senhora participou recentemente na redacção e defesa do programa do governo. O cenário de que partiu enquadrava a vida social em Marte?
Esquerda baixa

Quando assisto a Sócrates, Vieira da Silva e Teixeira dos Santos metidos em esgares de satisfação por umas décimas acima no PIB lá por baixo, constatando isto, compreendo que estas pessoas ou nunca foram socialistas ou nunca o chegarão a ser. Quando muito, só sabem disfarçar, pois, caso contrário, nunca diriam que a economia está a melhorar com o desemprego sempre a subir.